Entrevista com o Reitor da Universidade de Lisboa

«Não haverá Bolonha sem universidades mais coesas e mais competitivas na Europa!»

António Sampaio da Nóvoa é o novo reitor da Universidade de Lisboa desde o dia 23 de Maio de 2006. No seu discurso de tomada de posse e na presença de outros reitores e de vários presidentes de institutos politécnicos, fez questão de sublinhar o seguinte: «Bolonha precisa de trazer um reforço da investigação, uma maior proximidade dos estudantes à cultura e à ciência, ao trabalho experimental, aos laboratórios e às bibliotecas. E precisa, também, de trazer uma formação humanista e científica de base no quadro de uma diversidade de percursos, de natureza académica ou profissionalizante».


Numa altura em que as universidades (públicas e privadas) portuguesas e dos institutos politécnicos já reformularam os seus planos de estudo ao abrigo da Convenção de Bolonha, António Nóvoa não tem dúvidas em afirmar que «não haverá Bolonha sem um reforço da autonomia das instituições e das diferentes modalidades de avaliação».

E.S – Afinal quais são os verdadeiros problemas do processo de Bolonha para o ensino superior português?
ANTÓNIO SAMPAIO NÓVOA -Bolonha vai trazer uma série importante de problemas e de dificuldades que nós temos de ser capazes de virar a nosso favor. Estamos perante um conjunto de problemas e nós temos que saber aproveitá-los de forma positiva. No que diz respeito à Universidade de Lisboa vamos ter a possibilidade de reduzir o percurso escolar dos estudantes que era excessivamente longo. Tínhamos licenciaturas de quatro ou cinco anos, mais dois ou três anos para mestrados e mais quatro ou cinco anos para doutoramento.
Isso era terrível. Vamos ter que alterar este panorama.

E.S – Quais vão ser as modificações na Universidade de Lisboa?
A.S.N - Creio que as reduções dos cursos são desejáveis e devemos apostar numa formação universitária contínua, permanente e que se continua ao longo da vida. Nós vamos ter de conceber a formação universitária como um primeiro patamar do conhecimento, mas que depois poderá trazer outras áreas específicas de formação.

E.S – A mobilidade dos estudantes e docentes também é muito importante?
A.S.N -Outro aspecto que também vai ser positivo é acentuar dinâmicas de formação mais generalista nos primeiros ciclos e de maior mobilidade inter ciências, inter disciplinas e inter profissões no segundo ciclo de Bolonha. Isto é a possibilidade de ter formações no primeiro ciclo que depois têm continuidade através do segundo ciclo noutras áreas disciplinares, rompendo um pouco com uma especialização vertical que existia muito em Portugal. Eu acredito que estes dois efeitos serão num curto prazo de tempo aqueles que mais se vão fazer sentir. Também devo salientar que com Bolonha iremos assistir a uma maior mobilidade dos estudantes e de docentes. Isso é muito importante.

E.S – Todas as faculdades que pertencem à Universidade de Lisboa estavam preparadas para enfrentar as reformas de Bolonha?
A.S.N - É legítimo afirmar que havia uma preparação das faculdades nesse sentido, isto é, as reformas de Bolonha vinham a ser discutidas à imenso tempo.
Nos últimos anos tivemos a preocupação de realizar ciclos de conferências e debates que serviram para preparar as pessoas para todas estas alterações.
A comissão do Senado discutiu as reformas do processo de Bolonha muitas vezes. Recordo-me que na qualidade de vice-reitor as pessoas até se queixavam de estar sempre a discutir Bolonha. Mas também não deixa de ser verdade que na fase final da preparação dos processos que foram entregues no ministério, houve algumas perturbações. Penso que deveríamos ter mais tempo para trabalhar os processos.

E.S – Existe um lugar específico para o Ensino Politécnico em Portugal ou não?
A.S.N -
Eu tenho uma visão do ensino politécnico que é partilhada por poucas pessoas.
Creio que o ensino superior em Portugal nos últimos 25 anos teve dois problemas (entre muitos outros!) que são possíveis de identificar com algum rigor e que neste momento se estão a refletir profundamente. Primeiro foiconcebida a rede de instituições de ensino politécnico na década de 70 princípios da 80, onde o papel do professor Marçal Grilo (e outras pessoas ligadas ao ensino!) foi muito importante. Na minha opinião, a concepção dessa rede de ensino politécnico foi errada e que nós estamos a pagar hoje e pagaremos ainda durante alguns tempos. O que não quer dizer que algumas instituições de ensino politécnico não tenham tido um papel muito importante. Algumas dessas instituições tiveram um papel essencial no desenvolvimento de algumas regiões. Em 2006 chegou a altura de repensar esta dicotomia que existe entre o ensino superior politécnico e as universidades.
Nós na Universidade de Lisboa estamos a proceder a essa avaliação.

E.S – E qual foi o segundo problema?
A.S.N -
O segundo problema do ensino superior em Portugal nos últimos 25 anos foi a forma como se deixaram crescer sem qualquer critério científico e académico, instituições de ensino superior politécnico e universitárias um pouco por todo o país. E isso também tem nomes. Nós sabemos que foi a partir dos finais da década de 80, no ministério de Roberto Carneiro, foi prosseguido por Pedro Lynce como director geral do Ensino Superior e até por Marçal Grilo como ministro da Educação na década de 90. Chegaram a haver propostas de criação de estabelecimentos de ensino superior em alguns concelhos que não tinham escolas secundárias.
Ou seja, em regiões que nem sequer tinham alunos para possuírem escolas secundárias.

E.S – No seu entender criaram-se estabelecimentos de ensino superior em excesso?
A.S.N - A maneira como foi criada a rede de estabelecimentos de ensino politécnico em Portugal e a forma como se expandiram pelo nosso país acabaram por se transformar num enorme problema. Agora, temos que enfrentar estes problemas com grande coragem mas com ousadia também. Penso que a Universidade de Lisboa está bem consciente destas contrariedades e tudo fará para as ultrapassar.

E.S – A que se deve a falta de alunos no Ensino Superior?
A.S.N - Não há falta de alunos em Portugal.
O que existe é um excesso de cursos e de instituições de ensino superior no nosso país. Se me perguntar se existem cursos na Universidade de Lisboa que vão ter que encerrar eu digo-lhe que sim, mas isto não é tanto pela falta de alunos mas sim pelo excesso de oferta. Ora como se sabe, essa situação começa a ser insustentável. Mas não se pense que é só em Portugal. Isso será insustentável em qualquer país do mundo.
Criaram-se instituições universitárias no nosso país sem respeitar os critérios mínimos exigidos para isso.

E.S – Quantos cursos existem na Universidade de Lisboa?
A.S.N -
A Universidade de Lisboa foi sempre muito contida no que diz respeito a esta matéria. Sendo uma das maiores do país não tem mais de 40 cursos. Nós somos provavelmente no país inteiro, aquela que tem menos cursos.
Grande parte das nossas faculdades tem apenas um curso, como é o caso das faculdades de direito e de medicina.
Isto põe-nos numa situação de maior conforto, numa altura em que começa a sentir-se a crise.

E.S – Quais são os grandes projectos para o seu mandato?
A.S.N - O meu mandato circunscreve-se em torno de dois grandes projectos estratégicos e dois grandes instrumentos para os poder concretizar. O primeiro diz respeito à investigação científica na Universidade de Lisboa e aí iremos dar uma centralidade que nem sempre ela teve. Vamos assumir claramente que a investigação, a ciência e a tecnologia são componentes essenciais e a primeira referência do trabalho universitário. A situação que temos vivido até aqui, onde a investigação científica nem sempre é assumida como uma referência fundamental na universidade tem que terminar.
Nós queremos articular de forma coordenada e competitiva no espaço europeu, o que são os nossos laboratórios associados, os nossos centros de investigação e os nossos laboratórios.
Queremos apostar seriamente na investigação organizada e em equipa.

E.S -Para além da investigação científica o que ambiciona mais?
A.S.N - Queremos afirmar-nos como uma universidade de referência em algumas áreas do saber. Somos a única universidade portuguesa que aparece no ranking de Xangai e uma das mais cotadas do mundo, mas isso não nos satisfaz plenamente. Queremos afirmar-nos como uma das melhores universidades da União Europeia.

E.S – Não acha que está a ser demasiado ambicioso?
A.S.N – Penso que não. Estou apenas a ser realista. A Universidade de Lisboa tem todas as condições técnicas e humanas para figurar no ranking das universidades de excelência a nível internacional.

E.S – A nível estrutural também vão ocorrer algumas reformas na Universidade de Lisboa?
A.S.N -
A segunda grande aposta passa pela refundação estrutural da Universidade de Lisboa. Isto é, queremos fundir numa mesma instituição as escolas do Instituto Politécnico de Lisboa e da Enfermagem com as faculdades da Universidade.
Ou seja, as oito escolas do Instituto politécnico e as quatro escolas de Enfermagem fazerem parte da Universidade de Lisboa é uma ambição que nós temos para a reconfiguração institucional.

E.S – E acredita mesmo que vai conseguir concretizar as suas ambições?
A.S.N -
Para que estas duas ambições possam ser realistas e concretizadas eu tenho dois instrumentos que são muito importantes: coesão interna da universidade e que passa pela modernização tecnológica, racionalização ao nível da gestão académica; credibilidade externa que passa por mecanismos fortes ao nível da qualidade e pela nomeação de um conselho consultivo que já foi aprovado pelo senado.
Também ficaremos atentos ao percurso académico dos próprios alunos e para isso criamos um observatório. No fundo o que pretendemos é prestar contas à sociedade onde estamos inseridos.

 

Curriculum Vitae Resumido


António Sampaio da Nóvoa antes de ser eleito reitor foi vice-reitor da universidade de Lisboa e professor catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, onde exerceu as funções de presidente do Conselho Científico (1999 2001).

Também foi consultor para a educação do Presidente da República, entre 1996 e 1999, recebendo em 2005 a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.

Iniciou a sua carreira universitária em 1982, na Universidade de Genéve. Integra a Universidade de Lisboa desde 1986-1987.

Inicialmente foi contratado como Professor Auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em 1987, foi nomeado Professor Associado, em 1990, e Professor Catedrático, em 1996, na sequência de concursos públicos.

Historiador de educação, António Nóvoa tem formação em Pedagogia (Ciências da educação) e em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Genéve e na Universidade de Paris IV Sorbonne.

Doutorou-se na Universidade de Genève, em 1986, na área das Ciências da educação, com uma tese sobre a história do processso de profissionalização da actividade docente (séculos XVIII a XX), tendo obtido a classificação máxima. Em 1994, foi aprovado por unanimidade em provas de agregação na Universidade de Lisboa.

O actual reitor da Universidade de Lisboa tem uma larga experiência internacional, em universidades europeias e americanas.

Para além de inúmeras colaborações regulares nos programas de doutoramento de prestigiadas universidades estrangeiras (Barcelona, Genève, Montreal, São Paulo…), foi Professor Convidado, durante um ano, da University of Wisconsin Madison (1993/1994) e da Columbia University New York (2002). Em 1995, foi Investigador Visitante, durante um semestre, do INRP/Université de Paris V e, em 2001, da University of Oxford.

Para além de 34 teses de mestrado, foi orientador (ou co-orientador) de 17 teses de doutoramento, já concluídas: Universidade de Lisboa (9), Universidade do Porto (1), Universidade do Minho (1), Universidade de Aveiro (1), Universidade Técnica de Lisboa (1), Universidade de São Paulo (3) e Universidade Federal da Baía (1). Desde 1986 que António Sampaio da Nóvoa faz parte de júris de provas académicas (mestrado, doutoramento e agregação) em quase todas as universidades portuguesas, bem como em universidades brasileiras, canadianas, espanholas, francesas, norte-americanas e suíças.

É membro do Conselho editorial de várias revistas científicas nacionais e internacionais e a sua bibliografia científica é constituída por cerca de 150 títulos (artigos, livros e capítulos), mais de metade publicados no estrangeiro.

António Sampaio da Nóvoa é responsável, juntamente com Martin Lawn, por uma colecção intitulada “Comparative Histories of Education”, publicada pela Symposium Books (Oxford). Colaborou na Nova História de Portugal (direcção de Joel serrão e A. H. Oliveira Marques), no Dicionário de História do Estado Novo (coordenação de Fernando Rosas), no Dicionário de História de Portugal (coordenação de António Barreto e Maria Filomena Mónica) e na International Encyclopaedia of the Social and Behavioral Sciences (editada pela Elsevier, sob a direcção de N.J. Smelser e P.B. Baltes).

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