Que se cale quem está bem, quem tem medo ou quem desistiu

Paulo Peixoto
paulo.paixoto@snesup.pt

 

"Na primeira noite eles aproximam-se
e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”

Vladimir Maiakóvski, Despertar é preciso

 

Não se via há mais de 15 anos, quando um vasto movimento exigiu e conseguiu melhores condições para o ensino superior. Mas é hoje mais do que evidente. No universo do ensino superior e da investigação científica há um amplo e transversal movimento de repúdio pelas decisões e pelas políticas governamentais que infligem um ataque sem precedentes ao setor.

Recentemente, multiplicaram-se na imprensa os artigos pungentes de académicos e de cientistas em protesto contra cortes orçamentais; contra a descoincidência entre uma retórica governamental transbordante e uma prática que mirra carreiras e instituições; contra, resumindo, a inversão de uma tendência que nos colocava no caminho desejado. Professores e cientistas saíram à rua e as gerações que, apoiadas numa bolsa ou num contrato precário, têm ensinado e pesquisado espreitando por uma janela onde um dia pensavam entrar veem essa janela fechar-se ao arrepio da transparência e do respeito pelos regulamentos. A ciência tornou-se uma miragem. O ensino superior uma incógnita.

Há ainda quem, estranhamente, continue calado. Muitos terão, suponho, desistido. Outros, tomados pelo medo, acomodados nos pequenos nichos que lhes sobram, ou extenuados pelo esforço necessário para conseguir os restos que a retórica instalada denomina “excelência”, aguarda-os a condição de nada poderem dizer por nada terem dito quando tinham voz na garganta.

Os que estrabucham e que não deixam que lhes roubem a voz da garganta mostram-nos duas coisas óbvias.

Uma é que os docentes e investigadores do ensino superior se arredam e se alheiam excessivamente das lutas e dos desafios diários que determinam as condições de autonomia e de liberdade que enquadram o exercício das profissões académicas e científicas. Soltar a voz da garganta apenas nas alturas de maior aperto não é a melhor estratégia para defender um setor vital do nosso desenvolvimento.

A outra é que pior que a situação de crise, que todos temos de enfrentar - como nos diz Paulo Ferreira da Cunha neste número da Ensino Superior – “uma das formas de matar o pensamento e o labor autónomos é não lhes dar condições para se desenvolverem. [Pois] se só trabalharmos para a burocracia, não criamos, não inventamos, não pesquisamos.” Se a excelência nos é hoje vendida sob a forma de preenchimento de sucessivos formulários relativos a processos que prometeram premiar o mérito e que hoje estão a contribuir para aniquilar o trabalho intelectual é porque “o psitacista, meramente ambicioso, sem ideias, precisa de meios de bloquear quem as tem, neutralizando quem gosta do que faz e é criativo. [E a única solução que parece encontrar é] fazer com que o trabalho se desvie do seu fim. [Afinal] quem pouco vale está como peixe na água no supérfluo, e neutraliza quem vale.”

Por isso, quem nada disser agora que se cale para sempre.

Nota: Quando no último número dávamos conta da supressão de um número da revista devido à realização de eleições para os órgãos nacionais do SNESup, não era nossa intenção prolongar tanto, como acabou por acontecer, a ausência da Ensino Superior. Assumindo a responsabilidade por essa ausência prolongada, endereço as desculpas aos leitores da revista.

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