Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

X. Utopias Pedagógicas

Fala-vos um Bule moderado. O diálogo que vamos ouvir agora feriu as minhas orelhas sensíveis e modernas e ferirá certamente as vossas. Esta não é uma discussão política nem educativamente correta. Eu (e também o autor destas linhas, que me pediu para o declarar em seu nome) solenemente nos demarca- mos das posições aqui veiculadas. Somos do nosso tempo, que diabo! Aí vai a conversa:

— Voltando atrás. Pois eu começaria por encaminhar as pessoas para os cursos que mais lhes convêm, para que têm vocação. Se quisessem correr o risco da Universidade (e até do Liceu), seria por sua conta. O “chumbo” lá estaria à espreita, caso o merecessem. Sem complexos, que diabo! Já reparaste que a reprovação passou hoje a ser estigma para o professor, e não para o aluno? Sempre um colega fundamentalista, um coordenador disto ou daquilo de ar inquisidor, e obviamente mil estudantes descontentes (ou por solidariedade de ouvir dizer) lá estarão todos para o acusar de má pedagogia... E crucificá-lo.

— Que fundamentalista me saíste tu! Lembro-me, é verdade, que António Sérgio, o grande pedagogo, era muito seletivo e não ia nessa ideia da doutorice a pataco... Mas não será obrigar cedo demais as crianças a escolher? Não será condená-las socialmente pela sua origem, à partida?

— Tu és por acaso de uma família rica? E escolheste cedo demais?

— Eu não creio ser exemplo para ninguém. E no meu tempo havia bolsas... Agora é o salve-se quem puder. Tenho alunos que desistem dos cursos por falta de dinheiro... — mas o outro não o ouviu nestes argumentos, e continuou na sua linha:

— Consideras-te um mau Professor?

— Já te disse: seria melhor marinheiro. Mas Guilherme sorriu-se, e continuou:

— Eu não escolhi ser professor. Isso veio naturalmente, ou quase. Não se escolhe ser professor universitário aos dez anos.

— Tu próprio falaste de brincadeiras...

— Brincadeiras, como as das batalhas navais do Miguel.

— Bem. O que eu quero dizer é que muito cedo se compreende se alguém tem queda para o desenho, para as matemáticas, para as letras, para a lavoura, ou para as artes oficinais. E também é fácil de ver, em princípio, que nível se atingirá em cada um desses campos. E não me venham com vocações “de classe”.  O rei D. José não preferia o torno ao trono?

— Não te entendo. Está nos genes?

— Não digo que fique tudo esclarecido à partida, claro, mas é um começo. Não sei de melhor método senão o de sondar precocemente as vocações e as capacidades. Já viste o desperdício de mandar para Medicina quem desmaiar à vista do sangue só por uma questão de snobismo ou ganância? — agora era um argumento inesperado, jogando do outro lado do tabuleiro da conversa...

— Não sei se muitos médicos do futuro terão de ver sangue. Podem ser magníficos a digitar sintomas num computador, ou a analisar os seus gráficos.

— Isso serão engenheiros de medicina, ou informédicos. Quero um médico a sério, bata branca e mãos para o perigo e o sangue.

— Muito tradicional. Embora quanto à bata branca eu vote a favor. É muito mais asseado.

— Olha, tudo é muito simples: chegado à escola primária já com enquadramento familiar e mediático (palavra horrorosa) formativo, o aluno cursará o básico: ler, escrever, contar e operações e problemas simples e práticos, música, desenho, utilização de computador (talvez nem seja preciso, hoje nasce-se ensinado nisso...), história, geografia, ciências naturais e físicas elementares e um pouco de filosofia, além de duas línguas vivas importantes na área cultural do seu país (uma é pouco, é empobrecedor). E, evidentemente, a língua materna e sua literatura. Este ensino durará cinco a seis anos.

— Juntas a primária com o velho ciclo preparatório?

— Mais ou menos. Mas para melhor. A velha primária, sólida e enciclopédica, e um resumo preparatório do velho secundário. Este ciclo básico já deve poder dar emprego por si. — dito isto, o outro in- quietou-se... Mas o utopista prosseguiu, imperturbável:

— Não são nada os ventos que sopram, eu sei. Mas o que se está é a adiar o desemprego: não se dá melhor formação. Adiante. Eu falo de uma sociedade ideal, não da conjuntura do mercado de trabalho ocidental, a ditar as leis da educação...

— Entendi. Mas olha que, apesar de tudo, se se pudesse dar uma formação mais vasta a todos, não se perderia nada... “O saber não ocupa lugar”...

— Também até concordo — e era uma concessão de monta, essa — Mas estou a raciocinar com recursos escassos... E a tentar potenciar esses mesmos recursos. Sei bem que nada disto é para ser aplicado. Prefere-se esbanjar com folies bergères pedagógicas e sobretudo burocráticas... Como sabes, a expressão não é minha.

— Mas prossegue, por favor, nessa tua lógica minimalista...

— Depois deste primeiro ciclo, o caminho será ou o Liceu, seis anos, ou as escolas técnicas, quatro ou cinco anos. Finalmente, mas só para os melhores, a Universidade. Com a possibilidade de trânsito das escolas técnicas para o Liceu (e vice-versa), mediante a frequência adicional de algumas cadeiras, dependendo dos cursos. Isto para emendar enganos, ou para vocações mais tardias. Mas evitando o mais possível o calvário de se ter de voltar ao princípio.

— A tua proposta é do mais clássico possível. É mesmo reacionária.

— É muito revolucionária! Olha, por exemplo: o Liceu habilitaria imediatamente para todas as carreiras burocráticas de nível médio, que hoje são exercidas cada vez mais por licenciados, e muitas vezes sem efetiva preparação. E creio que nenhuma vocação séria. A doutorice mata. Sabes que este truque de fingir que se requerem mais habilitações (cada vez mais habilitações) nada tem a ver com melhorar o nível; pelo contrário. Pretende-se é adiar a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Tenho que insistir nesse ponto. E isso tem outro preço: o da infantilização geral da sociedade. Uma sociedade de estudantes até muito tarde não é madura. Ando tudo agarrado por aí às saias das mães... Não é uma “geração rasca”, é uma geração perdida... E não num sentido romântico...

— Como és cruel... Que te fizeram eles? São bem simpáticos, os jovens de hoje...

— “Só simpatia não chega”. É preciso Gente! Mas olha o plano — os utopistas veem sempre o seu plano acima de tudo

— No Liceu, no ciclo geral (os primeiros três a quatro anos) daria Matemática, Língua Materna e Filosofia para toda a gente. Além de mais uma língua viva. Acabaria com a infinidade de opções, e procuraria concentrar o número de professores, aumentando um pouco a carga letiva por disciplina (mas não o tempo de duração das aulas: mais de 50 minutos antes da universidade em cadeiras teóricas é um massacre), e permitindo (excecionalmente) aos docentes mais versáteis e sabedores que acumulassem algumas disciplinas na mesma turma. Assim se evitaria a despersonalização da relação professor-aluno, permitindo um contacto mais permanente. Mas com cuidado, porque não pode haver excessiva polivalência a partir de certo nível. E também introduziria novas disciplinas obrigatórias.

— Como assim?

— No ciclo complementar do Liceu obrigaria todos os alunos a cursarem Ética, Lógica (em alternativa, Matemática ou Latim), Economia e Direito, além de que continuariam com a Língua Materna obrigatória, evidentemente.

— E não haveria divisão por alíneas ou áreas?

— Sem dúvida. Isso é desejável. O resto da receita é muito simples. O fundamental é ter bons professores, não é tanto a arrumação dos cursos. Hoje, o nível é baixíssimo, privilegia-se nos programas a quantidade em vez da qualidade, e a avaliação não é seletiva. À parte um punhado de loucos com vocação, e de algumas senhoras com maridos ricos, quem é que se sujeita às condições degradantes, ao espezinhamento por alunos e pais, à militarização pelo Estado ou seus sucedâneos, aos salários de miséria, sempre sucessivamente cortados, senão os menos preparados e os que não podem aspirar a muito?

— Queres tu dizer então que o professorado está ao nível do baixo clero de outrora. É uma promoção para quem não pode subir mais, e mesmo assim uma posição de descontentamento permanente... Curioso, mas perigoso...

— Eu diria que se está exatamente como na situação do clero em geral nos tempos medievais. Há um imenso grupo de párias, e alguns grandes senhores, muito poucos. Porque sempre existem grandes senhores: os que mandam, os que usufruem das regalias...

— E os esses horários, então, como ficariam? Vamos lá a coisas concretas.

— Reduziria o horário dos professores não universitários para um máximo de doze horas letivas por semana (mas sem sobrecarga burocrática em compensação: o que seria ir de mal a pior). Mais do que isso, só por ingente necessidade alimentar. Ninguém é capaz de dar mais aulas dignamente por muito tempo. Ser professor, tu sabe-lo bem, é uma profissão de desgaste rápido.

— E hoje está também a tornar-se numa profissão de alto risco. Há cada vez mais agressões verbais e físicas a professores, para não falar da insubordinação e da geral falta de educação — são conversas correntes dos professores... São mesmo fantasmas que os não deixam dormir: literalmente.

— Podes crer. Sobretudo no básico e secundário. Mas então olha: 12 horas para os professores do Liceu, não mais de 6 para os universitários — 4 seria o ideal (há quem o diga, e com autoridade). Para os alunos, bastam 20 horas em todos os graus de ensino, salvo raras exceções.

— Percebo agora porque queres diminuir o número de disciplinas.

— Não faz sentido multiplicar as matérias e os professores, obrigando todos a uma escravatura de horário. Estudar exige tempo livre. Para os laboratórios, para as bibliotecas. E também para o desporto, por exemplo. E sobretudo para o ócio indiferenciado. Para a meditação, a contemplação, a vida...

— Então como seria um horário-tipo de um primeiro e de um último ano do Liceu? Pergunto-te isto porque presumo que nos cursos técnicos, se aprendem ofícios.

— Nos cursos técnicos aprendem-se ofícios, mas haverá sempre uma disciplina de Língua e Literatura maternas, três anos de língua viva estrangeira, e ainda uma cadeira que poderia chamar-se qualquer coisa como Cultura e Filosofia, em que se aprofundariam os rudimentos de História e Geografia, além de um elementar treino especulativo e uma introdução às principais correntes e temas do Pensamento.

— Não é demais? Não estás a brincar aos filósofos por toda a parte?

— Não quero que os técnicos sejam tecnocratas. Mesmo eles têm de compreender um mínimo das coisas essenciais. Um técnico sem humanidades é normalmente um ser desumano.

— Presumo que não requeres o equivalente no Liceu...

— Enganas-te. Dou a maior importância às Artes Plásticas, como é natural, ao Desporto e à Música, que são o equivalente culto dos ofícios mais práticos.

— Mas nada de eletricidades, artes oficinais, etc..

— Isso no Liceu sempre esteve a mais. Afora a eletricidade ou a mecânica da Física, é claro. Mas evidentemente que a pedagogia do fazer aí estará também. Nessa matéria, o meu mestre é Alain, que aliás citava Napoleão: Geometria, Latim. E prática.

Permitir-se-ia a todos a frequência de mais duas cadeiras por ano, caso mostrassem interesse e bom aproveitamento no ano anterior. E, obviamente, cada disciplina tem de ser pre- lecionada por um professor da especialidade. Nada de infantilizações com professores pretensos         tutores,               que acabariam por não saber nada de nada, sendo obrigados ao bluff de fingir saber tudo. Para isso, já bastam os professores do ensino básico, de entre os quais só raríssimos são capazes de mostrar tanto conhecimento e tanto entusiasmo pelo Português como pela Matemática, pela História como pela Biologia...

— Quanto à necessária especialização dos professores, não posso estar mais de acordo. Vislumbro até economicismo com fito de poupar dinheiros nessas junções contranatura de matérias a ser abarcadas pelos docentes. Mas precisamente fico preocupado com a falta de algumas especialidades no plano: que fica da Sociologia, da Antropologia, da Administração Pública, da Saúde, do Jornalismo, e sei lá de que mais?

— São matérias muito específicas, que durante o Liceu sobejam. Ficariam para as tais eventuais duas cadeiras optativas. Outras vezes, o seu conteúdo já se sobrepunha ao de algumas das cadeiras tradicionais. Mesmo na Universidade, os alunos se queixam frequentemente de que, em Ciências Sociais e Humanas, repetirem sempre as mesmas coisas. Não. Temos que economizar. Interessa uma mente bem feita, não muito cheia, ou aparentemente muito recheada...

— Mas tu, entretanto, crias Ética e Lógica e tornas obrigatória a Economia e o Direito. Não será isso um exagero de etnocentrismo epistemológico?

— Posso explicar muito bem. Sabes que a minha formação é artística, e como arquiteto podia ter escolhido, sei lá... Projeto, ou pelo menos Desenho Geométrico para toda a gente. Isso uma razão muito simples: dotar as pessoas de instrumentos básicos.

— São três disciplinas de Letras, e duas delas são ramos da Filosofia. Não vejo...

— Observarás que a Lógica é alternativa à Matemática e ao Latim. Com essa disciplina quer-se cultivar nos estudantes a dureza do rigor, evitar as “bocas”. Ou se sabe ou não se sabe. Interessa mais a disciplina do que o conteúdo. Não coloquei a Música porque receio a tradição: acabaria — digo-o com mágoa — por tornar-se num canto coral anárquico em sem o valor metódico e formativo que tem, quando dada a quem a queira receber. Interessa-me, insisto, a ordem.

— E por isso também a maçadoria for- malista do Direito? E o esoterismo da Economia?

— Não. Pelo contrário. O Direito está aí como escola de liberdade. É preciso que os cidadãos conheçam os seus direitos. Saibam a lei em que se vive. Pergunto-me mesmo se o Direito não deveria ser ensinado antes. De todo o modo, também prevejo o seu ensino nas escolas técnicas. É inconcebível a nossa ignorância sobre as regras que nos podem levar à desonra, à ruína, à cadeia, e até à morte. Quanto à Economia, que achas esotérica, é precisamente para que assim não pensem os futuros cidadãos. Bertrand Russel já o tinha visto: enganam-nos demasiado porque não sabemos Economia e Finanças… E seria, evidentemente, Economia Política abrangente, ensinando todas as doutrinas, e não uma Economics ideológica, como um grupo de professores acaba de denunciar, no Guardian...

— Escola de cidadania, pois. Está bem. E a Ética vai nesse sentido também.

— Vai. Mas também me pareceu ser o ramo da Filosofia mais prático, capaz de dizer mais às pessoas, que já cursaram, aliás, rudimentos de Filosofia geral. É uma continuação desta (que teve de ser anteriormente um tanto histórica) através da problemática. E de uma problemática interpelante. Poderá também fazer de contraponto com o Direito, se os alunos tiverem a desdita de apanhar um professor positivista nessa cadeira. Repara: tudo depende dos professores e da sua formação.

— Pois. Professores para a tua reforma é que vai ser difícil encontrar. Além de me parecer que vais pôr no desemprego uns tantos.

— Há sempre a reciclagem para os recicláveis. E os maus, mais vale reformá-los com reforma por inteiro para não aborrecerem. E até podem condecorá-los.

— Pelo ato heroico de se terem retirado.

Muito bem. Presumo que tens também de me condecorar, porque se faz tarde, e amanhã bem cedinho tenho uma aula.

— Bom, então boa sorte.

— Bem preciso. Uma aula é sempre uma aventura. Estou a brincar. As aulas são a única coisa bonita da Universidade. E infelizmente são, nela, uma gota no oceano.

 

Era já muito tarde. Despediu-se do amigo com um abraço forte, e vestiu pesadamente o grosso capote. Enquanto do automóvel saudava o outro com um aceno sorridente, ligou a rádio. Era o Affetuoso do Quinto Concerto Brandeburguês de Bach. Pudera! Tinha sempre a telefonia no canal cultural, enquanto o não privatizassem e acabasse a cultura!

E o seu interlocutor, a quem ainda fervia no palato a velhíssima aguardente de frutos silvestres, achou que tudo aquilo era muito, muito bom. Não a polémica educativa, claro: o serão amigável. Esse sim, encheu-lhe as medidas... O conteúdo de pouco monta, a amizade, essa é que é importante

— Ora ainda bem que há intelectuais que dialogam, e que prezam a amizade

— agora digo eu, bule de chá diplomado, e antes de Bolonha.

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