A Noção de profundidade do campo de batalha - Um conceito interessante do campo militar para a administração pública e a vida

Fernando de Almada
Professor Associado
Felizmente aposentado*

UMA TESE

Neste trabalho defendemos uma tese sobre o confronto: superficialidade versus profundidade, a importância da com- preensão destas noções e as implicações que têm no ‘quem somos’.

Os conceitos superficialidade e profundidade dependem das variáveis:

1 - extensão do campo apreciado; 2 - do pormenor considerado; 3 - do tempo de referência ponderado.

Se o campo apreciado for reduzido (na extensão, na profundidade, no tempo ponderado) só conseguimos ter uma perspetiva superficial das interações que permanentemente se estabelecem e das dialéticas que estão na origem dos fenómenos. Naturalmente superficial e profundo são conceitos relativos a um quadro de referência. A escolha do quadro que cada um de nós considera em cada situação, desejavelmente de uma forma coerente, não é aleatória ou indiferente, pois os instrumentos (materiais ou concetuais) que conseguimos utilizar determinam os resultados obtidos e… a nossa vida.

Um exemplo típico de superficialidade resulta de uma compreensão suportada em aspetos pontuais (acontecimentos), por oposição a uma perspetiva que abarque um sentido evolutivo (processo). Num acontecimento, por mais pormenorizado que seja o tratamento feito (por vezes mesmo em consequência da preocupação posta nesta pormenorização) faltam-nos sempre dimensões que nos permitam a compreensão das dialéticas que são causas e consequências, simultaneamente. Desta opção resultar, normalmente, um enfoque no rigor e na precisão, mas com a ignorância da vertente objetividade, o que impede constantemente uma aproximação direta válida ao real. Num processo, a menos que sejam cometidos erros metodológicos, ou outros, somos empurrados para acompanhar a articulação dos diferentes aspetos a considerar, num encadear de apreciações que, frequentemente, nos levam, por realismo, a sujeitar o rigor e a precisão aos limites definidos pela objetividade (1).

A superficialidade está na origem de muito do imediatismo que marca as nossas vidas e instituições. Não se percebendo sequer a existência de consequências a médio/longo prazo, pois focados nos acontecimentos tudo parece uma mera continuidade de inocuidades sem consequências profundas, porque nos haveremos de preocupar com amanhãs que logo veremos e “iremos desenrascar”(o vernáculo, por vezes, é a expressão própria) . O problema de que nos queixamos tanto em Portugal não está na falha das organizações (esta é uma consequência, não a causa de origem), mas na superficialidade com que vemos tudo.

Adriano Moreira bem se pode esfalfar a defender a necessidade de uma estratégia nacional e a sua importância para o desenvolvimento do país, numa ação que até faria empalidecer de desespero o próprio S. António que conseguia pregar aos peixes.

Enquanto as pessoas não aprenderem que há uma articulação entre os diferentes aspetos da vida (das vidas), como os átomos que se influenciam mutuamente para constituir a matéria que vemos, uma estratégia nacional só pode resultar de uma imposição de quem tiver muita força (deixando, portanto, de ser uma estratégia nacional, por não haver uma interiorização pela nação – isto tem influência nos mais variados campos, como abaixo defenderemos, inclusive na elaboração da lei constitucional em vigor). Uma articulação que constitui a cultura (pois cultura é esta capacidade de relacionar e articular, não “ir ao museu”, “ao teatro”, falar sobre uns quadros, músicas ou livros que alguns consideram “clássicos”, papagueando datas e acontecimentos, tal como aprendemos a fazer na escola – que dizem educa e dá cultura… - aos pacotinhos, claro).

Perde-se, assim, no meio de toda esta superficialidade, a visão e a coragem para deixar o imediatismo e pensar em profundidade. E se possível sem deixar de ter a capacidade de improvisar, mas gerando processos que, pela continuidade que oferecem (por oposição à girândola de um acontecimento conseguido), permitem a existência de um desenvolvimento sustentado que exige um processo (processo pois!) onde os lucros obtidos (sobretudo em capitais não perecíveis e acumuláveis, como conhecimento, cultura, sabedoria) constituem capital no passo seguinte, de onde resulta um aumento exponencial de riqueza. Sem esta continuidade (que, saliente-se, não impede que sejam feitas roturas quando as crises exigem, para que possam ser feitas as reestruturações necessárias a uma ação eficiente) para que servirá criar doutrina que permita montar estratégias, desenvolver táticas e melhorar modelos de atuação que permitam operacionalizações conscientes e racionais pela eficiência que produzem? Como e para quê planear se não vemos para além ‘da ponta do nariz’? Faltam-nos não só dados mas também objetivos. A intencionalidade que podemos ter é restrita e, consequentemente, não sabendo para onde gostaríamos de ir, os caminhos são todos iguais, tudo indiferente, vai acontecendo (resultando acontecimentos, note; um circulo vicioso).

 

DA DOUTRINA E DOS PRINCÍPIOS

Sabemos muito pouco sobre o contexto militar (2º tenente da reserva naval, na reserva da reserva - se fossemos vinho com tanta reserva valíamos um dinheirão). Mas as imagens podem ser sugestivas. Sabemos que todas as frentes (de batalha ou outras) são porosas.

Por mais que se concentrem forças há espaços de passagem. Ora uma linha de defesa quando ultrapassada não é nada de útil. Ora uma linha contínua de frente de batalha quando sofre uma pressão maior num ponto pode ceder e então desfaz-se tudo, tal como um dique que deixa passar a água num ponto e é desfeito pela ação da corrente que se forma. Mas uma linha, se for capaz de fixar quem pressiona, manobrando, pode envolver, cercando-o e anulando-o numa autocorreção dos ‘buracos abertos’, já é uma força eficiente.

Os castelos vieram reforçar alguns pontos mas quando esqueceram a causalidade por detrás da sua funcionalidade, suporte da manobra, tornaram-se autênticas ratoeiras para os seus defensores. E aconteceram tantos esquecimentos destes na História, onde pessoas satisfeitas sentindo-se seguras atrás das muralhas não reagiram até…

Chega-se, deste modo, à maior (mas pelos vistos não a melhor) fortaleza do mundo, a linha Maginot (que pretendia, previdentemente, pensaram, substituir as trincheiras da Grande Guerra) que foi ultrapassada com uma passagem ‘pela Bélgica’, deixando uma parte importante do exército francês encurralado.

Pior ainda, com a importância posta na imagem da linha Maginot e a obsessão criada em seu torno, quando os tanques alemães ultrapassaram a linhas francesas o general Huntziger que comandava os exércitos que protegia aquela zona frente à Bélgica, só conseguiu pensar que iriam contornar a Linha Maginot para a atacar pela retaguarda. Assim, em vez de atacar para voltar a criar uma frente de batalha estruturada, recuou para o sul para proteger a linha de defesa invulnerável, abrindo ainda mais a brecha e separando-se deste modo, definitivamente, dos seus aliados ingleses e belgas, que foram empurrados para Dunquerque e para a conhecida ação para os levar para Inglaterra.

A Linha Maginot, que já tinha bloqueado as tropas que estavam no seu interior, fixou desta forma também as tropas do exterior, até se renderem (2).

Mas os alemães, certamente por acharem que era ‘fartura a mais’ também ficaram bloqueados e não avançaram tão rapidamente quanto lhes era possível (levaram mais de três dias) para a costa de modo a aprisionar as forças em retirada, permitindo que mais de trezentos mil homens embarcassem para Inglaterra, o que reforçou imenso a sua defesa, pois eram gente treinada.

A ’moral’ que podemos retirar destas situações é a de que por vezes (frequentemente) os bloqueios mentais são mais poderosas que os tanques e as fortificações.

[A ‘moral’ para o Ensino Superior, responsável pela formação de quadros e, portanto, pela inovação, para evitar Linhas Maginot, é que devemos pensar o amanhã, sem ignorar, claro, o passado. Hoje o Ensino Superior já não é competitivo na transmissão do conhecimento, no dar aulas e falar de cátedra, perante os poderosos meios de comunicação que existem e a enorme disponibilidade desse mesmo conhecimento. Fecha-se o Ensino Superior? Evidentemente… se não se conseguir adaptar. Mas, pensamos, finalmente, estão criadas as condições para o Ensino Superior se dedicar a educar/formar. Criadas as condições, porque já não precisamos de papaguear aulas, para que os alunos possam aprender. Podemos deste modo apoiar uma dinâmica que permita aos alunos – que já não precisam de decorar o que está ali à mão quando for necessário, fresquinho e atualizado - ir procurar o conhecimento útil e treinar a utilizar esse conhecimento, que vão buscar onde está disponível, montando estratégias, operacionalizando e gerindo projetos – ganhando competências nestes âmbitos e não procurando competir com uma ‘pen’ de 4€. Para o fazerem terão de ser capazes de pensar o impensável, prever o imprevisível, realizar o irrealizável, para que sejam capazes de fazer Linhas Maginot para as guerras em que estas ainda possam ser úteis. Deixando a gestão e até a execução das rotinas para os robots.]

No fundo tudo se resume a procurar um desequilíbrio favorável entre os fortes e os fracos de uns e outros e… jogar (um jogar tantas vezes esquecido por quem anda por aí a fazer análises ‘swot’ – não basta inventariar os pontos fortes e fracos, as oportunidades e as ameaças, isso é trabalho para ‘escriturário’).

Alguns exemplos da 2ª Guerra Mundial de um tipo de batalhas em profundidade que foram também determinantes na definição do vencedor e que vulgarmente esquecemos:

Os ‘Spitfire’ – o único caça que atuou durante toda a 2ª Guerra Mundial. Fabricado a partir de meados dos anos trinta, como era usual foi concebido para durar cinco mil horas. A pressão da guerra e a falta de meios e produtos levou à estratégia de os construir para terem que durar 50 horas. Ficavam mais baratos, poupavam materiais escassos e eram mais ágeis porque mais leves. Se resistissem as 50 horas, o que não aconteceu a muitos, eram desmontados. A economia realizada permitiu pôr muito mais aviões no ar, o que foi fundamental, sobretudo na crise da altura da Batalha da Inglaterra.

Os ‘Liberty  ships’  – navios cargueiros, baratos e de construção standard e rápida. Embora “pouco marinheiros” (expressão naval para indicar um comportamento não muito capaz na navegação) e até com vários defeitos no início eram produzidos em série e 2710 foram construídos entre 1941 e o fim da Guerra. O primeiro levou 230 dias a construir o último 42. Quando a tonelagem produzida ultrapassou a capacidade dos submarinos alemães para os afundar o destino da guerra no mar para o abastecimento da frente estava decidido.

A guerra é (também) um grande jogo de equipa, onde o homem certo, no local certo, no tempo certo é uma das armas mais poderosas.

Mas como saber a função e o posto a ocupar por cada um sem uma estratégia nacional? E nacional significa da Nação. Não do Estado, do governo, da república, dos gordos ou dos magros. Da Nação e com o empenhamento de cada um.

Ser solidário ganha aqui uma outra dimensão. Deixa de ser um favor que alguns fazem aos ‘pobrezinhos’. Solidários significa soldado a, pegado a, portanto ambas as partes estão ligadas. São todos responsáveis por agir em conjunto e dar o seu melhor, por si e pelos outros (o ‘pobrezinho’ e o ‘riquinho’ têm de contribuir – fazendo o que cada um pode, deve, fazer).

Mas muitas vezes deturpa-se o sentido

– o que tem um significado e identifica o quadro de referência que utilizamos. Porque cada um de nós é uma pessoa, um todo, com uma coerência, embora esta seja boa ou má para o que pretendemos. Funcionamos como uma unidade (pessoa) que traduz a sua essência nos seus atos (embora alguns consigam disfarçar mais do que outros). Assim, mesmo sem darmos por isso cada um tem uma coerência, como tem uma atitude, uma personalidade, uma forma de agir que lhe é própria e que conseguimos identificar nas pessoas que conhecemos (vejam como nos dão o dinheiro de um cheque através da assinatura que traduz quem é a pessoa – mas há quem consiga falsificar assinaturas!).

[Nos ‘futebóis’ (o que é diferente de no futebol), os mesmos que falam de “atacar na vertical” (o que nos leva sempre a ficar à espera de o campo ficar ao alto, ou que algum jogador ganhe asas), dizem também que alguns não tiveram atitude, ou personalidade, ou até ADN, como se estas pudessem ficar no balneário.]

É mais um campo em que a interpretação (a hermenêutica da vida) é útil para percebermos a enorme baralhada (alhada?) em que estamos metidos.

Os ‘generais’ e os ‘almirantes’ (o que inclui do grumete ao marechal – não são os riscos nos ombros mas a atitude de liderança) também procuraram reduzir, por vezes, a enorme ambiguidade da guerra. Chegaram mesmo a restringir o objetivo da batalha (só?) à destruição das forças armadas inimigas. Podiam assim esquecer todos os outros problemas, para se dedicarem à dificuldade do momento, do acontecimento da altura [NOTA – alguns reitores, ministros, governantes, etc., fizeram algo idêntico]. Com consequências. Foi por isso que Clausewitz subordinou as ações militares à política e considerou a guerra um prolongamento da diplomacia, dizendo que a guerra era um assunto sério demais para ser deixado aos militares [num exemplo mais concreto, Hitler chamou de imbecis os generais que queriam atacar Moscovo, uma presa com imagem, em vez do Cáucaso, uns campos sem qualquer atratividade, mas onde há petróleo, por não perceberem que estavam em guerra mas só com três meses de reservas de combustível para os tanques, aviões, submarinos, etc. e que era urgente resolver a situação]. A asneira não é uma invenção recente!

Mas a guerra sempre foi global e importante demais para ser deixada aos políticos e governantes, também. É a Nação que tem que estar empenhada, que mais não fosse (e é muito mais) porque é ela quem paga, quem sofre as consequências e quem não se pode deixar intimidar por aquela coisa do ‘bullying’ (intimidar, aterrorizar), por ser uma Nação. Confundir guerra com batalhas é um enorme disparate. Tão grande como pensar que educação é um conjunto de disciplinas, que uma disciplina escolar é um conjunto de matéria que é preciso decorar e reproduzir nas avaliações, que há disciplinas mais importantes porque ensinam como se ‘conta’ (reconhecemos que é uma forma grosseira de falar da matemática) ou fala (como se não falássemos e contássemos em todas as disciplinas) e tantas outras coisas que não passam de asneiras (no contexto atual) muitas vezes repetidas, mas que nem assim passam a ser verdades (3).

Ora os contextos alteram-se e a forma de ser eficiente em cada um deles varia igualmente. Na guerra, na educação, na economia, na saúde em tudo. Saber interpretá-los é essencial, para sabermos o que devemos e podemos fazer, até nas pequenas coisas do nosso dia-a-dia. Onde se aprende a fazer esta interpretação? No Ensino Superior também? Olhemos para o mundo de hoje. Na Europa (de novo temos de considerar as dimensões extensão, profundidade/pormenor e o tempo – pois há muitos ‘mundos’) – há alguns anos, poucas dezenas, passámos de um mundo de carências a um mundo de abundância, abastado, farto.

Os produtos essenciais estão disponíveis, embora estejam deficientemente distribuídos, porque não mudámos as nossas estratégias de atuação e formas de viver para nos adaptarmos à nova situação. Tem que haver, por exemplo, um outro ‘jogo,’ de modo a rendibilizar a produtividade, com os recursos tecnológicos extraordinários que hoje possuímos. Mas para que estes possam ser explorados de forma eficiente necessitamos de capacidades humanas que infelizmente não estão disponíveis, embora sejam exequíveis e desejáveis pelos efeitos que têm na vida das pessoas e na funcionalidade das sociedades.

Um exemplo comezinho – para descarregar um camião já não é preciso termos cinco ou seis pessoas para que este não fique bloqueado muito tempo, o que significava falta de rendimento. O próprio camião, de acordo com a carga que leva, tem uma grua ou uma plataforma elevadora o que permite que o motorista sozinho faça tudo e em menos tempo. Mas adaptaram-se as leis, as formas de atuar, as estratégias de gestão? Na maioria dos casos não, e vemos pessoas que até não são estúpidas afirmarem que a segurança social vai falir porque hoje temos um trabalhador para cada reformado. Mas um trabalhador hoje não pode (se forem feitas as adaptações necessárias, insistimos) produzir mais que vinte há duas ou três décadas. Não podemos reestruturar a sociedade e o seu mundo do trabalho (ou do emprego? Ou da produção – que são tudo coisas diferentes) de modo a acabar com tantas coisas, hoje ridículas (mas que já tiveram o seu tempo) ganhando em funcionalidade e eficiência. Talvez começando até pelo Ensino Superior, não?

Mas vem o argumento de autoridade – “no meu tempo...”. A resposta apropriada, mas que não podemos dar porque iria ‘ferir suscetibilidades’, seria: ‘Estás velho, chega para o lado ’ (Ai coitadinhos, só estão desatualizados… e não têm qualquer cuidado com a nossa suscetibilidade).

Planear é essencial, mas planear não é só, nem fundamentalmente, alinhar um conjunto de acontecimentos dentro de uma grelha temporal. Impõe-se que, no confronto entre o conceber/projetar/realizar com as realidades construídas, sejam formulados e permanentemente atualizados modelos de decisão cada vez mais apurados e eficientes, de modo a que seja possível obter rendimentos (nos diferentes tipos de capital que seja considerado importante tratar) tão elevados quanto possível e, simultaneamente, formar/atualizar os quadros necessários à sua realização Planear permite organizar (operacionalizar um plano – o que muitos se esquecem de fazer). Permite também equilibrar entre o que é urgente e o que é importante, tratando o importante antes que se torne urgente e o urgente antes que seja importante (o erro – resultante de uma visão dos problemas pontualmente, por acontecimentos - é tentar o impossível, eliminar o urgente ou esquecer o importante – exemplos típicos? o Estado português e o Ensino Superior, é sempre para ontem – é importante e urgente acabar com estes maus exemplos porque têm um fator multiplicador, levam tudo por arrastamento) (4).

Se considerarmos com profundidade do campo de batalha o número de fatores em jogo é infinito. Sabemos da investigação (quando não somos meros aplicadores de técnicas e coletores de dados – o que em nosso entender é função de técnico de laboratório-barato) que a correlação da variação de um número elevado (o que ainda está longe do infinito, claro) de fatores torna mais difícil compreender (e eventualmente explicar ou pelo menos apresentar modelos, que embora de âmbito restrito, tentem ser explicativos) as variações que se estão a dar. O que fazemos, nessa investigação, é isolar (na medida do possível) algumas variáveis e procurar verificar cor relações existentes e os efeitos obtidos. Torna-se assim mais fácil (embora nem sempre possível, mesmo assim) encontrar a relação causas/efeitos que nos permite teorizar (construir conjeturas) que, esperamos, tal como uma mancha de óleo vá alargando o âmbito do conhecimento, empurrando as suas fronteiras para cada vez mais longe (no espaço, nos ‘fatores colaterais’ integrados e nos pormenores tratados). A profundidade do campo de batalha e os seus efeitos são bons exemplos desta complexidade.

Mas não basta elaborar conhecimento. O conhecimento inútil (que não haja qualquer confusão com uma termologia antiga que distinguia ciência no dualismo aplicada/pura – só utilizável num outro paradigma) é não só um desperdício mas também um lixo poluente, porque ‘a árvore se esconde na floresta’ e o excesso de conhecimento ‘mal arrumado’ torna difícil e dispendiosa a sua utilização.

Mas para não ficarmos só (?) na elaboração da teorização orientadora (englobando os princípios a considerar, a metodologias, e as estratégias e táticas de operacionalização) damos alguns exemplos de âmbitos em que julgamos que esta noção expressa pela profundidade do campo de batalha poderá ter na alteração das nossas formas de atuação.

 

DAS ESTRUTURAS ORGANIZACIONAIS (Explicativas e Aplicativas) PERPLEXIDADES

As nossas. Não as suas, leitor. Olhemos para o nosso dia-a-dia e como esta noção da profundidade do campo de batalha pode influenciar a forma como nele vivemos.

Bachelard dizia que devia ser proibido ter uma opinião sobre questões que não compreendemos. Que silêncio. Mas a causa é fundamentalmente porque compreender é um termo muito vago (banido da formulação de qualquer problema de partida de uma investigação, não é?). Compreender tem como limites o quadro de referência utilizado, a profundidade (pormenor) considerada e o período temporal (a curto, médio ou longo prazo, e a implantação do passado a que atendemos).

Preferimos, sem dúvida, uma expressão mais confuciana que diz que “aqueles que sabem não falam, aqueles que falam não sabem”, um falar que se alarga ao escrever, com todas as implicações que daí se retiram.

Mas pensamos que é preciso, num sentido schumpeteriano, destruir/desconstruir objetivo de todo este trabalho (5).

Porque não enfrentamos realidades como:

1) Portugal está por volta do trigésimo lugar nos mais de cento e cinquenta países no rendimento per capita. Não assumir este facto tem consequências graves. Não reconhecemos, por exemplo, que somos um país que ultrapassou o estádio da falta de recursos mínimo para todos. Mas, repetimos, a distribuição nem sempre é bem-feita. Vive-se, em consequência, uma impetuosidade descabida na corrida à ‘gamela’ que nos choca particularmente. Hoje há que encontrar novas soluções (não o regresso a passados diferentes).

2) A Europa (com todo o seu espírito miserabilista) é, sem dúvida (até ver), o espaço (com um certo sentido de unidade) mais rico do mundo. Mas vive ‘a pedinchar’, por exemplo, apoio Americano para a sua defesa, um tique herdado de dois enormes disparates que desencadearam: 1) a Grande Guerra, uma disputa, entre primos, de um poder, já escasso e a definhar, o que mostra que o poder é como o pão, quando não há…; 2) a 2ª Guerra Mundial (note-se que não houve a primeira) um conflito ideológico entre socialistas (na terminologia dos próprios, do socialismo internacionalista/popular ao nacional/nazi, passando pelo democrático, labour inglês e o francês, por exemplo, ao fascista, com uns periféricos que só entraram ou fora de tempo ou indiretamente, o falangismo e o corporativismo, respetivamente).

Ao que se segue a 3ª Guerra Mundial, que se iniciou antes de acabar a 2ª, com aspetos particulares a que se chamou de Guerra Fria (mas bem ‘quente’ para alguns), a 4ª Guerra Mundial, a decorrer agora, em teatros que saem dos tradicionais terra/mar/ar e se alargam ao espaço e ao espaço cibernético.

Se chamamos a atenção para todas estas guerras e as discrepâncias (aparentes) na terminologia que as refere, assim como na passagem de guerras evidentes para guerras menos manifestas é para justificar a existência de uma guerra civil atual, que poucos veem, dento de Europa (CE) – agitação de alguns leitores – entre os, chamemos de centralizadores e os defensores da descentralização/’ subsidiariedade’. Guerra que hoje tem extrema violência, embora sub-reptícia (tal como a 3ª, 4ª e seguintes guerras mundiais), num ‘fartar vilanagem’ com incidência sobretudo a nível económico (como já o era a 2ª Guerra Mundial para os EUA, ao contrário da Europa) mas que nem por isso gera menor número de vítimas.

3) Já repararam que os países com maior PIB per capita (com todos os problemas que este indicador levanta) são pequenos países e não as grandes potências que fazem manchetes nos jornais?

4) Uma Europa que, do ponto de vista cultural (termo a manusear com muito cuidado pelos conceitos que lhe são dados, como acima indicamos), social e estrutural, encontrou equilíbrios (o que até poderá ser mau se corresponder à estagnação) que muitos gostariam de ter (a galinha da vizinha é…). Não ficamos, felizmente, satisfeitos, porque, de facto, com os recursos (riqueza – financeira, humana, cultural, etc.) existentes, muitas outras coisas poderiam ser feitas. Bastaria, pensamos, que olhássemos um pouco para nós próprios, com um olhar crítico e implementássemos novas soluções e estratégias.

5) As mudanças nas estruturas organizacionais que não se limitaram a transformações no peso dos diferentes grupos que constituem a estrutura social (o campo e a cidade; o ‘proletariado’ e o setor terciário; a distribuição na empresa dos lucros entre a ‘criatividade/conceção’, o ‘tecnológico’ e o equipamento, o capital, a ‘mão de obra’; a família e os seus elementos e até a sua extensão, sejam primos, tios, em diferentes graus… e o tipo de relações que preservam; as relações entre o país/as nações/as orgânicas políticas/as empresas/as escolas/ etc.). Mas as dinâmicas gerais não foram alteradas de uma forma intencional para que seja mantida uma organização equilibrada e funcionalmente eficiente. Não é possível fugir a inovar e experimentar novas soluções, com os riscos inerentes e as vantagens que daí poderão resultar.

Inércia ou inépcia? Um conjunto de realidades (factos como diria Karl Popper, mas com o comentário de Thomas Kuhn de que a interpretação dos factos depende do paradigma em que são vistos – um facto evidente nos exemplos que acabamos de dar) que nós, europeus, não queremos encarar, preferindo ‘assobiar para o lado’, apesar das graves consequências que resultam de não olharmos os problemas de frente, o que nos permitiria resolver a maioria deles de uma forma simples, embora não obrigatoriamente consensual.

Mas alguém imagina que é possível estarmos todos de acordo até mesmo no essencial? E seria útil que tal acontecesse? O ‘todos iguais’ – mentira evidente mas que alguns teimam em afirmar – não deveria ser assumido como um ‘todos diferentes’ com o respeito pelas diferenças e até o reconhecimento que as complementaridades são vantajosas, para todos?

Evidentemente as soluções têm de encontrar equilíbrios que possam acomodar as diferenças. A evolução e os seus tempos têm de sujeitar-se ao que é possível. A experimentação tem que ser possível, potenciando as diferenças e não procurando esmagá-las. A diversidade é uma riqueza da Europa. Concretizamos com alguns exemplos que nos causam perplexidade:

 

No espaço –  a NASA descobriu que por olhar excessivamente para a Lua, onde colocou alguns ‘habitantes temporários’, durante as missões Apolo, tinha esquecido que ‘há mais vida’ para além da Lua. Ainda não recuperou deste erro e por isso não possui vetores de colocação de carga em órbita ou para além dela, capazes de responderem às necessidades atuais (compra-os ou aluga-os à Rússia ou à França).

Tentando corrigir, a NASA investiu em think-tanks para criarem cenários prospetivos que orientassem as estratégias de evolução. Alguns desses cenários postulavam a possibilidade de, a um prazo longo (cerca de 300 anos), transformar Marte num planeta vivo onde pudéssemos analisar a evolução da vida e dos seus equilíbrios. Um laboratório ecológico da evolução pela introdução de espécies básicas que iriam evoluir e transformar o contexto. Ganharam os defensores da ‘preservação’, um conceito anti-ecológico, já que a natureza realiza um permanente processo de “emergências/extinções”, ao contrário do fabricar ‘arcas de Noé’ (veja-se – “Il faut remetre en route le moteur de la biodiversité” in Sciences et  Avenir”,  outubro/novembro 2013). Porém, inadvertidamente, alguns representantes da vida terrestre já por lá andam, levados por algumas das missões que estudam Marte. Simultaneamente procura-se na Terra impor situações com custos elevadíssimos que visam tratar problemas nem sempre devidamente identificados. Não era certamente desta diversidade que acima falávamos.

 

Nas empresas – Uma empresa é onde se empreende, apesar de algumas definições jurídicas, que pretendem restringir o conceito e até dar-lhe um enquadramento ideológico. Empreender é realizar um projeto, um cometimento, um empreendimento. Companhia, por seu lado agrega com, juntar, ‘panes’, ou seja de pão. Pretende-se o desempenho de uma função.

Mas para aqueles que juntaram o pão numa perspetiva de negócio (neg otium – negação do ócio) não seria mau pensarem que a estrutura empresa/companhia pode ser concebida com diferentes tipos de equilíbrios. Pode traduzir um conflito entre as partes envolvidas, um sentido de colaboração, uma noção de integração, etc. O que queremos hoje?

A companha com vasta tradição no nosso País, que fez todo o tempo das descobertas e ainda com uma expressão na pesca que faz com que se confunda companha com tripulação de navio ou grupo de pescadores.

A companha é um contrato de associação em que se juntam os instrumentos necessários a um empreendimento (por exemplo, os diferentes elementos necessários a uma tripulação, o navio, os equipamentos, as provisões, etc.) através de uma avaliação do valor de cada contributo, de modo a conhecer- se a percentagem de cada um no retorno do empreendimento. Acorda-se, portanto x para cada marinheiro, z para o mestre, y para os equipamentos, w para as provisões, k para o navio, etc., definem-se as funções a desempenhar e está formada a campanha. Não seria esta uma forma muito mais eficiente de estruturar uma empresa nas conceções da gestão atual?

 

Na gestão do Estado – é muito difícil, como toda (toda mesmo) a gente reconhece, perceber onde estão os erros da atuação dos governos (de toda a espécie e feitios), porque o conjunto de fatores em jogo aumentou exponencialmente, em quantidade e complexidade. Como todos no Ensino Superior sabemos uma investigação que considere um excesso de variáveis, é não só difícil de conduzir, mas também exige amostras e tempos extremamente longos (6).

Para podermos ter equilíbrio na gestão do Estado sem perdermos a liberdade de optar e de escolher, mas, simultaneamente, podendo fazer opções conscientes e informadas (sem consciência e informação não existe liberdade – há a ‘parvoíce de falar sem saber’ ou o direito de ser manipulado). Não seria possível optar por restringir um pouco a ‘profundidade do campo de batalha’ para procurar ganhar em eficiência? Introduzir um ‘cheirinho de laboratório’ em toda esta confusão talvez não fosse despiciendo. Neste sentido deixamos algumas perguntas (talvez estúpidas):

• Porque não se limita o valor do orçamento de Estado ao valor do ano anterior menos o deficit ou mais o superavit? Ano a ano. Ou uma outra fórmula. Como quando entramos num restaurante temos de saber quanto temos na carteira, o governo sabia o bolo a gerir.

• Porque não se exige no processo eleitoral a marcação de metas anuais que se não cumpridas levassem à demissão imediata (na apresentação do estado da nação, ou é o estado do Estado?). Porquê esperar toda uma legislatura? Não é o que se faz com qualquer gestor ou treinador de clube desportivo? ‘Chicotada psicológica’ não é como lhe chamam?

• Porque não pagamos um valor fixo para vivermos em Portugal (um selo, como nos carros, fácil de cobrar e evitando a fuga aos impostos – X por cabeça, ficando isentos alguns (crianças, doentes, idosos, etc. – proposta a apresentar pelos candidatos ao governo e a ser sufragado em condições a definir). Mais, digamos, dez impostos, definidos e quantificados na proposta eleitoral, com metas anuais. E não haveria mais nenhum imposto, nem se chamaria taxa ou outra coisa qualquer para encobrir outros impostos (mas não é fácil distinguir o que é imposto, obrigatório, do que pagamos em troca de um serviço que solicitamos?).

• Uma situação idêntica à do ponto anterior para as empresas. Os residentes no estrangeiro poderiam pagar de acordo com os dias que passavam em Portugal.

Terá, certamente, alguns inconvenientes e dificuldades, mas vemos também algumas vantagens importantes. Permitia, por exemplo, acabar com muita burocracia, com custos que não contribuem para a riqueza nacional, evitava a economia paralela, etc… Claro que levava alguns anos a implementar, mas podia ser feito um plano de evolução a cumprir. Grosseiro? Claro, um pouco, mas não pretendemos aqui apresentar todo um plano de política  nacional, finalizado e sem necessidade de revisões. Estamos num capítulo a que chamámos de ‘perplexidades’ e estamos a referir, como acima indicámos, as nossas perplexidades, numa lógica de promover uma desconstrução ‘schumpeteriana’, para depois podermos construir sem tantas interferências de artefactos culturais que nos bloqueiam a escolha de opções que até se podem vir a mostrar eficientes e desejáveis. Talvez devêssemos passar esta reflexão para o tópico Ensino Superior, mas depois de mais de trinta anos que por lá andámos temos dúvidas que a abertura para um debate que ultrapasse o comezinho do dia-a-dia fosse maior. A pergunta surgiria: ‘Em que ficha da avaliação é que isso se encaixa?’

A Europa não deixa? Ah! Existe a tal guerra civil, os burocratas iriam ficar aborrecidos. Mas não há tantos serviços (funções) que podem prestar? (Sem complicar, claro – atenção à profundidade do campo de batalha!).

As novas ‘batalhas’, mesmo que sejam políticas ou concetuais não serão certamente as dos séculos XIX ou XX. É preciso alargar perspetivas, mesmo que isso incomode alguns.

Fazemos ainda algumas afirmações para tentar consolidar esta perspetiva sobre o Estado chamando a atenção para alguns conceitos:

• PIB – não é o produto interno bruto mas o produto que paga impostos. A conhecida história do advogado que casa com a funcionária que continua a fazer o mesmo serviço mas que deixa de receber ordenado e reduz assim o PIB. Não é, portanto, um indicador de riqueza fiável.

• População ativa – é a que tem um emprego. E a que produz sem ter um emprego é inativa? Os reformados não podem ser ativos? Têm mesmo que ir para o jardim jogar às cartas e dominó? Três conceitos que pensamos estão um pouco baralhados – emprego, trabalho, produtividade. Que prioridade? Produzir? Trabalhar? Ter emprego? Claro que é preciso redefinir a distribuição da riqueza produzida – é pelo emprego ou pela produção? Pelo trabalho ou pelo emprego? Pela produção ou horas de trabalho? Certamente pode haver outras formas que garantam a dignidade individual. E o que é equidade? E solidariedade? Grandes debates dariam estes temas!

• A Constituição não permite mudanças destas? É a ‘Constituição da República Portuguesa’ (vejam o título que lhe puseram, não nos acusem). Respeita as minorias… E a liberdade de expressão. “Art.º 1º … baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular…”

– vejam como os americanos reduziram isto e muito mais a “We the people…” – é o povo a falar e não alguém que diz respeitar o povo ou ser seu representante. Já agora mais uns factos – “Art.º 11º - 1. A Bandeira Nacional, símbolo da soberania da República,…” – da República ou da Nação?

Problemas na mudança de paradigma? Thomas Kuhn avisou, não avisou?

 

No Ensino Superior - O tempo das mais-valias da transmissão de conhecimento acabou.

Que produtos alternativos possuem as instituições do Ensino Superior? Que clientes, ou se preferirem “que clientes”? As avaliações bloqueiam a evolução e destroem alternativas. Agarrados à burocracia que constitui os degraus das carreiras e a escada para o poder (mas que poder?), com um espírito reacionário (literalmente) procura-se preservar um passado que já foi, pelas seguranças (falsas) que nos dá, desprezando um futuro que tem de ser reavivado instante a instante, num jogo da vida que é por definição instável com a morte possível (por contraponto à estabilidade da morte, ponto final - o que é segurança, mas duvidamos que seja conforto).

Mas o Ensino Superior não é mais uma estrutura entre outras que fazem mover o País. Se não funcionar ou funcionar deficientemente não é só (o que não seria pouco) a ausência e alguns ganhos financeiros ou mesmo económicos. Ora isto não é assumido nem pelas instituições que gerem o País (estatais ou não), nem pela população em geral, nem pelo próprio Ensino Superior (o que é ainda mais grave). Não haver esta consciência é um indicador de que o funcionamento não tem sido bom (a alternativa seria que funciona tão bem que nem se dá por isso, o que julgamos não é realista, pois temos indicadores como o os ganhos obtidos por ação do Ensino Superior e a pujança e abundância gerada pelas suas dinâmicas serem todos indicadores com um evidente deficit, não só em Portugal como também em toda a Europa, pelo menos desde meados do século passado). Vamos então refletir um pouco sobre as funções e obrigações do Ensino Superior, saindo da superficialidade da análise, que podemos resumir da seguinte forma: “há umas aulas que vão sendo dadas, uns diplomas atribuídos, uns artigos que são publicados e fazemos uma avaliação positiva porque não vemos nada de anormal embora haja umas coisitas para corrigir onde se pode poupar algum dinheiro”. Mas o objetivo do Ensino Superior resume-se a isto, umas aulas, uns diplomas, uns artigos e uma avaliação que não vê nada de anormal, mas podemos poupar algum dinheirito?

Ou a função do Ensino Superior é mesmo criar coisas anormais, produzindo campos de investimento (aplicação de verbas, não poupança) altamente rentáveis (retornos ao capital empenhado), embora tal não seja certamente possível através de umas aulitas e uns artigos nos quais as únicas pessoas que acreditam são uns pares que vivem de os acreditarem, assim como umas avaliações/ acreditações. Tanta crendice!

A função do Ensino Superior (universitário ou politécnico, o que são coisas diferentes mas que é preciso definir bem, para que cada um possa saber a função que tem de desempenhar) é de contribuir com uma vertente. Uma vertente de um todo que, na integração de tarefas complementares, se torna eficiente. Permitam-nos que utilizemos de novo uma imagem – um navio é um binário tripulação/maquinismo complexo que para poder ser eficiente deve ter coordenado todas as suas componentes. Julgamos poder equiparar, nesta imagem, o Ensino Superior aos radares e comunicações que permitem situar o navio no contexto em que se integra (de que faz parte, porque o contexto ‘real’ é função da capacidade do navio o detetar e interpretar). Um contexto feito de um passado/futuro e com um presente que é uma transição entre aqueles dois.

Se olharmos para um navio a navegar dificilmente detetamos se os radares e comunicações estão a funcionar, mas se não estiverem o navio vai cego e mudo, disfunções, sem dúvida, muito graves. Mesmo que as máquinas, a artilharia, as messes, a enfermaria, os paióis, etc., estejam a trabalhar perfeitamente, o navio não está operacional. Não sabe para onde ir, não sabe como se defender, não sabe que ameaças tem de eliminar, etc… Tempos houve em que bastava um óculo para podermos ver as velas do inimigo ou a costa de que nos aproximávamos. Com a artilharia de longo alcance tornou-se necessário informação que permitisse alvejar o inimigo para além da linha do horizonte. Hoje qualquer lancha rápida pode fazer uma salva de mísseis com alcances de cento e cinquenta/duzentos quilómetros. Sem meios para assinalar a ameaça a estas distâncias, aviões, satélites, navios de suporte (submarinos ou outros), radares de grande alcance, etc., o navio não consegue situar-se num contexto que foi sucessivamente exigindo que sejam consideradas profundidades do campo de batalha cada vez mais amplas e precisas.

Resta-lhe olhar em volta e um dia dizer: olha um míssil, bum! E acabou-se.

Não desempenha a sua função nem consegue defender-se.

Um País sem Ensino Superior está na mesma situação, sem perceber onde se situa e para onde ir. Mais cedo ou mais tarde acontece-lhe o mesmo – bum! Não obrigatoriamente em termos de explosão física, mas seja económica, social, cultural, financeira, etc… , vai acontecer. Um mundo em que somos todos muito amigos e somos todos bonzinhos não é uma utopia, é uma parvoíce. Um dia ficamos muito ofendidos porque nos ouviam (como era evidente) as chamadas telefónicas. Mas não sabiam? Nem desconfiavam? Num mundo global e interdependente como aquele em que vivemos? Uma interdependência que implica interagir e conflituar de um ponto de vista pessoal, económico, social, político, etc., com uma articulação entre a atração e o confronto, de modo a que sejam possíveis equilíbrios que nos mantenham num ‘cone de plausíveis’ que é a forma podemos ver os futuros (os nossos e o dos outros) de forma a termos um sentido na vida e uma intencionalidade onde podemos trabalhar para aumentar as nossas probabilidades de nos realizarmos.

Não esqueçamos que a vida é um equilíbrio instável e que a nossa capacidade de adaptação (que pode ser aprendida e treinada) é restrita.

O equilíbrio (dinâmico e transitório) é um desafio constante. Entre o imprescindível e o possível. Um pouco a mais de oxigénio (que é um veneno) e morremos, um pouco a menos de oxigénio (que é indispensável) e temos o mesmo fim. E no entanto há milhões de anos que a vida existe na Terra. Num permanente regular/desregular que exigem uma permanente adaptação, mesmo sabendo que as ‘regras do jogo’ também se alteram, permanentemente.

Uma educação/formação integrada no contexto não se faz só por haver umas visitas à fábrica, ao hospital, ao tribunal, etc… A integração é na vida das pessoas e da sociedade. E o Ensino Superior tem de dar resposta, eficiente, ou não existe, é só um faz de conta que não produz nada de útil e gasta dinheiro.

Mas o Ensino Superior não é facilmente substituível. Na sua função de preparar o futuro (em ciclos de vinte a trinta anos – quando um governo reage a legislaturas de quatro anos, um investidor a poucos anos, quando não especula com ciclos de poucos dias, um investidor aos prazos do retorno do capital mais algum lucro, etc.) é o gerador de informação (não a que dá nas aulas, mas a que permite que os alunos aprendam nas aulas, também) num permanente ultrapassar de problemas que educa e forma. Gera-se, deste modo, um círculo virtuosos conhecimento/desempenho, que tal como pensavam os alquimistas, permite transformar a obra e o realizador da obra em simultâneo.

A relação entre a evolução do conhecimento e a preparação de recursos humanos capazes de acompanharem as transformações pode gerar uma mistura letal, pelas disfunções que produz, ou pelo contrário constituir um jogo aliciante e capaz de criar viciação no jogo de realizar.

 

No conhecimento – a destruição de arquivos e o desperdício de conhecimento útil mas não utilizado é uma constante das orgânicas atuais. Vivemos num mundo de abundância, fartura, mas ainda não aprendemos a viver nestas condições. Potencia-se a procura e recolha de dados, mas não temos as capacidades, humanas e materiais, para explorar as potencialidades do que já possuímos. Promove-se mesmo, com prestígio e visibilidade (veja-se como são selecionados os artigos publicáveis!), a colheita de cada vez mais dados e a utilização de equipamentos cada vez mais caros. Recolhem-se garrafas e papéis velhos (o que consideramos certo), mas desperdiçam-se ficheiros informáticos, conteúdos de livros, documentos, bancos de dados, etc. (o que consideramos errado). O ‘lixo’ científico abunda e é poluidor, mas muito poucos procuram proteger o que é, frequentemente, uma riqueza (não só histórica, mas também, por exemplo, para a compreensão dos processos evolutivos) irrecuperável.

Não basta evitar o desperdício, há que criar uma dinâmica que leve a ganhos e ganhos substanciais, pois o conhecimento é um campo em que o retorno ou é muito grande (grandes lucros) ou não existe (porque não só não há ganhos como também se perderam os investimentos feitos).

Aprofundemos um pouco para além desta camada superficial que reflete os raios de luz encandeando os observadores e dando a ideia que nada há por baixo. Como acima vimos o conhecimento é uma das componentes do processo de transformação dos indivíduos e das sociedades (em simultâneo, numa dialética de valências e sinergias).

Mas o conhecimento não é um processo cumulativo. Os conhecimentos não se limitam a ser uma soma de dados e informações. Por duas razões: 1- Porque há roturas – a coerência dos fatores em jogo (paradigma) é por vezes posta em causa, porque as ‘verdades’ existentes já não consegue conglomerar a nova informação existente, porque surgiram novos conhecimentos e formas de os interpretar, ou porque alguns dos existentes deixarem de ter validade.

É, então, necessário reformular a estrutura e gerar novas organizações que tornem compatíveis novas perspetivas e formas de estar mais eficientes. 2- Por- que a ordem das parcelas não é arbitrária – ao contrário das somas, a ordem seguida na aglomeração de informação não é indiferente, como é facilmente demonstrável através, por exemplo, de alguns paradoxos visuais, em que a sequências das imagens mostradas altera a forma como as interpretamos.

A matemática, que em tempos foi chamada de ciência exata, hoje ligada, aglutinada/fundida mesmo, à informática, que já é capaz de conferir e realizar demonstrações (ser assistente de prova), embora ainda lhe falte a intuição que permite prospetivar novas vias (já estivemos mais longe), apresenta bem clara a dificuldade (só não utilizamos o termo impossibilidade por uma questão de prudência) de criar uma via única e universal que sirva de solução em todos os âmbitos.

As permanentes refundações a que tem sido sujeita, a procura de ‘linguagens fundamentais’, as diferentes teorias (dos conjuntos, dos tipos, etc.), mostram como uma formalização completa e consistente das ‘matemáticas’ (um plural com significado) tem resistido aos mais persistentes.

E se esta é a realidade para a matemática (as matemáticas) com a sua capacidade de abstração do real, como imaginar que algo de diferente se poderá passar com outras áreas científicas?

Ora alguns ainda imaginam que o conhecimento de uns métodos matemáticos, extremamente úteis em alguns campos aplicativos, significa compreender matemática e as suas lógicas. E por lidarem com eles absorver as suas lógicas.

Há mesmo quem pense que o conheci- mento de alguns destes métodos e das formas de os aplicar em âmbitos restritos permite transformar de uma forma obrigatoriamente positiva as pessoas capazes de tais atuações, modificando-os de uma forma intencional sem necessitar de um desígnio e de um plano de trabalho que marque um projeto educativo (ou vários projetos educativos com intencionalidades diferentes). Sobrepõem-se, portanto, épocas e formas de pensar, paradigmas mesmo, numa confusão concetual que deve ser desmistificada para que o processo educativo/formativo possa ter um significado. A velocidade das transformações não nos permite esperar que nas tentativas anárquicas que vamos fazendo venha a surgir uma solução.

O debate e o empenhamento de toda a comunidade científica, a aceitação de diferentes formas de pensar, operacionalizar e realizar, a fuga a um colocar ‘todos os ovos no mesmo cesto’ que pode não só pôr tudo em risco, mas também impedir que se experimentem novas vias suficientemente promissoras para que mereçam investimento na sua exploração, são algumas das razões que recomendam roturas profundas não só na gestão do conhecimento e do seu desenvolvimento, mas também das instituições do Ensino Superior pois estas têm no conhecimento um objeto e uma justificação dificilmente (de novo a prudência) substituíveis.

E não esqueçamos que o passado não nos servirá de grande exemplo, pois a gestão num mundo de carências, como tínhamos no passado, em pouco se assemelha à gestão de um mundo de abundâncias, como temos no presente.

As regras do jogo mudaram, as ferramentas mudaram, o próprio tempo mudou tornando-se mais premente. A profundidade do campo de batalha exibe novas estratégias, novas tecnologias, novas táticas, novas operacionalizações – e gente que seja capaz de as pensar, criando doutrina e modelos de atuação, assim como de as realizar, experimentando, corrigindo, testando e conseguindo.

 

UMA CONCLUSÃO

Otimizar é um processo que passa por fazer opções e concessões, um processo de compromissos. Para fazermos isto não podemos fazer também aquilo, uma vez que os recursos são sempre escassos embora possamos passar de uns capitais para outros (financeiros, prazer, conhecimento, saúde, tempo,…). Mais uma vez os acontecimentos não nos permitem ter a visão de conjunto que nos possibilite perceber que há sempre que jogar com alternativas.

Os processos, porque nos exigem entrar na articulação das causalidades e suas consequências obrigam-nos a aceitar que umas coisas se encadeiam com outras, são como as cerejas num cesto, quando se puxa por uma vêm logo outras atrás e temos de saber quando parar. Tal como as cerejas num cesto não somos obrigados a ir até ao fundo, pois tal como no dia-a-dia dava-nos ‘cabo da barriga’, se é que me entendem.

No campo de batalha, no desporto, no estudo (quando funcionamos por ‘vontade de comer’ e não feitos gansos com um funil para encher, emborcar) e em tantas outras situações em que os resultados são visíveis e relacionáveis com as causalidades que vamos gerando (7).

Mas como passar de uma visão do mundo feita de acontecimentos para uma outra feita de processos? No campo de batalha levando uns tiros para percebermos que o que tínhamos pensado afinal estava errado.

Mas não é preciso ser tão radical, basta ao como (como é, como fazemos, como acontece…) juntarmos o porque (porque é, porque fazemos, porque acontece…), para rapidamente nos consciencializarmos que não há atos isolados (acontecimentos), mas que tudo é um conjunto (de que temos de definir a dimensão útil – pensando os limites do até onde vamos e o que não ultrapassamos que permitem ser eficiente. UMA NOTA – como nos parecem ridículos aqueles que dizem por aí que o caminho que temos é estreito porque há crise --- ‘atão’, isto para falar à maneira deles, para ver se entendem, ainda não entenderam que é sempre assim quando queremos ser eficientes? Ou eficiência é só para quando estamos … aflitos? – o termo apropriado seria à rasca, mas ficava mal!) de causas/consequências (processos) num equilíbrio precário (o instável da Física) que nos impõe jogar.

Jogar é a palavra-chave, mas é preciso ter prazer, o prazer de fazer, de ter, de ser de viver. Viver uma vida que é feita de permanentes construções/desconstruções. Não a preservação de algo que não nos agrada… mas temos medo de experimentar alternativas.

É bem mais simples do que poderíamos pensar mas exige algum esforço ao princípio.

Temos tudo para o fazer, vem-nos nos genes e ‘memes’, mas alguns perderam-no no berço, não na ‘água do banho’ clássica, mas em alguma fralda mal enrolada, ou num curso superior que de superior só tinha o nome.

Ajudará, no entanto se não nos ficarmos pelos aspetos exteriores, pelas aparências.

É que temos a mania (é mesmo mania) de classificar tudo em grandes grupos sem atender às funcionalidades. Temos assim que o termo militares (já que estamos na análise do campo de batalha) tem pouco sentido pois engloba os militares que o são só de caserna (burocratas, rígidos, carreiristas, preocupados com a farda e o cabelo curto…) e os que se ‘formaram na guerra’ (e nos fatores funcionais que ela impõe).

Tal como temos professores do ensino superior, investigadores, engenheiros, médicos, arquitetos, etc. ‘de caserna’ (faltando-lhes o objeto da função tomam a aparência pela realidade – já os romanos da antiguidade falavam em ‘tomar a nuvem por Juno’, mas não aprendemos) e outros que se preocupam com a funcionalidade e a qualidade e quantidade do que produzem, mas que vêm o produto do seu trabalho não só bloqueado mas também parasitado por quem dificulta a produção. Mas já íamos arrancando para mais ‘uma voltinha’, pois tudo se liga, como as cerejas num cesto.

(1) não há uma oposição dual acontecimento/processo,  pois são ferramentas conceptuais de paradigmas diferentes e… a incomensurabilidade. Um processo não é um somatório de acontecimentos - tal como a matéria é um conjunto de átomos, mas com muitos buracos pelo meio, buracos que definem distâncias e, portanto, a sua compreensão é fundamental para que se perceba as interferências que se estabelecem. No entanto os acontecimentos podem ser identificados no seio dos processos (de vários processos) e podem mesmo servir para os refutar, por mostrarem falhas na conjetura explicativa do processo].


(2) uma anedota verídica- De Gaulle, que defendeu a utilização de tanques e da aviação para dar capacidade de manobra e antes da guerra escreveu os livros que teorizavam a sua utilização, que diga-se foram utilizados… pelos alemães para criar o “blitzkrieg”, concebido por von Manstein e operacionalizado por Guderian, para abrir a brecha acima falada na frente francesa, foi mais tarde, quando já estava desatualizado -? Sem capacidade de manobra - conduzido para uma liderança forte como presidente da França. Como político afirmava: “a velhice é um naufrágio” (como militar teria dito ‘a antiguidade é um posto’)].


(3) como esperamos que seja evidente, pensamos, que as matérias não passam de ferramentas nas mãos de um docente que tem que ser competente para gerar educação/formação – o que não tem nada a ver com ‘vomitadores de matérias’ – bem pelo contrário, às vezes).


(4) justificando - se não vemos que há coisas importantes é porque ‘a profundidade do nosso campo de batalha’ é muito superficial; se não há urgências é porque não estamos suficientemente perto dos limites, há portanto desperdícios, “tá-se beeem”; concluímos pela necessidade de perceber um mundo de equilíbrios.] [EXEMPLOS – 1- Numa aula – chamamos aula a um trabalho de uma equipa docente/alunos, não a um fulano a fazer de televisor mau e caro – a rendibilização dos recursos humanos exige planeamento e organização, assim como um equilíbrio entre as necessidades dos alunos e a capacidade de esclarecer/motivar/gerir do docente; se os alunos estão muito tempo à espera do docente há alunos a mais; se o docente está muito tempo sem intervir, justificadamente, há alunos a menos – avalia-se a ação do docente pela quantidade/qualidade do produto; a da gestão da escola pelo somatório dos produtos; a do ‘ministério’ – pelo somatório dos produtos das escolas. 2- Numa autoestrada – se os carros que só deviam andar a 80km e os que podem dar 250km forem todos a 120km, para além de concluirmos que vai o carro da GNR à frente, concluímos também que está tudo mal; era importante que os que só deviam ir a 80km não ultrapassem esta velocidade, que os que podem ir mais depressa pudessem ir à velocidade permitida pela dupla carro/condutor. Ora um ‘cheirinho de urgência’ reduz o tempo de reação dos condutores ou acorda-os mesmo; as autoestradas têm curvas não por necessidade de construção, mas para que não sejam monótonas para a condução. Andamos mais entre 10% a 15% por esta razão, mas perde-se a razão por uma legislação mal feita. E ainda por cima justifica-se o limite de 120km para reduzir, cerca 5% do consumo. Profundidade!]


(5) poderíamos dizer, como para o conceito de democracia, que algumas das posições aqui apresentadas seriam as menos más das possíveis; mas nem isto fazemos, o que pretendemos mesmo é mostrar que há alternativas e outras formas de pensar (mesmo que nem a defendamos), alternativas a um mundo de certezas e de seguranças (de confortos, diz-se hoje) que por aí (e aqui) vingam, ‘partindo pedra’. Pretendemos libertar dos vícios e hábitos de um mundo de carências e privações que tardamos em compreender que acabou, para passarmos a perceber que vivemos num mundo farto e abastado onde, porém, não aprendemos ainda a viver de modo a transformá-lo num mundo fecundo em termos de qualidade de vida, prazer e felicidade (pelo menos)].


(6) quando queremos controlar um excesso de profundidade no campo de batalha perdemo-nos na imensidão e tronamo-nos pouco eficientes – mais uma vez o equilíbrio é útil e necessário].


(7) ao contrário, por exemplo, da relação emprego/ordenado, que ultrapassa na noção de produtividade e parece uma ligação que pode ser feita de acordo com a vontade de quem tem o poder para determinar, perdendo-se toda a noção de relação do funcional].

© copyright SNESup | Todos os direitos reservados

 
visitas