Dois livros e um homem

João Caetano
Universidade Aberta

Direito Constitucional Geral (de finais de 2013, em nova edição revista e aumentada) e Constituição e Política (2012) são dois dos mais recentes livros de Paulo Ferreira da Cunha (PFC), ambos com a chancela da Quid Juris. Tendo como destinatários os seus alunos e o público em geral, o autor procede, de modo pedagogicamente rigoroso e muito entusiasmante, a uma análise dos principais conceitos e problemas constitucionais contemporâneos. Convém lembrar que estamos perante um pensador, escritor e orador notável. Catedrático da Universidade do Porto desde muito novo, o seu pensamento constitucional e político não é porém expressão do poder instituído mas do que há de vir. Estes dois livros explicam a importância das constituições na construção da política. E são uma defesa da Constituição portuguesa e do futuro. Usando uma linguagem acessível a todos, as suas palavras são transformadoras pelas possibilidades que abarcam em relação à compreensão do texto constitucional português.

PFC toma como matéria de trabalho o mundo e as relações entre as pessoas, para dignificá-las. Não procede à apresentação de um sistema ou à proclamação de um mundo inacessível. Como uma criança, explora as possibilidades de promoção, através de um pensamento constitucional aberto e comprometido, de uma sociedade mais justa e fraterna. Não é um dogmático, mas um homem de esperança. Faz lembrar, na sua afoiteza, a pequena esperança de Péguy.

Como uma produção tão extensa, como não se cansa o autor? Porque é preciso que o mundo ande, se torne melhor, mais humano. Para lá das duras condições da vida, a sua palavra entreabre-nos portas e interpela-nos. Além de escrever muito bem, PFC toca-nos o coração. É um exercício de esperança andar por caminhos difíceis. E acreditar num mundo melhor e fraterno. Mas o testemunho dos livros é que isso é possível e desejável. PFC ama a imperfeição de um mundo sempre em aberto e que pode contar com a sua e a nossa intervenção. Desde cedo começou a usar as tecnologias para comunicar com os outros. Assim como cedo se mostrou aberto a aceitar a democratização do ensino superior pelo alargamento do acesso das pessoas, por exemplo, ao doutoramento. Ambos os comportamentos foram ao arrepio do que pensava a maioria dos seus colegas, num campo tradicionalmente conservador e alinhado com o poder. Destaco, também, o modo como denuncia nestes livros o aviltamento da educação às mãos de interesses espúrios.

Em profundo contraste com uma certa sensibilidade contemporânea de maximização do lucro e desprezo pelas pessoas, PFC aponta para um mundo de palavras diferentes. Os seus livros, assim como toda a sua vasta intervenção cívica (nomeadamente como sindicalista) e cultural, inscrevem-se no futuro, ou seja, no tempo que deve ser.

E em que passaremos (como é grande a nossa responsabilidade!) o resto dos nossos dias. O seu pensamento é como uma pedra que se atira para longe. Assim como não podemos viver sem amigos, também não podemos viver sem livros. Sou conhecido por gostar de oferecer livros de PFC. Convido-os a fazerem o mesmo

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