Crítica da condição docente

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

Docentes do Ensino Superior, fomos bons alunos e - mais importante - temos boa preparação. Somos dedicados, persistentes, trabalhadores, entusiasmados pelo que fazemos, e bem formados. Precisamente o tipo de trabalhadores cobiçados por qualquer empresa.

Mas fizemos uma escolha fatal: segui- mos a vocação. Sabíamos que era caminho difícil, que abraçávamos a carreira mais armadilhada e longa de todas, mal remunerada (nem comparemos com antigos colegas que seguiram outras vias). Mas não adivinhávamos tantas desilusões e falta ao pacto que nos fundou as expectativas.

Ao decidirmos ser Professores trocamos carreiras não docentes chorudas na iniciativa privada pela honra de servir o Estado e o Povo. E também fomos pela segurança, estabilidade do vínculo e certeza do vencimento, ainda que magro. Foi esse o pacto que fizemos. Toda a gente de boa fé o reconhecerá.

Foi grande erro, logro tremendo. Acreditamos na tradição de um Estado em que se podia confiar.

Agora cortam-nos salários e subsídios (que são apenas outra forma de salários), aumentam descontos obrigatórios, e ainda por cima somos alvo de muita desconsideração social e inveja (?).

Pelo crescente empobrecimento das Universidades, ficamos mais e mais privados de meios de trabalhar. Já pagamos para trabalhar! Não apenas pelos imensos gastos que temos em bibliografias, como cada vez mais pagamos para nos deslocarmos a eventos científicos e até a júris de provas. E o volume de trabalho letivo aumenta severamente por falta de contratações.

A burocracia, tentacular, é-nos fatal. Uma das formas de matar o pensamento e o labor autónomos é não lhes dar condições para se desenvolverem. Se só trabalharmos para a burocracia, não criamos, não inventamos, não pesquisamos. Isso alguns querem. O psitacista, meramente ambicioso, sem ideias, precisa de meios de bloquear quem as tem, neutralizando quem gosta do que faz e é criativo. Solução: fazer com que o trabalho se desvie do seu fim. Quem pouco vale está como peixe na água no supérfluo, e neutraliza quem vale.

Mas a profusão de burocracias, solicitações e confusões não será conspiração para que quem tem que pesquisar não pesquise e acabe por ensinar pior (por falta de tempo para preparar aulas), e se perca em formulários (agora informáticos) sem fim, relatórios, avaliações, provas, concursos, eventos, mostras, feiras, discursos, e o mais. Se o fosse, porém, não seria tão bem organizada a distração dos docentes e pesquisadores do que lhes diz respeito.

Mudar de vida? Alguns o fizeram, mas quem se devotou a este mister não será facilmente aceite. Excesso de habilitações, desde logo. E o mau hábito de pensar pela própria cabeça. Porém, não são os professores que devem deixar de o ser, é o sistema que deve mudar e deixar-nos servir o nosso País.

Que faire? Lutar, claro. Mas não se pode cair na armadilha de lutar e não viver, nem na armadilha de viver e não lutar. Qualquer delas pode ser fatal à vida e à luta.

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