Estrangulamento da Ciência

Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt

Neste número da “Ensino Superior – Revista do SNESup”, conferimos uma atenção particular à Ciência e à Investigação Científica. Esta escolha deve-se ao facto de a política governativa não ter poupado, no quadro da brutal asfixia que impôs ao país, uma área determinante para a afirmação de Portugal e da sua capacidade de inovação. E de, além disso, ter assumindo essa opção de estrangulamento da Ciência com desprezo pelos resultados alcançados num passado recente e com a jactância de ser transportadora de um novo paradigma de contornos tão incertos quanto sub-reptícios. Querer fazer mais com menos é um desiderato legítimo de sociedades responsáveis e competentes. Querer fazer muito sem nada ou com muito pouco, como é o caso da atual FCT, é insensatez governativa e/ou leviandade na abertura de portas à expulsão ou à escravidão da mão-de-obra qualificada. A FCT, numa política de fazer omeletes sem ovos, afunilou a torto e a direito, estreitando a entrada dos apoios, mas mantendo e até ampliando, irrealisticamente, as expetativas dos outputs, E com uma mão cheia de nada parece pretender este mundo e o outro. E aí está o paradigma da política de “encher chouriços”.

Carlos Fiolhais assina a rubrica Opinião, evidenciando o contraste resultante do percurso recente com as medidas decorrentes das atuais opções governativas. A secção Breves sumariza algumas das iniciativas que o SNESup levou a cabo no contexto do atual estrangulamento da Ciência. Abrimos o dossier central da revista, com um artigo de Daniel Melo, onde o autor foca e exemplifica o atual processo de destruição de democratização da Ciência. Daniel Melo enquadra e discute os processos recentes no âmbito dos desafios de uma política científica mais qualificadora das pessoas, das instituições e do país.

Neste dossier reproduzimos ainda as posições públicas de painéis e de membros de painéis do polémico concurso de bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento (2013), que levou já a FCT a um mea culpa imposto e mal assumido. Reproduzimos também as tomadas de posição do Conselho de Laboratórios Associados, que a política e as decisões recentes da FCT tiveram o condão de ressuscitar. O SNESup convidou todos os 36 coordenadores dos painéis do referido concurso a prestar um depoimento sobre o mesmo. Publicamos no dossier os 3 testemunhos recebidos. Fechamos o dossier com um artigo de Moisés de Lemos Martins sobre a insustentável condição a que a FCT, com a sua política de extermínio, está a sujeitar as Ciências Sociais.

O SNESup, pretendendo fazer um balanço dos dois anos de gestão de Manuel Seabra na FCT, solicitou uma entrevista ao Presidente da Fundação. Passado um mês e meio de envio do pedido, o SNESup ainda não recebeu qualquer resposta ao convite endereçado.

O destaque conferido ao dossier sobre Ciência e Política Científica faz com que, neste número, abdiquemos da Secção Jurídica. Mas o número 47 da “Ensino Superior – Revista do SNESup”, dá ainda conta, na secção Vida Sindical, das dinâmicas internas do Sindicato, onde o Presidente da Comissão de Fiscalização e Disciplina presta contas sobre o órgão. Aborda a questão das carreiras, trazendo para debate a precarização a que estão a ser sujeitos os Leitores, nas universidades públicas, e os docentes do ensino superior privado. Na secção Organização do Ensino discute-se o Ensino Superior após Bolonha em termos de mudanças pedagógicas e de desafios que traz para os docentes. Não faltam motivos para que este número da revista concite a atenção dos leitores.

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