Capítulo IV - Agapé, Sal, Luz e Outros...

Paulo Ferreira da Cunha

"O congresso decorria sem sobressaltos. Diziam-se coisas muito sábias, outras muito interessantes, outras mais consabidas. Para todos os gostos. A aceleração e a profusão de comunicações começava a pesar, e não garanto que não tenha fechado os olhos numa ou noutra conferência mais maçuda. Fechado, e derrapado para uma outra dimensão... Que vergonha! Mas é assim mesmo. Tenho surpreendido glórias das glórias académicas regaladamente nos braços de Morfeu, e a sono solto e claríssimo: até audível. Se se soubesse... Se nos atrevêssemos a dizê-lo...

É para mim um mistério ainda, ao cabo de tantos anos de experiência, como ainda há habitués destas coisas que persistem sem aprender as técnicas mais habituais. Porque há técnicas e truques essenciais. Fala-se muito e quer-se muito avaliação: mas não se deveria avaliar se um conferencista recita mantras inaudíveis e repetitivos ou dá mesmo uma palestra a sério? Infelizmente, os critérios avaliativos são só formais, e se o não fossem, seria pior ainda. Adiante.

Há há técnicas, há "truques"....

O primeiro é o do humor: até das anedotas. Conferência sem chistes, é conferência quase sempre falhada. Os nossos conferencistas sisudos não entendem que o público está a anos-luz do seu pretenciosismo que lembra o frei Jorge d'O Nome da Rosa. Em contrapartida, uma conferência não pode ser só anedotas... A boa combinação é uma arte.

O segundo é o da humilitas. Sem agradecimentos e sem confissão da ignorância, a animosidade dos sempre sábios (sempre muito mais sábios que qualquer sábio) que nos ouvem pode ser-nos fatal. Também aí chega a haver quem não contenha o seu ego enormíssimo e atire à cara do público o quão importante, poderoso e sábio é. Que tontice. Mas há quem não se contenha.

O terceiro é o do time is money: conferência demasiado longa é fiasco total. Ninguém aguenta. E contudo há quem, com sanha de cumpridor de relógio de ponto, não arrede pé sem ter debitado todas as suas folhas. E martirize assim a bocejante audiência. Contaram-me que um dia, um subtil presidente de mesa, declarou que o ilustre palestrante teria tempo livre, conquanto se pudesse ir jantar às 9h da noite: obviamente lhe sinalizando assim que tal hora já seria um absurdo, pois não se estava em Espanha. E não é que a luminária (que não era espanhola) martirizou uma arenga mal digerida até quase às 10? A sala ia-se esvaziando. Só quem dependia academicamente da personagem ou era excessivamente delicado permanceria.

O quarto ponto é o da espontaneidade. Vale mais uma medíocre conferência falada, que uma boa conferência lida. E contudo é óbvio que muitas glórias não saberiam dizer sem papel duas frases corridas. Por isso, lá vai papelzinho, e, hoje, o powerpoint... (o "ponto" moderno).

O quinto... ai, mas isto não é um manual do conferencista...

Dizia que sempre me admiro de como senhores muito respeitáveis e prestigiados se baralham nas notas, leem sem dó nem piedade laudas infindáveis apenas para eles mesmos (porque ninguém os ouve já, enquanto rangem as cadeiras, num gemido que clama por caridade). Ou então são obrigados a saltar o seu texto e remetem-nos para as Atas. Acho que a conferência ideal para alguns deles (e decerto menos penosa para o público) seria:

"- Ilustríssimas autoridades, Exmos. organizadores, etc., etc.

Caros colegas, Senhoras e Senhores: sou incompetente para versar este tema de que me incumbiram, por magnânima generosidade da organização. A sua complexidade não se compadece com os 15, 20, 30, 60, 90 minutos (escolher o apropriado) da minha palestra. Por isso, não abusarei da vossa paciência lendo um texto que frustraria as vossas expectativas e repugnaria o meu sentido da deontologia.

Poupar-vos-ei a isso, nem sequer vos remetendo para as Atas deste colóquio, cujas limitações de espaço se não quadram com a necessária detença no tratamento da magna questão. Modestamente, estou a preparar um tratado a tal propósito, em 3 (5? 10? 30?) volumes, para já, e para ele - sem propaganda, como é óbvio - remeto V. Exas. Aí, embora de forma perfunctória, assim exprimo o meu atual e ainda titubeante pensamento sobre o tema. Muito obrigado pela vossa atenção. Tenho dito".

E se efetivamente se escrevem e publicam os anunciados tomos,  depende de tal declaração ser apenas um álibi ou a manifestação anunciada de logorreia intelectual.

Ai que me perco! Pois neste congresso - coisa rara - não encontrei particulares exageros. Pelo contrário: a elegância e a sobriedade, o respeito pelo tema e pelo auditório primaram. Mas, como dizia, nem assim o calor externo deixou de produzir os seus efeitos, tal como os longos serões de conversa vária e animada. E dormitei aqui ou ali - isso o confesso.

Ora o adormecimento - desde a história da Bela Adormecida, pelo menos - é preparação calma e profunda para primeiras ou novas aventuras.

Voltava eu à vida e os meus olhos cruzaram-se pela primeira vez com um olhar sorridente, em que a luz - paradoxo ótico - emanava, magnética, de um negro profundo e nostálgico.

Cínico de há muito sobre os conhecimentos de congressos, leitor assíduo de David Lodge e sabedor das confusões dececionantes do small world dos fora científicos, logo passei a encolher de ombros cansado.

E o calor persistia, não como motivação, mas como fardo.

Decerto tendo-se apercebido do problema linguístico que experimentei, a minha interlocutora ótica dirigiu-se-me em castelhano, no final dos trabalhos.

Repouso do guerreiro, prémio da concentração no sonho de escutar coisas tão eruditas.

"Professor..." A pronúncia era correctíssima. E continuou falando, sem eu escutar lá muito...

Estaria ante uma dessas falantes do castelhano cuja melhor designação ainda será (correção política, social... à parte?) a de "salerosas"? O que não podemos obviamente traduzir de forma simples. Apenas consente a nossa língua que digamos "com sal". Admito que com outras especiarias também...

Mas não, desiluda-se o leitor... Começámos uma conversa amena e muito sem sal, asséptica como a ciência que ambos professávamos, com algumas ligeiras emoções quando encontrávamos livros, construções e autores comuns. Contraste curioso... Isso realmente inflama os intelectuais... Isso os apaixona de verdade.

Vos estis sal terrae, diz Jesus (Mat. V, 13). E eu lembro-o sempre não dos Evangelhos, mas desse Evangelho barroco e colorido, tão luso e tão brasileiro, que são os Sermões de António Vieira. Que catedral de talha dourada! Vós sois o sal da terra - disse-o, referindo-se aos discípulos. O sal é símbolo de purificação, arde como o fogo! Até a História ou a memória podem ser simbolizadas pela estátua de sal em que a arrependida (ou compadecida) mulher de Lot se tornou: olhar para trás, para o passado, é cristalizar, petrificar-se frequentemente em estátua de sal.

Também se salgavam feridas - quão cruelmente.

E o chão ardido dos lugares de traidores (ou tidos como tais) era depois salgado, para que nada de vivo mais brotasse naquele solo pisado e possuído por pés proscritos.

Pois toda esta viagem gira em torno do sal.

Mesmo a última refeição fora muito, muito salgada. Vi-me obrigado a repetir copos de água sem fim... A densidade da sapiência, sapida scientia, ciência salgada, dá destas coisas.

E de repente, elevando-se do prosaico de um prato salgado, um novo Pentecostes - e recordando ainda o sal do batismo - algo de surpreendente aconteceu.

Pela primeira vez, naqueles dias todos, me senti à vontade e realmente eu próprio. Sem que o houvesse decidido, sem mesmo que o tivesse dado conta, já não articulava o italiano escolar mas puro do velho e caro Giuseppe, cujos bigodes retorcidos e tutelares eu recordava em cada formulação mais obtusa: falava o meu salgado, marítimo e querido Português.

"... quanto do seu sal são lágrimas de Portugal".

Lágrimas certamente também de mouras encantadas de olhos negros ou castanhos escuros - essas que nos moldaram ancestralmente o nosso "eterno feminino". Pelo menos assim o defende - e eu quero crer que é verdade - o clássico Gilberto Freyre.

Pois ali estava eu falando essa saborosa língua das metáforas marítimas: ir de vento em popa ou a todo o pano, e não falava à toa, mas dava comigo a navegar conforme os ventos, sem fazer nunca marcha à ré para o italiano. Deixara de estar com a borda debaixo de água, para, transportado a um mar de bonança, chegar ao porto seguro de uma perfeita compreensão.

Levar-me-á muito a mal o leitor e a crítica se mostrar aqui os andaimes do meu texto prestando homenagem a Jaime Cortesão por admiravelmente ter teorizado e ilustrado este caráter marítimo da nossa língua? Rejubilei quando na sua pena elegante e conhecedora vi confirmada uma breve intuição que desde novo tivera: o sabor a sal e a brisa marítima da nossa "casa do ser", a nossa língua.

O almoço decorreu com belíssimos ventos e todos se admiraram de como, afinal, entendiam perfeitamente o português. Recordei então que houvera encetado contacto com o grande organizador do colóquio de forma linguisticamente anómala: tendo eu publicado um artigo em alemão sobre essa temática, ele escreveu-me em alemão também. O que motivara uma resposta minha, creio que em português já, invocando a grande comunidade linguística latina: e pedindo-lhe que doravante cada qual escrevesse na sua língua.

Afinal, o círculo fechava-se e eu não me dera conta disso.

Nunca mais veria a interlocutora de castelhano salgado. Curioso. Reparo agora que é uma língua que, se muito falada, me dá ganas de beber, faz sede. Um forte aperto de mão selaria a nossa despedida. Há encontros que se esgotam num olhar. O que há é pouca gente para dar por isso. E certamente menos ainda para os viver.

Subi para acabar de fazer as malas. Desci, com o hotel já vazio, paguei a conta de meia dúzia de telefonemas e da água mineral suplementar - preço do sal. E recordei o meu triunfo linguístico à chegada. Habituadas já à minha competência quotidiana, as rececionistas foram apenas polidas. Sic transit ...

Vinguei-me não deixando senão gorjeta mínima e tomei um táxi.

No caminho para o aeroporto, o taxista, desta feita homem discreto com seu farto bigode de bonus pater familias, interrompeu-me dos meus sonhos, verdadeiramente preocupado:

"- Está a sentir-se bem, senhor?"

Eu encontrava-me quase deitado no assento de trás do automóvel certamente com o ar imóvel e um sorriso ucrónico e brilhante.

E não o efeito de nenhum sentimento terreno, não era a recordação de nada nem de ninguém.

Tinha olhado em despedida para Nápoles, dessa colina que era já minha torre de vigia do mundo, e desse carro em andamento, descendo veloz, encarei o sol todo-poderoso. E tudo se me colocou em ordem no ainda agitado espírito. Tudo estava bem.

Não era o sol. Não era o sol. Era uma luz suave, como música de seda, que continuava a brilhar mesmo depois de ter cessado de olhar. Mesmo havendo cerrado os olhos - talvez para a ver melhor. Era um renascimento. Sentia-me lavado numa cachoeira libertadora.

Respondi, calmo, pausado, e em português:

"- Meu amigo, estou bem, perfeitamente bem. Nunca me senti tão bem na minha vida".

O taxista deve ter encolhido os ombros, ainda intrigado. Mas turista é assim mesmo, bicho exótico. Não olhei para ele, permaneci de olhos cerrados.

Depois, a sensação parou. A felicidade só não era perfeita por ter a curiosa ideia da sua solidão: não a podia partilhar, e era tão trasbordantemente total!

Alguns dias mais tarde, já regressado, voltei a sentir, embora mais tenuemente, essa excelente alucinação. E nunca mais voltei a senti-la.

Calor a mais, insolação, sonho, efeitos secundários de qualquer das experiências vividas? Os cientistas e os opinadores poderão discutir.

Para mim, foi um batismo. Um batismo feito não com água, mas com sol e sal. Um batismo que começou com as palavras e terminou no mais recolhido silêncio. Um batismo que começou com pessoas e termina, certamente, com essa misteriosa e surda voz do Deus desconhecido: a Luz. Vos estis lux mundi (Mt., V, 14). Como tanta coisa se pode passar de um versículo a outro..."

Cansado já, Guilherme, como Jahvé, achou que o texto estava bom. Não penso o mesmo. Extrapola em demasia. Chega a ser piegas. Mas, afinal, ele é um artista... desculpa-se.

Não, não é por ele ser arquiteto que o desculpo. Ora, ora. É porque é o meu mestre e senhor. Como sou seu génio da lâmpada, ou lâmpada do génio. Isso mesmo. Nunca tinham reparado que o bule é a lâmpada do génio adaptada a estes tempos modernos, dessacralizados? Pois vo-lo digo.

Mas para que me não excomunguem mais, negando-me quiçá existência com vossos cutelos ontológicos, vou eclipsar-me um bom bocado e deixar a cena passar diante de vós. Guilherme é suficiente. Ele fará a festa. Torno-me agora deus ocioso...

Mas só uma palavrinha mais.

Desde este encontro-imediato, não sei de que grau, Guilherme começou a recordar o passado no diário. Voltou para trás. Acho graça, porque ele o conta com ares de ensaísta. Mistura memória com teoria...

Era só para avisar. Se por aí virem esses papéis dele, não liguem. São memórias inventadas.

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