PIGLETS

Paulo Peixoto
Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra

 

São vários os acrónimos usados na gíria económica e mediática para destacar ou para esconder - depende da perspetiva, sendo que a minha é a segunda - o estado calamitoso das economias de alguns países e, genericamente, da economia mundial. O pejorativo PIGS tornou-se o mais comum. Originalmente cunhado para dar conta dos riscos relativos às dívidas soberanas de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain, em inglês), depressa o termo se tornou insuficiente para traduzir uma realidade bem mais grave.

Prontamente, o "I" de Itália, passou a ser confundido com o "I" de Irlanda, tendo o acrónimo evoluído para PIIGS e, mais tarde, com a junção da Islândia, para PIIIGS. Noutra variante, PIIIGGS, com mais um "G", inclui já a Grã-Bretanha. RUPIIGS incorpora, não só o Reino Unido (UK) mas também a Roménia. Com a dívida pública norte americana (United States) a atingir níveis não menos preocupantes, o acrónimo USPIIGS entra no mercado do aviltamento evidenciando que, ao contrário do que o acrónimo original pronunciava, e contra as intenções daqueles que pretenderam instrumentalizá-lo para desviar atenções e encontrar bodes expiatórios (em concreto os media especializados ingleses e norte-americanos), o centro da crise financeira e orçamental se localizava em economias bem mais relevantes na cena mundial.

Não menos ultrajante, traduzindo, a um tempo, a escalada do mercado do aviltamento e a entrada de outros países no rol das economias em dificuldade, o acrónimo STUPID (Spain, Turquia, UK, Portugal, Itália/Irlanda e Dubai) sobrevém a um desajustado PIGS. O que muitos veem como um acrónimo forçado não deixa de resultar da facilidade em encontrar cada vez mais países que engrossam uma lista de que ninguém quer fazer parte mas donde poucos escapam.

No contexto da União Europeia UE, os PIGS tornaram-se um problema e deram forma à profecia que se autoconcretiza. Primeiro a Grécia. Depois a Irlanda. Seguiu-se Portugal. Receia-se pela Espanha. Escapará a Itália? Para os problemas crescentes que se levantam, a UE - e dentro dela os países credores - não revela capacidade, e muito menos vontade, em enfrentar a situação, optando, com a batuta alemã da populista Angela Merkel, por uma estratégia centrípeta que veta os mais frágeis a um ostracismo desonroso e agonizante. A estigmatização é uma dimensão do problema. Mas há outras dimensões bem mais relevantes, embora menos visíveis. O quadro em que ocorrem as negociações para a definição do 8º FP para a investigação é disso um exemplo.

A avaliação do 7º FP para a investigação e a ciência mostra que, olhando-se para as 50 instituições de I&D que mais beneficiaram financeiramente com o 7º FP, as unidades de I&D inglesas (17,4%), francesas (14,6%) e alemãs (14,5%) - não contando com as unidades, muitas delas localizadas nesses países, que têm um estatuto supranacional (e 9,2% dos fundos) - são as principais beneficiárias. E se unidades de países como a Suíça captaram 8,7% dos fundos, países como a Bélgica (3,8%), a Dinamarca (3%), a Itália (2,5%), ou a Espanha (2%) ficam bem aquém desses valores. O padrão de concentração de fundos europeus para I&D é ainda mais significativo se, em vez das unidades de I&D, considerarmos as indústrias beneficiárias.

Não deixa se ser preocupante, neste contexto, que, no âmbito da conceção do 8º FP, estejam a ser promovidas, pelos principais Estados beneficiários, com a Alemanha à cabeça, medidas que facilitem um maior padrão de concentração. Como não deixa de ser inquietante a adoção de mecanismos que diminuem as oportunidades de financiamento para atividades de investigação em áreas marginais, como as ciências sociais. Ou ainda a determinação de quadros de cooperação que assentam em perspetivas orientadas para a uma Europa cada vez mais amedrontada com os fluxos migratórios.

A UE fecha-se progressivamente numa alcáçova ensimesmada, criando à sua volta um conjunto de países que é cada vez mais visto pelo núcleo duro da UE como indolentes e parasitas. Não são apenas os PIGS, vistos como mamões incorrigíveis. São também a Líbia, o Egito, a Tunísia. Diríamos, para demonstrar, num contexto de crescente instrumentalização da estigmatização a que são sujeitos os países mais frágeis da UE, mas também os nossos vizinhos africanos, e para evidenciar que o mercado do aviltamento não tem limites, que são os PIGLETS. Deutschland, Deutschland über alles. E a Europa?

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