O Ensino Superior é um Titanic

Fernando de Almada
Professor Associado
Felizmente Aposentado*

 

Só não vê mesmo quem não quer, estamos a ir ao fundo, muito fundo. E no entanto a música continua a tocar.

O problema é muito grave, pois é certo que as universidades e politécnicos não têm razão, mas o ministério também não. O governo não tem razão, mas a oposição também não. As avaliações cumprem a lei, as estatísticas são do melhor, a investigação é uma maravilha (há alguns polos excelentes, mas não passam de situações pontuais, convenhamos), mas não há quem consiga "faturações" que permitam ganhar a independência própria da maturidade (das instituições, das pessoas, das mentalidades) que garanta um desenvolvimento sustentado sem sobressaltos.

Também o Titanic era inafundável, o gelo andava por lá mas não interessava, pois o comandante devia saber o que fazia...estava tudo certo...até ir ao fundo.

Pelo menos o comandante teve a dignidade de ir ao fundo com o navio...era o mínimo (mas é exemplo que poucos sabem seguir).

Será que ainda há alguém que admita a credibilidade de qualidade conferida pelos artigos ISI, congéneres e sucedâneos? Eu, não consigo encontrar ninguém.

Até aqueles que, pessoalmente, faturam (as "trinta moedas" do contributo para as estatísticas?) com a produção destes artigos dizem mal do processo.

E no entanto, acreditem (creiam) ou não, os artigos basta serem ISI (ou congéneres) para serem acreditados (afiançados), não é? Não será este um bom indicador do valor das acreditações em que temos de acreditar?

O Professor Alberto Amaral será capaz de dizer que as decisões são tomadas com base na aplicação da lei e que estamos no melhor dos mundos sem se rir, com aquele riso...que costuma fazer? E quando fala com reverência sobre o "pecado capital" de não ter o reconhecimento dos pares não estará a esquecer que as transformações se dão por roturas que, pelo menos no início, ninguém aceita, mas que contra tudo e contra todos conseguem afirmar-se, não só porque tinham razão, mas também porque não foram liquidadas entretanto? Ora isto acontece não só nas grandes teorias que fazem manchete (quando sobrevivem), mas também na inovação, na organização da investigação, na nova forma de dar uma aula, na orientação de uma publicação e em tantas outras pequenas coisas que fazem bulir o mundo. É tão difícil perder o espírito inquisitorial, não é?

Claro que está a cumprir a lei, mas é bom não esquecer que em Nuremberga enforcaram alguns que também o faziam.

 

 

Portaria n.º 517/2008 de 25 de Junho

(Nota do autor: sobre o alojamento local)

O Decreto -Lei n.º 39/2008, de 7 de Março, Artigo 9.º

Placa identificativa

2 - A placa identificativa dos estabelecimentos de alojamento local é de mate- rial acrílico cristal transparente, extrudido e polido, com 10 mm de espessura, devendo observar as seguintes características:

a) Dimensão de 20 mm × 20 mm;

b) Tipo de letra Arial 200, de cor azul escura (pantone 280);

c) Aplicação com a distância de 50 mm da parede, através de parafusos de aço inox em cada canto, com 8 mm de diâmetro e 60 mm de comprimento.

Só falta definir as coimas para o caso do parafuso ter 59 mm, ou a placa estar a

48,78mm da parede.

(Nota: para uma entidade, Estado, que não sabe quantos funcionários tem não é pedir pouco, já para não falar que é uma placa onde não cabem as cabeças dos parafusos, ligeiro lapso, que o calor dilata os corpos e que não há paredes perfeitamente lisas.

Poderíamos dizer que "há o bom senso e o bom gosto de quem aplica a legislação"! Mas podemos, Professor Alberto Amaral?)

 

 

Já agora, a propósito de lei, transcrevo "uma pérola" (uma de entre as centenas de anedotas semelhantes que poderia citar). Um exemplo que, penso, salienta o sentido crítico que devemos exercer quando utilizamos a tal desculpa do "está na lei":

Este é um exemplo, fora da nossa área para podermos rir à vontade, pois des- graças no ensino superior já temos que cheguem.

Podemos então afirmar que o ensino superior é um Titanic.

Mas será que nos estamos a entender? É que eu estou a falar em termos de processo e não de acontecimento.

O Titanic choca não pelo facto horrível de ter ido ao fundo e terem morrido tantas pessoas. Este acontecimento, horrível como dizíamos, é suplantado pelas pavorosas incongruências do processo. E navios afundados há muitos (infelizmente) e até com muito mais vítimas (o Titanic com 1523, mas temos o Wilhelm Gustloff com 9343, o Goya com 6666, o Cap Arcona com 5594, até mais recentes, mas ninguém se lembra deles).

O que é difícil de admitir e aceitar é que o "inafundável" Titanic se tenha afundado na viagem inaugural, por um erro crasso de decisão (não reduzir a velocidade, por causa da "imagem"), com muita gente que morreu porque não julgou necessário ir para os salva-vidas (até o pânico se ter estabelecido), tendo os habituais exercícios de evacuação do navio sido anulados porque o capitão estava ocupado com as relações sociais e não queria incomodar os passageiros, os vigias não tinham binóculos porque ... mas se o navio era inafundável!

Mas os erros vinham lá muito de trás. Monumento ao progresso e à tecnologia, o Titanic não tinha um sistema de inversão de marcha (embora o oficial de quarto tenha dado ordem para o ativar, o que indica falta de preparação e de treino neste navio), o leme era demasiadamente pequeno para o tamanho do navio, o ferro dos rebites tinha escórias a mais o que os tornava quebradiços ao choque, ...mas se o navio era inafundável!

E num navio inafundável as anteparas que criavam compartimentos estanques, que deveriam conter uma inundação, não tinham altura suficiente, certamente para poupar custo e peso, mas foi acrescentada uma chaminé falsa (sem qualquer utilidade funcional, mas com um intuito "estético") para ... "dar uma noção de potência" - tão "universitário", não é? É nesta perspetiva de processo que fazemos a crítica ao ensino superior e a afirmação de que este é um Titanic. Acontecimentos? Sim há muitos criticáveis, mas vistos de uma forma isolada e sem tentar compreender as consequências (diretas, mas também as colaterais) nas dialéticas que sempre se estabelecem, parecem não passar de incidentes que só um malevolente pode salientar (Nota - antes de irem para o fundo, claro, tanto no Titanic como nas universidade e politécnicos, como veremos).

Podemo-nos interrogar -

  • Que mal tem investir em artigos ISI?

Nenhum mal, isto se:

1- As avaliações dos docentes não se centrarem principalmente (exclusivamente) neste parâmetro.

2- As aulas não deixarem de ter valor para as instituições, desde que os docentes (docentes?) vão publicando.

3- O pagamento que é feito aos docentes "publicadores" não distorcer os valores das funções a exercer pelos docentes (publica? docente de primeira, os outros vão lecionar - e o mesmo para as instituições).

4- As instituições não se juntarem para uma economia de escala da publicação (note-se, não é da produção de conhecimento) e não da qualidade (alguns confundem publicar com qualidade de funcionamento de uma instituição do ensino superior, mas é um erro).

 

5- Não houvesse muitos "referees" de revista ISI que não são nem doutorados nem têm uma carreira profissional de referência, (mas devem ser amigos...).

6- Os critérios de avaliação dos artigos não se centrassem fundamentalmente na a) dificuldade (praxe) da formatação (informática) do artigo, b) citação de artigos da mesma revista e c) utilização de equipamentos caros (muitas vezes com discriminações sem qualquer interesse para o tema em causa e que só dificultam a passagem do laboratório para a aplicação prática, isto é, da investigação, para a tecnologia, na tripla relação I, D & T).

7- O privilégio dado às revistas ISI tivesse por base uma análise da qualidade e não uma negociata de "eu promovo as tuas revistas, tu baixas o preço" (se não foi qualquer coisa "pior").

  • Não é bom haver avaliação, das instituições e das pessoas, no ensino superior? Claro que é, exceto -

1- Se os critérios de avaliação estiverem errados, se os avaliadores usarem a avaliação como arma de afirmação pessoal (um exemplo real - vocês não têm os meus livros na biblioteca?), se as instituições maiores não procurarem abafar a "concorrência das mais pequenas"...

2- Se a avaliação não tiver subjacente e de uma forma explícita a política que pretende servir, os objetivos visados, as estratégias implícitas, e a relação entre os resultados da avaliação e os efeitos produzidos...

3- Se não houver uma avaliação/responsabilização dos avaliadores...

4- Se as instituições perderem a autonomia para definir políticas, estratégias e de escolha dos meios para a sua implementação, o que lhes retira (como se vê) a responsabilidade sobre os resulta- dos alcançados...

5- Se as avaliações não cumprirem aqueles parâmetros que são do conhecimento de qualquer investigador que investiga (há os burocratas de laboratório, que gostavam de ser técnicos mas não têm qualidade para isso), isto é - objetividade, pertinência, validade, fidelidade, transferibilidade, etc.

6- Se, numa espécie de "requinte chinês" onde a bala dos condenados à morte é paga pela família, as entidades avaliadoras tiverem de, obrigatoriamente, ser pagas (e bem pagas) pelas entidades avaliadas.

Nota - E já agora digam-me lá, porque é que a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, vulgo A3ES, uma entidade portuguesa (suponho?), tem o site todo escrito em inglês (aqui o computador pede-me em relação a "site", para ver se os estrangeirismos e os latinismos estão em itálico - engraçado, não é?). Saloiísmo ou já não sabem português?

(Nota - se fosse o menu de um pequeno restaurante que não tivesse uma versão em português, vinha a ASAE e multava).

  • Não me digam que as universidades (fundações ou não) e politécnicos não estão a evoluir, tendo hoje já uma parte do seu orçamento proveniente de receitas própria! Estarão, se:

1 - Garantirem que os atuais mestrados e doutoramentos têm a mesma qualidade (nem peço mais, o que é pouca exigência) que tinham os "antigos" e se os licenciados (= os que têm licença para... tomar decisões) têm a mesma capacidade profissional que tinham "os antigos" (que, diga-se, não era famosa). Se isto não acontecer houve uma degradação nas habilitações conferidas.

2- As baixas percentagens de reprovações, em todos os cursos, não forem consequência da necessidade de corresponder a critérios de avaliação (dos docentes e dos cursos), correspondendo, portanto, a uma avaliação séria das competências.

3- O excesso (e um excesso é sempre um excesso) de regulamentos e de burocracias não procurar só esconder uma incapacidade para definir estratégias e intervir por parte dos órgãos dirigentes (a todos os níveis, mas evidentemente mais no topo).

4- a) O desaparecimento de matemáticas e físicas e outras matérias "difíceis", b) os testes "enviesados" (todos sabem o que quero dizer), c) a simplificação de matérias, que assim ficam de tal forma truncadas que se resumem a saber repetir alguns chavões, d) a existência de docentes que não sabem mais do que o "livro único" que despejam na aula e usam-se processos pedagógicos que já "a minha avó" chamaria de antiquados, etc., não passar tudo de imaginação minha.

Aliás nada disto tem a ver com qualidade, pois não?

  • Mas, e é o bolo em cima da cereja (não me enganei, não), o cúmulo dos cúmulos, é o que se passa em termos de conteúdos, de cursos e de disciplinas. É, sobretudo, um problema de conhecimento.

Magníficos Reitores e Presidentes, os fundamentos da crise não são económicos nem politico/administrativos nem políticos. Estas crises, vistas ao nível de instituições como as Universidades e os Politécnicos (órgãos de governo do longo prazo, pois gerem com ciclos de uma geração, ou seja, pelo menos de vinte anos) não são mais do que incidentes, muitas vezes desculpas. Desculpas e birras como "não tenho dinheiro vou fechar no Natal" ou "ou me dão dinheiro ou vou tirar o aquecimento aos alunos" não dignificam os autores. Se não há, de facto, condições demitam-se, antes de terem de ir para o fundo com o navio.

A crise que se vive no ensino superior é conceptual e do conhecimento, extravasando, claro, em seguida, para as outras crises. Vivemos (todos em geral, nas "sociedades desenvolvidas", mas de forma mais intensa o ensino superior e a investigação, âmbito de tratamento destes fatores) uma crise (veja-se Kuhn) de passagem de um conhecimento, que chamaremos, para simplificar, com enfoque em acontecimentos e com uma visão determinista, para um conhecimento que já é capaz de abarcar as dialéticas que existem e as suas dinâmicas. Esta forma de tratamento dos fenómenos integrados em âmbitos cada vez mais globais, como já se faz na maioria das áreas do conhecimento, embora muitas vezes de forma ainda incipiente (a crise leva tempo a passar e a "ciência normal" a consolidar-se - Kuhn, novamente) é essencial para nos mantermos competitivos.

Ora um conhecimento feito da compreensão de dialéticas não se compadece (porque há uma coerência global a respeitar, para podermos ser eficientes, repetimos) com estruturas rígidas 1 - na gestão institucional, 2 - na avaliação das instituições, das ferramentas utilizadas, de programas e de docentes, etc., 3 da legislação e normativos, 4 - dos processos pedagógicos.

Gerir é também saber-se adaptar ao contexto de uma forma eficiente e quando o contexto muda...

  • Oiço vozes que dizem "...ainda me vem dizer que dois e dois não são quatro!"

- Pois é que não são mesmo. São aproximadamente quatro.

Podemos simplificar na tabuada (até para dominarmos mais os "miúdos" que fazem a cantilena (ainda fazem? estamos mais atrasados do que eu pensava) do 2x2=4, 2x3=6..., mas 2 é sempre 2,000... até encontrarmos um algarismo diferente de 0.

Se tivessem aprendido assim a tabuada teriam compreendido facilmente Karl Popper e a sua conjetura/refutação e falsificação, por oposição à demonstração da verdade.

E também perceberiam mais facilmente Kuhn quando entendessem que há alturas em que as medidas se tornam indivisíveis pelos processos usados até aí, e é, portanto, necessária uma rotura.

O ensino superior é um Titanic?

Claro que tenho uma ideia formada, mas estou plenamente disposto a mudar de opinião se as razões que me levaram a assumir estas posições estiverem erradas. E não tentarei impingir as minhas ideias aos outros, mas estou sempre disponível para lhes apresentar as minhas razões. Que acha o leitor?

Percebo que há erros de forma e erros de processo. Há um erro típico e frequente da passagem de uma técnica de laboratório para um raciocínio normal na organização do dia-a-dia e, mais grave, na gestão de projetos e de instituições.

No laboratório é boa prática isolar (na medida do possível, e por vezes é tão difícil, não é?) uma variável (ou pequeno grupo de variáveis) e de pensar "se tudo o resto ficar na mesma ... a evolução será feita do seguinte modo...".

Mas tirar esta prática do laboratório para "a vida corrente" é um erro crasso (não, não disse Crato). O que acontece é que, mesmo não se sabendo o que irá acontecer, uma coisa é certa, é que nunca " ficará tudo na mesma". E o raciocínio que pode estar certo (que representa mesmo uma grande evolução em termos de metodologia no trabalho laboratorial) passa a ser um grande disparate quando se passa para situações ecológicas e para a compreensão de fenómenos mais amplos.

Passar de uma lógica em que se pretende só (?) compreender os acontecimentos, para uma outra em que para além do conhecimento dos acontecimentos se procura também integrar, em processos coerentes e tão sólidos quanto possível, "o que sabemos", permite (mais uma vantagem) fugir ao determinismo tecnológico.

É, assim, possível perceber e integrar essa compreensão na gestão de "sistemas vivos", de modo a podermos enfrentar a relação I,D&T de uma forma eficiente e dando coerência às transformações obtidas pela pressão das inovações tecnológicas, assim como definir as medidas a tomar para gerar novas tecnologias úteis (technology push e technology pull, que são mais complementares do que opostas). Uma visão que é essencial a quem orienta e gere a investigação e a educação/formação, sobretudo a nível superior.

Pensamos que é preciso ter consciência que os Politécnicos e as Universidades perderam o monopólio que tinham da distribuição de um conhecimento de "nível elevado" e que só sobrevivem porque estão presos pelos "canudos" (dos diplomas de que ainda são vendedores privilegiados). Uma sobrevivência muito pouco consistente para justificar o investimento social necessário.

Encontrar soluções alternativas e nichos de mercado (ou outra coisa que lhes queiram chamar) capazes de responder aos desafios que enfrentamos é fundamental. Para as instituições, para as pessoas que nelas labutam (docentes, investigadores, alunos e funcionários), mas, sobretudo, para as sociedades que queiram dar aos seus cidadãos uma qualidade de vida e de dignidade ..."mínima". Neste mundo cada vez mais global e interdependente, as autonomias ganham-se, como é já bem visível, não nas fronteiras ou na moeda, mas nas culturas, na capa- cidade de empreender e na possibilidade de adaptar às características próprias (personalizar) as essências da vida. Sem isso vivemos em "segunda mão", dos "restos que sobejem aos outros" ou do que nos queiram dar. Mesmo que a música continue a tocar.

A terminar, não consegui evitar que me escapasse, tipo lapsos linguae, dirigindo-me a pessoas muito importantes no nosso "sistema ensino" (êh! não é por acaso, sistema ensino e não educação/formação): Senhores Professores, percam me- nos tempo nas fichitas das "estatísticas maravilha" e na politiqueira e vão mas é estudar para poderem compreender a fundamentação das dinâmicas que devem orientar! Estudar e investigar são funções dignas e gratificantes, para quem gosta, para além de uma obrigação social, para quem as desempenha.

Sem isso deem lugar a um gestor que pode não conhecer os alicerces do produto do ensino superior (o que é mau), mas então terá que ser bom a gerir (Nota - pelo menos será bom em alguma coisa).

 

* Esqueçam o estereótipo do reformado a jogar às cartas no jardim. Reformei-me para poder trabalhar/produzir sem empecilhos.

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