Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

IX. Estado e Particulares em Políticas de Educação

Só um líquido fumegante em bule adequado permite que a conversa corra solta e amigável. Quem vo-lo assevera sou eu, bule encartado, e testemunha dos melhores colóquios. Olhem o que se seguiu, nessa noite fria em que estávamos:

- Sou sensível a essa situação. Mas tens de concordar que pode haver abusos. Repara: imagina, imagina só, se vier a haver uma universidade privada pouco escrupulosa; ou uma estação de televisão que faça descarada ou (pior) veladamente a propaganda de um partido, ou promova um produto qualquer fora do espaço publicitário. Isso não pode ser permitido, a bem dos interesses da comunidade. E os exemplos hipotéticos poderiam repetir-se, como calculas...

- Compreendo a tua preocupação. Mas estás muito radical, e mesmo utópico. Como é que vais evitar que o senhor X, dono de um império informativo (ou um grupo de senhores, claro), não use os meios que tem para a sua campanha política, ou para a dos seus amigos, parentes, correligionários? Ele pode até pensar que está a seguir um imperativo de consciência, que a uma qualquer providência lhe pôs nas mãos as armas para um mundo melhor... E impedi-lo não seria até limitativo do próprio direito de propriedade (de que vale, neste caso, ser dono se não se pode decidir do conteúdo do que se publica ou emite?), além da liberdade de expressão? E quanto às escolas, falemos claro: não querem todos facilidade? Como vais controlar uma instituição como uma escola, que todos os dias emite solenes juízos de ciência e valor? Vais pôr um polícia letrado atrás de cada docente... para detetar se é in-docente? - e não escondeu um sorriso de ironia, pelo neologismo, prosseguindo, com mais fôlego:

- Ao quereres estabelecer uma sociedade angélica, ias ter contra ti todos. A começar pelos paizinhos das crianças que acham que faz muito jeito uma transferência para conseguir a notinha mais alta que conseguirá furar o numerus clausus. E, depois, não podes argumentar nada: porque quem pode lá discutir a disparidade de bitolas? Aí pões em causa o direito sagrado de ensinar - que é um dogma em que acredito, aliás... e talvez o de aprender. E se o viesses a fazer, realmente só poderia ser através de burocratas formalistas que nunca iriam compreender nada, obrigariam as escolas a mil e uma papeladas (ou coisas informáticas, piores ainda, mais obtusas e sujeitas a erros) sem sentido e sem interesse, e seria pior a emenda... Não tens a mínima hipótese. Contenta-te em verificar as contas dessas escolas ou dessas empresas, e pouco mais, que já não é mau.

- De modo nenhum. Recuso-me a aceitar a venda da certificação do saber, ainda que seja de forma apenas laxista e não ativamente corrupta. Como me recuso a admitir que um homem ou um punhado deles, pelo seu dinheiro, possam ter uma voz mais potente que a de outros, impondo aos seus concidadãos a sua verdade.

- Então tens que acabar com a comunicação e o ensino privados, passas para o monopólio público, e logo tens uns tecnocratas e burocratas ou uns comissários políticos a decidir do que consomes nos media e na escola. Não sei qual situação seja pior.

- Não é esse o meu modelo, Deus me livre. Liberdade, sempre Liberdade. Mas obviamente dentro de regras. Inspeções científicas, pedagógicas, administrativas e financeiras a todas as escolas, públicas e privadas, e igual tratamento delas pelo Estado. E garantia do pluralismo informativo nos órgãos de comunicação.

- Entras em contradição. Não disseste antes que a escola pública e a informação pública tinham de ter um rumo, uma linha, uma política?

- Sim, mas isso não exclui o pluralismo. Essa linha é plural, é a do máximo consenso entre os que sustentam a República.

- Onde tu vais!... Isso parece-me muito parecido com o pluralismo dentro do monolitismo. É inegável que até nos mais férreos conclaves ditatoriais pode haver votações, há por vezes mesmo tendências. Logo, há pluralismo. Dize-me lá: tu aceitarias um anarquista ou um nazi a falar (no fundo, a doutrinar) na tua televisão?

- Se calhar, na sociedade de que falo, essas designações já nem fariam sentido. Tratar-se-ia de um outro modelo de Estado... Por outro lado, eu distingo entre um anarquista e um nazi. Distingo muito.

- Eu sei, eu sei... evidentemente, eu também... - e sorriu, condescendente. Mas, vamos ao que importa: esse teu Estado, seria um Estado democrático, não? É difícil de entender-te, por vezes - picava o outro.

Logo ele volveu, altissonante e pedagógico:

- Claro que seria um Estado democrático, de Direito e tudo o mais. Mas não vês que isso das etiquetas são coisas postiças que cada um adota por sentimentalismo mais que por razão? Somos frequentemente incoerentes com as nossas, ou alegadamente nossas, ideologias. Só um burro completo tentará comportar-se como manda a sua ideologia. Geralmente os homens inteligentes mantêm esses emblemas na lapela, mas assumem posições consoante lhes dita a sua razão e moral. Ora, para vermos o teu caso, um nazi ou um anarquista inteligentes e moralmente bem formados terão de aceitar princípios de elementar convivência cívica, e, assim, serão de alguma maneira, e apesar de si próprios ou do que julgam ser, democratas.

- Quer dizer que não é da natureza do tigre ser feroz? Que pode haver um tigre bem-educado, que lime as garras na manicure, talvez... Tens de reler o Raymond Aron...

- Sabes que se beberem leitinho desde crianças, podem ser como gatinhos - atalhou, entendendo a crítica.

- Ainda era o que queria ver, nazis e anarquistas num cocktail elegante trocando ramalhetes. Não meu caro, falas decerto de intelectuais arrependidos ou muito reprimidos. Não dos que têm as garras de fora. Acho muito perigoso o teu discurso. O fascismo está aí de novo à nossa espreita, e pode vir com o álibi de que anarquistas subversivos, sabe-se lá que papões, estão a minar o Estado, etc., etc... Já leste o livro O Eterno Retorno do Fascismo, de Rob Rie- man? Vale a pena... A democracia está realmente em perigo. Embora estejamos todos narcotizados a discutir ninharias...

- Não te sabia tão democrata. Essas tuas barbas até me sugeririam que tivesses sido trotskista... Olha que estou advertido desse perigo. Mas a democracia e a sua força moral... - e começava a gesticular e a tornar-se um tudo-nada pomposo - Não precisas de ser radical ao ponto...

- Enganas-te - atalhou o outro, passando da bonomia à firmeza. E continuou: Sempre fui um moderado. Mesmo quando foi preciso ser revolucionariamente moderado.

- Então modera o teu espanto e deixa-me continuar- o trocadilho descomprime, e ele queria desfazer aquele nó. E continuou, calmo:

- Eu sei que é complicado conciliar a democracia com a ética no Estado. Mas só assim se poderá salvar a democracia. Porque, sem ética, a democracia é um vazio formalismo. Também só o Estado eivado de virtudes republicanas tem autoridade moral para seguir uma política pluralista de educação. Mas uma política. Ou seja, algo de estruturado, com um sentido.

- Bem, vou poupar-te o discurso. Presumo que o Estado vigiará os media e a educação, democraticamente e com base na lei e muito ancorado na arbitragem dos tribunais, educará as criancinhas a não fazerem tropelias, a lerem livros e a não verem filmes impróprios, a gostarem muito de trabalhar, mas não exageradamente, para terem tempo para ler, ir a concertos e para educarem a respetiva descendência, chegado o tempo. Creio que darás largos abonos de família, subsídios de natalidade, longas licenças de parto a pais e a mães, reduzirás a duração do trabalho, incentivarás um labor humanizado pelos métodos modernos dos recursos humanos, e que a tua televisão abundará em debates científicos e óperas.

- É uma ótima caricatura, que se aproxima muito da verdade.

- E como vais pagar isso, e defender-te da oposição, desde logo da que não joga o jogo do minuete democrático? Todos os dias nos dizem que estamos na miséria, e que temos é de apertar o cinto. A Economia, a Finança... essas são as deusas devoradoras de corpos e almas, um novo Moloch...

- O problema é político, já não é educativo, e nem sequer a Economia e as Finanças têm invencível ditadura sobre estas coisas. Leste o recente "manual anticrise" do Jacques Généreux? E olha que ele é economista... mas já antes dele o Bertrand Russell tinha dito... Enfim, temos de regressar à política, à alta e vera política, ter estadistas. Mas falaremos disso numa próxima ocasião, sejamos sistemáticos. Agora devo acrescentar que, com media formativos e uma família verdadeiramente responsabilizada e formadora, e só assim, aquilo a que hoje se chama (baralhando tudo) "insucesso escolar" será muito minorado. Só assim se atingirão bons níveis, não importando que de notas (que podem ser inflacionadas artificialmente), mas de conhecimentos; não com os malabarismos de obrigar os professores a passar toda a gente. A escola estará muito mais à vontade para, justamente e com critério, reprovar (pedagogicamente) os inábeis, os preguiçosos, os incapazes e premiar os estudantes de valor. Além de encaminhar as pessoas segundo a sua vocação, e não consoante os seus desejos de ascensão social. É por aí que se começa.

- Não entendo.

- Hoje, a escola serve para dar um canudo a toda a gente que lá consiga entrar, o que é cada vez mais difícil... Mas todos os que passarem a porta creem ser seu direito potestativo o diploma, independentemente do esforço. É uma maneira de cada um poder dizer que tem um título de nobreza. Só que depois o titular (o que tem um título universitário) é tratado socialmente como um pária se não tiver cunhas que o promovam num mercado de trabalho (e político) onde só sobem os amigos, e não todos: só os mais chegados ou íntimos.

- Acho que exageras muito. E tu propões o quê?

- Que só saia, e mais, que só entre na Universidade, e já no Liceu (como aliás defendia o próprio António Sérgio - poucos o recordam neste aspeto, infelizmente) uma elite. Uma elite alargada, mas sem dúvida apenas os melhores. Temos que desmistificar a expressão e a ideia: As elites são essenciais para o Povo. Todos têm o seu lugar. Mas a elite tem de existir, sob pena de no seu lugar se colocar uma oligarquia. E a oligarquia não é dos melhores, é dos videirinhos, dos golpistas, dos ricaços, enfim, dos que têm o que têm não pelo valor, mas pela manobra ou pela herança.

- Percebo que não deveria ter poder, a qualquer nível, quem não tivesse para isso estudos, discernimento, formação, sensibilidade, e na verdade não pertencesse a um escol, obviamente validado pelo voto, nos casos em que tal seja questão de política e democracia (mesmo organizacional). Isso entendo.

- E da minha parte isso agrada-me. Ultrapassaste um complexo e preconceito que muitos jamais conseguirão vencer ao longo de todas as suas vidas. Porque confundem elite com oligarquia. E só a primeira nos livra da segunda, com a escolha popular a decidir quais dos bons serão melhores, de tempos em tempos. E quando nos partidos surgirem candidatos de excelência o povo escolherá, e com gosto.

- Nisso te acompanho, se é isso que queres dizer. Não podemos escolher entre o mau e o pior, com uma dúzia apenas de personalidades de nível, e nem sempre nos lugares cimeiros. Também reconheço que a política atual afasta os melhores; não os cativa. Além de que os aparelhos partidários certamente os trituram para não fazerem concorrência aos instalados. Não sei, não sou homem de partido. Repito o que para aí se diz... Mas e as pessoas comuns, o que farão, se lhes vedas a educação clássica?

- É um tremendo logro colocar toda a gente a aprender a mesma coisa e a prestar o mesmo tipo de provas. Sabes que hoje, nas Faculdades, com o processo de Bolonha, no limite todos terão que fazer uma tese, pelo menos, para ter o Mestrado. Ora fazer uma tese decente, obviamente, como sabes, é uma arte complicada. Pode haver magníficos profissionais absolutamente sem nenhuma vocação para isso. É uma formatação pela doutorice.

- Sim, é um absurdo que para se ser médico, advogado, engenheiro, professor do secundário, etc., se tenha necessariamente que fazer uma tese... Poderia haver mestrados não científicos, sem tese. Porque isso dos relatórios, acabam por se transformar em teses... E para os níveis não superiores, o que propões?

- Não é nada de novo. É a receita óbvia. Que se criem cursos técnicos e profissionais a sério. E sobretudo que se reabilite socialmente o prestígio das profissões manuais e não letradas, que aliás, em alguns casos, pelo menos, já são muito melhor remuneradas e requeridas que as simplesmente intelectuais.

- E os professores que o digam.

- Aí tens: bizarra sociedade em que um razoável conhecedor de, digamos, mecânica automóvel, incapaz de ler um poema de duas linhas, é forçado a ir para um curso de Letras (porque certamente será um dos que tem mais vagas e não precisa de Matemática), sai de lá a dar erros de palmatória e incapaz de redigir um telegrama, e depois não tem colocação sequer como professor do grau mais baixo. E vai para caixa de um supermercado, enganar-se nas contas e sonhar com as honras que lhe eram devidas por ser um "Senhor Dr.".

- E ainda bem que ele não vai dar aulas. Imagino o que seria. Pobres dos alunos...

- O pior é que muitos sem vocação estão a deseducar as crianças do Secundário (e não só). São os que lhes debitam listas para decorar em power-points, lugares-comuns pseudo-científicos, ideologia barata, ou os mandam investigar por eles próprios, o que quer dizer tirar fotocópias e atulhar as bibliotecas numa algazarra que impede os verdadeiros estudiosos de estudar. Ou então, talvez pior ainda: incentivando-os ao novo método de elaboração de trabalhos científicos, que consiste em literalmente copiar ou cerzir remendos de textos já prontinhos da Internet. E eles apresentam-nos sem aspas e às vezes nem se dão ao trabalho de tirar o nome dos verdadeiros autores, ou de retocarem o texto segundo a norma ortográfica do seu próprio país... os plágios crescem por toda a parte.

- Essa gente é a grande analfabetizadora. E é com ela que contam os reformistas que apostaram em desmantelar a cultura e a educação, transformando a escola em jardim infantil, prisão de crianças e jovens enquanto os pais trabalham como mouros.

- E é essa lógica que leva a que estejam na escola ao lado das pessoas normais uns tantos marginais e ainda haja estados que cominam penas de prisão por falta às aulas.

- A escola é apenas o adiamento e a prefiguração da fábrica-quartel-prisão.

- Por isso é que as crianças não escolarizadas seriam mais livres. Mas quase não as há... Pior: a não escolarização de hoje não é liberdade, em geral é escravatura, trabalho infantil...

- Sim, as não escolarizadas escravas e as escolarizadas passivas, acríticas, e que serão os cidadãos votantes e amorfos de amanhã. Ou nem votantes... não por decisão, mas porque a praia ou meramente a televisão são apelo maior. Na verdade, as pessoas andam esgotadas por ritmos de trabalho demenciais, tarefas sempre para anteontem, colegas de faca nos dentes (ou na liga) e chefes de chicote em riste... os quais obedecem a outros chefes que os chicoteiam também... O peão é movido por outro peão, num xadrez sem fim neofeudal

- olha o poema do Borges... E os piores são os que a si mesmos se torturam e impõem trabalhos de Hércules.

- Então, estamos de acordo. O que é preciso é que o trabalho se liberte, e, antes disso, que a escola seja local de preocupação, assumida uma certa coesão de base. Liberdade, e não o arregimentamento, que só faz crescer a droga e a marginalidade.

- É certo. Numa escola de estudantes críticos, participativos, numa escola de pessoas, não há drogados nem rufias.

- Basta lembrarmo-nos da escola da nossa infância e adolescência. Já reparaste que, num ambiente geral de política monocolor, ditatorial, os professores do nosso tempo eram o exemplo acabado da pluralidade? E a escola, verdadeira iniciação à democracia, a uma democracia autêntica?

- É verdade. Nesse tempo, os professores eram em larga maioria democratas.

- E o que são agora?

- O serem tímidos e obedientes não permite ver o que sejam. São em geral conservadores. Hoje o professor tem tanta burocracia que não pode parar para pensar. Em todos os níveis de ensino. Na verdade, agora sim, "a sua política é o trabalho"...

- Isso quer dizer que são, mesmo apesar de si próprios, reacionários. Não são pessoas livres. Não podem ser bons ou verdadeiros democratas: são tíbios e seguidistas. Com isso contam os governos que esperam manipulá-los. E todavia sem sequer uma política... a não ser a do desmantelamento da Escola pública, a política dos cortes.

Começou a pairar um friozinho.

- É o sereno da noite. - E sorriu-se da expressão, que lhe pareceu arcaica - Estás cansado?

- Cansado, eu? No meio de uma polémica...

- Vamos atirar aí mais uma acha para a fogueira.

E Guilherme, possante, pôs na lareira mais um tronco.

Teria feito bem melhor se bebesse mais um golo. Um bule como deve ser conserva-se sempre quente. Mesmo assim, eles estão para discutir a noite inteira...

© copyright SNESup | Todos os direitos reservados

 
visitas