Emigrar sim! Mas para onde?

Paulo Peixoto
Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra

Num artigo recentemente publicado no The Guardian, Michael MacLeod dava voz aos cientistas de topo ingleses e ao repto por eles lançado aos recém-graduados no sentido de lhes fazer ver que o futuro passa por encontrar oportunidades de trabalho e de pesquisa no estrangeiro. Dois desses cientistas (Keith Campbell, que integrou a equipa que produziu a ovelha Dolly e Jocelyn Burnell, conhecida pela investigação de ponta no domínio da astronomia) enfatizavam a necessidade em "pensar global na caça ao emprego científico".

É certo que esta dramatizada sugestão se enquadra na veemente reação dos cientistas ingleses aos cortes orçamentais infligidos pelo governo britânico nos domínios do ensino superior e da investigação científica. David Cameron recebeu mesmo uma carta assinada por mais de 100 químicos, incluindo 6 laureados com o Prémio Nobel, cientistas do Imperial College London, de Oxford, de Leeds, de Glasgow, de Bristol, da Queen's University de Belfast, da Universidade de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology, assim como de empresas como a Novartis, a Bayer e a BASF. Nessa carta era relevado, entre outros aspetos, que a decisão em reduzir o financiamento na área da química traria prejuízos claros à economia e danos irreparáveis à competitividade global britânica, forçando os químicos a procurar trabalho no estrangeiro. É, porém, igualmente certo, como salientavam Campbell e Burnell, que encontrar um emprego no Reino Unido no domínio das ciências biológicas é cada vez mais uma miragem, que a dificuldade em garantir uma posição pós-doutoral se avoluma e que alcançar uma posição desse nível que seja bem financiada de modo a permitir levar a cabo atividades de investigação científica é algo que é cada vez mais difícil.

Não deixa de ser paradoxal que, crescentemente, países que nos habituámos a encarar como beneficiários líquidos do brain gain se confrontem repentinamente com cenários de brain drain e até de apelos explicítos à emigração de quadros científicos. Não é menos estranho que, no caso do Reino-Unido, além da tradicional mas incerta solução da imigração de cientistas para os EUA e o Canadá, a India, a China e Singapura sejam recorrentemente apresentadas como as opções mais plausíveis. Como parece ainda mais inverosímel que, sobretudo com o fim do space shuttle, se tenha iniciado nos próprios EUA um intenso discurso sobre os riscos de brain drain no país. O que resulta dessa vertente paradoxal é a crescente volatilidade e competitividade do mercado de emprego científico. Mas é também a aparente ilegibilidade que daí sobrevem, patente no facto de, ao mesmo tempo, países que tradicionalmente são "fornecedores de cérebros" começarem a ser atrativos para aqueles que, sendo oriundos de países onde o emprego científico está ameaçado sentem necessidade de buscar oportunidades fora de portas.

No caso português, onde o emprego científico cresceu, nos últimos anos, baseado em programas de sustentabilidade incerta, e com razoável capacidade de atração de cérebros de países com melhores indicadores em I&D, o momento atual é de uma incerteza agoniante. As perspetivas dos que procuram uma solução pós-doutoral, ainda que precária, são indefinidas e as suas expetativas são muito reduzidas. Aqueles que, no âmbito dos vários Programas Ciência, encontraram essa solução estão, neste momento, perante dilemas insolúveis, sitiados pela emergência do términus dos contratos e pela ausência de alternativas viáveis. Imigrar? Sim, parece óbvio! Mas para onde?

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