Uma universidade para lá do mercado

Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt

 

Boaventura de Sousa Santos e Paulo Ferreira da Cunha colocam em evidência, neste número da Ensino Superior - Revista do SNESup, dimensões do rumo preocupante que vem tomando conta das instituições de ensino superior. Como nota o professor da Universidade do Porto, "um dos graves erros da Escola (mesmo da pública, hélas!) é o ter-se mercantilizado e estar a adotar sem discernimento as regras desses mercados furiosos, cegos e iníquos, que estão agora tragicamente a mostrar o que valem, ao nível macro". A "orgia classificatória, objectivomaníaca e indicemaníaca", adotada no ensino superior à imagem dos mercados, é destacada pelo professor da Universidade de Coimbra que se refere aos gestores universitários que estão a concretizar este modelo de transformação para argumentar que se tornarão implacáveis na criação de "receitas próprias por expropriação das famílias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destruição da criatividade e da diversidade universitárias, normalizando tudo o que é normalizável e destruindo tudo o que o não é". Acrescentando, na mesma perspetiva que a Ensino Superior - Revista do SNESup tem vindo a associar à dinâmica de regulamentação em curso nas instituições de ensino superior portuguesas, que "os professores serão proletarizados por aquilo de que supostamente são donos - o ensino, a avaliação e a investigação - zombies de formulários, objetivos, avaliações impecáveis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na substância".

A proletarização crescente das profissões docentes e de investigação no ensino superior é inequívoca e abrangente. Ao garrote salarial, à precarização, ao autoritarismo formal e burocrático de um patrão sem rosto que lhe confere um caráter inelutável estatuído em regulamentação profícua, ao esvaziamento do estatuto profissional e da profissão (fragmentada em tarefas cumulativas e indiferenciadas), junta-se a degradação do valor social e económico do ensino superior e o estigma da perda de "valor de mercado". Neste contexo, o Estado finge que paga o que exige, os professores fingem que trabalham o que indica o barómetro da performatividade indicemaníaca e os alunos, numa onda crescente de alheamento e absentismo, comprazem-se no "se você finje que ensina, eu finjo que aprendo".

Além das reflexões de Boaventura de Sousa Santos e de Paulo Ferreira da Cunha, o presente número da Ensino Superior - Revista do SNESup dá conta das iniciativas e estratégias desenvolvidas pelo SNESup para, no âmbito de atuação das Fundações e da contratação de pessoal docente em regime de direito privado, travar tendências de proletarização das profissões docentes e de investigação. Reflexões como a de Olga de Castro, sobre autonomia e automização, ou as preocupações que mantemos e expressamos na secção jurídica relativamente aos regulamentos de propriedade intelectual revelam a necessidade em pugnar por uma universidade que pense e que atue para lá do mercado.

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