Manifesto pelo Sonho

Às vezes, secretamente, rio da inutilidade dos ensaios; dos artigos;  das palestras (...)
Sebastião da Gama - O Segredo é Amar, 2.ª ed., Lisboa, Ática, 1969, p. 92.

 

 

 I. Ensino Superior e Crise Atual

Ainda saberemos parar? É tempo de parar para pensar, e agir consequentemente. Todos dizem que crise é oportunidade, e até citam o chinês. Pois bem: pensemos para agir, aproveitemos essa magnífica oportunidade, porque grande crise está aí. E já há quem fale até de coisas que mais valia nem mencionar sequer, não vá o diabo ouvir. Que o diabo atentamente escuta os nossos mais perversos pensamentos. E faz quase sempre a vontade aos profetas da desgraça.

Alguns dos piores vaticínios já ocorreram: significativos cortes nos ordenados, e agora, sob forma de imposto, corte no subsídio de Natal, aliás parte integrante do vencimento, embora pago uma vez por ano. O que mais se seguirá?

A balança pesa só para um dos lados. Não é que nos queixemos. Tanto gosta o professor do que faz, tão genuinamente ama o ensino que, como na I Carta aos Coríntios, XIII, 7, tudo suporta. Mas ensombra-nos uma nuvem de tristeza ferida por tão pouca reciprocidade e tão escasso apreço (mesmo social e político) a uma classe em geral bem preparada e muito devotada, que, pela sua capacidade, poderia ter ido ganhar dinheiro, poder e prestígio noutras funções e veio afinal para estas, renunciando a tudo, mas não ainda à dignidade. E a quem legitimamente choca o ver-se rebaixada por quem não tem o direito de o fazer, nem qualquer tipo de autoridade para tanto.

A salubridade e o grau de civilização de uma sociedade têm também este indicador capital: o do apreço que o poder e o homem da rua (para não falar nos alunos) têm pelos seus professores. E é um círculo vicioso: se prezardes os vossos professores, mesmo os mais medíocres tenderão a imitar o alto ideal que deles se faz; se os desprezardes, tereis professores ainda menos dignos, porque sem modelos e sem um prestígio a defender.

 

II. Professores sob Suspeita

Instalou-se e chegou a induzir-se um clima de suspeita contra o professor. Não só o universitário. E falsa ou manipuladamente alegando-se mordomias e impunidades, com ingenuidade (será?) se acredita agora como verdade indiscutível que se dectarão os incompetentes e preguiçosos com novas avaliações ainda. Como se os docentes não fossem desde sempre (desde que nos conhecemos, pelo menos) já avaliados diuturna e rigorosamente (por vezes torturadamente) por tudo e por nada (e até por quem os não poderia realmente avaliar, por falta de competência). E tudo isto como não se soubesse em geral muito bem, em cada caso e Casa, who is who... Mas, quem guarda os guardas?

Agora instituem-se complexíssimas e em geral exigentíssimas (para o comum dos mortais: pois sempre alguns passam nas malhas - pensada lei, pensada malícia) avaliações ditas "do desempenho". As quais, com o congelamento de tudo (ou quase) quanto é despesa adicional ao mínimo dos mínimos, parece que terão apenas uma função simbólica, pois não se reverterão em qualquer benefício palpável ou sonante, sequer para os happy few por elas premiados.

Para alguns, que não se movam (ou moviam: porque parece que se pensa em retroatividade na aplicação de critérios) bem nas malhas dos múltiplos itens, será agressão simbólica, estigmatização. Mas, com a liberalização geral do despedir que aí vem (e que, embora ainda subtilmente, já nos afeta), como não utilizar essa avaliação, para o vir a justificar? Alguns advogam já o despedimento automático dos menos classificados, ainda que o sejam positivamente. Isso seria sinal de excelência e competitividade.

 

III. Pedagogias, Arcaísmos e Economicismos

É curioso como nunca se aplicam aos professores os critérios doces e garantísticos que se louvam (em muitos casos justissimamente) para os estudantes, e até para a geral gestão de recursos humanos empresarial. Nem os professores têm, que saiba, um provedor sequer; aqueles, sim. As grandes ideias modernas dos recursos humanos, da mediação dos conflitos, da pedagogia construtiva e inspiradora parecem parar quando se trata dos docentes: para eles vale só a velha burocracia, o processo disciplinar, a estigmatização?

Uma escola é uma grande orquestra. Vamos desprezar o tocador de bombo e o de ferrinhos? Todos teremos que ser primeiros violinos? Do mesmo modo que o diferente também não deve chocar ou ser discriminado, mas antes acolhido e integrado: as harpas, não têm lugar? Porque o sóbrio pianista é placidamente aceite e a etérea harpista nem por isso? Preconceitos. Preconceitos.

Quando, já quarentão e doutor, fui cursar a minha terceira licenciatura (onde tive, aliás, professores brilhantes) descobri o que antes nunca tinha percebido: são úteis até os professores medíocres, que nos descansam da pressão das grandes ideias dos professores brilhantes.

O génio pode sufocar o aluno. São raros os professores geniais que conheci que eram populares entre os meus colegas alunos. Por um lado, pelas notas que não esbanjavam, mas sobretudo porque - como é óbvio - não eram percebidos (em todos os sentidos da palavra). E não faziam, de todo não faziam, o hoje imprescondível marketing pessoal.

Ora as coisas complicadas nem sempre se podem banalizar. E quando o professor mais talentoso (já não falo do genial) começa a descer o nível a ver se é entendido, vão logo dizer que não dá matéria, que só conta anedotas... E na verdade ele está desesperadamente a ver se encontra nos imaginários dos estudantes uma amarra qualquer pela qual eles o entendam. Mas é muito difícil, porque está derrotantemente comprovado que nem as narrativas mais básicas são de todos conhecidas: há quem não saiba o que significa MFA, ou quem foi Otelo Saraiva de Carvalho (talvez um "hotel de luxo"... - está no youtube), não saiba a história do capuchinho vermelho, e seja indiferente a Harry Potter.

Contudo, para muitos dos formatados (burocratas e mesmo estudantes, ai de nós), os medíocres é que seriam os bons professores... E os inspirados, criativos, esses que exigem e subvertem a modorra dos dias, meros lunáticos a vexar, punir e até expulsar. Só quando esses ganham prémios e se capatapultam para a televisão é que passam a ser reconhecidos (e se o prémio não for muito badalado, nem isso: só serve para a inveja dos demais)... Mas estas distinções, como se sabe (mas não se reconhece) ocorrem apenas a uma percentagem ínfima dos que as mereceriam, e sabe-se se lá se não bafejam também alguns pelo simples movimento aleatório da roda da fortuna, mais ou menos oleada por epifenómenos.

Um dos graves erros da Escola (mesmo da pública, hélas!) é o ter-se mercantilizado e estar a adotar sem discernimento as regras desses mercados furiosos, cegos e iníquos, que estão agora tragicamente a mostrar o que valem, ao nível macro-. Mas enquanto a fúria da mão invisível já se vai vendo nas finanças, com repercussões na vida e no bolso quotidianos, ainda se não deu o salto mental que permitiria perceber que é essa mesma lógica que está a transformar a escola na guerra de todos contra todos, e por mais leis que tenha, faça e refaça, nela vigora já a lei da selva, que é a mesma do mercado descontrolado e desregulado.

 

IV. Pelo sonho é que vamos...

No plano material, a degradação da situação da classe não pode ser mais evidente. Mas não é só. Nem isso é, para nós, professores, que somos irrecuperavelmente idealistas, o principal. Nunca o foi. Esta época de crise até poderia ser momento para, mais uma vez, a classe mostrar a sua abnegação. O problema é que os professores estão exaustos e desiludidos. Embora haja terríveis espíritos de combate que sem deixarem de ser lúcidos nunca desistem. Neles o sonho não fica beliscado pela amargura dos factos. Num bom sentido, podem dizer: "tanto pior para os factos!".

Presumo que não seja educativamente correto citar A Pedra Filosofal, de António Gedeão. Não é, certamente, pelo menos, culturamente correto, mas por isso mesmo, e porque o poema tem toda a razão, lembremos só o final: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida./Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.

O principal é o sonho, porque "pelo sonho é que vamos". Pelo sonho é que para aqui viemos. Como conta de um colega Sebastião da Gama, temos a certeza que a maioria de nós, e esmagadora, até se espantou quando, depois de se ter divertido tanto a dar aulas (e divertir é dizer muito pouco: porque se trata da realização de uma vocação - é como a plenitude da realização do valor), viu que ao fim do mês também tinha ganho algum vil metal. O sonho era grande. Como vão os nossos sonhos? Essa é a grande questão.

Quem não for professor por sonho será o mais infeliz dos homens. Ele nos mantém vivos ainda. Mas corre riscos sérios de se desvanecer...

 

V. A Ditadura do Educativamente Correto

O educativamente correto, ditadura subtil que todos exercem sobre todos, em grande medida impede que nos confessemos, até a nós mesmos. O que mais se ouve nos corredores das escolas é que tudo vai bem, não podia estar melhor.

Todos (digamos: quase todos) estão a trabalhar muito (desumanamente, no limite da impossibilidade física, ou material, ditada pela natureza das coisas), mas ninguém sequer se queixa, senão à boca pequeníssima, e com aquele misto de exaustão e de deleite por se ser herói do trabalho, novo stakanovista.

Ninguém acha que haja problemas com nenhum dos outros intervenientes no processo educativo - pessoal ou sistémico. É proibido haver problemas. Quem os tivesse seria um inadaptado, mau pedagogo, mau colega, mau funcionário, mau trabalhador, e também, obviamente, de tão enorme exceção à regra, um marciano, quiçá um louco.

 

VI. Frenesim Laboral

Quem questiona as cada vez mais frequentemente mudadas regras do jogo e a cultura da tecnocracia e da vertigem, do tudo para ontem, das reuniões e das aulas, e dos artigos, dos livros e das teses em simultâneo, em vários pontos do país (e do estrangeiro, para alguns - agora com videoconferência, pois então...), e as catadupas de convites (e "cobranças"), vários telefones a tocar ao mesmo tempo de dia e de noite e mensagens a chover num telemóvel que não dorme e num portátil que não se cansa e nunca fecha? E os mil "patrões" de dentro e de fora a exigir mais, sempre mais?

Findas as aulas, as noites não têm fim em trabalhos que têm de ser preparados para o dia seguinte, e entretanto ainda uns tantos alunos e colegas solicitam mais coisas por e mail. Os fins de semana não servem para descansar nem ver que há mais mundo além da escola: mas a tentar, ofegantemente, não deixar que o "expediente" não se empilhe ainda mais. E as férias servem para isso, e para tentar ler mais teses (sempre chegam cada vez mais, e muitas em estado bruto, que é preciso inimaginavelmente corrigir) e ir escrevendo alguma coisa...  Acabou a vida há muito para alguns. O professor é um factotum, e não tem a sabedoria de Fígaro.

 Muitos sofrem amargamente estes tempos de insana mania da produtividade, exaltação da agitação e da autopromoção, burocracia opressora, liderança indiscutível, culto da personalidade e espavento da subjetividade de quem tem cargos e/ou acredita que é génio.

 Está longe de ser só na escola. Os que  têm bons, discretos, prudentes e moderados dirigentes ou patrões (ou patrons) poderão até parecer subservientes na sua sincera e merecida apreciação. Quem os tem que os estime e reeleja, se puder. Não sabe a sua sorte. Digo-o porque estou em maré de admirar os meus. E isso faz toda a diferença. Até na liberdade com que escrevo este artigo. Quase deixei - sinceramente - de ter asma, que é, grosso modo, falta de ar... ou ar que não sai, que não consegue sair...

 

VII. Estudantes que não gostam da Escola

A escola era, antigamente, risonha e franca - diz o velho poema. Não sabemos se o seria mesmo. A de agora é carrancuda e hipócrita. Os estudantes e mesmo alguns colegas não se cumprimentam nos corredores. O que se lê na Internet sobre alguns docentes não é edificante. Muitos estudantes não gostam mesmo da escola, fazem sacrifício em lá estar, não creem que o que aprendem seja importante, desprezam muitos professores, e quando têm que encontrar alguém que se salve (é da natureza humana inventar heróis, até para alimentar a nossa sede narrativa) muitas vezes escolhem os piores: mediocridades exóticas, pássaros insinuantes, sorrisos mediáticos, políticos da sua cor, demagogos mãos largas de notas, resumões ambulantes que se identificam com os seus powerpoints... Ou então - pasme-se - as feras de mão de ferro. Dialética do senhor e do escravo?

Dizem-nos que há professoras do ensino secundário que, para serem respeitadas, cuidam durante longas horas não de preparar as aulas (ou de viver bem e inteligentemente para estarem preparadas para elas, o que seria ainda melhor), mas da apresentação exterior (penteados, maquilhagem, roupas e até joias) e da cilindrada e extras dos carros que para as escolas levam. Porque o respeito é apenas exterior, dos sinais exteriores não de sabedoria, mas de status social.

Claro que em tudo há exceções, e por essas é que continuamos a sonhar. Mas mesmo independentemente de leis, de regulamentos, de direções, de ministros, na universidade reduzida à sua expressão mais simples, que é a relação entre quem ensina e quem aprende (ou deveria fazê-lo), há algo de estranho agora.

 

VIII. Perguntem aos Espíritos Livres

Perguntemos aos que - e tantos são - se aposentaram recentemente. Eles podem já falar livremente. Ninguém lhes tirará (espera-se) a reforma. Eles poderão quiçá ajudar-nos a identificar os problemas e até algumas soluções. Esperemos que ainda queiram falar. Que ainda não tenham perdido totalmente a esperança. E que não temam ofuscar-nos, cegar-nos mesmo, por nos mostrarem a luz.

Daqui lançamos o desafio a que os entrevistemos, um a um. A começar pelos que se notabilizaram como criadores, investigadores, pela sua obra. A começar quiçá, em cada país, pelos estrangeiros, mais distanciados... Depois os nacionais.

Alguns, como é óbvio,  não interessa sequer considerar. Desde logo, os que subiram na carreira pela mera burocracia ou ganharam aura por razões exógenas à Universidade, ou, nela, pela simples popularidade entre os alunos (que é o que os inquéritos pedagógicos medem, e mesmo assim só aos que têm paciência e empenho em responder-lhes). Não interessam as opiniões academicamente corretas dos que deveram o lugar à política, à família, às ligações, ou a outro fator adventício à essência universitária.

Não fiquemos por aqui no inquérito sobre a nossa situação. Consultemos também os estudantes, os que honram tal nome: os que estudam seriamente, e que têm aquela atitude, imprescindível ao aprender, que é a docilitas de que falava São Tomás de Aquino. Combinada com a irreverência, o rasgo e o risco. Ou, se preferirmos as imagens orientais, aqueles que ao entrarem na universidade não são chavenas cheias de chá, que já nada mais podem conter. Esses outros estudantes, que certamente sofrem também muito, poderão ajudar-nos a compreender o que se passa e a encontrar novos caminhos. Porque é preciso compreender o que se passa, e mudar.

Também do lado dos estudantes há mitos e preconceitos, que daqui nos vamos apercebendo. No nosso tempo de Coimbra, havia ainda em alguns uma vaga identificação pseudo-marxista (pobre do Marx que não tem culpa nenhuma das vulgatas) entre, de um lado, o estudantariado oprimido, e, do outro, a professoria opressora. Essa oposição parece agora vertida em linguagem capitalista: o professor seria um mau vendedor de um produto a um cliente que teria sempre razão?

Esquece-se o essencial: a universidade é, por definição, reunião, universalidade, diálogo entre professores e estudantes, não oposição. E nela há muitas coisas em que são iguais, e alguma em que o não são. Descobrir umas e outras é uma arte. Normalmente, em tempos de desnorte, põe-se o estudante igual ao docente no que não se deve, e estabelece-se a desigualdade no que deveria ser território de paridade.

 

IX. Escola de faz-de-conta

Suspeitamos que o grande problema do ensino superior está desde logo e sobretudo a montante: enquanto não tivermos um ensino básico e secundário realmente formativos, exigentes e seletivos, o ensino superior chegará demasiado tarde a estudantes já demasiado formatados (ou informatáveis: o que porém teria os seus méritos) para conseguirem compreender o espírito universitário. A culpa não é só da Universidade que forma professores mal preparados, como do clima geral de laxismo unilateral que o sistema (que é, na verdade, uma sedimentação de inúmeras reformas) institui.

Quando professores têm medo de dar más notas (quando têm mesmo receio de não dar as melhores notas), como pode um sistema avaliativo funcionar? Quando mais vale a papelada que a  sala de aula, como pode haver verdadeira pedagogia? Há um livro com um título brilhante a este propósito: é a obra de Hamilton Werneck, Se Você finje que ensina, eu finjo que aprendo, 26.ª ed. port., Petrópolis, Vozes, 2009. Mas pode-se inverter: porque muitos fingem que aprendem, os professores são levados a fingir que ensinam. E a fingir que avaliam. E porque o sistema premeia quem finge, fingir é crime que compensa. Penalizado é quem leva as coisas a sério.

O aumento vertiginoso de casos de plágio, a falta de sensibilidade de tantos a essa prática fraudulenta, encorajada pela simplicidade e banalização do copy-paste, de par com o desprezo de muitos pelo livro e pela leitura, havendo mesmo o culto do conseguir fazer as cadeiras sem ter lido um livro, apenas por manhosos apontamentos, agora já colocados até na Internet - e diz-se que consultados por telemóvel (celular) aí estão como sinais de alarme. As editoras procuram corresponder com manuais resumidos, abonecados, resumões e resuminhos. Que por sua vez sofrem ulteriores processos de deglutição rápida. Perante a sofisticação da fraude e a generalização da incompreensão, os docentes estão desorientados.

Em alguns países, os estudantes apresentam-se nas aulas de computador portátil e aí estão apenas em ofício de corpo presente. O professor pode pintar tragédia grega com pathos de eríneas vingadoras, lançar mesmo mão das mais vistosas folies bergères didáticas (como dizia um grande poeta professor); mas a aula é entrecortada na mesma por risos e até gargalhadas, reação natural a  filmes cómicos que se vão vendo no youtube...

Os alunos não teriam falta se não fossem às aulas, mas a sua autonomia não chega para o não fazerem: ficam, mas o espírito não está lá... Nos meus tempos de caloiro, quando algum professor era mais suporífero, não se dormia nas aulas: faltava-se.

 

X. O Sonho e a Vida

Perde-se, pois, a liturgia sagrada da aula (que é sagrado sacrifício) e perde-se o também sagrado livro.

Conheci um vice-reitor que tinha como ponto de honra não lecionar uma cadeira sem dela fazer um manual, por que os seus estudantes vissem o seu olhar do assunto, e a interpretação que dos demais autores fazia, um guia para que se não perdessem na selva da doutrina. Fê-lo mesmo quando já estava com idade para se não meter nessas aventuras. Sempre o admirei por isso.

Outro exemplo marcante: quando, aos vinte e poucos anos, ainda sem mestrado sequer, um amigo meu foi promovido a regente de cadeira, um catedrático de muito prestígio procurou-o e incitou-o não a seguir as suas lições (caminho mais fácil e mais óbvio), mas a escrever um manual de sua própria autoria. Nunca se curaria disso, o pobre.  

Hoje tal fará sorrir, nesse sorriso amargo de quem vê tempo e vida desperdiçados: para quê? Para quê escrever lições próprias, dirá o nóvel docente, se tenho aqui os apontamentos das aulas que me deram, e que me permitiram fazer a cadeira com boa nota? Para quê escrever lições próprias, se iria concorrer com mestres consagrados? Tenho é que fazer logo as teses e os concursos. Como é compreensível este raciocínio... Mas grande foi o gesto daquele Professor, ao não pensar nem na "boa nova" da sua mensagem insubstituível, nem nos mais prosaicos direitos de autor que, com mais fama, se propunha também a perder.

Há por aí (não nos iludamos) uns tantos pétreos agelastas. Mas também temos, felizmente, subtis ironistas. E existem mesmo exemplos heroicos. Não me impressionam muito os gestos largos dos que batem com a porta; interessam-me e edificam-me mais os daqueles que não abandonam o seu posto. Um catedrático já falecido dizia que a Faculdade era a sua trincheira. Não gosto da imagem, mas compreendo o espírito.

Ainda há os que são como aquele menino holandês com o dedo na fenda do dique. Até ele estalar de vez.

Muitas e muitos de nós quase não tiveram vida (quase não a têm) para entrar nesse sonho fascinante da Universidade. E para muitas e muitos o sonho volveu-se em pesadelo (vidas destroçadas, famílias preteridas, lares desfeitos, saúdes arruinadas, outros sonhos sufocados), no qual ainda teima em persistir algum pó doirado da primitiva fantasia.  

Será que ainda se pode recuperar o tempo perdido, refazendo a vida perdida? Ou será que ainda há salvação no próprio sonho, agora povoado de monstros? São dois caminhos legítimos.

O que não se pode é perder a vida e o sonho. E não seria excelente recuperá-los aos dois?

Paulo Ferreira da Cunha

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