Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Capítulo V - Dos Sabores e dos Saberes

 

Guilherme desenhava-se em penumbra sobre o pano de fundo da imensa vidraça sobre um oceano que bramia. Vagas imensas como gigantes rebentavam nos rochedos que muralhavam a casa do seu velho amigo Luís. Regressado de Itália há dois dias, estava morto por contar as novidades a esse alter ego tão diferente de si, e tão crítico...

Guilherme estava sozinho na biblioteca, aguardando o anfitrião. Postado, colado à vidraça, pressentia-se-lhe nos olhos cor de mar uma nostalgia inefável. Não pensava verdadeiramente em nada. Deixava-se embalar mentalmente pela visão, todavia tormentosa, daquele mar em fúria. Estava seguro, e a segurança dá assim uma espécie de distanciamento, de abulia, que quase é indiferença. Seguro na sua torre de vigia, poderia dizer-se. Mas - as coisas pequeninas que fazem insensivelmente os estados d'alma! - o que o confortava mais eram por sinal umas botas novas, duras e marciais, e uma camisola de lã grossa e com desenhos de colégios ingleses que a mãe lhe oferecera no Natal. Como tais pormenores podem fundar graniticamente um humor! Guilherme dava-se conta das razões da sua firmeza de fundo, mas não as tinha agora no pensamento. Essa sua semiconsciência lhe bastava. Entrincheirado nelas, permitia-se o gozo de uma fímbria de tristeza.

O céu turvava-se um tanto. O horizonte vastíssimo dali colhido comprimia-se em neblina, salpicada de estilhaços de ondas mais ousadas.

Nisto entra, de fumegante tabuleiro em punho (e já adivinham a razão de o tabuleiro assim ser descrito), o nosso Luís, no seu fato azul de marinheiro, camisola clássica de gola alta, alvíssima, e um sorriso satisfeito de bom cozinheiro. Gosto quando este Luís me traz companhia: vinha com outro bule de chá...

 - Pois para os gulosos, é fazê-los esperar. A fome é o melhor condimento.

Guilherme estava desde há muito habituado aos remoques, e sorriu. Isto de ser um Golias dava-lhe algumas liberdades, mas permitia também aos circunstantes certas intromissões na sua privacidade. Ele, porém, era em princípio condescendente. Até quebrar os ossos do insolente... Mas isso poucas vezes sucedia, porque os fortes são geralmente calmos. Guilherme sorriu, pois.

 - Desculpa ter-te feito esperar, mas estavam quase quase prontos estes bolinhos,  que são uma delícia. Uma velha receita de uma velha tia. Enfim, lá dizia o Engels...

 - A prova do bolo é comê-lo ! - recitaram em coro, como quem, num animado bar,  recordasse uma refrão de uma cantiga de juventude. Não se diz que a prova do chá é bebê-lo. Etnocentrismos na linguagem; são os piores...

 - Tu e as tuas experiências culinárias... A Dona Francelina não podia encarregar-se disso? - perguntou Guilherme, que sempre achara complicada aquela veia artística do outro.

 - A D. Francelina é a rainha das doceiras - Luís não perdia ocasião de elogiar a sua empregada - Mas eu gosto de ter a minha independência. Disse isto como quem pronuncia uma sentença lapidar.

 - Independência? - estranhou, franzindo os olhos míopes, o outro. - Independência, não. Dependência. Porque, essas tarefas domésticas a que te dás são servidões, são corveias, como ainda dizem os franceses. A não ser por um capricho diletante, um gosto, digamos, excêntrico - nisto o outro sorria-se largamente, irónico - não vejo como é que um homem....

Luís interrompeu-o, como se lhe tivessem carregado no botão para o fazer saltar:

 - Espera aí. Acabas de tocar num ponto essencial. Espera aí.

 - Num ponto essencial? - Guilherme dividia-se entre não entender e adivinhar uma dessas estafadas discussões sobre etiologia dos géneros, que normalmente surgiam em rodas ociosas. De modo nenhum concebia (nos breves segundos que apenas intuitivamente pôde pensar no tema) nem desejava uma discussão com o seu amigo a tal propósito - era só o que faltava. Podia ter dito "uma pessoa"...

Luís continuou:

 - Ouve-me calmamente. Aqui reside o pilar de muita coisa importante. É evidente que tenho algum gosto pessoal pela doçaria, como tu tens por comê-la, e outros pela jardinagem, a pintura, ou o bricolage. Como os grandes pasteleiros e cozinheiros do mundo são homens, posso, por todas as razões, dar-me ao luxo de procurar competir com eles sem problemas. De acordo?

 - Sim. Eu não vejo problema especial...

 - Então, prossigamos. Além desse gosto especial, que eu acumulo, como bem sabes, com a esgrima, a equitação, a filatelia, a heráldica, a genealogia, e a bibliofilia (as sérias, claro) e outras mais que tu conheces melhor (porque por estas - é curioso! - não te interessas).

 - Olha que é mesmo interessante. Desculpa lá interromper - e não faço a mínima ideia onde queres chegar... (O outro acenou que tinha o tempo todo do universo, num gesto largo e compassivo). Todavia, disseste agora algo que é realmente uma revelação. É isso que queres dizer? Que eu ponho a culinária ao nível dos desportos e dos colecionismos? É que, na verdade...

Guilherme ganhou coragem e firmemente atalhou (desviava-se felizmente a conversa):

 - É evidente que sim. Eu acho, com o devido respeito pelos teus hobbies (mas eu também tenho a minha canoa!), que tudo isso é interessante,  mas é menor. Rio-me sempre da hipótese de um dia topar com um catedrático em molhos ou um investigador em saltar à corda. E todavia, num ou noutro país, é muito do que já vai havendo, como sabes. Cursinhos de módulos justaponíveis, de ciências culinárias com pintura asteca, entomologia e alpinismo, tudo num caldeirão a que chamam curso. Mas estou a perder-me. Sem dúvida que tocaste na ferida. Eu acho que há uma hierarquia nos saberes, e que o mestre de florete (eu sei que tu gostas mais de sabre - sobretudo para abrir o champagne) não poderia mesmo ganhar tanto como o mestre de Física. Para mim é evidente. Não é por nada... A questão é que uma desigualdade exterior de salário faria claramente ver a hierarquia de importância. E mais não digo. Como sabes, vivemos num tempo em que se não podem ferir certos preconceitos, nem certas corporações. De qualquer forma, é melhor que a censura e a polícia política, que bem conhecemos.

 - Desculpa - atalhou o outro secamente - , mas dos anos que passei na cadeia ainda não me refiz.

(Ele fora torturado, da tortura da estátua e do sono, durante semanas... nunca conseguira perdoar aos seus carrascos. Por isso, calava o assunto. Fazia-lhe muito mal à alma. E colocou depois ainda mais ênfase na conversa, forçando uma excitação que não sentia, para esquecer o pesadelo):

- No que dizes há muita matéria para reflexão. E não é nada fácil, porque, como de costume, atacas tabus estabelecidos, como esse da igualdade entre saberes, atividades, etc.. Mito que, aliás, tem já na prática e na realidade quotidiana muitas exceções e curiosas distorções a analisar. Sabias que há pelo menos um país em que muitos docentes universitários ganhavam frequentemente menos que os liceais e os primários, assim como estes conseguem facilmente vínculo ao Estado, enquanto aqueles penam décadas por vezes, sem a mínima segurança no emprego e sempre obrigados a vénias, servidões e trabalhos sem fim, e depois, quando despedidos, nem sequer tinham (até há pouco) subsídio de desemprego? E alguns ficam curvados para toda a vida...

 - Como não houvera de saber? Esqueces que, por mal dos meus pecados, ganho o meu pão-de-cada-dia como mestre-escola na Universidade. E aliás, ouvi dizer na China um catedrático ganhava, ao que dizem, ainda menos que um varredor... Mas deve ser propaganda anticomunista...

 - Gostava de voltar a esse ponto. Mas devo continuar o meu raciocínio. Deixa-me só dizer-te que nesse país a vida dos docentes secundários e primários também não é fácil. São tidos como que uns párias sociais... Até os alunos e pais lhes chegam a bater. Que digo? A alvejar... Mas vamos ao fio da meada.

 - Estes bolos estão, na verdade deliciosos. - comentou, com o seu pendor anarquizante e num tom malicioso, Guilherme.

 - Posso continuar? - quase se crispou o outro, mas de uma crispação quase fingida.

 - E não são só os bolos. Este chá é mesmo de cerejas? - volvia o outro, mal contendo o riso.

Lá fora, a tempestade ia amainando. Na lareira, que ocupava o centro da parede norte da biblioteca, estalava madeira de lei, reconfortante. Alguns retratos de veneráveis avós de Luís pareciam inclinar-se para ouvir melhor a fala deste, que se adivinhava fundamental.

 - Concordo contigo quanto à hierarquia dos saberes e das ciências, embora, na prática, isso tenha muito que se lhe diga. Pode um certo escalonamento derivar do hábito, da tradição, de um particularismo local, de um preconceito de qualquer tipo, até mesmo de uma pensada segregação, etc.. Os camareiros do rei valem mais que os sábios durante séculos. Na América, diz o Dos Passos, uma foca amestrada pode ser ultrapassada por um intelectual, mas este é sem dúvida alguma suplantado por qualquer pugilista. E voltemos ao saber. Ribeiro dos Santos, o grande organizador da Biblioteca de Lisboa no séc. XVIII, lembra que os nobres contam os professores no número dos seus criados. Por isso é que a pedagogia é tão escrava, desde a sua etimologia... Adiante.

Guilherme olhava-o agora com mais atenção. Pressentia que um sistema se estava gizando. O outro prosseguiu, rigoroso, mas inquieto:

- O critério a eleger, em abstrato, também é árduo. A utilidade, a imprescindibilidade sociais? Pela utilidade, corremos o risco de ter cangalheiros em primeiro lugar. Outro critério geral poderia ser o da imagem e apetecibilidade sociais das profissões. Aí não sei se hoje a atividade bancária não estaria em primeiro, o que tanto contrasta com o estigma social do onzeneiro d'outrora. Hoje quem manda são os determinadores dos juros. Depois disso, viria certamente informática. Afinal, Bill Gattes não é o maior milionário do Mundo? Enfim, é complexo. Mesmo entre saberes encartados e puros a coisa afigura-se-me árdua: vale mais a Química ou a Física, a História ou a Geografia? A presente mania de que tudo se resolveria com mais língua materna e Matemática (e quiçá com Inglês para os não anglófonos), que são obviamente fundamentais, não estará a fazer esquecer matérias estruturantes do lugar das pessoas no mundo, como, precisamente estas duas últimas ciências, e a necessidade de pensar criticamente, que se deveria treinar na Filosofia? Já não falo nas Artes...

 - Isso parece uma disputatio de professor toureado.

 - Exatamente. E sei que tu admites (tens de admitir) paridades, ou equivalências, o que simplifica muito as coisas, mas pode falseá-las. Pois tu crês mesmo que a Sociologia, dita rainha das Ciências pelo positivismo, vale o mesmo que a Medicina?

 - Se fosse uma espécie de Física social, como diziam os fundadores, equivaler-se-iam, ou até seria de preferir a Sociologia. Mas não sei. Primum vivere... Temos que viver primeiro, por isso a saúde... Mas o problema...

 - O problema é  - mas aí também na Medicina - o curandeirismo. A bruxaria das ciências sociais de que falava Stanislaw Andreski.

 - Ou a impostura científica - que vale mais para as ciências naturais - de que o livro de Michel de Pracontal é uma paródia muito séria, porque é um diagnóstico severo. E há a questão Sokal... Mas espera aí. Como eu creio que as ciências são mesmo o que são e não o que deveriam ser, se analisarmos os frutos da árvore médica e os da árvore sociológica saberemos qual vale mais.

 - Mutatis mutandis, naturalmente.

 - Mesmo mutatis mutandis. Estamos de acordo.

 - Estou portanto de acordo que será preciso um dia reorganizar o sistema de saberes e agires, e também que isso deve ter uma qualquer expressão pública, ainda que ao menos honorífica. Além de que, dando aparentemente muito menos trabalho (manual ou intelectual) ser professor de lavores (não sei se ainda há disso cá - decerto algures há até doutoramento, tirado em seis meses: mas com rótulo modernaço) que mestre de astronomia, importa não cultivar a tendência humana para a preguiça, premiando mesmo o que é mais custoso. Todavia, entra aqui o teu exemplo chinês. Apesar de mal pagos, pior que um varredor, na China (nessa China mítica ao menos) continuou a haver catedráticos, ou algo parecido. Como explicas isso?

 - Pela estupidez intrínseca do docente, e em especial do docente universitário, categoria a que me honro de pertencer. (Inclinou-se, com a mão no peito fazendo mea culpa, e sorriu, de um sorriso triste e amarelo).

E depois acrescentou, para que lhe não fosse imputado um insulto à corporação. Fê-lo num tom baixo e remoído, indolente:

 - Não. Não. Tudo sabes a resposta. Não é uma classe combativa; aceitamos tudo o que nos impingem. Somos servos da gleba e vemo-nos ao espelho como aristocratas. Um caso sério de autoilusão e síndroma do limão doce.

 - Falas em combatividade sindical ou corporativa na China maoísta?

Guilherme impacientou-se.

 - Não é isso. Aí não é isso. Noutros sítios, é. Sabes que fiquei ao mesmo tempo estupefacto e rejubilante quando, há uns anos, vi aqueles catedráticos todos, en robe, descendo as avenidas de Paris, a protestarem contra um Ministro (claro que não lembro do nome)? Nunca tinha visto uma coisa daquelas.  Recordei a época do esplendor, da dignidade: os velhos bons tempos medievais, em que as universidades batiam o pé aos senhores e às cidades, e se fosse preciso partiam mesmo, com armas e bagagens, montar a tenda noutro sítio.

 - Hoje seria um bocadinho mais difícil...

 - Só por causa dos laboratórios e das bibliotecas. Mas, em contrapartida, há excelentes empresas de mudanças. E a miniaturização dos computadores portáteis e das pen-drives?.

 - Porque é que há professores que mudam tanto de Universidade? É um sucedâneo da mudança da própria universidade? Ou é o espírito de goliardo?

 - Perguntas bem. Creio que não há uma resposta única. E que todos esses fatores podem intervir. Julgo que há quem mude por querer correr o mundo, arrastado pela sede de saber. Mas também há quem o faça por inconsistência, por mal resolvido conflito interior, por falta de paz. Outros - e não sei se não serão a maioria - procuram apenas um lugar onde os deixem trabalhar. E é difícil, cada vez mais difícil, porque as prioridades nas universidades se subverteram. E aí prosperam os arrivistas, os intriguistas e os protegidos mandarins ou por capelas. Leste, evidentemente, o Homo Academicus, do Bourdieu... Está tudo lá.

- Lá vem o muro das lamentações. Depois falaremos dessa famosa crise universitária. Queria que te centrasses no fenómeno migratório e nómada de forma mais rigorosa, mais universitária...

Não escondas a cabeça na areia. A crise universitária e da qualidade espiritual, cultural e ética da Universidade está aí, e dela já colhemos terríveis frutos. E viremos a colher piores ainda no futuro, se não se trava a tendência.

Mas vou ao que queres: os professores, sabes, sobretudo se ficaram sempre apenas na instituição em que estudaram e não viram mais Mundo, são, em muitos aspetos, crianças. Com todas as suas características: de ingenuidade, mas também de egoísmo que chega até à crueldade com que torturam os mais indefesos. A universidade é sempre um microcosmos redutor. Um dia, eles dão-se conta disso, e querem abandonar a casa paterna, crescer... Mas, nem aqui como na revolta adolescente, sair significa amadurecer, claro.

Por um momento petrificou-se, de chávena no ar, projetando uma bizarra sombra no soalho polidíssimo de larga madeira basca. Bebeu um gole que lhe pareceu devolver a inspiração:

 - Deixa-me cá ver. Porque há mais tipos... Olha: outros andam em demanda de poder, de prestígio, andam a acrescentar linhas ao currículo com cada deslocação, e só para isso se deslocam, não fazendo muito mais que deslocar-se. Outros, mudam-se por incompatibilidades com os colegas, com os burocratas, com os superiores. Às vezes são os individualistas de feitio insuportável, autoritários, quezilentos. Mas muito frequentemente são bem intencionados e sabedores que se não integram na corte universitária, e esperam melhor sorte noutro lado.

 - Corte, ou...

 - Sim. Em França diz-se serralho. E os mestres - certos mestres, sejamos justos - são os mandarins. Tal como o sistema é o mandarinato. Acho cruéis mas muito felizes tais expressões. Mas, dizia eu... Na Universidade, como em toda a organização, é preciso gerir os patrões. Na Universidade há demasiados patrões. Cada um se sente no direito de marcar reuniões, pedir trabalhos, exigir sorrisos. O e-mail, então, inferniza tudo. Um clic de um alcoólico do trabalho, e lá está a nossa noite, o nosso fim de semana, a nossa vida, arruinada. Muito cacique para pouco índio. E é preciso agradar a senhores desavindos, frequentemente rivais, e então é-se ou uma bolinha de ping pong, ou um eunuco intriguista, ou um peão acossado, enfim... Quem tiver compromisso com a ciência, o estudo, os estudantes, e não se integrar na escola, na corrente, na capelinha, é banido. Pelo menos, muito mal visto e marginalizado. E mesmo os das escolas minoritárias (e politicamente pouco influentes) tendem a ser abatidos. C'est la vie sauvage. E que tolice terem acabado na prática com o francês no secundário: é um continente de sabedoria que se deitou ao lixo, por puro provincianismo... É a perda de um dos hemisférios do cérebro.

Ao ouvir esta longa tirada pessimista, confesso que engoli em seco, e ainda há aqui tanto chá...

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