Diálogo com a História Sindical: Hotelaria. De criados domésticos a trabalhadores assalariados.

Autor: Américo Nunes
Editora: Editorial Avante, 2007

Anterior ao  Sindicalismo na Revolução de abril,  objeto de recensão no nº 39 a Revista, e em certos aspetos formalmente mais cuidado (ex: bibliografia a final), este livro cobre os primórdios do sindicalismo na hotelaria: o fim da monarquia, a I República antissindicatos (sobretudo com o "racha-sindicalistas" Afonso Costa) e o intervalo sidonista, a Ditadura Nacional até à instauração do Estado Novo, à publicação do Estatuto do Trabalho Nacional e à greve geral de 1934. Um sindicalismo que teve de enfrentar a atomização dos locais de trabalho, a difícil convergência entre os vários setores do pessoal, a repressão patronal e a própria negação da relação laboral: os trabalhadores viam negada a definição de um horário de trabalho, por serem domésticos a quem os patrões davam alojamento, a definição de uma remuneração, aliás durante muito tempo eram eles que tinham de pagar ao patrão uma percentagem das gorjetas que arrecadassem, as trabalhadoras chegaram a ser sujeitas a uma tentativa de matriculação, à semelhança das prostitutas. A instituição de uma taxa de serviço consignada aos trabalhadores iria reduzir o peso da gorjeta,todavia o idealismo sindical começou por a recusar por contribuir para aumentar o custo de vida. O autor, dirigente da CGTP e   sindicalista pragmático, comenta: "Santa ingenuidade. Tiveram o pássaro na mão e deixaram-no fugir. No seu idealismo voluntarista e radical, não perceberam que os patrões continuariam a aumentar os preços para manter as margens de lucro independentemente de haver ou não taxa de serviço. Não se deram conta que era estultícia pretenderem suster o aumento dos preços com o seu próprio sacrifício."

No plano político-sindical Américo Nunes identifica sindicalistas revolucionários (a partir dos quais se forma o PCP), anarcossindicalistas (que se reconhecem no Congresso de Berlim) e socialistas, que chegam nos últimos tempos a ter algum peso nos sindicatos da hotelaria. Curiosamente, o autor, militante comunista, considera que várias caraterísticas do movimento sindical dessa época influenciam ainda hoje o funcionamento do movimento sindical e do PCP. Mas são os nacionais sindicalistas de Rolão Preto que, explorando em período de crise económica mundial  a presença dos estrangeiros (os galegos chegaram a ser metade da classe, e a dar-lhe muitos ativistas sindicais),  vão conseguir criar aqui o primeiro "sindicato nacional" do fascimo, no qual depois do fim das associações de classe e da cooperativa que os socialistas pensaram poder fazer subsistir, se filiam os ativistas de esquerda, que chegam durante um efémero episódio  a liderar o "Nacional" , mas o perdem até ao 25 de Abril.  Em Sindicalismo na Revolução de abril descreve-se o apeamento do dirigente que durante quarenta anos liderou o sindicato, e a separação de águas, com o afastamento dos trabalhadores que eram também pequenos patrões.

Tem este livro alguma relação com o sindicalismo docente do ensino superior? Por cá, também há quem nos considere trabalhadores domésticos sem direito a horário de trabalho e quem contrate pessoal docente sem remuneração, a troco não de gorjetas mas de certificados de bons serviços. Bem vistas as coisas, a diferença não é tão grande como parece.

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