Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Capítulo VI - Vocação, Funcionalismo e Natureza(s)

 

 

- Deixa-me voltar aos catedráticos "chineses", que podemos colocar hipoteticamente nos tempos da "Revolução cultural".

- Mas isso não terá sido mera propaganda? Ouvi também falar de médicos que ganhavam em função dos doentes curados, mas hoje pergunto-me já se isso é comunismo ou capitalismo...

- Míticos pois que sejam, claro. Isso pouco importa para o meu argumento. Não será que eles continuavam a ser catedráticos e ainda havia, então, quem o desejasse ser porque, simplesmente, tinham vocação - esse paradigma perdido? Não seria esse sistema,  a que por convenção podemos chamar "maoísta" (aqui sabemos lá bem o que se passa, ou passaria, tão longe...), o mais correto de todos, porque apenas promovia os que sentissem um verdadeiro chamamento desinteressado, sem pensar nas regalias e nos salários? Olha que a crise que está a baixar-nos assanhadamente os vencimentos, e nos confisca subsídios de férias e Natal vai recolocar o problema: trabalhamos porque nos pagam, ou apenas porque gostamos de fazer o que fazemos?

 - Bem observado, sim senhor. Eu já não me lembrava sequer da vocação, devo confessar-to. O número dos docentes, em todos os graus, que manifestamente respiram desinteresse (no outro sentido), isto é, síndrome de funcionalismo, é tão grande, tão esmagadoramente maioritário, que esse pequeno pormenor - que é o fulcral - não me ocorria. Mas deve ser precisamente por isso... Ou, pelo menos, por efeito de uma preguiça seletiva. Eu, por exemplo, sei muito bem o que isso é. Se na minha Universidade me disserem: tens de escrever a tua quarta tese, eu escrevo-a mesmo (como sabes, já fiz três... e até que nem correram nada mal). E até o faço com gosto, com alegria. E não sem um risinho interior que me diz: " - será que ireis exigir isso aos que nem uma conseguiram fazer? Aos que torturam a existência se lhes pedem uma conferência (e se a fazem, coitados, soletram uns papéis ou powerpoints de que não levantam o nariz, e misturam uns autores da moda tal o medo de falar e de não estar à la page), aos que baqueiam perante o branco do papel quando é preciso escrever um pequenino artigo (e quando o escrevem só saem banalidades e paráfrases)?"

 Mas já se me obrigarem a corromper-me em trampolineiro de relações públicas com empresas, consultor da vida amorosa dos alunos, inquisidor-mor de processos disciplinares, ou estatístico de serviço, nesse dia eu começo a procurar outro emprego. Isto se não me demitir de imediato.

 - Lá vais tu feito goliardo ou dissidente.

 - A dissidência não me incomoda nada. O problema são as razões dela. Tinha um avô que pedia sucessivas transferências de serviço para ir correndo mundo. Eu próprio cheguei a alistar-me na Marinha... Mas não é isso. Sempre achei que devemos viver como pensamos, que aí reside o mínimo da nossa verdadeira liberdade e o cerne da dignidade - expressões completamente corrompidas. E o jugo profissional é um dos mais pesados. Portanto, voltando aos nossos carneiros: eu posso acreditar que para pessoas que não gostem do trabalho físico, braçal, que apreciem uma certa independência (cada vez mais limitada, mas ainda assim - também a ilusão vale alguma coisa!), que tenham poucas ambições materiais, eu posso crer que mesmo sem um grande amor ao estudo e ao ensino eles se possam inclinar pela docência universitária.

- Mas também pelo funcionalismo...

 - Não era a mesma coisa. Agora parece que sim, mas isso é a catástrofe. Vamos lá por partes. O funcionário adormece na sua rotina. O típico funcionário, o burocrata, é mais o protótipo do espírito embotado. Rígido, legalista, ritualista, formalista, ele cumpre ordens e não inova. Num país chamado Portugal (conheces? bem bonito, por sinal...), a coisa é pior: o antropólogo Jorge Dias, que é de lá, considera que a burocracia portuguesa é das mais rígidas da Europa, para mais com burocratas que muitas vezes não decidem (por medo, ou por preguiça? - perguntamos nós) e atiram as questões para os superiores hierárquicos. Contudo, meu caro, não dou razão a essa furiosa sanha antifuncionários, que os pretendem maltratar, humilhar, despedir, e deixar nas mãos de meia dúzia o que seria trabalho para dezenas, quiçá mais ainda. Uma coisa são os vícios das Administrações públicas, e outra, muito diferente, a ofensiva neoliberal que visa poupar dinheiro com os serviços e os trabalhadores em geral para alimentar os buracos dos governos e da Banca.

- Muito me contas... muito me contas. Estás assim tão preocupado com essa questão? Os despedimentos já chegaram por perto?

- Muito, muito perto. E há, na Universidade, como sabes, formas subtis de despedir. Mas, para veres que sou imparcial, deixa-me continuar com o retrato do funcionalismo... e do professor-funcionário. Que precisa de mudar, claro. Mas jamais com estas medidas, que apenas o vão amedrontar e enquistar em práticas defensivas, nocivas do serviço e do bem público, claro.

- Estou curioso...

- À parte os psicopatas que procuram lugares públicos para subir e só veem dinheiro, prazer e poder (podes ler o excelente livro Mentes Perigosas, da psiquiatra brasileira Ana Beatriz Barbosa Silva), a  psicologia geral do funcionário é a do medroso, que aspira à segurança. Ora isso existe parcialmente no professorzinho anónimo típico (e daí a sua preferência pelo Estado, o seu voto na situação, o seu quase nulo pendor reivindicativo). Mas o professor universitário que nos entusiasmou, o professor que era o nosso herói, era totalmente o inverso disso: era como um desbravador, um descobridor, um inventor, um sublevador. Penso sempre em dois gigantes: Tomás de Aquino e Lutero. Qualquer deles era docente; os dois, monges; os dois polemistas; os dois muito atacados em vida e depois de mortos, e todavia os obreiros, cada um a seu modo, do futuro de uma civilização. Não os únicos, claro. Mas vitais obreiros. Eram homens de fé, e isso ajudava muito. Eram homens de saber assumido, de vocação, de convicções.

 - Estou a ouvir as passadas possantes das sandálias de Lutero nas lages frias da dieta de Worms. Aqui estou, e aqui fico. Como é que é ?

 - A frase é mítica, como, aliás, as mais belas frases. Ninguém no-lo garante que haja sido dita. É Hier stehe ich, ich kann nicht anders. Aqui estou eu, -  quer dizer, chegado a este ponto - não posso fazer de outro modo. Lutero apelava para a sua consciência. Mas o murro de Tomás à mesa do rei S. Luís também é memorável.

 - Tal como a resposta deste, a mandar que o sirvam de papel e tinta para que se não esqueça do seu argumento. É porém evidente que enquanto  Tomás cometia, digamos,  uma indelicadeza no contexto do protocolo da corte, Lutero era, aos olhos da Igreja e do Imperador, um herético, um subversivo...

 - Decerto. Só que não é apenas o murro real de S. Tomás. É a ousadia em inspirar o seu pensamento num autor conotado com "o inimigo", como era então Aristóteles. E de o cristianizar de tal forma a desapossar Platão do monopólio dessa aura de pré-cristianismo filosófico. Esse o K.O. que o possante S. Tomás infligiu ao pensamento europeu do seu tempo, e que iria ter consequências...

 - Pronto. Basta de curso tomista. Desconfio que haverá outras oportunidades para falar do Doutor Angélico. Fica provado que os professores movem o mundo. Mas eu ainda não te expliquei a fé da minha culinária.

 - Que move montanhas. Mais. Porque a essas basta a fé. E a doçaria, pelo menos esta... é obra !

 - Começo a compreender a tua devoção pelos monges.

 -  Sabes porque é que  em S. Luis Potosí, no México, a comida parece que é totalmente sem sabor? Pela ausência de monjas na região, disse-me um professor português gordíssimo, que casualmente encontrei num aeroporto. Tinha-o ouvido a um investigador autóctone. Bom conversador, por sinal - o que é hoje coisa raríssima e muito de apreciar.

 - Não creio que seja verdade. Isso são patranhas de conversador...

  - Merecia confiança. Tinha barbas.

Riram os dois, lembrando decerto a Metafísica da barba, ensaio crucial de Afonso Romano de Sant'Anna.

 - Pronto. Pronto. Venha lá essa teoria da culinária. Já me faz crescer água na boca.

 - Eu dizia, ou ia a dizer, há horas atrás, que o meu hobbie culinário não é só um passatempo. É uma necessidade e um exemplo. E, devo acrescentar pomposamente: do mais alto valor educativo.

 - Estou a ver: assim como outros pregam a necessidade imprescindível do ensino da matemática, da ginástica, ou da música, tu advogas a admirável alquimia do estômago...

 - Não é tanto pelo seu valor heurístico, ou lógico, ou formativo (que também os possuirá, mas em grau menor às disciplinas que citas). É por uma questão vital.

 - Naturalmente. Primum vivere, deinde philosophari. O estômago está primeiro. Não te sabia assim do clube...

E contemplava o vasto abdómen que novamente pressionava a um furo mais no cinto.

 - Não é nada disso. A culinária, assim como outros trabalhos domésticos de limpeza, por exemplo, têm de ser ensinados e aprendidos e praticados ao longo da vida por todos os cidadãos que se queiram livres e responsáveis. Não é por vocação que se fazem trabalhos domésticos, nem por natureza, mas por educação. Tu leste, certamente, o livro de Godelier, La production des grands hommes... Está provado que pode haver desigualdade e exploração entre os géneros, mesmo numa socieade simples e, em certo sentido, sem classes... Sabes que os Baruya, das montanhas da Nova-Guiné, só verdadeiramente "descobertos" pelo homem branco nos anos 50 do século XX...

A impaciência instalou-se no interlocutor:

- O que aí vai... Já estás na Papuásia! Mas onde queres tu chegar?

Serenamente, mas com entusiasmo, o teórico prontificava-se a desenrolar a sua teoria da educação doméstica:

 - Vou expor-te o meu plano. Olha que preciso de umas boas duas horas...

Mas o outro não tinha a mínima intenção de fazer quaisquer trabalhos de casa, para mais com fundamentação antropológica, e, no fundo, achava o assunto (apesar de assim doirado) muito pouco intelectual. Armou um álibi:

 - Então, desculpa. Temos que falar nisso outro dia (porque o assunto merece), meu caro. Tenho um jantar que não posso perder por nada. A minha Mamã faz o meu prato predileto. E detesta que eu chegue tarde... Compreendes, não é verdade?

Luís engoliu um sorriso de triunfo (pareceu-lhe aquilo uma fuga), e diferiu o gosto total da vitória (enorme ilusão a sua!).

Quando o outro voltou costas, vimo-lo como num gesto distraído - talvez comandado por um anjo - retirar de uma estante um volumezinho pequeno, de reluzente encadernação rubra. Abriu-o à sorte, ainda distraidamente, como que sonâmbulo. Leu, mecanicamente, em surdina:

"Com efeito, quem procura o conhecer pelo conhecer escolherá, de preferência, a ciência que é mais ciência, e esta é a do sumamente conhecível; e sumamente conhecíveis são os princípios e as causas: é pois por eles e a partir deles que conhecemos as outras coisas, e não eles por meio destas, que são subordinadas. A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer."

O olhar de Luís perdeu-se no Oceano, escuro. Saltou algumas linhas e prosseguiu:

 "Pois que, se foi para fugir à ignorância que filosofaram, claro está que procuraram a ciência pelo desejo de conhecer, e não em vista de qualquer utilidade."

Luís prosseguia a leitura. A lareira crepitante banhava de uma estranha luz doméstica uma lombada de oiro em que pudemos ler: Metafísica, de Aristóteles[1].

 

Paulo Ferreira da Cunha


[1]  Utilizamos, com a devida vénia, a tradução de Vincenzo Cocco, editada com introdução e notas de Joaquim de Carvalho, pela Livraria Atlântida, de Coimbra, ao que julgamos há anos desaparecida, e que como tal se apresenta incontactável para efeitos do pedido (de etiqueta) da permissão de citação. Falecido  o Prof. Doutor Joaquim de Carvalho (e também o nosso saudoso Amigo Dr. Joaquim Montezuma de Carvalho), ninguém no meio académico ou editorial que frequentamos nos indicou até agora a mínima pista do paradeiro do tradutor. Também o Instituto de Alta Cultura, que subsidiou a tradução, se encontra de há muito extinto. Cremos, contudo, que é da prática académica e literária, no nosso País e quadrante cultural, o não esfalfar os autores a pedir licença por pequenas citações, que não prejudicam, pelo contrário, o valor e o interesse das obras citadas. São outras racionalidades, argentaristas e funcionalizadoras da produção intelectual, que induzem práticas diferentes, que só prejudicam  a cultura, a ciência e o saber.

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