Juntar o inútil ao desagradável

Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt

 

A onda managerialista e experimentalista que invadiu o ensino superior manifesta-se hoje de forma dramática e irónica em vários domínios. Por economia de espaço, retemos dois. A tendência para publicar no estrangeiro e a tendência para ensinar em inglês. Filhas de um mesmo processo global, são hoje obrigações cada vez mais impostas a quem não quer "ficar de fora".

Adelaide Chichorro, que escreve neste número sobre o prazer da escrita e sobre a situação de uma geração de professores, de certo modo, acontonados, Ladislau Dowbor, que releva a risibilidade do contra-senso de escrever para publicar e escrever para ser lido, e Paulo Ferreira da Cunha, que aqui escreve regularmente pelo prazer de escrever (e que, confrontando a vocação ao funcionalismo, pergunta se trabalhamos porque nos pagam ou porque gostamos de fazer o que fazemos), incidem os seus olhares criticos sobre algumas das mais finas ironias que atualmente circunscrevem o ensino superior, num momento em que Nuno Crato se agarra ao Torniquete para converter o ensino em números (ver, neste número, o artigo de opinião de Luís Moutinho).

A escrita performativa e cirúrgica expande-se crescentemente no ensino superior. Há que escrever para ser publicado e, se houver tempo e motivação, pode, depois, escrever-se para se ser lido. Fazer o contrário parece coisa de nécios e de insensatos, mesmo se quando escrevemos para publicar deixamos de ser donos do que escrevemos. Publicar no estrangeiro, sobretudo em inglês, é um imperativo institucional e pessoal. Ensinar em inglês é, cada vez mais, uma solicitação institucional.

Em si mesmas, nem publicar no estrangeiro, nem ensinar em inglês, são coisas inúteis e desagradáveis. O confronto de argumentos a favor e contra é inesgotável e, em rigor, indecifrável. No contexto da fúria classificatória e indicemaníaca, é sempre muito fácil estigmatizar quem convictamente não o quer fazer. Sobretudo porque a histeria produtivista e objectivomaníaca privilegia a performatividade mercantil e os humores das hegemonias. O que leva a que, quem se coloca à margem dos desideratos e das urgências produtivistas possa fácil e liminarmente ser colocado no saco "dos que nada fazem" ou dos incompetentes generalizados. Sendo que, por outro lado, se pode sempre argumentar, legitimamente, que sem os objetivos se abre caminho à displicência e ao acomodamento.

Acredito, pessoalmente, que, no caso português, o momento atual, marcado por excessos e por ironias, nos há-de levar a um equilíbrio de que nos estamos a afastar, quer por razões externas, quer por razões que têm a ver com a governação interna das intituições de ensino superior. Creio, contudo, que isso não se fará sem que, entre outras ocorrências, haja uma contestação organizada (como a que este número da revista assinala a propósito da recente iniciativa do SNESup) às políticas managerialistas; se promovam os mecanismos de contratação coletiva (de que Nuno Ivo Gonçalves e Paulo Cruchinho fazem um balanço para o ensino superior português); cada um de nós saiba encontrar o justo equilíbrio entre as suas vidas pessoais e profissionais; as instituições de ensino superior se libertem do voluntarismo e das clarividências de muitos dos seus atuais responsáveis; o ensino superior português se possa rejuvenescer e revigorar com aqueles que, em crescente número, mas com expetativas reduzidas, vêm adquirindo o grau mais elevado de formação superior (de que Júlia Tomás nos traça, no plano europeu e nacional, a partir do inquérito Eurodoc, um perfil detalhado).

Até que esse equilíbrio se alcance, ou que, pelo menos, o atual rumo se inverta, a tendência é para um afastamento crescente dos professores do centro nevrálgico da vida académica. Corremos sofregamente para cumprir procedimentos que reconhecemos como inúteis, desdobramo-nos inutilmente para tentar responder a todas as solicitações e metas que desagradavelmente nos impomos e olhamos as aulas como funcionários e não como professores, sem entusiasmo e sem chama. Escrevemos para maximizar a possibilidade de publicar e não para sermos lidos pelos alunos. Podemos sempre racionalizar com o argumento que os alunos não leem ou que o nível de absentismo às aulas não justifica o esforço. Mas, por outro lado, voltando aos exemplos retidos, ensinamos em inglês para alunos que não há ou para alunos que não querem isso e aprendemos a escrever como os cantores portugueses que cantam em inglês para maximizar as oportunidades de passar na rádio. Interessa alguma coisa se alguém nos lê ou se usa o que escrevemos para outros fins que não os de citar para mostrar conhecimento e obter reconhecimento?

Ironicamente, estamos a ficar como aqueles que, de uma maneira ou de outra, todos criticamos por não fazerem nada. Ironicamente, se esses que nada fazem são uma ficção a partir da qual valorizamos o que fazemos, ou se, existindo, se contam pelos dedos das mãos, são hoje muitos, de facto, e em número crescente, os que fazendo muito e fazendo tudo estão cada vez mais noutros lados que não o ensino superior.

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