As prateleiras podres, a minimização dos ossos partidos e o aconchego dos ímpares

 

Adelaide Chichorro Ferreira
adelaide@fl.uc.pt
4.11.2011

                Chovia intensamente e eu estava no meu gabinete da Faculdade de Letras. Entrava uma brisa gélida pela fresta da janela, e é nestas alturas que mais sentimos, não o frio intenso lá fora, mas antes o frio tenso cá dentro. Dentro de nós e dentro dos corredores, dentro do computador, dentro do edifício todo, que rivaliza em cinzento com o céu lá fora e os cabelos de muitos docentes, mesmo que as mulheres se empenhem em disfarçar tal realidade inexorável. Eu estava hesitante sobre o que deveria fazer nessa manhã sem aulas: escrevia os sumários em atraso, enviava (inúteis?) notificações a alunos absentistas através da plataforma informática, ia ao bar tomar um café, lia um livro ou metia-me no carro e ia até à Faculdade de Economia assistir ao colóquio sobre «Economia Solidária», que começava neste preciso dia?

                Indecisa, fui recebendo catadupas de mensagens de correio eletrónico e vendo as novidades no Facebook, como quem folheia um catálogo de inutilidades domésticas. Cliquei um mecânico like em alguém que celebrava o facto de há cinco anos ter deixado de fumar, por se tratar duma boa notícia, mas tratei com displicente indiferença as muitas outras mensagens que me chegavam, todas urgentes, importantes, bem intencionadas, todas tentando captar-me para alguma rede ou sinergia que sempre se me afigura longínqua demais para o momento presente: não será que cada vez mais me sinto alérgica, em vez de sinérgica?

                Era precisamente nisto que eu pensava quando me dei conta, no meio de múltiplas outras mensagens e convites, da renovação do pedido que me fora formulado há meses atrás (e a que eu tinha acedido), no sentido de que redigisse um texto para o jornal do SNESup. Decidi então, nesse ponto exato da minha manhã, ir ao tal colóquio sobre Economia Solidária, a fim de me inspirar para a escrita mas também para legitimamente escapar, ainda que temporariamente, às desmoralizadoras peias da «Economia Solitária» que descrevi acima. Não porque ela me afete em demasia a mim, mas antes porque poderá estar a afetar outros colegas, cada um sentindo-se igualmente improdutivo nos seus solitários gabinetes de trabalho, e porque essa mesma realidade dava um bom tema para o texto.

                Depois de escrever os parágrafos que acabaram de ler, decidi que tinha de sair, finalmente. Porque era tal a alergia e tão intensa a vontade de escrever que me seria impossível permanecer fechada no gabinete da faculdade por mais tempo. Vesti o casaco, pus de lado as tarefas do dia (sempre a implacabilidade do «hoje» a interpor-se entre nós e a capacidade de pensar!), meti-me no carro, atravessei a fúria das águas copiosas e fui assistir (ou sonhei que fui, pois na verdade continuei a escrever este texto) ao que restava do colóquio.

                Podia ter sido qualquer colóquio, embora aquele me tivesse suscitado interesse por razões a que me referirei adiante. No fundo, eu precisava era de ver maxilares a mexer! Achava que me era nessa manhã totalmente impossível escrever bem o que quer que fosse, e muito menos o sumário da minha aula de fonética e fonologia do alemão, se não ouvisse gente real a falar, discutir, conversar, até a gritar e a gesticular (ou a comer...), e isto sem nenhum ecrã de permeio. Mesmo sabendo que essas pessoas não iriam usar a língua com a qual preciso de trabalhar, o alemão (e que em Portugal - um pouco como acontece com a minha língua materna - já quase só leio ou escrevo porque falar, mesmo, só em algumas aulas). 

                Na minha imaginação cheguei já tarde ao colóquio, praticamente à hora do almoço, mas a intenção não era ouvir as conferências e os debates, antes conversar eu mesma com alguém interessante ou desinteressante, mas imprescindivelmente real, no intervalo para almoço. A possibilidade de, neste dia concreto, almoçar na companhia do marido e de um dos filhos, não me fascinava lá muito: eu reivindicava interiormente a liberdade para conversar que o local de trabalho proporciona, e não a que proporciona a família, apenas.

                Porque a escrita leva o seu tempo, só no momento em que acabei de redigir a frase que antecede a presente abri a porta do gabinete. O bar das Letras estava cheio, por isso fui à alternativa mais próxima: o Instituto Justiça e Paz. Afinal de contas, a expectativa de engarrafamentos típicos de um dia de chuva e a busca previsivelmente difícil de estacionamento acabaram por determinar a necessidade de rever (ou pelo menos suscitaram um corte pronunciado no seu alcance inicial) o projeto interdisciplinar que me tinha destinado a mim mesma para esse dia: ir pelo menos almoçar ao local do colóquio, a Faculdade de Economia. A verdade é que o que lerão doravante foi já redigido no dia seguinte, em que também estive para ir ao tal colóquio mas de novo não consegui concretizar essa intenção, nem mesmo para apenas lá estar durante a hora de almoço, uma vez que acabei por comer em casa, na companhia do meu marido.

                Estas linhas espelham, afinal de contas, a situação em que acredito se encontrem diariamente outros professores universitários como eu, da geração  dos 50 anos. Uma geração que em certos casos foi «arrumada» na prateleira antes mesmo de poder ter frutificado, e que portanto se foi cada vez mais fechando num casulo tão «livre» quanto - na prática - incomunicável. Uma geração que, mesmo assim, possui uma enorme vontade de fazer coisas, algumas até bastante modernas, sensatas ou simplesmente «inovadoras», mas que no fundo gosta verdadeiramente é dessa atividade antiquada que é escrever. Se até busca a fala com os outros, a companhia presencial dos colegas, não deixa de ter dificuldades relevantes em concretizar esse desejo e mesmo necessidade, também porque escreve de modo diferente daquele estilo que hoje em dia, na era do multimédia, se espera dum cientista ou professor.

                No tal colóquio ir-se-ia falar das experiências em curso de revitalização do cooperativismo social, do movimento de permacultura e transição, dos mercados de trocas e de reutilização de bens usados, etc., que venho também acompanhando sempre que posso e que de há muitos anos a esta parte defendo. Acho isso sem dúvida muito importante, pode-se até dizer que tenho dedicado boa parte da minha vida a isso, mas o facto é que... Sou professora universitária e por isso também gosto imenso de pensar e de escrever, por vezes até mais do que de «fazer» ou «implementar». Mesmo que nem sempre consiga publicar o que escrevo.

                A minha é uma geração de mulheres que tiveram filhos enquanto trabalharam para as aulas, o doutoramento e a investigação, e cuja escrita foi portanto sucessivamente interrompida por outros afazeres quotidianos, sem que o contexto tivesse ainda mudado o suficiente para que se pudesse falar em verdadeira paridade. O meu caso é aliás particularmente complicado: além de ser mulher, casada com um professor universitário com um elevadíssimo índice de atividade profissional, tive 4 filhos, o que é raro no panorama universitário português e internacional. Por isso mesmo, ainda mal tinha conseguido fazer alguma coisa após o doutoramento e já me encontrava de novo num limbo temporário, que é o que imediatamente antecede a fase do cuidado a prestar aos mais velhos, ou aos netos. Deixei para trás inúmeros textos incompletos e impublicáveis, porque inexoravelmente interrompidos.

                Uma situação além disso profissionalmente localizada num «purgatório» a meio caminho entre o auge da geração que me precedeu (e que secundou outra, aos olhos de hoje, brilhante) e a rápida ascensão da que se encontra agora na casa dos trinta ou quarenta, que, progredindo de obediência em obediência, cada vez mais se vê forçada à transgressão de colocar um pé na porta dum elevador manifestamente sobrelotado. É difícil não ceder ao hábito, mais do que à tentação (nunca o poderia ser!), de nos considerarmos excedentários, antes mesmo de alguma vez podermos ter dito, com confiança: estamos aqui.

                No meu caso, esta confluência de circunstâncias mutuamente conflituantes acaba por redundar neste tipo de bem intencionadas ausências da minha parte, e também na mania que tenho de escrever fora de horas e fora do cânone, o que por sua vez acarreta outras sequelas. É disso exemplo este preciso texto, mas também a outra decisão que tomei, já no segundo dia do tal colóquio: ir semear, durante a hora do almoço (essa tão preciosa hora em que se pode realmente dar ao maxilar) umas favas que já começavam a estar greladas. Tinha durante o fim de semana anterior começado a preparar o canteiro, mas essa tarefa ficara por concluir, devido aos afazeres profissionais e familiares da semana. E portanto também ela só pôde concretizar-se «a título imaginário» no período estipulado: o facto é que almoçar na companhia do meu marido, trajado de fato e gravata, fez com que não metesse naquele agradável momento as minhas botas de borracha a caminho da terra molhada. Mesmo não tendo conseguido, sequer, deslocar-me à conferência final do colóquio, realizada na tarde do segundo dia (altura em que as favas me pediram encarecidamente que finalmente as pusesse na terra, coisa que mais uma vez não pude concretizar), fico não obstante satisfeita por poder exibir ao menos um dever (quase!) cumprido: a escrita deste texto.      

                Em termos estritamente profissionais, o meu dever era bem mais «comprido» do que estas  tarefas cuja conclusão, aliás, apenas produz inconvenientes atrasos na minha vida profissional, nomeadamente no que se refere à escrita dos sumários da semana e à finalização dum artigo científico que tenho parado há bastante tempo. Desobedeci, portanto! Mas não podia também adiar por mais tempo a redação deste ou de um qualquer outro texto do mesmo teor, porque creio que o mesmo se passará com muitos mais investigadores na mesma situação que eu. Sinto portanto esta tarefa como um dever inadiável para com a minha profissão.

                Como professora auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com nomeação definitiva, estou neste momento atrasada com uma série de publicações científicas na área em que trabalho, situada na confluência dos estudos sobre a linguagem com os estudos sobre ecologia, mas espero que a própria redação do presente texto esclareça o leitor acerca das vicissitudes que resultam de se trabalhar num domínio transdisciplinar como é este, a exigir que se experimente realmente aquilo que se publica e apregoa. Ora isso leva o seu tempo, e exige isolamento. Que por sua vez é depois causa e simultaneamente consequência de inúmeros pequenos atrasos, desvios de rumo, dispersões e constantes «incumprimentos» quotidianos.

                Para cabal explicação do meu ponto de vista, é útil referir dois outros aspetos: por muitos que sejam os incentivos institucionais, por mais «facilitadores» que a gestão da máquina coloque discretamente no meu encalço, por muita comunicação que se tente estabelecer comigo por via de sensores indiretos no Facebook e demais redes sociais, por muitas entrevistas para estudos diversos, por muitos inquéritos que me queiram fazer, por muitos convites que me enderecem ou sondagens mediante as quais a comunidade tenta discretamente, mas quase sempre via computador, obter informação sobre o meu modo de sentir no presente, é cada vez mais evidente o seguinte: embora seja perfeitamente normal esperar de pessoas da minha idade a capacidade para coordenar e liderar, a situação de drástico afunilamento de perspetivas e de permanente guerrilha institucional em que vivi os últimos dez anos da minha vida profissional (que poderiam ter sido os melhores!) e as solicitações que a minha biografia de mãe e esposa constantemente acarretou retiraram-me as forças necessárias seja estritamente para obedecer, seja para mandar outros fazer. Acredito porém que muito de útil se pode realizar para além disso.

                O que aconteceu na gestão da ciência e do ensino superior, por culpa dos ditames internacionalmente estabelecidos tendo em conta, tantas vezes, ilusórios rankings, teve também consequências como a que acabo de relatar. A minha é, portanto, a geração que só vale como intervalo, é a geração das retic(i)ências (= «ciências retidas»), dos entre-tantos, a geração «podia-ter-sido-mas-não-chegou-a-ser». O que ainda vou conseguindo «mandar» não passa pois de uns meros bitaites aqui ou ali, e isso é bem diferente de «liderar». É que a geração de pessoas como eu não aprendeu a liderar: sempre que o tentou colidiu com agendas alheias estrategicamente bastante melhor posicionadas, e com mais disponibilidade para cuidarem do marketing. É uma geração que não raras vezes se sentiu enxotada pelos mais velhos, mas também pelos mais novos, pelos de um lado das fraturas ideológicas e pelos do outro lado dessas mesmas fraturas, mesmo que agora todos hasteiem a bandeira da integração ou inclusão. E como ousou cruzar fronteiras científicas sem autorização superior é também uma geração que pode hoje declarar-se «reif für die Insel». Em tradução portuguesa, muito livre: uma geração «apta a ser arquivada na prateleira». Resta-me a preocupação com o facto de que, não conseguindo pessoas em circunstâncias semelhantes às minhas pegar nas rédeas dos acontecimentos e imprimir-lhes um rumo esperançoso, as outras gerações acabem também por «so-sobrar» (= «só sobrar» + «soçobrar»), porque isto das gerações que se acumulam à entrada do funil realmente se assemelha cada vez mais a uma espécie de dominó.

                A verdadeira desobediência que propunha recentemente Boaventura de Sousa Santos como saída para a crise em que estamos poderá então surgir não necessariamente por ação deliberada e concertadas das pessoas, mas porque as prateleiras onde uma geração como a minha, desgastada e deprimida, deixa correr os dias acabarão por ceder ao peso dos anos e das «gorduras» de ineficiências várias, trazidas pelos cortes orçamentais do presente, bem como por toda a retórica, humilhações várias e preciosismos burocráticos que nestes últimos anos os precederam: desde violências psicológicas a inadaptações, desajustes ou desfasamentos diversos, passando por toda a espécie de ressentimentos e de desânimos, com os dramas pessoais e familiares colaterais que tudo isso implica, além de problemas de saúde e endividamentos compensatórios vários à mistura. Valeu a pena? Lá dizia o meu pai: «o material tem sempre razão», pelo que o mais certo é que nem a prateleira, por mais dourada que a pintem, venha a escapar à crise.

                Se há quem muito honrosamente, com conhecimento e entrega total à causa pública, apesar de tudo tente que ela se quebre ao menos com alguma suavidade, para não gerar mais estragos ainda (que seriam dramáticos), uma coisa me parece cada vez mais evidente: mais tarde ou mais cedo, sim, a prateleira vai cair. Importa pois que nos interroguemos acerca do que surgirá em seu lugar. Que é possível já hoje descortinar por entre os sinais que entretanto circulam? Como remediar ou atenuar um pouco os dramas que advirão deste colapso individual e social?

                Foi-me necessário desobedecer aos ditames do momento para poder sequer pensar neste assunto: ou seja, que eu reflita sobre a minha própria situação tornou-se irrelevante para o sistema! Mas se o sistema em si é burro, não o sejamos nós: que contributo podemos dar para que da queda da prateleira menos ossos partidos resultem? É portanto isso que acima de tudo me motiva a escrever este texto.

                Como ele pretende exemplificar, uma tal mudança de atitude envolveria, expectavelente, que saíssemos cada vez mais da nossa zona de desconforto e que procurássemos abertamente o aconchego dos pares. Sobretudo daqueles com a capacidade e a coragem para se mostrarem ímpares, e esses são tão raros como raros são os momentos em que ousamos não fazer o que nestes dois dias deliberadamente não fiz, para poder concluir este artigo: não fiz nada de «útil» ou de «produtivo», do ponto de vista do sistema que nos rege. Não redigi nenhum paper ou sumário mas ao menos pensei em semear as favas!

                A prova, também, que a decisão que tomei pode estar correta é o facto de ter acabado por fazer justamente o contrário do que era a minha intenção inicial: afinal de contas, posso até ter sido suficientemente produtiva para ter escrito um texto útil, pelo menos para alguns. E portanto urge questionar abertamente a lógica que nos obriga constantemente ao excesso de «planeamento»: será ele sempre necessário, para se ser produtivo?

                Assim como urge questionar a lógica que leva a que tenhamos sempre de executar com o objetivo de prestar contas, ou seja, de sermos avaliados. A questão é que tantas vezes pensamos hoje nestas duas realidades, planeamento e avaliação, como inevitabilidades do sistema que apenas suscitamos com isso esse tal «frio tenso» de que eu falava atrás, e que só dá vontade de fugir, mas que depois conduziu a este meu movimento de revolta e, muito indiretamente e em conjugação com uma série de outros fatores, também a este texto.

                Se o excesso de planeamento faz desaparecer o conteúdo em favor da forma, se faz desaparecer o tema, apenas deixando permanecer o esquema, então o que nos safa não será a revolta? Conclui-se portanto, cinicamente, que a pressão sobre os indivíduos até resulta, se ela suscitar a tal reação criativa que tantas vezes é fermento da verdadeira «qualidade».

                Mas não! Não me apetece recordar agora aquele texto de Tucholsky que traduzi há tempos com os meus alunos, entretanto deixado a apodrecer no computador,  em que se concluía que para que uma pessoa seja criativa é necessário fazê-la sofrer, humilhá-la, torturá-la. A prova de que nem sempre essa verdade se aplica está no seguinte: de facto, até traduzi o texto, o que foi produtivo. Mas depois fiz por o esquecer, o que «estragou» logo todo e qualquer arranginho que se pudesse considerar «inteligente», em termos de carreira académica. É que lá por sermos académicos não deixamos de ser gente, com tudo o que de falível e de insensato nos caracteriza.

                Em meu entender, o verdadeiro motor da minha produtividade destes dois dias foi algo que nos arriscamos a deitar a perder, com o tipo de políticas míopes que vêm sendo seguidas: o fator serendipidade. Foi a conjugação de diversos acasos que me fez, no fundo, escrever o presente texto, e não a intenção de cumprir determinados critérios inerentes à minha progressão num qualquer rumo que me encontre a trilhar: ou seja, foram coisas como uma conversa logo pela manhã acerca de como se define «mérito»; a chuva e o frio entrando pela fresta da janela; a perspetiva agradável de me deslocar a outro ponto da cidade para assistir a um colóquio; a descoberta duma solicitação quase esquecida, praticamente irrelevante em termos de progressão na carreira, na pilha de mensagens eletrónicas que recebo todos os dias no computador. Foi tudo isso que me fez escrever, e não um qualquer plano ou meta.

                Algumas palavras agora sobre o porquê de eu, apesar de tudo, ontem de manhã me encontrar no meu gabinete da Faculdade a apanhar o tal frio intenso que me fez pensar no meu dia a dia, e no denso brio que o devia aconchegar, em vez desta tão gélida falta de horizontes. É que, mesmo que tais horizontes nos sejam, apesar de tudo, constantemente mostrados, em catadupa, via internet, eles de facto não existem de todo se não os pudermos agarrar, como acontece com pessoas da minha geração, entre as quais me incluo, pelas muitas razões que foram sendo apontadas atrás.

                Pessoas como eu são seres estranhos, e por isso dificilmente têm lugar nos esquemas demasiadamente compartimentados que formam a paisagem dos saberes tidos hoje por relevantes: é que a razão pela qual eu vim parar à Faculdade de Letras não foi, de modo algum, o culto do mérito, ou a vontade de ter boas notas. Bem pelo contrário. Os objetivos que ao longo dos anos persegui durante a minha permanência na Universidade sempre foram outros, mas isso não me impediu de ter as notas necessárias para chegar onde cheguei. Aliás, à medida que nos últimos anos se tornou cada vez mais notória a necessidade de cuidar exclusivamente da faceta «mérito» para sobreviver no emprego, fui-me desvinculando emocionalmente desse mesmo imperativo. Se algum mérito até tenho, ou algumas boas prestações tive ao longo do meu percurso (a par de muitas outras não lisonjeiras), elas não se deveram ao facto de eu explicitamente perseguir tais objetivos. Nunca isso aconteceu, ao contrário do que presumo terá sido o percurso da maioria dos que atualmente governam as universidades. Admito pois que essas pessoas tenham alguma dificuldade em entender pessoas como eu, mas também não somos parvos: sabemos que os frutos colaterais das nossas revoltas anímicas são bem aproveitados pela sociedade como um todo.

                Os objetivos que persigo resumem-se facilmente, mas não cabem em nenhuma palavra apenas: aprender todos os dias algo mais, vibrando com o que a cada momento estou a fazer e transmitindo a outros, com entusiasmo, essa aprendizagem. Talvez precisássemos de um termo para isto, pois a palavra «mérito» se desgastou muito, ultimamente. Pode alguma vez haver mérito numa sociedade em que os «pares» andam sempre a ver onde o parceiro do lado falha, para lhe caírem em cima, tirando genuíno prazer dessa atividade de predação? Pode alguma vez haver mérito se, dia após dia, nestes tempos de competitividade inculta, em pessoas capazes é destruído tudo aquilo que as faz realmente gostar de si mesmas e do que fazem? Se a verdadeira colegialidade, em suma, se arrisca a desaparecer?

                Bem hajam portanto todos os discretos «ímpares» que, vindos de muitos cantos da minha vida e não apenas do meio académico, ao longo destes últimos anos me souberam, apesar de tudo, aconchegar um pouco, impedindo-me de - só - «sobrar». Incluindo os organizadores do colóquio a que não fui, a fim de escrever este texto. E a minha família, toda ela.

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