Relatos de um Bule de Chá ou Jacarandás no Inferno

Capítulo III. Philia

 

No primeiro dia de congresso, fui envolvido por uma pequena multidão de gente faladora e agradável que me circundou e assim incluiu, gentilmente, na sua conversa. Nesse círculo de alegres convivas fizeram de mim de algum modo a estrela, desde logo por ser dos escassos estrangeiros presentes...

Tenho, nestas coisas de congressos, uma teoria: congressos são lugares utópicos em que nos podemos permitir alguma convivialidade sem excessivas precauções. Embora para eles se possam eventualmente transportar azedas disputas e haja sempre vaidades suscetíveis que nunca perdoam uma conferência melhor ou mais aplaudida, a regra não é essa. O livro Small World é disso muito esclarecedor. Um clima de normal distensão paira, por norma, e podemos sem muito erro ficcionar que ali está por momentos reunida feliz embaixada da República das Letras. Não concebo estes convénios como sociedades de anjos. Antes de diabinhos em férias culturais. Por isso, nunca levei demasiado a sério quem ostenta no seu curriculum muitas digressões. Pelo menos sem ver os textos apresentados, permito-me suspeitar sempre. Viajar só por si não aproveita a todas as ciências. Embora haja almas empedernidas a quem o simples tomar ar faria deveras bem.

Em todo o caso, a minha regra é a da simpatia e da extroversão. Ao cabo destes anos, colecionei uma dúzia de disparates e outras tantas anedotas, aprimoradas pela prática de as ir recontando. Tais bordões da diplomacia académica internacional valem-me a fama de ter esprit e alguma oportunidade. Mas - razão tinha o taxista - é mera ars combinatoria e cálculo de probabilidades. Aquela dúzia de histórias encontram sempre oportunidade. E o truque, o maior truque é, evidentemente, dizê-las sem ênfase, ensaiando muito bem a sua espontânea ocorrência. Tudo coisas matematicamente planeáveis.

Portanto, mais uma vez, contei a história do peixe salgado do Báltico nadando em gelatina verde, numa viagem para lá da antiga "Cortina de Ferro", de como consegui um bilhete gratuito na gare do Oeste acusando (naquele caso, excecional, muito justamente, é certo) os comboios alemães de atraso, à mistura com coisas mais sábias, mas não menos bizarras.

A imagem que damos de nós e da nossa vida com este tipo de narrativas sem dúvida nos granjeia uma simpatia imediata, uma gloríola fácil num círculo de desconhecidos. Aliás predispostos a ouvir e a aplaudir, pelo clima geral, que no fundo é de condescendência: tão contrastante da guerra de todos contra todos instalada no quotidiano universitário de hoje no intra muros da nossa acanhada comunidade.

Mas certamente, se os nossos interlocutores pensassem um pouco, haveriam de tais dotes histriónicos ser severamente pesados num juízo mais grave: que singular personagem, que pícaro!

Fama de pícaro deve ficar por aí. Mas que importa? Creio que é antídoto para a veemente seriedade que ponho em todas as minhas conferências. Nelas, não encerro senão o indispensável para que o auditório não durma. Digo mesmo o que penso - terrível ousadia nos nossos dias de pensamento único e morno.

E aí está: havendo preparado o terreno com a minha simpática bizarria pessoal, quando chega o momento de me escutarem os desatentos conferencistas, meus confrades, não veem mais as teses duras e sérias do investigador fiel a si próprio e à procura da verdade... mas mais uma história das minhas, uma nova singularidade, a encarar com complacência. Pelo menos com complacência.

Por vezes, temo se não é grave pecado de tibieza esta preparação psicológica do público mais direto.

Começara, então, discretamente, o meu show. Uma tirada erudita aqui, acomodada a uma graça, uma interjeição propositada acolá, acompanhada de um gesto ou de um olhar, uma exposição mais severa para dar respeitabilidade, mas contida nos limites da atenção normal, ou seja, durando o tempo de um anúncio de TV, etc. etc.

O interesse em redor do bicho (do bicho-eu) crescia. Mas eu fazia aquilo maquinalmente. Notava, sem notar, a minha própria ausência.

Passei a semana, assim, borboleteando de grupo em grupo, de congressista em congressista, sem que qualquer especial ligação ou interesse por um tema ou por uma pessoa se estabelecesse.

Num dia livre tracei o meu destino: e irreprimivelmente veio a rota das ruínas... e do mar. Decidi-me por um passeio a Pompeia, Torre del Greco, Amalfi e Salerno, que encarei como férias mesmo. Impusera-me não ser muito social. Por imperativos termais! Mas uma moça, que me fazia estranhamente lembrar o ar infantil e eficiente do Tintim de Hergé, insistia em palrar, perseguindo-me o tempo todo.

Havia algo de peculiar nesta personagem estranha saída da banda desenhada: para onde quer que fosse, levava consigo um bloco de notas, e quando o guia debitava alguma banalidade muito gasta e mastigada sobre um monumento ou uma vista qualquer, afadigava-se, dir-se-ia que com a cabeça deitada sobre o seu ombro direito e a língua levemente de fora, atirando galhardamente ao papel aquelas definitivas palavras.

Acabei por lhe perguntar a razão de tão diligente crónica. Ela, candidamente, respondeu-me que estava a fazer aquela viagem com dinheiro que duramente poupara, tendo deixado em casa um irmão ou uma irmã, não recordo bem. Pareceu-me que aquela fúria logográfica decorreria da má consciência de não ter custeado uma outra viagem, procurando agora a moça redimir-se por um relato completo do que vivera - ou escrevera. Porque viver vivia pouco. Recordei Amiel e os escrevedores de diários ... E suspirei!...

Curiosamente, acabei completando, restringindo, criticando muitas das observações do guia - sobretudo de História e Arte romanas. Para alguma coisa (para muita coisa, pelos vistos) me serviram ter cursado História, variante Arte, em Letras, e depois ter tirado 20 a História da Arte, em Curso superior de Desenho. A nossa Tintim, quase sem me olhar, escrevia tudo, sorrindo agradecido da superabundância de dados. Comprei um livro simples, turístico. Logo me seguiu na compra.

Não se pode dizer que tenhamos conversado, mas estava criado algo semelhante ao que existiria entre os ditadores de livros e os seus fiéis secretários. Só que, neste caso, o livro seria do secretário...

Pensei nisso, mas encolhi os ombros. Acontece-me com os livros que escrevo (e neste caso nem é livro, e é ditado) o que ocorre com os que compro. Quando tinha poucos, era muito cioso deles. Agora, que não sei quantos possuo e ignoro mesmo quantos escrevi, sou desprendido. Procuro até sempre uma visita que me alivie de mais meia dúzia de "monos" da minha atafulhada biblioteca.

Recordei também os apontamentos dos meus alunos, e como baralham frequentemente tudo o que se lhes diz.

(E o sorriso trocista não se conteve, e veio à superfície do rosto, quando recordou um caso de hipercorreção histórica. Atirou-se ao papel).

 Falava em História da Arte Antiga dos cataclismos de Pompeia e Herculano, precisamente. Pois no caderno diário da diligente aluna, dessas que não se permitem qualquer deslize, que se não toleram a menor lacuna, das certas, diligentes, de boas notas e total seriedade e profissionalismo, li, numa letrinha escolar, legível, sem ambiguidades:

"Depois do desastre de Pompeia e de Alexandre Herculano...".

E lembrei o pobre historiador de Vale de Lobos, sentado no seu cesto de azeitonas, rugas salientes, olhar perdido no vazio, e no que poderia pensar do Vesúvio e suas lavas. De novo maldisse o nosso ensino deseducador. É desses alunos que certos professores gostam para assistentes. E pior: que alguns alunos adoram para lhes fazerem a papinha de apontamentos prontos a consumir...

Não havia assim qualquer perigo de estar a fazer livro espúrio. O resultado seria sempre um qualquer "Pompeia e Alexandre Herculano.".

Esta moça Tintim está a ser representada muito caricatural e criticamente. Tenho de intervir em sua defesa. Ou em minha, a seu propósito.

Uma das coisas que aprendi tarde, mas que se me afigura, ainda hoje, uma decisiva revelação, já se podia sintetizar nessa frase de Montaigne sobre o seu amigo La Boétie: Parce que c'était lui, parce que c´était moi. As razões da amizade não são razões - são a pessoa. O coração tem realmente razões que a razão desconhece.

Não sei se é o coração, mas a verdade é que, sem querer agora fazer pender a balança para qualquer exagero de sentido contrário, todo o ar caricatural de M.lle Tintim acabava por lhe dar não chego a dizer um certo encanto... mas inegável simpatia.

Acabei por apreciar aquela companhia atenta, solícita, que bebia alternadamente as palavras cansadas do guia e as minhas observações ditas em tom judicioso.

Podemos ser amigos de M.lle Tintim, por um dia podemos!

Guardo uma ideia muito vaga de M.lle Tintim. Lembro que era loira, sem o ser ostensivamente, cabelo obviamente curto, e os jeans deveriam fazer lembrar as calças à golfe. A camisola tinha de ser azul-céu. A tez clara, pois. Cor de olhos? Imperdoável, mas não recordo. Terei visto. Sem dúvida. Imagino que eram azuis como a camisola.

Mas mais decisivo e mais inteligente que tudo isso: não consigo minimamente recordar de que nacionalidade era M.lle Tintim, nem tampouco em que língua falámos. Creio que nunca me apercebi disso, e por tal razão não o cheguei sequer a esquecer. Talvez porque, em boa philia, tenhamos falado uma qualquer língua dos anjos.

Quando chegou o momento de nos despedirmos, estendemo-nos as mãos com um sorriso desprovido de saudade, sabendo bem que, pelo normal funcionamento da roda da fortuna, não nos tornaríamos a ver. Felizes despedidas estas!

Pessoalmente, pensei previamente na questão - e posso admitir que coisa semelhante se tenha passado com a moça. Na verdade, achei mais honesto - antes de mais, para comigo mesmo - não trocar endereços com uma pessoa cuja simpatia, ou melhor, "agradabilidade" não chegava, naquele momento, para criar mais que aquele laço ténue de companheirismo, que é o grau inferior da amizade.

Não é comum em mim ignorar os salamaleques da polidez. Mas, neste caso, pensei que uma dose de verdade conviria melhor. Pode haver apreciação mútua sem frequentação, não pode? Quevedo, o do Buscón, acha que não. Mas eu acho que sim!

Não estou arrependido de ter posto um ponto final ao que, se artificialmente alimentado, acabaria por tornar-se em não mais do que um bocejo de convívio epistolar - depois internáutico, se a coisa tivesse conseguido sobreviver. Um rio avaro de águas que fatalmente se iria extinguindo, rarefazendo a corrente ... até à secura total. Pior ainda se acabasse, por mútua timidez, nessas águas paradas e barrentas do falar sem ter que dizer...

Mas não recordemos mais o passeio. De resto, não estou aqui para contar sequer as magníficas vistas dessa luminosa Itália ou como o Mar Mediterrâneo me enfeitiçou.

Havia na minha mocidade uma pizzaria em que me extasiava apenas com ver uns quadros dessa costa napolitana aí expostos há anos. Hoje é um eco do passado. Já repararam como tantas lojas excelentes desapareceram? Até certos produtos deixam saudade: brinquedos, guloseimas, sulcam nos adultos uma ferida aberta de privação.

Não, tenho de continuar. Deixemo-nos de devaneios.

De volta ao trabalho, fiz o meu discurso em francês. Não sem que ao cabo de complicações infindáveis. A organização parecia prevê-lo em italiano. Mas realmente eu estava exausto... E o italiano aprendido com meu mestre Giuseppe... Bem, confesso, era excelente em diálogo (melhor: produzia excelente efeito), mas dito, discursado... A verdade é que a complexidade temática e a tecnicidade vocabular que implicava o meu texto tinham dificuldades em passar-se para o italiano, para o meu italiano, que vivia sobretudo - devo confessá-lo agora - da coloquialidade e das expressões de realce... Uma ou outra vez da mímica, e sempre da música.

Tudo isso, mais o sol de Pompeia, houveram-me confiscado toda a energia.

Ainda uma sorridente secretária da organização se oferecera para traduzir. Mas cedo mudaria de ideias. Como tivesse experimentado a dificuldade, persuadiu com brio os demais responsáveis de que uma comunicação em francês não ficaria mal, e seria, afinal, compreendida por todos. Esse entusiasmo e a minha resistência passiva obtiveram vencimento de causa.

Pude ver o alívio luminoso no seu rosto trigueiro quando finalmente se viu eximida a tão terrível tarefa. Eu também. Qualquer tradução é sempre traição, e eu não desejava atraiçoar o meu pensamento em mais um grau. Note-se que eu penso e mesmo sonho em várias línguas frequentemente. Mas nunca em italiano - hélas!

Acresce que estudara e vivera - vivera mais ainda - o francês, e ele é a minha segunda língua ... O facto de possuir, além da minha vernácula, também uma personalidade "francesa" ajuda. Mas esse é outro problema.

As sessões do congresso tiveram lugar num ambiente inusitado. Na verdade, dado o calor circundante, no sítio mais fresco possível. Vamos dizer que se tratava de uma enorme caverna escavada na colina, onde outrora existira recolhido convento. Agora abrigava-se ali a nossa ciência - pobre ciência a minha! - e sobretudo àquela frescura maternal se acolhia a nossa causa da moleza estival. Estava tão fresco naquelas entranhas da terra ... E eu não podia evitar pensar que, não muito longe dali, abrigavam elas o fogo do dragão Vesúvio. A natureza é cheia de contradições. Desvendá-las é que constituiria a verdadeira sabedoria.

Mas nós andávamos de volta de coisas bem pouco normais. Humanas, demasiado humanas...

A grande sala de conferências foi para mim uma surpresa que me sublevou os sentidos. Já a decoração barroca, na sua teatralidade emotiva, me convulsionava os olhos. Mas a alma foi também sacudida por um novo fator de estranhamento: é que estávamos numa antiga Igreja, com praticamente todos os artefactos sagrados nos respetivos lugares, tendo apenas sido retirado o sacrário e substituído por um pós-moderna mesa transparente, de acrílico, na qual se sentava a presidência. Foi dessa mesa etérea que, contemplando a sala como sacerdote no púlpito, fiz a minha conferência como um sermão.

A presença dos fantasmas, ou, ao menos, do genius loci, era quase audível.

Porém, eu não saía do meu apático estado geral de sonambulismo.

Penso frequentemente que devo parar de uma vez por todas com esta transumância de congressos. Afinal, o que se ganha verdadeiramente? Não acaba por vir a ser tudo publicado depois? E se o não for... Tudo somado, ficam lampejos, flashes, reminiscências de conversas de corredor. Ficam meia dúzia de colegas fiéis e a recordação de dois ou três génios fulgurantes. Valerá a pena?

E ali estava eu, solitário, falando animadamente com estranhos que o eram e assim permaneceriam sempre. Gente sem dúvida muito simpática, mas não a minha gente. Se com um desses golpes de magia, traçando a capa que não tinha, pudesse entre fumo ou sem ele, escapar-me para casa! Como eu não deixaria tudo naquele preciso instante!

As conversas de corredor eram diplomáticas e agradáveis até. Como sempre. Mais que sempre. Um mestre orientalista, antigo soldado na Índia, indagava ao pequeno-almoço se continuaria a sentir dores nas pernas quando passasse para o Além. Uma professora cativantemente wagneriana relembrava histórias passadas de recantos da política italiana - e também, é claro, da Universidade e da sua política. Um elegante professor com sotaque afrancesado (como o do então líder do então partido comunista, aliás), relembrou os seus velhos tempos nos escuteiros e avançou a tese de que a construção de acampamentos é a primeira arquitetura efémera...

Eu já era membro da família quando, pela noite dentro, se reanimou o jamburi e o fogo do conselho virtual alumiava as memórias dos que tinham passado pela sociedade de Baden Powell. E todavia...


Paulo Ferreira da Cunha

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