Cortes: Ponto de Ordem

Quando a confusão se generaliza é fundamental parar para refletir. É necessário compreender onde estamos, para onde vamos e qual o caminho mais viável.

Estamos nesse momento. É fundamental refletir, compreender, corrigir, reajustar e reformular.

Mais do que tratar de algumas situações pontuais é necessário pensar nos princípios, estabelecer regras e definir objetivos a atingir e estratégias a operacionalizar. É preciso resolver os problemas de fundo e não fingir que se tratam as minudências. Mas é também essencial atuar sobre os pontos-chave e, claro, saber distinguir quais são estes pontos-chave. O ensino superior é sem dúvida um destes pontos.

Quando dizemos em princípios/regras/objetivos/estratégias estamos a falar de um conjunto coerente de ações, que se complementam umas às outras. Pegar em alguns dos seus aspetos de forma isolada é destruir tudo na melhor das hipóteses, ou uma patranha noutros casos.

Para que esta sequência de ações possa acontecer é indispensável gerir e liderar. Mas liderar não é fazer regulamentos e dar ordens. Liderar é fazer com que os princípios/regras/objetivos/estratégias aconteçam de uma forma eficiente. Para isso é preciso diagnosticar de uma forma correta e planear. Planear é prever. É arriscar a definição de quais os retornos e quando é que prevemos que venham a acontecer.

Vivemos tempos em que o descrédito reina. Os discursos não têm curso e vão servindo apenas para amenizar as almas mais incautas. Há uma evidente incapacidade para apresentar e defender respostas credíveis aos problemas que enfrentamos. A escolha recai insistentemente no mais fácil e mais cómodo.

Corte. A palavra que mais se vai ouvindo nestes últimos tempos. É preciso, dizem, cortar. Cortar. Ponto. Não interessa no quê, em quem, como, quando, para quê ou porquê. Corte-se. E ponto. Corta-se em tudo e de qualquer maneira.

Cortou-se nos vencimentos. Corte que atingiu praticamente todos os docentes e investigadores. Os vencimentos estão em 2011 no Ensino Superior ao nível 2001. Foram deitados 10 anos de trabalho às urtigas de um dia para o outro. Os cortes são um duro golpe que incomoda e retira condições de trabalho, são cortes que desorganizam a vida das pessoas. Cortar nas condições de trabalho de profissionais altamente qualificados é prejudicar, além das próprias pessoas, o País. Cortar as vidas de quem contribui para a inovação e o desenvolvimento, para a formação e educação das futuras gerações é perverso. Justificação: A crise. Culpados: Não existem. Quem perde: O País!

Cortou-se no orçamento das instituições de Ensino Superior. Não ouvimos queixas do CRUP ou CCISP. "Porreiro pá!" Vemos agora que não há confiança no contrato feito. Entretanto começam já a faltar pequenas coisas essenciais para o funcionamento do dia a dia em algumas instituições: não há papel (não só o numerário), os equipamentos não são reparados. Noutras foram mesmo cortados os alunos. Há já instituições que informaram os seus docentes e investigadores que os seus vencimentos só serão pagos, previsivelmente (como fazem questão de realçar), entre os dias 23 e 29 de cada mês. Justificação: A crise. Culpados: Não existem. Quem perde: O País!

Cortar o futuro de um país, cortar a formação e qualificação de milhares de jovens que irão herdar um país falido não pode ser adjetivado de outra maneira: é criminoso.

Mas o que se passa na Ciência e Ensino Superior? Onde está o seu principal responsável? Alguém tem visto o Ministro Mariano Gago? Estará preocupado? Ter-se-á cortado também?

Tudo isto mostra a insegurança de quem devia ser líder, a fuga às responsabilidades de assumir posições, de tomar decisões, de "dar a cara". Liderar é saber "chegar-se à frente" quando é necessário, ou sair de cena quando não se é capaz. Caso contrário quem perde, antes de tudo, são as instituições, e em seguida as pessoas que servem nestas instituições. Instituições que perdem a sua autonomia ao deixarem de poder definir políticas de desenvolvimento sustentado, que se sujeitam a ter de cumprir ações que são contranatura em qualquer organização, que para terem os meios necessários ao exercício da sua função têm de prescindir de poder agir corretamente.

Mas este é o momento em que os cortes poderão ser a chave para uma rotura: cortar com a falta de visão ou de estratégia para um povo (a começar, claro, em quem lidera, ou tem a responsabilidade de o fazer), para um país, para um Ensino Superior.

Este é um momento de crise que, tal como defendia Thomas Khun, será ultrapassado por uma revolução, por uma mudança de paradigma que urge concretizar. Os desafios que enfrentamos terão consequências a médio e longo prazo e exigem no imediato uma atenção muito especial uma vez que as decisões tomadas nesta encruzilhada em que nos encontramos bem como a forma de as implementar serão determinantes para a evolução do País e do Ensino Superior.

Este é o momento de agir. Este é o momento de não ficar à espera que algo mude para que tudo fique inalterado. É preciso coragem para o fazer. Cortar ou ser cortado: é esta a escolha a fazer. É preciso cortar a direito!

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