Relatos de um bule de chá ou Jacarandás no Inferno

Capítulo II. Mistério do Sal

"- Desculpem .. ", - digo eu. Sim. O bule.

- o bule virou-se, de bico para nós. E fitou-nos nos olhos.

"- Estava aqui' perdido na biblioteca do arquiteto Guilherme. Ele tem livros muito interessantes. Uma boa parte, são aqueles albúns enormes com fotografias deliciosas de casas que jamais um simples bule, de boa linhagem mas pouco dinheiro, poderá sonhar em habitar. Mas outros são substanciosos ensaios. Nesta colecção azul, tão simpática, perdi-me neste Adorno, que não é artista, mas filósofo, cientista social, enfim... Aliás, não percebo porque é que o publicaram nesta colecção.

O livro... - somos cultos ou não somos? Então deixem-me contar a razão de estar distraído: o livro, como dizia, é a Minima Moralia, do Adorno. E, parei nesta passagem: "Assim, quem na conversação fala de coisas fora do alcance de um só que seja comete uma falta de tato. O diálogo limita-se, por motivos de humanidade, ao mais chão, ao mais monótono e banal, quando na presença de um só 'inumano'. (...) A conjura pelo positivo atua como uma força gravitatória, que tudo atrai para baixo."

É o aforismo 118.

- O bule fechou o livro azuL e como que enfrentou o nosso plano de "close-up": Como isto tem a ver com o que por aqui oiço. Jamais estas conversas poderiam ser tidas na universidade do Guilherme... Ao que chegámos! (ao que chegaram). E reparem. Guilherme ficou inspirado intranquilo com esta conversa. Os a sempre excitam no seu profundo e sensível caldeirão mental. E - é bom haver narradores omniscientes - sabem que paradoxalmente, o seu je-ne-sais utilitarista? Como? Venham ver...
Encheu o vasto peito de ar revigora: levantou a cabeça, quase se, diria que - ornou com os melhores vestidos, como fazia no exílio do lar o Maquiavel escritor, e retirou-se no santo dos santos da sua escrivaninha. Ele acha que aproveita das conversas para os seus escritos. No final, aproveita apenas o impulso. Já vão ver. O arquitecto abriu um cintilante computador portátil, minúsculo, e começou a martelar, com dois dedos apenas, uma estória que lhe andava a bailar na cabeça há muito. Mas que teimava em não tomar forma. Desta vez saiu, escorreita como pôde. Acho que tinha algo de autobiográfico. A meio da narrativa, mandou a Dona Francelina chamar-me e ainda apanhei um pedaço bom da trama. Era sobre uma viagem dele à Itália, para um congresso de arquitectura, não sei exactamente o tema. Oh, a Itália... (E cantarolei...) Ele diz que Bule assobia. Eu acho que canta. Como podem as nossas naturezas compatibilizar-se?

Vamos lê-lo.

Uma observação simpática: o meu Guilherme não escreve nunca "Querido diário:". Mas sei que o tem por "querido".

As palavras dos homens são subtis e astutas! Mas complicam demais. Entre os bules é tudo muito mais simples.

Vamos lá ver, caro Arquiteto Guilherme, o que andas a fazer...

"Nápoles era um tempo especial, quebra de rotina e do stress entre dois meses de um ano convulsivo. Holidays lhe deveria chamar. E contudo ia a trabalho.

Nápoles, a Nápoles mítica! Ver Nápoles e depois... morrer. Tão próxima do Vesúvio... Tão próxima, na verdade, da morte... Pompeia e Herculano não estão longe tanto na geografia como na memória.

Mas como podem tais memórias preencher o imaginário de férias, sempre tão
vitalista e tão olvidadiço, mesmo quando percorre ruínas?

- e Guilherme lembrou-se que tinha para ler um artigo da "Biblos", de Coimbra, sobre o "valor da ruína" ... Tanta coisa para ler, em pilhas, em vastas pirâmides em torno de si, esperando o bem mais precioso e mais escasso para os universitários: o tempo! "Subtil inimigo que ataca fugindo", como diria (cito de cor, claro) um interessante e polémico pensador brasileiro.

Mas não o interrompamos:

Curioso paradoxo, filas de turistas meio bárbaros poluem os lugares santos da nossa memória, num ritual grotesco. Desatentos, faladores, ignorantes (que é o pior de tudo), afinal displicentes. E como pode ser isso? Eles não peregrinam por livre vontade?

Não entendo essas migrações sazonais voluntárias. E as velhas pedras tudo suportam, nem sequer lhes lembrando que, sem o saberem, comemoram afinal a morte.
Eu, porém, não ia a turismo. Cheguei, cheio de esperança e curiosidade. Não levava máquina fotográfica, e a minha inseparável gravata condizia com os óculos interrogativos num duo de compostura.

 

O trânsito, nessa cidade ardendo ao sol, é totalmente caótico. Nada de admirar. A mitologia do serpentear criativo do automobilista italiano é bem nossa conhecida - e frequentemente funciona como álibi para as nossas próprias loucuras nacionais.

 

Mas que importa? Ali estava eu, assando sob a chapa de um táxi que se arriscava a levantar voo ou a desconjuntar-se a qualquer minuto. Encerrado e sempre sujeito a novas emoções fortes, com guinadas, travagens bruscas, acelerações imprevisíveis, brados, vitupérios... demasiado cliché para ser verdade, uma única coisa não batia certo na pré-compreensão que levava na bagagem mítica do chauffeur de táxi italiano. Esquecera-me que ele era napolitano.

 

E, como tal, não pude praticar a elegância do meu italiano puríssimo porque o motorista me falava no dialeto local - o qual eu fingia entender até por razões de simples sobrevivência, mas sempre apurando o ouvido e afinando a imaginação... adivinhando o que ele dizia. Se ao menos eu conseguisse sobreviver àquela simples ida do aeroporto ao hotel!

 

O palavroso homem perguntou tudo sobre mim, e adivinhou o que eu não lhe disse... Eu já arrebicava o italiano puro numa mistura que lhe pudesse ser mais compreensível. No meu subconsciente, eu adaptava o romano a algo mais cantante. Tolice minha! Mimetismo de poliglota! , Sì. Io insegno matematica. Sì, sono venuto qui per un congresso della matematica moderna... Isto com música de O sole mio... Não era verdade, mas correspondia ao retrato que ele sobre mim se pusera a efabular... fruto maduro do seu "olho clínico".

- "Eu nunca me engano sobre a profissão dos meus clientes!"

 

Pois! Se ele soubesse que já nem sei resolver uma equação do 2.º grau! Bom, isso ainda sei. Mas... O Archicad resolve tudo. Porquê argumentar? Para quê negar?

Porque razão desiludir o ego satisfeitíssimo daquele psicólogo ambulatório?
Não era nada importante. Não o veria provavelmente jamais...

 

A única coisa importante para mim era então dar a impressão de compreender suficientemente bem aquele patois (creio que nem era napolitano puro) para não vir a ser muito roubado no final.

 

No limite, tirando o rapto, fora de questão para um pretenso professor de matemática - embora na minha terra

 

se exagere na avareza salarial, é sabido que em toda a parte os professores
ganham geralmente muito mal - o que eu temia era o assalto. Acho que hoje
posso confessá-lo. Com vergonha pelo etnocentrismo.

 

E o táxi lá prosseguia o seu serpentear por entre estreitas ruas de uma cidade viva, colorida, cantante e pulsante sob o sol.
Tinha que prestar a máxima atenção a todos os discursos, adivinhações sobre
a minha pessoa e, é claro, sábias recomendações do taxista.

Chegamos. Finalmente!

A conta apresentada, como eu temia, era para turista abastado, não para professor de matemática. Começo a interrogar-me sobre a subtileza da "adivinhação" do motorista: será que ao dar-me essa qualidade de  professor de matemática (logo, alguém que deve saber fazer contas) contaria, pela losonja, atenuar as minhas precauções contabilísticas, induzindo-me a aceitar uma conta astronómica? Talvez seja excessiva especulação minha.

Mas, longe de pagar sem pestanejar, enchi-me de coragem e... Bem... Pouca coisa: limitei-me a protestar com um
sorriso moderador das palavras. Sabia de antemão que ele não me iria compreender. E, naturalmente, foi nessa ocasião que o meu falar, digno do purismo da Academia della Crusca, esbarrou com o linguajar local e o homem abanou as orelhas, girou os olhos na órbitas e nem parecia querer dar troco. O sol escaldava. Desisti.

Na receção do hotel. onde soprava uma inusitada brisa cor de limão, reencontrei o conforto, articulando, nesse italiano seguro e gramatical, a minha identidade, as minhas necessidades e os meus desejos. E sorrindo em bem recortadas frases, que sabia serem compreendidas de querer e entender pelas simpáticas rececionistas. E a consonância dos sorrisos, de lábios e olhares, transportou-me em gratidão à memória do meu velho mestre Giuseppe, tão rigoroso nas conjugações

Subi ao meu quarto, disposto a cair na cama e esquecer o sol, gozando o meu
triunfo linguístico. O hotel era ao mesmo tempo bucólico e muito britânico, estrategicamente encravado numa colina, como num anfiteatro de fronte ao mar ... Da varanda, muito elegante, com arabescos no gradeamento que todavia não perturbavam a traça british, podia apreciar-se toda a baía e o respeitável (hoje já não terrível) vulcão.

 

Bebi de um trago toda a água mineral do frigorífico... e com o copo vazio de água mineral, salgada, na mão, brindei gostosamente à vida da minha varanda, uma varanda mítica agora reencontrada tal como a vira em tantos sonhos.

 

Compus até de cabeça um poema, que é um programa de vida:

 

"TOMADA DE POSSE

 

Vou tomar posse da minha varanda

E deixar o olhar comprimido estes anos todos
Espreguiçar-se pelos longes até ao mar
Que em vão tem esperado por mim

Espreitando por uma nesga lá  no horizonte.

 

Agora vou tornar posse
da minha varanda

Sem ler compromisso de lealdade

Sem limpar a voz pigarreando em falso

Nem ensaiar com a caneta uma voluta
Para me-sair melhor a assinatura.

 

Não vai ficar noticia em livro de tombo
Nem será efeméride notada

Mas agora a minha vida

vai ter mais espaço

Vou tomar: posse da minha varanda."

 

Foi um rasgo de inspiração. Logo me senti amolecer.

Fora uma tarde pesada na minha vida pesada... Para trás, deixara mil e um quefazeres e mil e uma guerras em curso.

Os estandartes agitavam-se ainda na recordação sobressaltada. Caí num sonho
hipnótico e profundo.

 

Quando me levantei, senti uma terrível sensação salgada na garganta, e a minha língua crescia-me na boca como um pedaço anómalo de madeira.

 

Ri-me da expressão langue de bois... coisa sinistra que tanto tento evitar no
discurso, mas que agora saía da metáfora para a realidade. !

 

Desci para um jantar solitário e discreto. O congresso só começaria no dia seguinte.


À mesa, de novo a tentação: não um copo, mas mais uma garrafa de água mineral. Salgada.


Paulo Ferreira da Cunha

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