Inter Nacional

Autores: Florival Lança
Editora: Profedições, 2010

Fruto de uma experiência de 15 anos enquanto secretário de relações internacionais da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) e de mais de três décadas de dirigente sindical, o livro Inter Nacional, da autoria de Florival Lança, propõe-nos uma leitura pessoal sobre um tema de atualidade - o do sindicalismo internacional -, ainda que por norma relegado para segundo plano. Não será, aliás, por acaso que o título do livro separa as palavra "Inter" e "Nacional", ou não fosse a CGTP também conhecida por Intersindical Nacional. Em concreto, desenvolve-se uma forte perspetiva crítica sobre o modo como a CGTP (linha comunista) se posiciona perante o movimento sindical internacional, mais precisamente ante a possibilidade (defendida pelo autor) de se filiar na Confederação Sindical Internacional (CSI), a maior organização sindical internacional da atualidade e que exerce um papel dominante nos espaços onde a CGTP se movimenta (p. 91).

Discorda-se da "retórica panfletária e pseudo-revolucionária" (pp. 18; 93-94) e dos "constrangimentos de ordem política e ideológica" (p. 19) que na CGTP distorcem o (não) debate sobre a filiação na CSI: "nenhuma organização se pode dar ao luxo de empurrar para debaixo do tapete um problema importante, ou de ignorar, menosprezar ou, pura e simplesmente, esmagar uma parte significativa das suas organizações e dos seus membros" (p. 20).

É notória ao longo do livro a preocupação em informar, esclarecer e debater. Desde logo quando (capítulo 1) se sustenta que a filiação sindical não pode ser vista como um mero "jogo de influências ao nível político" (p. 35), mas como uma opção mobilizadora e agregadora que não porá em causa caráter de classe, unitário, democrático, independente e de massas da CGTP (capítulo 2). A explicação da história das principais organizações internacionais dos últimos 60 anos (capítulo 3), o esclarecimento sobre únicas as organizações sindicais não filiadas internacionalmente nas vésperas da criação da CSI (capítulo 4) e o papel da CGTP nesse contexto (capítulo 5) complementam a fundamentação do autor. Para F. Lança é crucial "jogar o jogo por dentro" (p. 91) do sindicalismo internacional. Mesmo não sendo um desafio fácil - tanto mais que a CSI é constituída sobretudo por centrais sindicais "umbilicalmente ligadas ao vasto espaço da Internacional Socialista" e algumas "com posições mais à direita" (p. 78) -, a filiação da CGTP na CSI significaria: mais solidariedade internacionalista; reforço das posições combativas no seio da CSI; assunção da identidade e diferença da CGTP, em simultâneo com a capacidade para estabelecer pontes e saber ouvir as razões dos outros (p. 89). 

Mas não se pense que este livro é apenas um esgrimir de pontos de vista ideológicos sobre uma (não) filiação internacional. Trata-se também de uma obra de interesse académico, apoiada num importante "registo de factos" (p. 21) e num conjunto de documentos (anexos) relevadores de contradições, silenciamentos, (des)equilíbrios de forças ou formas de democracia que nos ajudam a perceber o modo como se reconfiguraram as identidades das organizações.  

Florival Lança, ex-militante do PCP, é um dirigente histórico da CGTP que, no início de 2008, foi afastado da comissão executiva da CGTP.


Hermes Augusto Costa

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