O mau nunca é demais…

 

Paulo Peixoto

paulo.peixoto@snesup.pt

 

O nível de aceitação de medidas drásticas entre professores do ensino superior é elevado. A experiência sindical e a vida académica têm-me permitido constatar que, por regra, os docentes do ensino superior aceitam frivolamente (ainda que nem sempre de forma totalmente acrítica, sobretudo quando a aceitação resulta da submissão a formas institucionais de mandarinato), e em relativa surdina, as medidas e reformas mais extremadas.

Mesmo quando não acreditam nessas medidas e reformas, é comum ver os professores do ensino superior empenhados em as concretizar diligentemente nas suas instituições. Aconteceu recentemente com o processo de Bolonha. Acontece atualmente com os mecanismos e regulamentos inerentes à avaliação de desempenho. A aquiescência complacente é a nota dominante.

Sobressai, além disso, uma, aparentemente, incompreensível orientação para a auto-flagelação, que reforça esse mesmo cenário de concordância benévola. São os professores, eles próprios, que se auto-impõem padrões que fazem, como diria Pessoa, dos seus corpos e das suas almas a lenha de um fogo que só a eles aquece e ilumina. A semana-inglesa não faz mais sentido, ainda que as jornadas diárias se alonguem bem mais que o necessário para compensarem o sábado (naturalizado, em pleno sentido, de forma geral, como dia de trabalho). E o domingo, também ele, vem encaixando cada vez mais funções dos docentes à medida que a semana, tomada pelas atividades letivas e procedimentais, não deixa espaço para a organização de eventos científicos e de reuniões de trabalho.

Acatar por indiferença, como sugere Brecht, e criar por ensimesmamento grandiloquente, como insinua Pessoa, tornaram-se forças inatas da Academia. A imagem da Torre da Marfim é ainda, com a sua carga pejorativa, aquela que perdura. Num universo em que as pessoas se sentem deliberadamente desvinculadas das preocupações mundanas, fechadas num desejo esotérico de tornar grandes as suas vidas num universo cada vez mais sitiado e depressivo, tudo se aceita. O mau nunca é demais.

E viver! Também é preciso?

  A indiferença
Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
 Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afetou
Porque eu não sou operário.
 Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
 Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
 Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.
 Bertolt Brecht   Navegar é preciso
(…)Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.
 Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
(…)  

Fernando Pessoa

 

 

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