A Síndrome dos Antigos Dirigentes

A Ensino Superior - Revista do SNESup nº 37, de julho / setembro de 2010 publica um apontamento de Jorge Morais, seu primeiro Diretor e atualmente membro da Direção do SNESup em que se tecem elogios a um tal "Ivo", cujo nome é repetido até à exaustão, e que teria deixado de ter ligação ao ensino superior e ao Sindicato, não se sabendo se voltará alguma vez numa manhã de nevoeiro.

Surpreendeu-me a inclusão de um texto deste cariz na Revista, até que percebi tratar-se de um obituário, género jornalístico que, entre os jornais que mais ou menos acompanho, já é cultivado no Expresso e no Diário de Notícias

Desagradou-me a assimilação entre a perda de ligação ao ensino superior e a perda de ligação ao Sindicato, quando os Estatutos claramente permitem que, suspensos embora os direitos de participação em Assembleias Gerais e em eleições, o associado que fique sem vínculo profissional voluntariamente ou esgote a possibilidade de contestação em caso de despedimento, continue a pagar quotas (como sucede neste caso) e a ter acesso a serviços, deixando num limbo outras formas de contribuição.

Mas Jorge Morais assimilou bem a ideia de que o alvo das suas referências, que assina o presente artigo, quis, ao prescindir por sua iniciativa do vínculo ao ensino superior, quebrar também uma certa forma de ligação ao Sindicato, de cuja constituição foi um dos promotores. E aqui, para além de um caso pessoal que nem deveria ser discutido publicamente, existem questões a colocar em termos mais amplos.

A heterogeneidade e a dispersão, geográfica e por áreas de formação, da massa dos sindicalizados do SNESup, tem exigido muito dos membros das suas Direções cuja composição reflete essa heterogeneidade e essa dispersão e que, constituída a primeira equipa na base do grande movimento interescolas de 1989 se vão renovando em função de uma dinâmica exclusivamente sindical. Há quem entre com limitações e não as consiga ultrapassar, há quem se desagrade e se desinteresse do trabalho, há quem tente aproveitar a oportunidade para proveito político ou profissional, com maus resultados para si, para os outros e para o Sindicato, e há, enfim, dirigentes que tentam tomar o destino do sindicato nas suas mãos e fazer o melhor que podem, sem que alguma vez tenham tido o elogio público que mereciam. 

 Em relação a estes últimos é notória a preocupação, com a passagem de pasta, de se desligarem completamente da vida sindical e de não comentarem a sua evolução posterior, nem sequer aparecendo nas reuniões promovidas nas respetivas escolas ou até nem sequer votando em eleições. Por vezes surgem justificações e leituras com algum grau de verosimilhança, como sejam o regresso a preocupações exclusivas com a vida académica, a aceitação de altos cargos públicos, os compromissos familiares. Ou então, que a participação sindical é um fenómeno geracional, e que psicológica ou socialmente é impensável voltar.

Será um pouco de tudo isto, mas creio que acima de tudo o sentimento de responsabilidade por ter o Sindicato em cima dos ombros, de garantir a sua sobrevivência no imediato, de perspetivar o seu futuro, acaba por esmagar, e que o trabalho de Sísifo de manter condições de trabalho decentes nas instituições, ou de manter uma rede de representantes no terreno, de gerir intervenções exaltantes mas também de aturar pequenas mesquinhices quotidianas, acaba por cansar.

Acresce que, sem que tal decorra do modelo estatutário ou até de doutrina organizativa do sindicato, existem poucas oportunidades de informar, debater, intervir quando se está fora da Direção, e até quando se está dentro de uma. O SNESup perde com esta situação contributos potencialmente valiosos e cerceia as suas possibilidades de atuação. Num ambiente como o do Congresso de maio de 2010 no Porto algumas ideias para a ultrapassar vêm ao de cima, mas no dia seguinte são esquecidas até ao próximo fórum.

No meu caso pessoal, o envolvimento com a ideia do sindicalismo no ensino superior ocorreu sobretudo entre 1977 e 1985 , ainda numa situação profissional em que, docente de Finanças Públicas do Instituto Superior de Economia, mantive um pé no ensino e o outro nos serviços de intendência geral do orçamento dos Investimentos do Plano. A fundação do SNESup em 1989 encontrou-me já, em termos de ensino, numa privada, fora da carreira académica e do mainstream sindical. Dei alguns contributos para o lançamento do Sindicato mas mantive-me anos na posição de participante sem interesse em funções dirigentes, o que me valeu não poucas incompreensões. Entre outubro de 1999 e julho de 2010 participei num grande movimento de relançamento do Sindicato de que muitos responsáveis estão ainda sindicalmente ativos ou pelo menos atentos. Refiro em particular os antigos presidentes da Direção Luís Belchior, Paulo Ferreira da Cunha, Luís Moutinho, Paulo Peixoto e bem assim, Luísa Santos e Jorge Morais, cujo regresso à última Direção foi decisivo para ultrapassar o impasse pós-negociação dos Estatutos de Carreira e levar o processo à Assembleia da República.

No que pessoalmente me toca, preferi deixar o Sindicato continuar sem mim, pondo termo a uma ligação profissional que deixara de me motivar e lançando mão da única figura estatutária que, para além da dessindicalização, me libertaria perante mim próprio de responsabilidades perante o Sindicato. É certo que mantenho em relação a dirigentes sindicais e associados que fui conhecendo ao longo destes anos uma comunidade de ideias e uma comunidade de afetos mas num movimento social com as características do SNESup o que é decisivo é a comunidade de experiências e a comunidade de interesses.

Num ponto, o Jorge Morais estará equivocado, não sou, nem fui, um sindicalista, a não ser na medida em que acredito nas virtualidades do movimento sindical, sobretudo quando observados os princípios da Carta de Amiens (cfr. Ensino Superior - Revista do SNESup nº 28, abril - junho de 2008).

Mas espero que o SNESup queira continuar a ser um Sindicato.


Nuno Ivo Gonçalves

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