A crise não é solução


Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt 

Não raras vezes apresentada como uma solução, ou pelo menos como uma oportunidade, a crise tem sido, de facto, uma oportunidade para oportunismos vários. O artigo de Hermes Costa neste número da Ensino Superior - Revista do SNESup mostra que não se pode contar com o Tribunal Constitucional como garante de direitos laborais contra o estado-patrão. Num contexto destes, todos os oportunismos são facilmente legitima- dos, como têm sido exemplo as decisões governamentais dirigidas às instituições de ensino superior (IES), ou as decisões de órgãos de gestão das IES em relação aos seus docentes e funcionários.

A universidade sempre ofereceu, nos vá- rios cantos do mundo, saídas para as dificuldades, fossem da democracia, fossem dos problemas dos pobres ou até mesmo das minorias. É verdade, porém, que isso aconteceu, tendencialmente, em alturas em que a universidade não estava em crise. E em momentos em que, paradoxal- mente, era frequentada pelos filhos da- queles a quem a crise, por regra, não afetava, pelo menos de forma aguda. A questão que se coloca é a de saber como pode agora a Universidade oferecer saídas para a crise, quando ela própria atravessa uma crise profunda? Os académicos, como muitos outros na sociedade, parecem estar à espera que a crise atinja um ponto de não retorno. Estaremos perante revoluções em marcha, como argumenta Elísio Estanque ao abordar as formas de rebelião das classes médias que alimentaram o crescimento das universidades nas últimas décadas? Se sim, que papel está reservado às universidades?

Da crise global à crise particular, António Cândido de Oliveira deixa-nos uma reflexão sobre a crise do modelo de governação das universidades, discutindo o crescente risco de irrelevância dos Conselhos Gerais nas Universidades. E Elísio Estanque, na coluna de Opinião, discute as origens da violência nas IES, perpetradas sob a forma de praxe académica, ligando-as a dinâmicas sociais mais abrangentes que remetem para transformações socio- culturais ocorridas nas últimas décadas na sociedade portuguesa. Paulo Ferreira da Cunha traz-nos, no folhetim académico, uma outra leitura da crise que assola a academia e os académicos.

Por ocasião da comemoração dos 10 anos da Ensino Superior - Revista do SNESup, matéria que já focámos no número anterior, esta edição da revista traz o depoimento dos 3 diretores que me antecederam (Jorge Morais, Luís Belchior Santos e José Peixe). Quem faz trabalho sindical conjugado com outras obrigações, num sindicato de docentes e investigadores que não deixam de ser docentes e investigadores em pleno para fazer sindicalismo, sabe que este é um trabalho árduo e muitas vezes inglório e ingrato. Ficam, contudo, os registos das pequenas e das grandes conquistas pautadas pelos desconsolos (como, por vezes, como é o caso, não ser possível ter a revista a circular na periodicidade devida - o que lamentamos e o que merece o nosso pedido de desculpas) naturais num universo espinhoso para o sindicalismo. O depoimento dos colegas é uma memória, deixada em jeito de balanço, que faz parte do nosso património, do nosso orgulho e da nossa identidade enquanto associação sindical.

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