A “praxe académica” e a cultura juvenil


Elísio Estanque
Centro de Estudos Sociais e Faculdade
de Economia da Universidade de Coimbra

Tal como o próprio ritual, são cíclicos e recorrentes os problemas de abuso e de violência no contexto da "praxe académica". Mas, mais do que lançar o anátema sobre os estudantes ou atirar uma geração contra a outra, importa olhar para estes fenómenos enquanto expressão de culturas juvenis que se inscrevem nas transformações socioculturais das últimas décadas na sociedade portuguesa. A massificação do ensino, o consumismo individualista e hedonista constituem fatores socioeconómicos a ter em conta, mas algo terá falhado na nossa democracia, no sistema educativo e na própria família para justificar o clima de degradação e o défice de formação cívica das atuais gerações.

Nos últimos dias foi notícia mais um caso, em Coimbra, envolvendo duas jovens estudantes de psicologia, que terão sido agredidas por recusarem alinhar nos castigos da "praxe" e a assinar uma declaração anti-praxe. Na sequência da denúncia, o Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra declarou a suspensão da "praxe académica" por tempo indeterminado. Porém, logo no dia seguinte assisti junto à cantina "Amarela", a mais um exercício humilhante em que um estudante mais velho aplicava a praxe a duas raparigas, estendidas no chão a fazerem flexões de braços (2/04/2012). As alarvices e abusos do mesmo teor são antigos, mas parecem agravar-se à medida que a Universidade se massifica. Começam na semana de receção ao caloiro, passando pela Festa das Latas, e vão até à Queima das Fitas, o seu pico mais alto. Em qualquer lugar público as cenas sucedem-se: as/os "doutoras/es" a dar ordens a grupos de "caloiras/os" que se perfilam como na tropa, olhando para o chão em obediência servil; depois, colocam-se "de quatro" e  gritam em coro "sou caloira e sou burra!!" (cena em Coimbra, 1/03/2012). Em Leiria, por volta das 21:00h, no centro da cidade, uma fila de caloiras deitadas no chão, rebolam-se perante os gritos militaristas das suas superioras (cena observada a 7/03/2012). A postura machista, marialva e de subalternização da mulher é, aliás, um traço marcante da atual cultura estudantil e para a qual eles e elas contribuem alegremente, exaltando a hierarquia e naturalizando as mais diversas formas de arrogância e abuso de poder.

Os rituais praxistas são no entanto indissociáveis do ambiente de festa e de "borga" que se vive nas cidades universitárias e no mundo juvenil. Ao longo de cada ciclo letivo, quem passeie à noite pela baixa de Coimbra (sobretudo às terças e quintas-feiras) pode presenciar as mais diversas cenas descabeladas e aberrantes, de grupos alcoolizados a gritar ordinarices que se fazem ouvir no extremo oposto da rua, a treparem por cima dos automóveis estacionados, outras/os a vomitar, a urinar na rua ou à beira do estado de coma, num cenário que é no mínimo deprimente e que parece degradar-se de ano para ano. Porém, o que se observa entre os estudantes universitários não é alheio ao que vem ocorrendo logo no ensino secundário, com especial incidência no contexto das excursões de fim de ano ou de fim de ciclo - como tem sido noticiado a propósito da recente morte de um adolescente em Lloret del Mar, Espanha -, com os nossos jovens a embarcar num jogo perigoso de alucinações e de excessos, onde o álcool é sem dúvida um dos principais lubrificantes e que, como se viu, pode ter consequências fatais.

A célebre "geração rasca", a que se referiu Vicente Jorge Silva (em 1994), apesar dos gestos brejeiros, contestava o poder do Ministério e as Provas Globais, enquanto há um ano atrás, o movimento "M12M" teve grande eco na sociedade. Mas hoje temos, não uma, mas duas gerações "à rasca": a dos pais e a dos filhos. Uma asfixiada pela austeridade e que já não pode pagar mais e outra sem meios de subsistência ou sentido de futuro. Perante isto, os nossos jovens entram na volúpia de um eterno fruir do presente enquanto deslizam para sentimentos de revolta latente e sem horizonte. Ora, é nessa tensão entre a fuga da realidade e a rejeição do sistema democrático que germinam as sementes do populismo.

Publicada em Jornal «Público»,6/04/2012

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