Associações científicas em Portugal

Ana Delicado ICS - UL
Raquel Rego SOCIUS-ISEG-UTL
Cristina Palma Conceição SOCIUS-ISEG-UTL
Inês Pereira SOCIUS-ISEG-UTL
Luís Junqueira ICS - UL

As associações científicas são um dos atores menos conhecidos do campo científico. Apesar da sua existência multi-centenária e da sua importância nos primórdios da ciência moderna, é pouco conhecido o seu papel atual, tanto no mundo como no caso específico de Portugal. Quantas são? O que fazem? Quem participa nelas? Que funções desempenham na ciência e na própria sociedade?

Este artigo procura responder a algumas destas questões com base em resultados do projeto SOCSCI Sociedades Científicas na Ciência Contemporânea*, que se sustentou numa combinação de metodologias e técnicas: um recenseamento das associações científicas (N=362); uma recolha de estatutos e códigos de ética; um inquérito a associações científicas (N=107); o estudo aprofundado de uma amostra de associações científicas (N=24), consistindo em análise documental, entrevistas a dirigentes e inquéritos a sócios (N=907); um inquérito a investigadores em Portugal sobre práticas associativas (N=861); e estudos de caso históricos relativos à Academia das Ciências e Sociedade de Geografia de Lisboa (desenvolvidos por Cristiana Bastos e Patrick Figueiredo).

 

O universo das associações científicas em Portugal

Partindo de uma definição lata de associação científica, que engloba organizações tão diversas como sindicatos de docentes universitários e investigadores, clubes de astronomia, associações dedicadas à promoção da energia solar, para além das mais convencionais sociedades científicas de âmbito disciplinar, podemos encontrar em Portugal atualmente cerca de 360 destas instituições.

Sem contar com a Academia das Ciências de Lisboa, as mais antigas associações científicas em atividade datam do século XIX. Porém, se o número de associações científicas era irrisório até aos anos 70 (devido às limitações ao associativismo e ao fraco desenvolvimento da ciência durante o Estado Novo), desde então tem vindo a crescer substancialmente, a par do desenvolvimento do sistema científico. O aumento mais significativo deu-se na última década

(quase uma centena de novas associações criadas desde 2000).

 

Associações científicas por datas de fundação (valores acumulados)

Fonte:Recensemento de associações científicas, N=301

 

No que respeita à distribuição espacial das associações científicas recenseadas, verifica-se uma forte concentração em Lisboa (mais de metade das associações), seguida de Porto e Coimbra. São identificadas também associações científicas em Braga, Faro, Aveiro e Vila Real. Esta localização segue de perto a concentração geográfica do sistema científico português, assim como do sistema universitário. De facto, quase um terço das associações científicas tem como sede as instalações de estabelecimentos de ensino superior, Laboratórios do Estado ou centros de investigação.

 

Associações científicas por distrito

Fonte: Recenseamento de associações científicas, N=348

 

No que respeita à área disciplinar das associações científicas, as ciências médicas e da saúde são predominantes, seguidas das ciências naturais e depois das ciências sociais e das ciências da engenharia. Esta distribuição não tem uma correspondência linear com a estruturação do campo científico português: a área que efetua maior despesa e congrega um maior volume de recursos humanos em I&D é a das ciências da engenharia, seguida da das ciências exatas. O que explica a predominância das ciências médicas e da saúde no campo das associações é unicamente a sua pulverização subdisciplinar.

 

A heterogeneidade do universo das associações científicas pode ainda ser organizada segundo uma tipologia de três ideais-tipo, associados a três conceitos polarizadores: a ciência, a sociedade e a profissão. Assim, entre as associações científicas recenseadas, o tipo largamente predominante são as sociedades científicas disciplinares (72%). Seguem-se-lhe as associações de divulgação científica (22%) e por último as associações de profissionais científicos (5%). No entanto, como ideais-tipo, estas categorias têm, na prática, fronteiras porosas entre si. Há associações que combinam características de mais de um tipo e outras que mudam ao longo do tempo, passando de um tipo a outro.

 

Atividades de circulação de informação

A comunicação interna à disciplina é uma das atividades principais das associações científicas e um dos instrumentos de socialização dos seus membros. Esta circulação de informação entre cientistas e outros profissionais é feita através de dois canais primordiais, a organização de congressos e a edição de publicações, que são também as faces mais visíveis deste tipo de organizações.

 

Associações científicas por data de fundação (valores acumulados)

Fonte: Inquérito a associações científicas portuguesas, N=105

 

Apesar de não terem o mesmo peso que os congressos internacionais, os congressos nacionais continuam a ter um papel enquanto locais de encontro das comunidades disciplinares nacionais. Em especial, estes congressos são importantes enquanto forma de integração dos jovens investigadores, oferecendo-lhes uma oportunidade para a apresentação dos primeiros trabalhos. São também uma ocasião para captar novos associados, para trazer figuras de relevo a Portugal e para dar visibilidade à associação. Em alguns casos, especialmente em associações que têm uma porção significativa de não investigadores entre os seus associados, estas ocasiões são também um espaço de encontro e troca de conhecimentos entre investigadores e outros profissionais da mesma área disciplinar.

No caso das associações de profissionais científicos, os encontros são principalmente dedicadas a temas de representação de interesses socioprofissionais. São momentos de reflexão sobre o estado das condições profissionais mas também uma oportunidade de contacto com as principais entidades do sistema científico e tecnológico nacional, como o Ministério da Ciência, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, universidades e empresas.

As publicações mantêm-se como uma atividade muito relevante das associações mas que sofreram significativas transformações nas últimas décadas. A publicação de revistas científicas dirigidas a especialistas perdeu terreno, face à concorrência das revistas internacionais, muito mais prestigiadas. Em resultado disso, várias associações redirigiram as suas publicações para públicos mais alargados, transformando-as em veículos de difusão científica mais do que de comunicação entre pares. As novas tecnologias de informação vieram permitir reduzir os custos das publicações e aumentar a sua circulação. É também muito comum a publicação de boletins ou newsletters, com o objetivo de divulgar as atividades aos associados, bem como de livros e atas de congressos.

 

Representação de interesses profissionais

A defesa de interesses profissionais é uma das atividades principais das associações de profissionais científicos. Entre o seu reportório de ação encontram-se reuniões com os ministérios de tutela, abaixo-assinados, cartas, colóquios sobre questões profissionais, elaboração de documentos, manifestações ou mesmo processos judiciais.

Nos últimos anos emergiram novas associações de profissionais científicos, refletindo o crescimento do investimento público na ciência, mas também a precariedade dos seus praticantes: a Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) e a Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia (ANICT), fundada em 2010, na sequência da contratação de mil Doutorados para o Sistema Científico e Tecnológico Nacional.

Algumas sociedades científicas disciplinares podem assumir um caráter híbrido ao exercer a representação de interesses profissionais ao mesmo tempo que promovem a sua disciplina e a circulação de informação científica entre pares. A Associação Portuguesa de Sociologia (APS), por exemplo, tem organizado encontros sobre a empregabilidade dos sociólogos, tem procurado junto do Ministério da Educação que sejam reconhecidas habilitações próprias aos sociólogos para a lecionação no ensino secundário, dinamiza uma bolsa de emprego e debateu inclusivamente a necessidade de criação de uma Ordem dos Sociólogos.

Uma maioria de associações científicas (72%) afirma efetuar, regular ou ocasionalmente, aconselhamento científico de políticas públicas. Uma proporção menor (48%) tem assento em órgãos consultivos. Porém, em matéria de política científica, as associações científicas têm sido muito pouco ouvidas, parecendo estar mais rotinada a sua auscultação em matérias de educação, saúde ou ambiente.

O poder político recorre crescentemente à encomenda de estudos a centros de investigação e consultoras, mas, por iniciativa própria, algumas associações formulam pareceres ou participam em processos de consulta pública. O Parlamento tem sido um dos destinatários de iniciativas de lobby por parte destas associações. Perante um tecido associativo vasto e heterogéneo, a inexistência de uma federação ou união de associações científicas dinâmica contribui certamente para enfraquecer a sua ação coletiva. A Federação Portuguesa e Associações e Sociedades Científicas (FEPASC), criada nos anos 90, está praticamente inativa, apesar de ainda manter representantes, por exemplo, no Conselho Nacional de Educação

 

Atividades de divulgação científica

Boa parte das associações científicas são agentes ativos no esforço de aproximação da ciência à sociedade. Se todas reconhecem a pertinência do crescente movimento de aproximação dos cidadãos à ciência (nas suas várias vertentes), a grande maioria participa diretamente em ações de divulgação científica, dirigidas tanto a crianças e jovens como a públicos adultos.

Ainda que muitas das sociedades científicas disciplinares também assumam a divulgação da ciência entre as suas missões, nas últimas décadas têm inclusive surgido em Portugal várias associações especificamente vocacionadas para este efeito. Entre o conjunto das associações científicas portuguesas, as de profissionais científicos são as menos ativas nesta área.

De acordo com o inquérito a investigadores em Portugal, contribuir para promover a cultura científica e o gosto por participar neste tipo de atividades é uma forte motivação para pertencer a associações de divulgação científica, mas também em bastantes casos a sociedades científicas disciplinares.

Entre as atividades de divulgação científica mais frequentes e transversais aos diversos tipos de associações estão as palestras públicas sobre temas de ciência, a disponibilização de conteúdos em websites, newsletters ou redes sociais e os contactos com os meios de comunicação social (que também podem se revestir de outros objetivos, como a defesa de interesses profissionais ou o lobby sobre decisores).

 

Ações de divulgação científica

Fonte: Inquérito a associações científicas portuguesas, N=105

 

São mais pontuais ou circunscritas a um menor número de associações iniciativas como olimpíadas para jovens e outros concursos, comemorações temáticas (ex. Semana Internacional do Cérebro), a participação em projetos de ensino experimental das ciências, dias de "portas abertas", visitas a laboratórios ou a organização de exposições temáticas.

Algumas atividades são específicas às associações mais vocacionadas para a divulgação científica: organização de visitas de campo, ex. "De olho nas aves" (SPEA); integração de amadores em projetos de investigação e divulgação, ex. jovens estudantes em projetos internacionais para descoberta de astroides (Nuclio), ornitólogos amadores em censos de aves (SPEA); articulação entre ações de divulgação e de solidariedade social, ex. projeto "Simbiontes" com crianças no IPO (AVaC), fornos solares em Timor Leste (SiW); envolvimento das populações locais em projetos de conservação; dinamização de blogs, portais e outras iniciativas, ex. edição de biografias de cientistas, exposições fotográficas, "ciência e humor" (AVaC).

Estas três vertentes de atuação das associações científicas não esgotam no entanto o leque de atividades por elas desenvolvidas. São apenas um indicador do papel que as associações desempenham na ciência, na profissão científica e na sociedade.



 *Financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/CS-ECS/10192/2008), foi executado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em colaboração com o CIES-IUL e o SOCIUS-ISEG-UTL; http://www.socsci.ics.ul.pt/

 

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