Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

VIII. Vocações, Política Educativa & Cultura Popular

Por umas escadas de caracol desceram até à sala de jantar, como numa metáfora. À mesa, prosseguiu a discussão. Não vale a pena descrever a baixela da casa, sóbria e distinta. Também pouco importa o que comeram e beberam. As longas descrições eram para outros tempos... Agora não há paciência.

Apesar das artes culinárias de um e das qualidades de apreciador do outro, ocuparam-se mais na conversação. Foi, assim, um verdadeiro almoço de trabalho. Desse trabalho que importa, porque infelizmente pena-se muito improdutivamente - como diria Guilherme, na sua defesa do digníssimo otium. "Ócio - costumava dizer - tão esquecido, tão caluniado, e tão urgente para se poder trabalhar em paz!"

- Pois, passando aos factos. Eu proponho que toda a organização do Estado se funde numa sólida e justa educação. Será pelo lugar que cada um venha a obter nas provas académicas prestadas, que se escalonarão as funções sociais a desempenhar, à partida. Depois, admitir-se-á mobilidade social por novos exames, concursos e pela antiguidade, experiência e realizações concretas. Mas, repito - e dizia-o com o peso da convicção mais amadurecida, recortando as palavras - à partida, valerá a informação do sistema educativo.

No fundo, o sistema do exame de mandarinato acabava por não ser mau - fosse lá como fosse.

- Não percebo. A China, realmente, anda muito nas nossas referências. Queres tu dizer que deve depender da escola o lugar para que se entra na sociedade? Se sim, não vejo a diferença face ao sistema atual.

- É profundamente diverso. Porque tu hoje tens um sistema completamente falseado. Antes de mais, entra-se nesta ou naquela escola pelo dinheiro que se tem. Mesmo que tenhas o mesmo grau e título, depende de se estás ou sais de uma escola central ou periférica, e sobretudo se tens padrinhos convenientes. Leste o livro de Laure Goldbright, 10 ans d´études, 20 ans de chômage: C'est la vraie France? Não o subscreveria, claro. Mas é devastador. Tanto podes ter um catedrático com uma simples licenciatura, como um Doutor motorista de táxi. E não se pode dizer, como já ouvi, que uma licenciatura em Filosofia seja muito útil para se ser vendedor de sacos de plástico. Quer dizer: das duas, uma. Ou tal licenciatura teve realmente interesse para a filosofia de vendas em causa, e então é uma patranha como ensino superior, ou então estamos perante o conhecido álibi do limão doce. Aliás, o que é uma "filosofia de vendas?". E sorriu, trocista.

- A segunda opção é a mais provável.

- Também acho, apesar da decadência da Universidade. Porque um mau curso de filosofia (ou de outra coisa qualquer) nem para vender sacos serve.

- Pois não. Só dá para enfiar barretes.

- Portanto, o que é preciso é raciona lizar os recursos. Nem todos podem vender sacos, nem todos podem ser filósofos.

- Mas os cursos de Filosofia não servem para fazer filósofos. Mas amigos da filosofia, seus aprendizes, digamos. É curioso como as palavras se maculam: filósofo já significa amigo da sabedoria, e contudo deixou de servir. Agora só amigos da amizade pela filosofia. A pobre Sophia está cada vez mais longe.

- De acordo. Mas, como vês, quero dizer é que um curso deve corresponder a uma vocação. E isto resolve quase tudo.

- Testes psicotécnicos por toda a parte?

- Desconfio muito disso. A verdadeira vocação vem de dentro, é um apelo. Medi-la, exteriormente, com uns joguinhos que nem todos têm jeito para jogar, baseados na mediania ou nos preconceitos de quem os faz... Claro que esta observação, eu sei, também dá direito a linchamento... E contudo conheço quem se tenha treinado em psicotécnicos para empregos, diretamente, e tenha obviamente sido admitido. Enquanto gente muito capaz, sem se treinar neles, ficou de fora. Só não te digo são os nomes.

- Nem eu quereria saber, deixa lá. Mas pode errar-se se se escolher apenas pela própria cabeça. Eu, por exemplo, queria ser marinheiro. E hoje pergunto-me se não teria dado melhor marinheiro que professor.

- Estás a brincar.

- Negas que faço brilharetes com a minha canoa?

- Deus me livrara de tal! Com esse teu murro possante... confesso tudo - E afetou estar cheio de medo.

Riram ambos. E Luís prosseguiu:

- Uma educação como deve ser tem de partir de uma vida familiar sã, construtiva e harmoniosa. Em que os pais tenham tempo para iniciar as crianças no conhecimento da vida, do mundo, e mesmo das respetivas artes. Tu, Guilherme, és filho de Professores. Deves saber como isso te deve ter sido útil para a tua profissão.

- É verdade. Filho de professores e neto de um Almirante. Por isso me atrais tanto para cá, para esta casa que é quase um barco entre as ondas. Reconheço que desde criança aprendi a brincar aos professores. O meu irmão Miguel fazia batalhas navais, e eu, nos armistícios, levava-o para museus imaginados, onde dissertava sobre História da Arte. Ele preferia as batalhas navais, claro.

- E que faz agora o teu irmão?

- É diplomata.

- A continuação da guerra por outros meios.

- Não. Julgo que aí lhe foi de muita utilidade uma costela teatral que também há na família.

- Ai sim? Nunca me tinhas dito.

- Não se nota? O professor é um ator também. Só que cada peça tem uma única representação por ano (isto se as turmas não forem desdobradas) e temos licença (pelo menos ainda... não se sabe do que a burocracia é capaz) para ir melhorando o texto e improvisando dentro de um guião muito geral. Além disso, é a mesma coisa. Representamos monólogos nas aulas teóricas (entrecortados por alguns apartes da plateia), e fazemos teatro experimental, provocando diálogos, nas práticas.

Por um momento parou, como que ausente. Ou a sonhar com as suas belas aulas. Mas logo tacou uma magnífica bavaroise de café, e recordou-se do que queria dizer:

- Vou ser muito conciso. Para uma educação integral, para uma educação que possa formar homens e cidadãos, e que seja credível como pressuposto de hierarquia social e escolha para cargos políticos, é precisa a consonância da família, dos media, e da escola.

É portanto necessário que o Estado assuma a missão de educador, e não tenha preconceitos quanto a essa sua tarefa indelegável.

- Isso não é totalitarismo?

- De modo nenhum. Totalitarismo do Nada e do Caos é a situação atual, em que se permite o grassar da demagogia, da incultura, dos fumos de confusão e alienação a pretexto da liberdade e da neutralidade ideológica (e não sei que mais) do Estado. E evidentemente, já começam a assomar recrutamentos da extrema direita mais reacionária nas escolas. Que durmam os senhores pedagogos, e teremos surpresas. Já vamos tendo violência em níveis excessivos. E começa a haver racismo, coisa que... O Mein Kampf foi reeditado na Alemanha há pouco.

- Então que faria o Estado? Censura? Repressão? E a Liberdade?

- Não é preciso. Bastaria que em torno do Estado se agrupasse um consenso alargado de forças de cultura e sanidade mental, e os meios de comunicação e as escolas estaduais os veiculassem fortemente e sem concessões. É precisa uma cultura republicana para uma ética republicana.

- Mas tu crês que os media paralelos e algumas escolas privadas (mesmo que tal coligação fosse possível) não iriam boicotar o projeto? E mais: entre um concerto de Bach num canal, e um reality show, noutro, o público escolheria qual?

- És muito pessimista.

- Realista. A concorrência entre o bem e o mal dá sempre a vitória ao mal. É a lei do menor esforço de que falávamos. - Eu acho que há hipóteses de Bach ser escolhido.

- Pelas Irmãs da Caridade.

- Não. Pelo grande público.

- Não sei por onde tens andado, meu velho.

- A solução é a educação familiar desde o princípio.

- Que eu saiba, ainda não se ensina nas famílias...

- Eu vejo a questão ao contrário. As nossas famílias, em geral, não educam é a ouvir Bach, como não educam a ler livros. Se o vício da cultura, da arte, for incutido desde muito cedo, não tenhas dúvidas que os reality shows ficariam às moscas. Aliás, já cansaram as pessoas. Que pode haver de novo neles, depois destes anos todos?

- Bach também é sempre igual. Só martelinhos. Mas deixa lá. Compreendo. Mas descreio. Descreio muito. Porque o reality show é, como diria Diderot, dar o espetador em espetáculo. Pior: é dá-lo na sua crueza e nudez de animal natural e ao mesmo tempo confinado. É dá-lo na intimidade tornada pública. É dar do boato a materialidade. Não pode haver produto mais vendável.

- Tudo o que dizes só reforça a minha ideia. A solução é mesmo essa: fazer com que as pessoas         comuns não possam passar sem o Belo e o Inteligente. Não necessariamente para o produzirem, mas para dele usufruírem. O mesmo se diga em relação à Moral. Só que essa com o fim de a observarem por atos.

- É o que eu digo: uma utopia. E perigosa. Isso de moralismo...

- Insisto que não. Repara que, antes da farsa educativa dos últimos, digamos, quarenta anos, o que faltava era essencialmente garra e abertura de espírito, e apoio às famílias. Porque o ensino primário e secundário eram sérios e altissimamente formativos, no básico dos básicos. Concordo que havia ideologia, sim. E nociva. Mas aprendia-se para a vida. Tu lembras-te disso.

- É verdade. Com a escola primária formavam-se Homens. E com o Liceu, tinha-se uma cultura geral que hoje não se vê em muitos dos novos "sábios". Mas não te esqueças do "livro da mercearia" dos suspensos e expulsos, e, na primária, da palmatória... E, mais ainda, dos retratos dos ditadores olhando as classes, em paredes frias e húmidas de escolas velhas. As matérias, insisto, tinham coloração ideológica clara. Havia manuais censurados. Durante muito tempo, o livro único... Queres então voltar ao passado?

- Deixa-te de retóricas. Eu estive no livro da mercearia por me negar a vestir a farda da Juventude oficial. Meu pai mandou-me dizer, e eu repeti: "Se o Estado quer mobilizar o meu filho antes do tempo, então que lhe pague a farda, como faz na tropa". Deu direito a livro de mercearia, e depois negação da matrícula. Portanto, tiremos a carga ideológica... Meu pai nunca mo disse, mas creio que também teve arrelias por isso.

- Não se pode deixar de vestir a farda nesses casos, porque ela é a essência desse ensino de certezas, de dogmas... E por isso com alguma sedução de ordem.

- O que digo é que no passado temos exemplos para inventar um futuro melhor. Repara que a televisão dessa época era em muitos aspetos muito, muito fraca. Era, salvo alguns grandes programas de intelectuais afinal do contra, e pouco mais, um atraso de vida a preto e branco. Hoje, temos uma televisão que sabemos capaz de ser muito melhor culturalmente, mas infelizmente cedendo ao facilitismo, e que, por isso, nos dá sobretudo calamidades. É o que Bernard Pivot chamou o recuo até aos gostos da ménagère de quarenta anos. Porque é essa a faixa social que compra ou faz comprar.

- A grande arte é ter um guia dos programas e saber escolhê-los. E ver só mesmo as raras coisas de qualidade que ainda passam.

- Exatamente. Mas tudo seria mais fácil se um canal se impusesse essa seleção.

- Um canal puro. Ora!

- Podia até ter uns pouquinhos anúncios, e coisas ligeiras, claro. Mas não poderia conter atentados ao bom gosto e à inteligência.

- Nem à moral, aos bons costumes, e à ordem pública - presumo.

- Isso é conversa de polícia. Dizia eu que o Estado tem de fornecer à família meios de ela florescer. E que tem de acautelar-se com a escola e os media. Vigiar o seu desempenho...

- Ah, reconheces que tem de vigiar Lá está. E as liberdades?

- Há liberdade e há abuso da liberdade.

- Pois é. Sabes que esse discurso já não me convence? Os liberais do século XIX acreditaram ingenuamente que se fizessem passar as exceções à liberdade e à propriedade pela lei, isto é, pelos parlamentos, ficavam garantidos contra os abusos. Belas proclamações! E que vãs ilusões também. Nada custa a um ditador impor leis restritivas por via de um grupo de deputados bem comportados. Nada. E aí temos leis. Não, meu caro. Quando se começa a restringir as liberdades, não se sabe onde se acaba. - Estás muito anarquista.

Não, de novo não. O que sei é que a hipocrisia logo se aproveita. Era preciso restabelecer novos direitos absolutos, invioláveis, imprescritíveis. Porque tudo se está a comprimir por via legislativa, regulamentar, administrativa. Um dia será interessante, e dramático, verificar quão letra morta são as Constituições. Simples folhas de papel face a uma realidade que as rasga na prática.

Estas graves palavras foram interrompidas pela entrada do café, fumegante, que iria permitir-lhes discuti-las pela noite adentro.

© copyright SNESup | Todos os direitos reservados

 
visitas