Antes de ser já o era

Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt

José Mariano Gago, o Ministro do Ensino Superior, tendo adiado sucessivamente a questão, e aproximando-se o final do seu mandato, foi tomado por uma inusitada pressão em matéria de revisão dos estatutos de carreira.

Desde o início do processo de negociação, o Ministro do Ensino Superior, ao não dar sequência a um pedido do SNESup visando a aferição da representatividade dos sindicatos presentes na mesa negocial, consolidou e entrincheirou-se em suspeitas pré-concebidas, cedo revelando as suas intenções e a sua estratégia. A suspeita que os sindicatos do superior, SNESup e Fenprof, não assinariam um acordo sobre estatutos de carreira. E a estratégia de, face a esse preconceito, poder contar com a mão leve e a consciência tranquila dos que, estando na mesa negocial sem a força da representatividade, se mostrariam mais disponíveis para se sentar à mesa ministerial durante um mês do que se mostraram para reflectir publicamente sobre o ensino superior nos últimos trinta anos.

O que, desde cedo, se efectivou no processo de negociação foi uma espécie de acordo pré-matrimonial limitado ao momento da cerimónia, como se, para as partes que celebraram, não houvesse amanhã, nem vida comum. Ou seja, efectivou-se uma espécie de seguro de protecção contra aquilo que o Ministro adivinhava que poderia correr mal. E resultou daí uma cerimónia de assinatura, sem qualquer emoção, com actores que não partilham a mesma vida e que não têm qualquer familiaridade com o universo onde momentanemante se viram investidos de uma representatividade encenada.

Estamos, pois, perante um acordo que antes de ser já o era. É a resposta da velha adivinha da pescada. Neste caso, da pescada de rabo na boca, uma vez que só se assinou um acordo porque há desacordo. A questão não é quantos assinaram. A questão é por quantos assinaram os que assinaram.

Estamos todos de acordo. Alguma coisa tem de ser feita.

© copyright SNESup | Todos os direitos reservados

 
visitas