A propósito do texto de Nuno Crato Ficamo-nos pelo "Bolonhês"?

Para uma visão um pouco mais séria sobre Bolonha

O texto de Nuno Crato, recentemente publicado na revista do SNESUP, sob o título em epígrafe, parece funcionar como uma acção provocatória relativamente a todos aqueles que se empenharam, seriamente, nas mudanças de Bolonha. Nesse sentido, muitos se sentem atingidos por uma superficialidade crítica que também não ajuda no esclarecimento das questões. Se é verdade que os governos, o ministério, as escolas e as associações profissionais têm evidenciado uma enorme incapacidade para tratar, com profundidade, a reforma do Ensino Superior, a posição do autor do artigo também não ajuda. Muita crítica, muitas ideias feitas, muita agressividade relativamente a todo o Processo de Bolonha, mas poucas soluções e pouca capacidade para o diálogo com aqueles que, tomando atitudes críticas, sempre encontraram oportunidade para mudanças importantes.

A visão de Nuno Crato parece limitar o problema ao ensino da Matemática e das Ciências Fundamentais, quando a questão tem exactamente a ver com toda a filosofia de criação e desenvolvimento da oferta formativa que vai desde a estruturação dos cursos (passando pela definição dos conteúdos e a sua própria designação) até aos métodos e práticas pedagógicas, não esquecendo os aspectos da mobilidade interna e externa.

A maioria dos leitores estará, na generalidade, de acordo com as críticas que são feitas a Bolonha porque muitos dos assuntos não são aprofundados. Por outro lado, questões que têm sido objecto de preocupação de muitos de nós, são apontadas como exemplos distantes de experiências noutros países como se não estivessem a ser aplicadas em Portugal. Enfatiza-se o lado mais negativo de Bolonha e esquece-se, ou desconhece-se, muito do que tem sido a discussão no terreno.

Alguns pontos deverão ser recordados uma vez que o texto de Nuno Crato foge um pouco à verdade:

  • hoje não se fala apenas em competências mas sim em conhecimentos, competências e capacidades; a realidade é que se utiliza como medida objectiva as horas totais de trabalho do aluno o que inclui as horas de contacto;
  • de facto, valoriza-se os conteúdos bastando para isso analisar com atenção as novas fichas dos programas;
  • verifica-se que, em muitos casos, se ensaiou uma organização modular (defendida particularmente por docentes do Politécnico) como forma de apoio à organização quer do professor quer dos alunos;
  • observa-se que muitos docentes têm trabalhado com os seus estudantes responsabilizando-os pelo planeamento do seu trabalho e introduzindo hábitos de estudo que não trazem do secundário;
  • é notório que tem existido uma enorme preocupação no sentido de orientar os jovens para uma correcta utilização dos meios que têm à disposição (nomeadamente a Internet);
  • é verdade que se tem trabalhado insistentemente, no aumento da frequência das avaliações para que os alunos acompanhem a matéria e se auto-organizem;
  • no planeamento das actividades tem existido um esforço conjugado para que a cultura geral dos nossos alunos melhore, uma vez que estão a chegar ao Ensino Superior pessoas com deficiências estruturais que dificultam o trabalho do professor.

Nuno Carto parece desconhecer o que está a ser feito em Portugal, pelo menos o que alguns tentam fazer, e acaba por ir buscar exemplos ao exterior quando eles estão dentro de casa. Seria importante que tentasse falar com quem está no terreno até porque, neste momento, parece estar a verificar-se um retrocesso muito negativo à custa das inúmeras críticas e da incapacidade comprovada de muitas das instituições de levar à prática o verdadeiro Espírito de Bolonha (sim, porque ele existe!).

Assusta-me a ideia, cada vez mais generalizada, de que o Processo de Bolonha é, para muitos, apenas e só, um encurtamento da licenciatura (em muitas escolas foi o que aconteceu) com objectivos economicistas (lembram-se da agenda escondida de Bolonha) sem as mudanças de fundo que, em Portugal, correspondiam a uma modernização de métodos e práticas que não têm a ver directamente com Bolonha.

Depois de muitos relatórios e muitas reuniões e estando a chegar o ano de 2010, limite para a transição para o modelo de Bolonha, a situação é extremamente confusa e ninguém sabe muito bem o que verdadeiramente mudou no dia a dia das nossas escolas. A acreditação dos cursos ainda não está a funcionar, as designações dos cursos continuam por regulamentar, as Ordens e Associações Profissionais não clarificaram (nalguns casos) as suas posições, os Sistemas Universitário e Politécnico ainda não definiram claramente e autonomamente as suas missões, o Conselho Nacional de Educação parece estar ausente. É crónica a falta de coordenação e entendimento entre todos os envolvidos neste processo, que é a Modernização do Ensino Superior em Portugal. Com a agravante de se acrescentar, agora, a polémica do Estatuto da Carreira Docente, o que não augura nada de bom. Mais uma vez vamos concentrar a discussão num particular e deixamos o todo.

Lanço uma proposta concreta a Nuno Crato: façamos um ponto de situação, nas nossas escolas, da Reforma do Ensino Superior em que um dos pontos seja o Processo de Bolonha. Será um ponto de partida com origem em duas realidades muito diferentes.

Portalegre, 8 de Abril 2009

Rui Pulido Valente (docente da ESTG)

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