Humor na Esfera de Competências dos Enfermeiros

 

To truly laugh, you must be able to take your pain and play with it.

Charlie Chaplin

 

Apesar de ainda não existir um conceito sobejamente aceite, constata-se que o humor representa um papel único e preponderante na vida humana, ocupando um lugar singular nas interacções humanas. A teoria remete o significado do conceito para os tipos de humor e para a relevância das suas funções e benefícios, particularmente quando associado ao cuidado de enfermagem.

O humor, fenómeno complexo e subjectivo, competência nitidamente pessoal, permite que cada um o experiencie de modo único, usufruindo do seu incalculável potencial beneficente (Martin, 2007; 2008).

O humor existe, desde sempre, na vida das pessoas e portanto também nos cuidados de saúde. Este tem sido utilizado, na prática de enfermagem, de forma espontânea, ocasional e sem intencionalidade. Se entendermos a enfermagem como terapêutica, pode afirmar-se que o enfermeiro tem o dever de compreender todos os mecanismos utilizados pela pessoa com quem cuida, para encontrar sentido na vida, entre os quais se encontra o humor, e a obrigação de os utilizar, integrando-os na sua esfera de competências. 

O humor detém um destacado papel na vida de grande parte das pessoas e pode ter efeitos nas mais diversas dimensões. Ninguém pode viver sem tocar e ser tocado, mas também ninguém pode viver sem humor. Ele faz parte da humanitude; para viver com saúde e plenamente a vida, precisa haver humor...

A saúde é algo que tem trespassado toda a existência humana e que, por isso, se reveste de primordial importância para ela. Se pensarmos que saúde pode significar desde uma saudação, até um pleno estado de bem-estar, apuramos quanta multiplicidade de sentidos pode ter e quanta complexidade a pode envolver. Saúde, não do ponto de vista da ausência de doença mas de um olhar de equilíbrio face a si próprio e ao mundo que o rodeia é, de facto, algo que tem implicações na vivência de uma vida boa.

A noção pessoal de saúde denota um posicionamento face à vida e, por isso, influencia a prática das pessoas, no exercício da profissão, qualquer que ela seja. Nos profissionais de saúde esta é mais manifesta, já que têm que "colocar entre parêntesis" a sua concepção de saúde e compreender a do Outro, para poder cuidar com a pessoa de um modo que a faça encontrar sentido na sua existência.

A sociedade encontra-se alicerçada em práticas sociais (interacções) carregadas de significados socialmente estabelecidos. Na realidade, e embora se desconheçam muitos dos semblantes que o envolvem, o humor parece ter significado pessoal e desempenhar importante papel na vida das pessoas. De facto, o humor afigura-se como uma das mais convincentes formas de interacção social, ao diluir tensões e facultar pausas essenciais na conversação.

Dado que o humor ajuda a lidar com constrangimentos e que os enfermeiros são os profissionais que mais lidam com a tensão, sofrimento, perda e até medo, é compreensível que estes sejam quem mais se tem preocupado em estudá-lo, de forma a aumentar o conhecimento e aprimorar o uso, no contexto dos cuidados de saúde em geral e de enfermagem em particular.

A primeira enfermeira a reconhecer o papel do humor e a considerar o seu uso indispensável no cuidado de enfermagem foi Vera Robinson. O humor é, de acordo com Robinson (2001), a comunicação percebida, pelos envolvidos, como humorística, e que conduz ao riso, ao sorriso, ou a um sentimento de diversão.

Ter sentido de humor é uma característica da personalidade do enfermeiro e, na medida em que este é uma pessoa que pratica uma arte, a arte do terapeuta, vai em auxílio da pessoa, contribuindo para o seu bem-estar, para a sua saúde (Heesben, 2000). Já Nightingale (1859) [2005] referia que o sofrimento se alivia muito provocando um autêntico riso, quer através de um livro, quer através de conversação.

O humor surge, efectivamente, como um factor de grande interesse na interacção pessoal e aparenta ser uma necessidade fundamental no desenvolvimento e crescimento individual, como a necessidade de amor, segurança ou confiança.

Ao ajudar a pessoa a encontrar um caminho e sentido para a vida, através do incentivo para a utilização dos próprios recursos e das próprias escolhas, mantendo a fé nas capacidades (Swanson, 1991), os enfermeiros colocam em prática uma abordagem holística do cuidado de enfermagem. A sua actuação baseia-se, deste modo, no respeito pela vida, pela pessoa e no amor por si e pelo Outro. Estas introspecções podem ser estimuladas pelo uso da estética, do belo, e pela exploração do sentido de humor de ambos os parceiros de cuidado.

Os efeitos fisiológicos do humor e do riso foram vivamente estudados em 1977 e 1979 por Fry (1992). Estudou os efeitos do riso no ritmo cardíaco, nos fenómenos respiratórios e os níveis de saturação de oxigénio no sangue periférico e desvendou que os efeitos estimulantes e purificadores do humor são observáveis nas reacções fisiológicas dia (Fry, 1992; José, 2002; Wooten, 2002).

A alusão às potencialidades do humor vem referenciada, desde há muito, e foi mundialmente comentada depois do testemunho de Norman Cousins, acerca da sua situação de pessoa com doença crónica. O interesse nos efeitos fisiológicos do humor e do riso aumentaram quando Cousins (1979) divulgou que 10 minutos de riso podiam proporcionar duas horas sem dor. Este efeito analgésico deve-se, por hipótese, à libertação de endorfinas. Também, neste âmbito, Zweyer, Velker e Ruch (2004) concluíram, através de um estudo experimental, que a visualização de um filme divertido amplia a tolerância da pessoa à dor, independentemente da existência, ou não, de um traço de personalidade alegre.

No que concerne ao sistema imunitário, o riso e o humor têm sido associados a níveis mais altos de Imunoglobulina A e de estímulo do timo, levando à produção de linfócitos T. As alterações fisiológicas, provenientes de uma intervenção humorosa, são também referidas por Berk, Felten, Tan, Bittman & Westengard (2001). Concluíram, estes autores (2001), que o visionamento de um filme humorístico aumentava a actividade das células NK (natural killer) e os níveis de Imunoglobulinas A, G, e M, valores, estes, que se mantinham elevados durante 12 horas. O riso pode ser, deste modo, uma intervenção cognitivo-comportamental útil, já que diminui o stress e aumenta a actividade das células NK (Bennett, Zeller, Rosenberg & Mccann, 2003).

O humor surge, realmente, como uma forma de comunicação muito diversificada e que permite à pessoa fazer face a uma variedade de situações, parecendo estar associado à tolerância, sinceridade, criatividade e sabedoria (José, 2002). Apesar disto parece ser uma forma de comunicação tão paradoxal como a sua natureza, já que aquilo que pode ser grandemente humoroso para uma pessoa pode chocar uma outra (Sruthers, 1999). O humor ganha e mantém a atenção do ouvinte, enfatiza um ponto de vista e apazigua a agressividade; tem, de facto, importantes funções e enormes benefícios.

A crença de que o amor, a esperança, a fé, o riso, a confiança, entre outros, têm um efeito salutar no bem-estar e na vida das pessoas, é defendida por Cousins (1983), quando refere que as emoções positivas, não substituem a medicina tradicional mas completam-na, ao mobilizar os recursos do corpo e ao libertá-lo dos efeitos constritivos das emoções negativas.

A utilização do humor é útil ao diminuir a distância social entre as pessoas, ao ajudá-las a desinibirem-se e ao promover relacionamentos (José, 2002). O humor permite, a enfermeiro e doente, apreciar e expressar o que é cómico, divertido ou ridículo, de modo a estabelecer relações terapêuticas, a libertar a dor e a raiva, aliviar a tensão e facilitar a aprendizagem, bem como coloca à disposição das pessoas formas para lidar com as pressões exteriores, situações difíceis, incómodas e conflituosas, imensas vezes impostas pela hospitalização (Robinson, 1991).

A intervenção humorosa, para ser verdadeiramente eficaz, deve ser planeada e pessoalizada. Para que tal seja possível a avaliação necessita incluir a descoberta das preferências da pessoa, em relação aos estímulos humorosos específicos. Estes podem ser ao nível da audição, como canções humorosas e anedotas, ou tentativas de riso visual, como comédias ou filmes mudos. A observação da resposta humana, aos eventos humorosos planeados, pode fornecer pistas em relação ao que pode estimular uma resposta humorosa (Robinson, 1991). Na comunicação verbal o humor ocorre quando pessoa doente e enfermeiro trocam piadas, quando se expressam através de metáforas ou quando utilizam, entre outros, um dialecto particular ou provérbios. Também os gestos ajudam a perceber as piadas e a graça a elas subjacente; o enfermeiro pode, assim, socorrer-se da expressão corporal para aclarar uma dada situação.

Os enfermeiros necessitam, deveras, considerar o humor como integrante da sua esfera de competências, de modo semelhante a outras acções. Também, de modo análogo a todas as outras acções e como anteriormente referido, o humor necessita ser avaliado, para possibilitar a adequação à pessoa e à situação que vive já que, em situações de grande gravidade, o uso parece não ser apropriado, a menos que parta da pessoa com quem o enfermeiro cuida (Sheldon, 1996; Celso, Ebener & Burkhead, 2003).

Vivemos numa sociedade em constante transformação e de grande complexidade que influencia a vida das pessoas, no sentido em que a torna complexa e transforma. Torna-se, pois, necessário, que os enfermeiros tenham capacidade de evoluir e acompanhar todo este ritmo, complexo e de mudança, com o intuito de ajudar a satisfazer as necessidades das pessoas. Parece, desta forma, óbvia a indispensabilidade da abertura, destes profissionais, a novas dimensões do cuidado de enfermagem, ainda muito pouco exploradas. O humor é uma dessas dimensões que, pela sua importância, não pode continuar esquecida.

 

METODOLOGIA

O desenvolver deste estudo teve como desiderato integrar o humor no agir profissional dos enfermeiros, de um serviço de cirurgia, de Portugal.

O desenho é o de um estudo investigação-acção, emancipatória, de natureza indutiva, transformador e emancipador da prática dos enfermeiros e que acolheu referenciais de Jürgen Habermas (Reason & Bradbury 2002). O trabalho de campo decorreu entre Setembro de 2005 e Março de 2007, tendo como co-investigadores todos os enfermeiros do serviço, e desenvolveu-se em 3 fases distintas (diagnóstico, implementação, avaliação), numa espiral auto-reflexiva de planeamento, actuação, observação, reflexão e re-planeamento.

Para recolha dos dados foi utilizada análise de documentos escritos (narrativas, diários de campo, registos de enfermagem), aplicação, a doentes (n=77) e enfermeiros (N=19), da Multidimensional Sense of Humor Scale (MSHS) (Thorson & Powell, 1993), traduzida e adaptada para a população portuguesa no contexto deste estudo (José, Parreira, Thorson, & Allwardt, 2007; José & Parreira, 2008), e ainda observação e entrevista. A análise dos dados foi efectuada através de análise estatística, análise de conteúdo e análise de discurso, esta última baseada nos fundamentos essenciais dos repertórios interpretativos de Burr (1995).

O posicionamento como observador teve as características de observador como participante (Streubert & Carpenter, 2002), onde se recomenda que este observe por períodos curtos e durante a observação apenas interaja casualmente com os participantes (Spradley, 1980; Adler & Adler, 1998; Flick, 2005), seja neutro e simpático, não adira a qualquer facção, não participe das funções do grupo, mas que seja "tocado" por aquilo que os participantes vivem e sentem (Laperrière, 2003).

Importa destacar que os dados foram analisados numa lógica indutiva e que, na fase diagnóstica, se pretendeu, essencialmente, a compreensão de um mundo que existia a priori, antes da implementação de uma nova acção de enfermagem - humor - para poder compreender, depois, o processo de mudança operado nos participantes, nos cuidados e no contexto.

 

RESULTADOS

O humor é contagioso, é alegria, anedotas, boa disposição, brincadeira, mecanismo de defesa, capacidade exclusivamente humana, uma característica da personalidade e uma habilidade para transformar o sério em cómico, que possibilita rir de si, que permite comunicar, ocupar-se, estar com o outro, ser e estar no mundo de um modo divertido, descontraído, leve, gera o riso, o sorriso ou apenas expressa sentimentos. A manifestação desse humor faz-se pela partilha de anedotas, histórias, brincadeiras, livros e programas cómicos, músicas, sátira, analogias, ou simplesmente por um gesto ou até silêncio e, no trabalho conjunto dos enfermeiros, aparecem trocadilhos, piadas e incongruência de ideias para gerar e receber humor, o que aumenta a coesão do grupo e evita/resolve alguns conflitos. O trabalho em equipa revigora-se pelo uso do humor.

Ao humor, entendido como terapêutico, construtivo, beneficente, são atribuídas várias funções. Na realidade liberta, favorece a coesão e a cooperação, faz as pessoas felizes e espalha alegria, faz rir, promove o bem-estar e uma atitude mais positiva perante a vida, que possibilita intervir em si próprio, desdramatiza, promove relacionamentos, flexibiliza, ajuda a recuperar e a dissipar barreiras, a ultrapassar dificuldades, lutar contra adversidades, relativizar problemas, abstrair-se da situação que vive, descontrair, reduzir o stress e o medo, diminuir a ansiedade e aliviar a tensão.

O humor permite, assim, promover e preservar a saúde, prevenir doenças, ajudar a ganhar a confiança, reduzir o sofrimento infligido por técnicas e procedimentos, confortar, relaxar, aliviar a dor substituindo comprimidos, melhorar o estado de espírito e a compreensão, favorecer o ensino/aprendizagem, promover a expressão de sentimentos e encontrar e transmitir interesse pelo Outro. O cuidado de enfermagem humoroso é delicado, suave e promotor de bem-estar, mas necessita atender aos múltiplos factores envolvidos, à pessoalidade e à imprescindibilidade de saber escutar.

Na interacção enfermeiro-doente, o enfermeiro está presente, sereno, disponível e surge uma cumplicidade partilhada, geralmente possibilitada por um conhecimento prévio àquele encontro específico. Nesta interacção existe, frequentemente, uma comunicação humorosa subtil onde, não raras vezes, é o doente que "dá o mote" para o seu início. Um sorriso do enfermeiro e que demonstre compreensão pelo desconforto do doente, faz com que este ria e relaxe. O sentido de humor do doente, partilhado com o enfermeiro durante a interacção, atenua a ansiedade perante a informação ou o aguardar do diagnóstico médico, possibilita uma partilha de sentimentos, aumenta a confiança do doente, ajuda-o a ter um controlo sobre si e sobre o que vive e a lidar com situações de dor e/ou doença crónica grave.

Em internamentos muito prolongados é patente uma relação de intimidade e cumplicidade que permite brincadeiras "mais ousadas", um humor brejeiro, por vezes quase imperceptível, que só o conhecimento do Outro parece facilitar ou permitir. Nestas situações, existe uma relação de parceria entre enfermeiro e doente em que um cuida e outro precisa ser cuidado.

No cuidado de enfermagem, com a pessoa em fim de vida, raramente existe humor e, quando surge, é ténue e com a intenção de descontrair e ampliar a confiança do doente. No entanto, e para que tal aconteça, é fundamental que o enfermeiro se envolva na relação com a pessoa com quem cuida mas, esse envolvimento, pela natureza da situação, pode ser causador de sofrimento para o enfermeiro, quando ele próprio ainda não desenvolveu competências para acompanhar o outro no sofrimento, sem o tomar como seu.

Por tal facto dizer ou fazer algo, assertivamente, passa por uma intencionalidade que informa as escolhas e acções e ajuda a ter sensibilidade e atenção para aquilo que é mais importante na vida de cada pessoa. Nesta óptica, o uso do humor com intencionalidade de enfermagem, ou seja, com propósito e eficácia, em direcção a um resultado (Schiltz, 1996), e através da utilização de distintas estratégias, aqui entendidas como os recursos que o enfermeiro tem à sua disposição para gerar humor, origina novas respostas humanas, foco de atenção do enfermeiro, decorrentes das experiências humorosas vividas, quer pelos processos de vida quer pelas situações de doença. É, então, com base no diagnóstico das respostas humanas, que se concebe, viabiliza e produz todo o processo de cuidado com a pessoa.

A capacidade para reconhecer e percepcionar a pessoa como "um ser no mundo", holístico, influencia e estabelece a receptividade ao enfermeiro. Este, porque se encontra próximo da pessoa, é aquele que tem uma posição privilegiada no desenvolvimento e concretização da "atenção particular", da "lógica do Cuidar" numa estrutura de cuidados, utilizando as competências e as características próprias do exercício da profissão (Hesbeen, 2000). Na realidade, e ainda de acordo com este autor (2000), o cuidado de enfermagem envolve múltiplas acções que são, acima de tudo, uma imensidão de "pequenas coisas" que permitem expressar uma "grande atenção" à pessoa, com quem o enfermeiro cuida, e seus familiares.

O humor, uma dessas "pequenas coisas", pode ser utilizado através da expressão verbal, gestos e de um ambiente agradável, de um sorriso, de um piscar de olhos, de um filme ou livro cómico, de um «nariz vermelho», ...

Para além de tudo o que foi já exposto é fundamental mencionar que surge, no âmbito desta investigação, um novo termo: humorização. Em termos linguísticos pode dizer-se que este vocábulo é inexistente na língua portuguesa e que, no contexto deste estudo, se considera como o humor com poder emancipador e transformador, vivido por doentes, enfermeiros e outros profissionais, ou na interacção entre quaisquer deles, planeado pelo enfermeiro, com uma intencionalidade beneficente, ou espontâneo, e que é influenciado pelo contexto e pelo modo de Ser e Estar no mundo, das pessoas envolvidas.

Desde modo propõe-se um modelo explicativo, da integração do humor no agir profissional dos enfermeiros, que se caracteriza pela Humorização Experienciada por Doentes e Enfermeiros como Emancipação, Transformação e Virtude, interligadas com o Agir Humoroso do Enfermeiro, este englobando um Diagnóstico que influencia a Intenção e a Estratégia utilizada e, estas últimas, conjuntamente, originando uma Resposta Humana. Existem, contudo, aspectos que condicionam o Agir Humoroso do Enfermeiro na sua globalidade ou a Estratégia a utilizar.

Porque o humor deve ser encarado como uma acção de enfermagem de imenso valor e proficuidade, tanto para os enfermeiros, como para as pessoas com quem cuidam, e acolhendo todos os seus benefícios, já largamente documentados, delineou-se o «Modelo SORRISO», a partir do modelo SMILES (Borod, 2006), que poderá servir (espera-se...) de inspiração para a boa prática do humor enquanto acção de enfermagem.

 

CONCLUSÕES E SUGESTÕES

Em harmonia com os estudos de Robinson, 1991; Klein, 1998; Raquin, 2000, José, 2002; Wooten, 2002 e Baquero, 2005, entre outros, pode dizer-se que o humor é vital; é necessidade humana básica, liberta, compensa e facilita a aceitação da mudança, permite sobreviver ao conflito e sofrimento, desdramatiza, consegue esperança, reorienta a agressividade e os sentimentos de incapacidade e de perda de autonomia.

Dada a natureza pessoal do humor é indispensável conhecer a pessoa a quem ele se dirige; a receptividade ao uso do humor, detectando as preferências, necessidades e limites, quer através das «pistas» que faculta, quer através da interacção com o enfermeiro. Isto permite adequar o humor, sempre que enfermeiro e pessoa com que cuida trocam piadas, anedotas, trocadilhos, entre outros, e avaliar a resposta humana.

O ambiente descontraído, que se vive no serviço, que existe na equipa e que se contagia, muitas vezes aos doentes e à relação de cuidado, torna a relação enfermeiro-doente mais informal e facilitadora da expressão de sentimentos, alivia a ansiedade, distrai e ajuda a gerir a situação vivida no momento. Na verdade, a boa disposição, na abordagem aos doentes, parece abrir caminho a uma interacção favorecedora de um clima positivo. O doente sorri e parece sentir-se mais à vontade; há um "deixar-se ir" nesse humor, iniciando-o, também, várias vezes. Esta relação de parceria, de cumplicidade, nivela a relação e alenta, possibilitando que enfermeiro e doente se conheçam e vivam um momento único.

A apreciação e o uso do humor podem ser aprendidos; é um conhecimento intuitivo que pode ser alimentado e melhorado. É possível engrandecer a capacidade de perceber o cómico; a opção é alcançar a perspectiva humorosa da experiência pessoal.

Dados os benefícios do humor, documentados na literatura sobre este tópico e também apurados na tese desenvolvida, impõe-se que a boa disposição e o humor sejam estimulados na prática e no ensino de enfermagem, utilizando os momentos de interacção pessoal, onde se podem contar anedotas e gracejar (entre outras possibilidades) com situações diariamente vivenciadas.

Lança-se o repto para que, gestores e administradores de hospitais e centros de saúde, reitores, presidentes de conselhos directivos, docentes, enfermeiros e ordens profissionais, reconheçam o poder emancipador e transformador do humor, bem como as suas virtudes, seja qual for a situação de vida da pessoa, e que, por isso, o valorizem e possibilitem a sua inserção no desempenho e na formação, contribuindo, desse modo, para pessoas e organizações produtivas e saudáveis (José, 2008).

A todos os que desempenham funções na área de enfermagem, seja qual for o contexto, se incita para que reconheçam que o quadro de competências dos enfermeiros deve incluir o humor, enquanto acção de enfermagem, que tem associado a si um diagnóstico de enfermagem, uma acção, uma estratégia e uma resposta humana, explicitado no Modelo Explicativo da Integração do Humor no Agir profissional dos Enfermeiros.

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