O Ensino Superior inglês em mudança

Muitas das questões que se levantam com as atuais reformas a que têm estado sujeitos os sistemas de Ensino Superior na Europa colocam-se, com particular acuidade, e com um escrutínio e um debate manifestamente interessantes, no processo de reformas que tem vindo a ser discutido e aplicado em Inglaterra. Pode dizer-se que o Quadro de Reformas recentemente proposto por Lord Mandelson, Secretary of State for Business Innovation & Skills, resume o espírito do processo de reformas, concitando também os pontos essenciais do debate.

Em 22 de Dezembro de 2009, em carta dirigida a Tim Melville-Ross, Presidente do Higher Education Funding Council for England, onde confirmava os fundos atribuídos pelo Governo para 2010-2011 e os objetivos a alcançar com esses fundos, Lord Mandelson começava por destacar as dificuldades decorrentes da situação económica atual, antecipando, dessa forma, a redução de fi nanciamento já encetada com o Economic Challenge Investement Fund.

Advogando o fomento da variedade, como um instrumento capaz de melhorar o sistema nacional de Ensino Superior, Lord Mandelson sugere uma aposta nos programas de formação que possam ser frequentados de forma flexível e em part-time. Mas propõe igualmente - o que não deixou de espantar e de inquietar todos aqueles que criticam o encurtamento dos ciclos de formação concretizado pelo processo de Bolonha - que se desenvolvam e multipliquem programas de formação universitária que possam ser completados em apenas dois anos (aparentemente, esta proposta tem origem na prática existente na Inglaterra entre 1939 e 1946. Na altura, o esforço de guerra levou à anulação das férias de verão, de modo a permitir que os cursos pudessem ser completados em dois anos e um trimestre).

Esta proposta encontrou apoio firme naqueles que argumentam que, nos anos vindouros, com o crescimento económico em baixa tendencial, com as propinas a aumentar e com a menor disponibilidade do Estado para alocar fundos dos impostos ao Ensino Superior, muitos estudantes vão preferir universidades que os ajudem a aprender com custos mais baixos.

 

Aliás, esta solução, encarada como sendo ideal para ajudar os estudantes a encolher as dívidas resultantes da frequência de um curso de Ensino Superior, tinha já sido defendida por Tony Blair, em 2003, e experimentada em 5 universidades, baseando-se num calendário mais intensivo, alargado em 10 semanas adicionais em cada um dos 2 anos.

Em consonância com estas ideias, o Secretário de Estado da Inovação sugere que o financiamento se concentre de modo a promover uma maior qualifi cação dos profissionais formados para trabalhar nas indústrias que mais podem contribuir para o crescimento da economia. Nessa esteira, sustenta também a necessidade de maior concentração de fundos para investigação nas disciplinas cujos custos de funcionamento são elevados. Ao mesmo tempo que propõe uma alocação de fundos públicos que crie uma maior flexibilidade em termos da mobilidade de docentes e investigadores entre o mundo dos negócios e as universidades.

Ao financiamento atribuído é também associada a exigência de que as universidades publiquem informação mais detalhada, dirigida aos futuros alunos, com um conjunto de padrões que evidenciem aquilo que quem nelas ingressar pode esperar relativamente à natureza e à qualidade dos programas de estudo oferecidos. Designadamente, evidenciando o que os estudantes vão aprender e como, as suas próprias responsabilidades académicas perante a instituição e as matérias lecionadas, as competências profissionais concretas, o tipo de serviços a que terão acesso, as oportunidades de mobilidade internacional e de que modo e até que ponto as novas tecnologias fazem parte dos curricula.

Com estas exigências, espera-se que as instituições sejam capazes de demonstrar de que modo preparam os seus alunos para o emprego.

A urgência das medidas propostas por Lord Mandelsen, onde ganham particular acuidade os cortes orçamentais, tinha já sido enunciada no relatório

Higher Ambitions - The Future of University in a Knowledge Economy. Higher Ambitions transporta propostas de mudança em seis áreas distintas:

regular o acesso ao ensino superior, mantendo níveis elevados de eficácia e eficiência; garantir que as universidades dêem uma contribuição maior para a recuperação económica e para o crescimento; reforçar a capacidade de investigação das universidades, garantindo que esse reforço tenha impacto na economia; promover a excelência das condições de ensino, colocando as universidades a competir pelos melhores estudantes na base dos serviços que oferecem; incrementar a importância das atividades de extensão e de ligação à comunidade no interior das universidades; e garantir ao Ensino Superior condições de excelência ainda que num contexto de fortes restrições orçamentais.

 

Confrontados com a queda do sétimo (em 1998) para o décimo quarto lugar nos rankings da OCDE que hierarquizam os países a partir dos rácios de participação da população jovem no Ensino Superior, os responsáveis políticos ingleses, recusando a estratégia de fomentar um mais vasto acesso ao Ensino Superior (que rejeitam liminarmente), apostam em formas de regulação que tornem os "contratos de ensino" mais transparentes e efi cientes.

Em particular, apostam na melhoria do aconselhamento precoce dos estudantes pré-universitários relativamente a eventuais escolhas e percursos relativos ao Ensino Superior; na capacidade das instituições em selecionar alunos, não apenas na base do seu sucesso escolar anterior, mas na avaliação da sua capacidade real em ter sucesso no Ensino Superior e em converter as qualificações académicas em oportunidade de empregabilidade; na estratégia de fazer chegar os melhores alunos às melhores universidades, de modo a que os alunos socialmente mais desfavorecidos não sejam penalizados; e, sobretudo, apostam na criação de novos programas (mais curtos, em tempo parcial, baseados no local onde as pessoas trabalham) que permitam percursos académicos mais flexíveis. Por seu lado, as restrições orçamentais motivam a opção por um financiamento seletivo, tendencialmente concentrado nas áreas que desenvolvem as competências tidas por mais necessárias ao desenvolvimento económico (ciência e tecnologia, engenharia e matemática).

Seletivo também no sentido em que o nível de financiamento das universidades depende de uma espécie de "contratos de confiança" que premeiam as instituições que se comprometam com os "desafios económicos". Para esse efeito, o Quadro de Reformas proposto pelo Higher Ambitions ambiciona trazer os empregadores para o seio das decisões relativas ao desenvolvimento prioritário de competências, de modo a identificar os programas de formação que merecem mais apoios. A este papel mais ativo dos empregadores está, naturalmente, associada a ambição de ver aumentar o papel dos empregadores no financiamento do Ensino Superior.

Esta política de financiamento seletivo aplica-se igualmente no domínio do financiamento da investigação científica, propondo-se uma concentração nas unidades de excelência e de relevância mundial, assim como uma concentração de unidades de investigação, visando criar densidade crítica. Em concreto, o impacto da investigação passada na economia e na sociedade passará a ser um fator determinante do financiamento futuro.

Enfatizando o princípio de que a excelência do ensino deve ser reconhecida e recompensada, a qualidade dos serviços e da informação prestada aos estudantes é trazida para o centro da política de financiamento. Nessa medida, incumbe-se a Agência para a Qualidade no Ensino Superior de promover comparações explícitas entre instituições e valoriza-se as instituições que promovam auditorias externas de avaliação da qualidade dos seus serviços educativos. Atraindo para o Ensino Superior um número de estudantes estrangeiros equivalente ao universo de estudantes que frequentam o Ensino Superior português, o sistema inglês revela-se bastante atrativo no plano nacional e mundial. Num país onde a educação de nível superior é encarada como um investimento, onde a relação entre o nível de qualificação, a empregabilidade e a qualidade do emprego é uma evidência (Gráfico 1), é natural que a procura do Ensino Superior não pare de aumentar. O Higher Ambitions não vê nas fortes restrições orçamentais impostas às universidades inglesas uma ameaça à eventual perda de atratividade, ao mesmo tempo que sugere uma forte aproximação das universidades ao meio envolvente através da prestação de serviços à comunidade e da realização de atividades de extensão. Com isso, pretende claramente diversificar as fontes de receitas não estatais.

A 4 de Novembro de 2009, Roger Brown, Professor de Políticas Educativas para o Ensino Superior e co-diretor do centro de investigação e desenvolvimento para o Ensino Superior, da Liverpool Hope University, reagia, nas páginas do The Guardian, ao Quadro de Reformas proposto no Higher Ambitions, declarando que "Nem mesmo Lord Mandelson consegue prever o futuro". Brown salientava que as questões enfatizadas no Higher Ambitions estão longe de ser novas questões. Lembrava, nessa perspetiva, que a necessidade de o Ensino Superior ser mais recetivo às exigências da economia remontavam ao livro branco "Higher Education: Meeting the Challenge", de 1987, assim como ao livro verde "The Development of Higher Education into the 1990s".

Mas constatava também que o Quadro de Reformas proposto representa uma intensificação inusitada na tendência para a imposição de um sistema baseado na procura, que força a academia a acatar as solicitações dos estudantes e dos empregadores, para enfatizar que, ainda assim, resta saber se isso é ou não positivo para o desenvolvimento do Ensino Superior. Nessa medida, para argumentar que um sistema ancorado na procura é negativo para o desenvolvimento do Ensino Superior, Roger Brown contesta duas das seis áreas das mudanças propostas no Higher Ambitions.

A primeira tem a ver com a ideia que as instituições de Ensino Superior devem dar aos estudantes o acesso a um infindável rol de informação (taxas de retenção, rácios e médias de graduação, probabilidades de empregabilidade e de nível de rendimentos a obter com o futuro emprego, etc.). Para Brown, o raciocínio que, existindo "clientes pagantes", os alunos estão preparados para fazer melhores escolhas e as universidades são estimuladas a aumentar a qualidade, é fútil, representa um desperdício de recursos e é perigoso.

Fútil na medida em que a educação de nível superior é um bem que só pode ser devidamente avaliado depois de ser experimentado. Representa um desperdício de recursos porque, ainda que tal informação pudesse ser de facto disponibilizada, e em tempo útil, e que se pudesse confiar nela com toda a segurança, é pouco provável que os estudantes fizessem melhores escolhas (escolhas mais racionais) que outros consumidores. E é perigosa sobretudo porque representa um passo adicional no caminho da "mercadorização" do Ensino Superior e da infantilização dos estudantes enquanto consumidores, por oposição a uma comunidade escolar participada, consagrada à busca e à disseminação do conhecimento para seu próprio uso. A segunda tem a ver com a proposta do Higher Ambitions em conferir um papel muito mais importante ao setor dos negócios e da economia no desenho dos curricula académicos como moeda de troca para a obtenção de mais e maiores contribuições privadas para o fi nanciamento do Ensino Superior. Na opinião de Brown, esse desiderato é altamente questionável quando não se sabe que tipo de empresas teriam um maior envolvimento.

Tanto mais que conceber e desenvolver um programa de estudos requer um conjunto específico de aptidões e de competências, não sendo óbvio que o setor dos negócios possua essas aptidões e competências ou que seja mais capaz que outros de determinar as competências que a sociedade vai precisar nos próximos 5 a 10 anos.

Roger Brown questiona, por fim, a ideia de que as empresas devem participar mais no financiamento do Ensino Superior, referindo o pensamento de Oscar Wilde relativo aos segundos casamentos, que, nas palavras do escritor irlandês, representam apenas o triunfo da esperança sobre a experiência.

Inevitavelmente, os cortes orçamentais concretizados pelo Estado trouxeram para o centro da discussão pública a questão do eventual aumento de propinas e da democraticidade do acesso ao Ensino Superior. Mas trouxeram igualmente outras propostas de financiamento envoltas num caráter experimentalista. Como alternativa ao aumento do valor das propinas, que prejudica inevitavelmente o acesso dos indivíduos oriundos de estratos sociais mais desfavorecidos, lançou-se a discussão em torno de um mecanismo alternativo de financiamento a longo prazo. Esse mecanismo colocaria, através do sistema de impostos, os graduados pelo Ensino Superior a suportar parte dos custos de funcionamento das instituições, indexando-se essa contribuição aos salários obtidos no mercado de emprego.

Num país, como a Inglaterra, onde a igualdade de acesso ao Ensino Superior não é uma questão de somenos importância, onde muitos alunos terminam a graduação com pesadas dívidas contraídas para poder financiar os estudos (em cursos de cinco

anos de duração, como medicina, a dívida média estimada por aluno é de 37 mil libras), esta possibilidade foi apresentada como uma medida de justiça social, até porque o acesso aos melhores e mais bem pagos empregos também é, à partida, mais facilitado àqueles que provêm de grupos sociais mais favorecidos. Tom Bewick, diretor-executivo da Creative and Cultural Skills, sugeriu no The Guardian a criação de um sistema baseado na cobrança de uma taxa de contratação de graduados, de forma a garantir um mecanismo mais justo que divida os custos de formação entre o Estado, os indivíduos e os empregadores.

Tratar-se-ia de cobrar às organizações que contratam graduados pelo Ensino Superior uma taxa de 10% no seu primeiro ano de salário. Ainda que esta medida possa ter algumas desvantagens, a sua implementação seria fácil de concretizar e quanto mais se intensificasse mais se poria à prova o discurso dos empregadores que insistem na necessidade de uma mão-de-obra mais qualificada. Além de que permitiria contrariar a tendência para a empregabilidade crescente de graduados pelo Ensino Superior em profissões que não requerem qualificações desse nível e que pagam salários cada vez mais baixos.

David Blanchflower, um antigo membro do gabinete de política monetária do Banco de Inglaterra, e atualmente professor numa universidade americana, defendeu, no Observer, que os mais pobres subsidiaram os mais ricos durante demasiados anos e que é chegado o tempo de elevar as propinas para 30 mil libras anuais para os estudantes oriundos de grupos sociais favorecidos. Não menos experimental, tanto que a solução nunca tinha sido pensada nos seus 800 anos de história, foi o caminho encontrado pela Universidade de Cambridge para fazer face aos cortes orçamentais. Aproveitando a baixa das taxas de juro, a vetusta instituição equacionou o recurso à banca para angariar verbas, a pagar entre 30 a 50 anos, que lhe permitam reabilitar o seu património e construir novos edifícios residenciais e infra-estruturas de apoio à investigação.

Entretanto, a última sondagem Sodexo University Lifestyle Survey, desenvolvida pela Sodexo em cooperação com o Times Higher Education, confirma uma clara mudança dos estilos de vida dos estudantes britânicos no Ensino Superior.

Parece claro que o impacto financeiro está a transformar profundamente a experiência universitária, que parece estar a ser cada vez mais dominada pela preocupação em estudar para o emprego certo e menos centrada nas dimensões sociais da vida académica.

Torna-se cada vez mais uma evidência que o Ensino Superior inglês está a fazer emergir uma geração de estudantes endividados, dominados por uma crescente ansiedade, tentando conjugar os estudos académicos com ocupações parciais que lhes permitam obter alguns rendimentos. Sendo notório que a "experiência estudantil tradicional" está em nítida crise à medida que um cada vez maior contingente de estudantes escolhe ficar a residir em casa dos pais (63% viajam duas horas ou mais por dia para frequentar a universidade), abdicando de uma vida social intensa, por força da obrigação de conjugar estudos e trabalho, bem como devido às crescentes pressões financeiras. As pressões académicas e financeiras estão, por outro lado, a afetar claramente os hábitos de lazer. Sair com os amigos, que até há pouco tempo era um hábito diário recorrente para os estudantes universitários, é uma atividade que ocupa atualmente duas horas ou menos por dia para 55% dos estudantes. Além disso, são notórias as preocupações de poupança nos hábitos de lazer, com cerca de dos estudantes a gastarem 20 libras ou menos numa semana típica de vida social, incluindo gastos com álcool e cigarros.

Em sentido inverso, a proporção de estudantes que passa de 11 a 20 horas a comunicar nas redes sociais (sobretudo o Facebook, o Bebo e o Myspace) cresceu de 9% em 2008 para 14% 2010 (a percentagem dos que gastam mais de 20 horas nessa atividade passou, nesse período, de 6% para 11%). A sondagem, do primeiro trimestre de 2010, revela que metade dos estudantes do Ensino Superior inglês considera ser expectável acumular, no final da graduação, uma dívida de cerca de 15 mil libras, enquanto cerca de ¼ (28%, que eram 18% em 2008, 4% em 2006 e 2% em 2004) antevê que possa acumular uma dívida superior a 20 mil libras. Ainda assim, a percentagem de estudantes que se mostram preocupados com o somatório da dívida que acumulam caiu de 42%, em 2008, para 37%. Ao passo que a percentagem daqueles que consideram que a dívida acumulada é um investimento futuro que vale a pena subiu de 64% para 67%. Quando a primeira sondagem foi realizada, em 2004, 41% dos estudantes inquiridos confessava ter dificuldades em equilibrar os aspetos académicos, sociais e laborais das suas vidas. Na sondagem de 2010 essa percentagem eleva-se a 67%, de modo que conjugar estudos e trabalho é hoje uma das grandes preocupações dos estudantes universitários ingleses, sendo que 31% trabalha a tempo parcial durante o percurso académico.

Mas as preocupações fi nanceiras estão a ter igualmente um impacto nos hábitos alimentares dos estudantes. Quase metade (42%) dos inquiridos confessa ter mudado recentemente os seus hábitos alimentares para poupar dinheiro, sendo preocupante que os estudantes que alteraram os seus hábitos alimentares considerem que "comer saudável" custa mais caro, com 63% deles a declarar que comem agora comida menos saudável. A sondagem Sodexo/Times Higher Education procurou também saber, pela primeira vez, se os estudantes universitários ingleses equacionam ou não abandonar a instituição que frequentam antes da conclusão do ciclo de estudos e, em caso afirmativo, conhecer as razões. Não deixa de ser significativo, e alarmante, que 30% considerem abandonar a universidade antes da conclusão dos estudos (com proporções ligeiramente mais elevadas entre as mulheres, entre os estudantes que se encontram no último ano de estudos e entre os estudantes das universidades mais recentemente criadas), sendo que 48% referem a pressão académica como a principal causa desse abandono putativo (gráfi co 3).

Reagindo aos cortes orçamentais impostos pelo Governo de Gordon Brown, Wendy Piatt e Michael Arthur (respetivamente, diretora-geral e membro do Russell Group das 20 universidades britânicas mais competitivas no campo da investigação -www.russellgroup.ac.uk/), imploravam, publicamente, a 11 de Janeiro de 2010, no The Guardian, a inversão dessa política. Em concreto, recordavam que com apenas 1% da população mundial, o Reino Unido produz 7,9% das publicações científicas e 12% do volume mundial de citações. Salientando que a contribuição total do Ensino Superior para a economia britânica representa 2,3% do PIB (33,4 biliões de libras em 2007/2008). Ao mesmo tempo, recorriam a comparações internacionais para enfatizar que Nicolas Sarkozy decidiu investir 11 biliões de libras no Ensino Superior, declarando que a França queria ter as melhores universidades do mundo; que a Alemanha injetou 18 biliões no orçamento com o objetivo específico de promover a emergência de uma investigação de nível mundial; e que Barack Obama decidiu investir 21 biliões de libras adicionais no orçamento federal para a ciência. E citavam o Presidente das Universidades do Reino Unido, Steve Smith, para avisar que as instituições encaram o encerramento de centenas de cursos em que existem turmas enormes e o staff académico é muito reduzido, mencionado relatórios que sugerem que 30 universidades britânicas não sobreviverão à sua atual configuração ainda que os cortes orçamentais infligidos sejam mínimos.

Por outro lado, Chris Higgins, Vice-Chanceler da Universidade de Durham, e membro do 1994 Group (que representa 19 universidades, contando-se entre elas, por exemplo, Birkbeck/Goldsmiths/Lancaster/York, cujo objetivo é promover a excelência na investigação e na educação - www.1994group.ac.uk/), assume a defesa de um financiamento seletivo. Higgins sustenta que a atual crise de financiamento revela a necessidade de diferenciar o setor universitário, ultrapassando-se definitivamente a hipocrisia do politicamente correto. Sustenta a sua opinião no facto dos 40% dos jovens britânicos que alcançam o Ensino Superior não chegarem a esse patamar com expetativas, competências e capacidades financeiras uniformizadas, sendo necessário adaptar o setor a essa realidade, designadamente diferenciando-se as 20 ou 30 universidades que conduzem investigação de topo das cerca de uma centena que não conseguem alcançar esse nível mas fazem outras coisas muito bem. A perspetiva elitista de Chris Higgins está ancorada numa divisão das instituições de Ensino Superior em três tipos diferenciados. As ‘universidades de investigação', vocacionadas para terem escolas de pós-graduação e a atribuição de doutoramentos. As ‘universidades enraizadas nos seus ambientes económicos e sociais', sobretudo mais voltadas para a docência que para a investigação e mais centradas no ensino vocacional e profissional (poder-se-iam localizar nelas as graduações com dois anos de duração). E um terceiro tipo, o das ‘universidades locais', que seriam algo parecido com os colégios existentes nos EUA e que teriam a missão de promover um acesso mais alargado ao Ensino Superior. Naturalmente, a proposta de Chris Higgins completa-se com a ideia de níveis muito diferenciados de fi nanciamento (público e privado) entre estes três tipos de instituições.

Estas propostas de Higgins recolheram, como seria de esperar, as mais veementes reações daqueles que defendem a tradição igualitária do sistema britânico de acesso ao Ensino Superior.

Foi, nomeadamente, entre outras, o caso da reação de Pam Tatlow, diretora-executiva do Million+ group (http://www.millionplus.ac.uk/), um think tank que conta cerca de 30 universidades associadas (na origem, escolas politécnicas convertidas em universidades pela reforma de 1992) e de Ruth Farwell, Presidente do GuildHE (http://www.guildhe.ac.uk/), que reúne também mais de duas dezenas de instituições.

Às vozes críticas juntaram-se, entretanto, os sindicatos de professores.

Sally Hunt, Secretária-Geral da University and College Union (http://www.ucu.org.uk/), estruturou a sua contestação no facto de os cortes de mais de 900 milhões de libras a concretizar até 2013, anunciados em Dezembro de 2009, potenciarem o despedimento de cerca de 14 mil docentes, ao mesmo tempo que fomentam a sobrelotação de turmas. Com um rácio alunos/ professores superior à média da OCDE (17,6 alunos por professor, na Inglaterra, contra a média de 15,3, na OCDE), a redução dos efetivos que constituem o corpo docente colocaria, já em 2013, as universidades inglesas entre os países com maior dimensão média das turmas.

Esta realidade, num país que ostenta o orgulho de ter sustentado uma economia competitiva em 800 anos de um Ensino Superior de qualidade, e onde a pressão social para a frequência da universidade continua a ser muito forte (em 2009 foi batido o recorde de ingressos, com 477 277 estudantes, tendo ficado por colocar 139 520 estudantes, limites que serão ambos ultrapassados em 2010), não deixou de alimentar um intenso debate em torno da qualidade do Ensino Superior inglês.

No complexo jogo de alianças que organiza as universidades inglesas em grupos de interesse, as universidades privadas não deixaram de entrar nesta discussão. Terence Kealey, vice-chanceler da Universidade de Buckingham, uma universidade privada não financiada publicamente, veio defender prontamente que os cortes orçamentais têm o mérito de aumentar a qualidade do Ensino Superior. Baseia o seu argumento no facto de a reforma de 1992, que converteu os politécnicos em universidades com o objetivo de alargar o acesso ao Ensino Superior, e que originou um aumento do financiamento de 25% a partir de 1997, ter levado a um abaixamento generalizado da qualidade.

O argumento não vale tanto pela sua originalidade, mas sim pela forma como foi instrumentalizado para legitimar a liberalização da fixação de propinas e para criar um alarmismo generalizado, aliás bem patente no anúncio publicitário assinado pelo próprio Terence Kealey: "As notícias recentes que dão conta que a maioria das universidades inglesas enfrenta cortes orçamentais significativos estão a alarmar muitos estudantes que têm de concorrer a uma vaga no próximo outono. Buckingham é a única universidade inglesa independente e, não sendo publicamente financiada, não é afetada pelos cortes da HEFCE. As posições académicas estão seguras e novas posições estão a ser criadas, ao mesmo tempo que o número de estudantes e de vagas cresce. Achamos que somos a melhor universidade inglesa.

Venha ver por si."

Geoffrey Alderman aludia, no The Guardian, ao manifesto Talent, Opportunity, Prosperity da AGR - Association of Graduate Recruiters (http://www.agr.org.uk/) - para explicar as razões que, na sua opinião, contrária à da AGR, levaram à queda dos padrões universitários.

Criada em 1968, esta associação independente tem um caráter não-lucrativo e dedica-se a apoiar os empregadores em todos os aspetos do recrutamento de graduados pelo Ensino Superior, argumentando no seu manifesto que o compromisso estabelecido por Tony Blair em 1999 (de colocar 50% dos jovens adultos a frequentar o Ensino Superior à entrada do século XXI) desvalorizou os diplomas e fez baixar os padrões de qualidade, forçando milhares de estudantes a ingressar em programas académicos sem rigor e organizados por "instituições situadas abaixo da média". Para Alderman a realidade é bem mais complexa e a degradação dos padrões pode ser explicada, não com o argumento da AGR, mas através da combinação de 5 outras razões concretas. A primeira delas tem a ver com a cultura reinante de estabelecer rankings de instituições, o que levou os gestores de muitas universidades inglesas a colocar pressões nos professores para aprovar estudantes que manifestamente deveriam reprovar. A segunda prende-se com a pressão para maximizar as fontes de rendimento não governamentais, designadamente dos estudantes não-europeus que pagam os custos totais dos cursos que frequentam e em relação aos quais é aconselhável, segundo esses mesmos gestores, atribuir qualificações para as quais não estão preparados, de modo a não danificar essa fonte de ingresso nas instituições de Ensino Superior inglesas.

A terceira resulta de um crescente e crescentemente estúpido uso das avaliações feitas pelos estudantes como factor do processo académico de promoções, na exata medida em que a promoção se torna mais difícil quando os alunos recebem notas baixas. A quarta remete para o colapso do sistema de inspeção externa, que se deve, em parte, à modularização crescente dos ciclos de estudo e, noutra parte, à remuneração abismal desse tipo de trabalho e que faz com que seja exercida uma pressão inadequada sobre as inspeções externas. A quinta e última tem a ver com a relativa tolerância à fraude académica, matizada pela tendência que os gestores académicos manifestam quando insistem que o plágio deve ser encarado na perspetiva do "relativismo cultural".

No contexto de emagrecimento e depressão para a redução do corpo docente, não deixa de ser relevante, como notava Tariq Tahir no The Guardian, a "Irresistível ascensão da burocracia académica". Reportando-se às estatísticas oficiais da HESA (Higher Education Statistics Agency), Tahir assinala o facto de os gestores nas instituições de Ensino Superior serem 10740 em 2003-2004 e 14250 em 2008-2009, num crescimento assinalável de 33%. Tão mais notável quanto, nesse período, o número de professores cresceu 10% (de 106900 para 116495) e o número de alunos 9% (de 2200180 para 2396055). Não esquecendo, como salienta Tahir, que os professores são, também eles, gestores, sendo cada vez mais chamados a essa atividade, ainda que a HESA defina gestores como o novo tipo de profissionais não-académicos envolvidos em atividades de finanças, marketing, acesso ao Ensino superior, recursos humanos, serviços a estudantes, sistemas de qualidade, etc. As imposições da Agência para a Qualidade são apontadas como um dos fatores que mais alimenta a burocracia emergente e para muitos académicos o que se torna uma evidência é a correlação negativa entre a pressão para a diminuição de custos e a irrupção de uma hiper burocracia gestionária.

Acresce que esta ascensão da burocracia académica se faz acompanhar por um significativo aumento dos custos ligados à gestão. David Leigh e Rob Evans, jornalistas do The Guardian especializados em investigações sobre escândalos e corrupção, retiveram dois critérios para demonstrar essa tendência. Um primeiro critério relativo aos salários de 150 vice-chanceleres, incluindo custos com pensões de reforma (que coloca o diretor da London Business School, Andrew Likierman, como o mais bem pago, recebendo 474 mil libras, e Michael Earley, diretor do Rose Bruford Drama College, de Sidcup, com o menos bem pago, recebendo 122 mil libras), e que permite concluir que 80 ganham mais que o primeiro-ministro (197 mil libras acrescida de pensão). E um segundo critério relativo aos professores seniores que têm salários anuais superiores a 100 mil libras. Oito universidades aparecem no top 20 de ambas as listas: a London Business School, a University College London, a Liverpool, Imperial College London, a Nottingham University, a Oxford University, a King's College London e a Bristol University. Analisando detalhadamente estas oito instituições, David Leigh e Rob Evans destacam o facto de os salários dos vice-chanceleres, e dos diretores-executivos terem passado para o dobro, ou mesmo triplicado, na última década, ultrapassando em muito os 30% de aumento da inflação.

Em 4 delas, os salários dos responsáveis máximos aumentou 15% a 20% no último ano. Além disso, o número de professores universitários que recebem salários anuais acima das 100 mil libras também cresceu muito rapidamente, elevando-se a 1393 no conjunto destas 8 instituições e cerca de 4000 outros administradores académicos, consultores e cientistas são igualmente pagos por essa bitola.

Paulo Peixoto

Universidade de Coimbra

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