Entrevista Reitor Carlos Reis

 

Carlos António Alves dos Reis, 57 anos, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, é Reitor da Universidade Aberta desde 2006. Anteriormente, foi Director da Biblioteca Nacional de Portugal e Pró-Reitor da Universidade que dirige. Da sua actividade académica, destaca-se o ensino em diversas universidades da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil, tendo igualmente publicados quinze livros e dezenas de artigos. É também coordenador da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós e da História Crítica da Literatura Portuguesa. Nasceu em Angra do Heroísmo.

1. O Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) prevê a criação de legislação específica para o ensino à distância. Que papel pode a Universidade Aberta (UAb) desempenhar na criação deste diploma, enquanto única universidade pública de ensino à distância em Portugal?

A Universidade Aberta tem uma experiência acumulada de vinte anos de ensino a distância em Portugal. Nessas duas décadas, o EaD passou por profundas transformações, tanto do ponto de vista técnico-pedagógico como do ponto de vista das suas implicações sócio-educativas. Penso que é importante que o poder político tenha em atenção essa experiência, para além dos mecanismos de audição que estão determinados. Por isso mesmo, tive oportunidade de preparar, com a colaboração da minha equipa reitoral, um documento de reflexão que enderecei à tutela, no qual estão representadas as nossas ideias e a nossa filosofia de ensino. Este  contributo não esgota, evidentemente, o papel que neste contexto podemos desempenhar; julgo que a nossa prática pedagógica actual - uma prática pedagógica que tira todo o partido das ferramentas e das metodologias mais actuais, em matéria de EaD - pode e deve ser olhada como um marco de referência importante, quando está em causa (e pela primeira vez em Portugal, acrescente-se) a regulação deste sector.

2. O RJIES também determina que as universidades devem criar novos estatutos. A UAb já aprovou os seus. Quais as alterações mais significativas que os novos estatutos trazem?

A UAb reviu e aprovou os seus estatutos dentro dos prazos legais, aguardando-se agora a homologação por parte da tutela. Para além das potencialidades de reajustamento estatutário e institucional que, no plano técnico-jurídico, o RJIES encerra, apontando para uma simplificação (no melhor sentido do termo) de procedimentos de gestão, para um redimensionamento orgânico e para uma nova filosofia de governação, com responsabilização mais individualizada dos poderes universitários, para além disso, dizia, a nossa revisão estatutárias permitiu-nos repensar a missão institucional da UAb. Está agora expresso nos estatutos que a UAb  deve privilegiar  actividades  no âmbito alargado  da educação a distância,  visando, designadamente, a chamada aprendizagem ao longo da vida. A isto junta-se a ideia de que estaremos em condições de  proporcionar programas que visam favorecer o acesso à formação superior, cultivando-se  ofertas pedagógicas flexíveis e  abertas. Isto para além de se acentuar que, pela sua natureza, a UAb utiliza as mais avançadas metodologias e tecnologias de ensino a distância, podendo funcionar como plataforma de ensino a distância, em articulação e parceria com outras universidades.

3. Pode agora falar-se de uma refundação da Universidade Aberta?

O termo "refundação" parece (e é) drástico, mas justifica-se, no momento actual da UAb e na fase actual de evolução do ensino a distância. Essa refundação não passa apenas (o que já não seria pouco) pela adopção de novos métodos e ferramentas de ensino; muito ligados às tecnologias da informação e da comunicação e à aprendizagem em contexto electrónico. Ela implica também uma mudança de mentalidades, por parte de todos, desde o reitor até aos funcionários e aos estudantes, passando naturalmente pelos professores, que hão-de saber adaptar-se à nova filosofia institucional que estamos a adoptar. 

4. A refundação, ou a re-identificação institucional da UAb, é uma das quatros prioridades estratégicas que definiu para este mandato reitoral. A meio do mandato, quer fazer um balanço relativo às outras prioridades, designadamente Cooperação, Desenvolvimento e inovação, Abertura no quadro do processo de Bolonha?

Começando pelo mais evidente: estamos adaptados a Bolonha, a partir de um processo de refiguração curricular que durou pouco mais de um ano e que foi cumprido por todos de forma extremamente empenhada. Falta saber (não apenas no caso da UAb, mas sim no caso de todo o ensino superior português) se Bolonha está a dar os frutos que se esperavam - e que se esperam. Desenvolvemos um ambicioso programa de inovação que em dois anos redimensionou toda a nossa oferta pedagógica, ajustando-a aos requisitos do ensino on-line; e apostámos fortemente na formação do nosso pessoal  docente, com seriedade e com exigência (um dia valeria a pensa indagar quem faz e-learning em Portugal sabendo o que está a fazer e quem nele cultiva tão-só o verniz de modernidade que pouco mais do que isso significa). No plano da cooperação, mantivemos e melhorámos a nossa oferta pedagógica nos países africanos de língua oficial portuguesa; o Primeiro Simpósio de Educação a Distância dos Países de Língua Oficial Portuguesa, na Fundação Gulbenkian, a 30 e 31 de Outubro próximo, dará disso testemunho claro.  

5. Outra importante acção que se está a desenvolver na UAb é a implementação de Centros Locais de Aprendizagem por todo o território nacional. Quais são os objectivos desta medida? Estão garantidas todas as condições que permitam o seu sucesso?

Do que se trata com os CLAs é de cultivar uma maior proximidade com os nossos estudantes e com as populações em geral; e trata-se também de conhecer, de atrair e de servir novos públicos, de os conquistar para o EaD e de ajudar a valorizar profissões e trajectos pessoais. Penso que a acção dos coordenadores dos CLAs será fundamental aqui: os coordenadores são representantes nossos (todos já escolhidos, em função de concurso público), em diversas regiões do país, cabendo-lhes fazer a ligação das autarquias, dos estudantes e das populações em geral com a UAb.

6. A UAb tem sido particularmente atractiva para estudantes provenientes dos chamados PALOP's. Essa procura resulta de uma estratégia deliberada da UAb? Pode dizer-se que, neste momento, corresponde a padrão de especialização?

Sem dúvida que para nós essa é uma aposta estratégica. O elo da língua comum é aqui muito importante, como o é também o ensino a distância e o potencial que ele encerra. Não escondo que lutamos às vezes contra dificuldades consideráveis - os espaços africanos são longínquos, muito amplos e nem sempre bem servidos em termos de infra-estruturas -, mas persistimos  na ideia de que a UAb  pode desempenhar (e está a desempenhar) um papel muito importante em matéria de cooperação, no plano educativo.

7. A abertura das universidades a novos públicos aumentou ou diminuiu a atractividade da UAb e a capacidade em diversificar o espectro dos seus alunos?

Para nós, essa abertura é um desafio muito importante: conforme tenho dito muitas vez, trata-se cada vez mais, para a UAb, de encontrar públicos e de cultivar ofertas pedagógicas diferenciadas e singulares. Do que não se trata é de nos limitarmos a repetir o que os outros fazem.

8. O ensino ministrado pela UAb assenta num modelo pedagógico virtual próprio, baseado no e-learning e desenvolvido pelo Laboratório de Ensino a Distância da UAb. Pode falar-nos deste modelo.

O modelo pedagógico virtual da UAb -  pensado e construído por nós, sublinhe-se - cultiva vários princípios: o princípio da aprendizagem centrada no estudante, enquanto indivíduo activo e construtor do seu conhecimento e integrado numa comunidade de aprendizagem;   o  princípio da flexibilidade, tendo que ver com o perfil do  estudante da Universidade Aberta (adulto, com responsabilidades profissionais, familiares e cívicas, cidadão activo e interveniente) e valorizando a possibilidade de esse estudante aceder aos conteúdos e às actividades de aprendizagem de forma flexível, sem imperativos temporais ou espaciais; o princípio da interacção, que inclui a interacção estudante-estudante, através da criação de grupos de discussão no interior de cada turma virtual; o princípio da inclusão digital, entendida como a facilitação do acesso aos adultos que pretendam frequentar um programa numa instituição superior e não tenham ainda adquirido desenvoltura na utilização das tecnologias da informação e comunicação; por isso mesmo, o nosso modelo pedagógico virtual  inclui um módulo prévio,  para que os novos estudantes possam adquirir essas competências antes da frequência do curso ou do programa de formação em que se inscreveram. 

9. Que outros projectos de investigação científica destaca na UAb?

Tenho afirmado (e reafirmado) a necessidade de apostarmos fortemente na investigação científica no domínio do ensino a distância. Trata-se de constituir  um centro de pesquisa que, em interacção com o Laboratório de Ensino a Distância, promova uma reflexão em termos metodológicos, epistemológicos, propriamente pedagógicos e mesmo éticos acerca desta poderosa área de intervenção educativa que é o ensino a distância. O propósito deste tipo de investigação é rvidente: como universidade de ensino a distância temos que estar na vanguarda da inovação, no campo em que trabalhamos.

10. Que desafio lançaria à tutela para que o ensino superior à distância possa apresentar-se como uma alternativa competitiva e diferenciada em relação à oferta protagonizada pelo sistema nacional de ensino superior público?

Não é demais sublinhar algo que temo que nem sempre seja entendido: desde que praticado com seriedade (não deveria ser necessário dizer isto, mas talvez não seja supérfluo acentuar esta condição), o ensino a distância pode fazer muito pela qualificação dos portugueses. Se o desafio é esse (e todos sabemos que é mesmo), então é tempo de se valorizar o potencial formativo que o EaD encerra. A este desafio acrescento um outro: que o poder político seja muito exigente no escrutínio e na avaliação dos agentes que trabalham em EaD. O apelo das tecnologias da informação e da comunicação, associado ao poder sedutor e às vantagens do e-learning favorecem aventuras perigosas.

11. Como vê, no futuro próximo, o posicionamento da oferta formativa da UAb em termos dos três ciclos de estudos e de áreas preferenciais de formação?

Ao nível do primeiro ciclo, apostaremos cada vez mais em ofertas formativas viradas para o campo da chamada aprendizagem ao longo da vida e procuraremos evitar áreas esgotadas, em retracção ou servidas por outras universidades; no segundo e no terceiro ciclo, orientaremos a nossa oferta formativa para temas relacionados com o ensino a distância, com as suas componentes sócio-educativas, pedagógicas, metodológicas, epistemológicas e histórico-sociais. Esses são domínios em que teremos que estar na vanguarda da reflexão e da transferência de conhecimentos em Portugal.

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