Semiótica dos Títulos

Uma coisa são habilitações reais, competência clara, outra são os títulos e os postos na carreira. Confunde-se demais o doirado dos "canudos" com a substância, assim como o renome mediático com qualidade.

Há certamente uma patologia social quando se é povo de titulados e titulares. Tratamo-nos excessivamente por "doutores", muitas vezes sem propriedade. Hoje, certos mestrados não estarão ao nível das antigas licenciaturas? Chamar o quê a quem?

O humanista Clenardo é que nos apanhou: generalizada mania da nobreza. Conta ele que o nobre empobrecido ia pelas ruas, cambaleante de noitada rija, segurado por lacaios. Mas anotara a sua dieta na agenda: não tinha manjado nada, por não haver rabanetes no mercado (sua única comida diária).

 No tempo do Marquês de Pombal, lembremos os pergaminhos feridos da nobreza mais antiga pelo poder novo-rico do "fidalgote". E Antero de Quental explicou, nas Causas das Decadência dos Povos Peninsulares, como entre nós está muito democratizado o foro nobiliárquico: e por isso também ideais de independência e autonomia; mas também egoísmo e inveja, como viria depois a sublinhar um Teixeira de Pascoaes, na Arte de ser Português, livro interessantíssimo e paradoxal. Os doutores substituíram os barões. Almeida Garrett dizia: "- Foge Cão que te fazem Barão. - Para onde, se me fazem Visconde?"

Abolidos os títulos nobiliárquicos (embora alguns ainda os usem e os tributem, e muitos que não ostentam brasão adoram exibir anel de curso), com o advento da República, passámos a querer ser todos doutores. Em pleno Estado Novo, o próprio Hans Kelsen ter-se-ia enganado sobre a essência do salazarismo, considerando-o um governo de juristas doutores.

A mania da auto-promoção deveria ser meditada. Que abundância de auto-intitulados "professores universitários" que o não serão de direito, e dos que, mais subtis, se apresentam como "docentes". E seria também positivo que os convidados declarassem publicamente essa qualidade, porque só se é convidado por mérito.

Será que um bafejado pela sorte, ou um ingénuo, só porque dá umas aulas em não se sabe que instituição que reivindique para si o título de universidade (com ou sem mérito, com ou sem suporte legal) se pode alcandorar a posição que pareceria reservada aos que têm no mínimo doutoramento? É certo que até esse grau, em muitos casos, se banalizou. Mas há quem o não tenha sequer...

O uso imoderado da designação "Prof. Doutor", que vai do professor auxiliar (recém-)doutorado em poucos anos e sem mestrado até o catedrático com cursus studiorum completo e lentíssimo, jubilado, emérito e consagrado, não é de molde a mostrar quem é quem. Acresce ainda que, ao usar-se o "Prof. Dr." para qualquer licenciado (ou menos) que dê aulas no ensino superior, a indução do público em erro não poderia ser maior.

X é só licenciado e dá eventualmente umas vagas aulas numa escola superior, a convite do dono, seu amigo: usa "Prof. Dr." antes do nome. Y é bacharel, licenciado, mestre, doutor e agregado e catedrático. Essa é a sua vida, e sempre ascendeu por concurso limpo: usará normalmente "Prof. Doutor". Mas, com pudor da "doutorice", este último pode acabar por usar só "Prof. Dr.", como faz qualquer professor e doutorado espanhol ou brasileiro. Portanto, quando um português usa para si "Prof. Dr." tanto pode ser um pretencioso como um modesto.

Horroroso mimetismo anglo-saxónico é colocar-se título depois do nome: "Fulano, Prof. Dr.", como Mr. Smith coloca "John Smith, Ph D.". Quando se perceberá que não falamos uma tradução?

As formas de tratamento de ofício deveriam ser denotativas. Nenhum tenente finge que é coronel ou nos deixa na ambiguidade.

O público não deve presumir titulado quem se diz "professor universitário". E quando oiço falar em "docentes", puxo logo da lupa, que é arma de ver diplomas.

Em França, há dicionário da falsa nobreza. Não precisamos de tanto: se continuarmos a tratar-nos todos por "drs.", Deus escolherá os Seus.  

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