Os Mercados Assaltam a Educação

 Universidade de Middlesex, em Inglaterra, decidiu fechar o curso de Filosofia e encontrou forte oposição de alunos, pessoal e outros cidadãos. Tariq Ali juntou-se ao protesto a 15 de Maio, com a intervenção,  junto ao edifício ocupado, ‘Kentucky Fried Education: The Market Assault on Reason.

"Queridos amigos, fiquei muito emocionado quando soube que vocês tinham ocupado este edifício, porque vivemos num tempo em que qualquer protesto contra o que fazem os ricos e poderosos, seja no mundo da política, da economia ou da academia, é mal encarado.

Aos que decidem que é importante protestar para tratar de endireitar o que está torto, ou para lutar pela justiça, costuma dizer-se-lhes que nunca chegarão a parte alguma. Se isto fosse assim, no passado, ninguém teria conquistado o direito ao voto. Na História, se tivesse sido assim, as mulheres continuariam sem direito ao voto.

Cada uma, cada uma das lutas que se conduziu permitiu melhorar os direitos democráticos das pessoas. Enquanto que os poderes existentes se obstinam, temos de continuar a luta.

Ora o que aconteceu aqui, em Middlesex, não é uma surpresa total, pois não? Tendo em conta o mundo em que vivemos e tendo em conta o facto de que os políticos de cada um dos partidos da corrente política principal, começando por Mandelson, que agora pelo menos está de fora do poder, o que é uma boa coisa [risos] afirma que a educação deve estar ligada ao mundo dos negócios e ao lucro. E a lógica disso é que qualquer departamento que não produza riqueza ou qualquer departamento universitário que não esteja ligado a fazer algo para ajudar a indústria ou as empresas é inútil. Bom, pensem nisto, seguindo este critério alguns dos maiores filósofos produzidos neste país não teriam conseguido postos de trabalho docente. Onde estaria Bertrand Russell? E Wittgenstein? Se nos dissessem que a filosofia teria de ser custo-eficiente? Quem aprenderia filosofia para fazer dinheiro? Estes tipos estavam loucos? Pensavam que um departamento de filosofia lhes traria dinheiro? Ninguém no seu pleno juízo pensaria isso [aplausos].

Portanto, esta é a primeira coisa a compreender, que o modelo educativo que estão a criar neste país é oferecer o que eu chamo educação Kentucky Fried: um produto barato, rápido, que se engole, se digerir e se excreta. Esse é o sistema que querem, e não lhes interessa o que possa acontecer. O que não quer o sistema capitalista, tal como está estruturado neste momento, apesar da enorme crise que está a acontecer, é formar cidadãos que sejam capazes de questionar e pensar. Não precisam dum sistema assim, tal como não precisam de universidades onde os estudantes lhes digam o que fizeram de errado ao decidir ocupá-las, da mesma maneira que não gostam das pessoas que questionam as prioridades políticas, económicas e sociais do sistema em que todos vivemos. E estamos a ver um processo, de que isto é uma parte, onde a própria democracia está a ser esvaziada.

Nas recentes eleições, se olhássemos para os debates preparados pelos meios de comunicação, estes grandes debates que revigoravam o sistema, que é que revigoraram? De facto, conseguiram que as pessoas saíssem de casa e viessem votar, mas se julgarmos os debates pelo que estes três políticos diziam, era em traços gerais, exactamente o mesmo.

Assim, se temos uma elite política que na realidade não permite realmente que as pessoas tenham dissensão dentro das suas fileiras, porque deveríamos fomentar a aparição de cidadãos educados que questionem, que duvidem, que sejam cépticos, porque isso é o que a filosofia foi como tradição?

Historicamente, desde um passado já remoto, um dos primeiros grandes filósofos do mundo medieval que questionou as verdades divinas, num tempo em que o seu questionamento levava à morte, foi Ibn Rushd, da Andaluzia, conhecido no mundo latino como Averróis, que no século 12 disse que há uma diferença entre a verdade divina e a razão e que as duas não andam de par. E quando um crítico lhe perguntou, um mulá que era crítico, se acreditava que havia alma, Ibn Rushd respondeu prudentemente: "Eu acredito que há alma, mas, sabe uma coisa, não posso prová-lo". Porque falar desta maneira era fomentar o debate, o protesto, o cepticismo e essa escola de filosofia criou outras que desafiaram e puseram coisas em dúvida, até que chegámos aos séculos 18, 19 e 20, depois das Luzes, quando todo isto continuou.

Portanto ouvir agora, em pleno século 21, uma universidade que se considera a si mesma uma universidade, dizer que não precisamos de filósofos e que não precisamos dum departamento de filosofia e que vai ter de parar porque não é rentável, porque não produz dinheiro, é uma incrível acusação à sociedade britânica e à cultura britânica de hoje. Não tenham dúvidas a esse respeito [aplausos].

Porque significa que estão a dizer aos jovens que o mundo em que estão a crescer é um mundo que está dominado pelo dinheiro e que isso é a única coisa que importa; na realidade a questão é que, mesmo de acordo com os seus próprios critérios, isto não é verdade: porque este mundo de que falam explodiu, implodiu em 2008. Este mundo do capital zombi, este mundo do capital morto, este mundo da financiarização, este mundo dos derivados, este mundo de fazer dinheiro em cima das costas dos demais. E eles costumam dizer-nos que não podemos ter o Estado a emprestar dinheiro para isto ou para aquilo, para a saúde, para a educação que vocês têm de conseguir patrocínios, têm de conseguir companhias que vos ajudem, têm de vender as escolas às empresas privadas. Porquê? Porque não é tarefa do Estado. Mas quando todo o sistema financeiro do capitalismo se desmorona, como agora, então que faz o mercado? Vai de joelhos ante o Estado e pede-lhe que o resgate.

Um Estado que nos diz que não pode gastar mais em educação, não pode gastar mais em saúde, não pode fazer isto ou aquilo, porque não há dinheiro, encontra o dinheiro necessário para resgatar os bancos doentes que deveriam ter sido abatidos por comiseração com o seu estado na maioria dos casos. Um Estado que encontra milhares de milhões para as guerras no Iraque, no Afeganistão e noutros lugares, consegue encontrar milhares de milhões para fazer isto e diz que não tem dinheiro para a educação.

Então, que temos de dizer a este Estado e àqueles que actuam como seus guardiões nos partidos políticos e coligações? Temos que fazer perguntas simples, muito simples: quer ou não um sistema educativo em condições no seu país? Quer uma regressão ao que costumava existir nos começos do século 20 e na maior parte do 19 quando a educação, uma educação em condições, era apenas o privilégio dos ricos? Quer voltar a esse sistema, como estão a fazer noutros lugares - e então vamos lutar contra vós! Temos de o dizer porque não podemos simplesmente sentar-nos e não fazer nada, porque é o seu futuro que está em jogo, e não apenas o seu futuro mas o futuro dos que virão depois, o futuro dos seus filhos.

Este é um mundo consumista. Só vamos às compras, vemos televisão, vamos aos clubes! É um parque temático, é uma bolha, não se pode viver dentro duma bolha por demasiado tempo. Mais tarde ou mais cedo a bolha rebenta e muitos de vocês, que não pensaram nisto antes de que estes filósofos daqui fossem despedidos, essencialmente eles foram despedidos, devem pensar nestas coisas agora. Porque não estamos a falar apenas da filosofia, estamos a falar da filosofia num sentido mais amplo, de tentar de mudar as condições em que vivemos, que muitos, muitos filósofos debateram por muito tempo de Espinoza em diante. Um dos grandes filósofos do século 17, Baruch Espinoza, desafiou a sua própria autoridade religiosa, expulso da sinagoga de Amesterdão por dizer que o Antigo Testamento é simplesmente um conjunto de contos populares e histórias de fadas. E cuja filosofia política defendia a democracia, defendia os direitos dos holandeses que estavam a lutar para se livrar dos espanhóis no seu país. Um filósofo activo, como muitos filósofos tendem a ser, Hegel, Marx, em constante compromisso com o mundo. Assim os que querem desfazer-se da filosofia querem desfazer-se da dúvida. E sem a dúvida o mundo não pode seguir em frente. Se nos convertemos em cidadãos, não já cidadãos mas antes simples «yesmen» e «yeswomen», que vão votar uma vez de cinco em cinco anos. Isso não é suficiente e temos de lutar por um mundo melhor.

Agora vejamos o que se passou aqui e como podemos avançar. Disse ao Peter Hallward que me tem estado a telefonar para me manter informado - é um amigo que escreve para a New Left Review, de que sou um dos editores que escreveu um belo livro sobre o ódio - disse-lhe simplesmente que não podemos ganhar estas batalhas à escala local. Temos que usar a força que temos a nível nacional para pôr a descoberto este caso e para ajuda a outros que poderiam estar em situação similar. Não creiam que esta ocupação tenha sido uma perda de tempo. E aqueles que participaram na manifestação agora deveriam sentir-se orgulhosos de vós próprios [aplausos e vivas].

Porque sempre foi esse o caso, sempre foi assim; a princípio são pequenos grupos de pessoas que assumem uma causa qualquer, que lutam por ela e pouco a pouco vão crescendo e temos que crescer porque se trata dum movimento que agora é pequeno, mas não é único. Estava em Zagreb, na Croácia, há dez dias, e falei sobre o que estava a suceder em Middlesex e depois muitos jovens aproximaram-se de mim e disseram-me que lhes soa igual ao que acontece na Croácia. Temos greves e ocupações estudantis não para defender um departamento mas para defender um sistema educativo. Então perguntei-lhes porque estão em greve, porque ocupam? E disseram-me que era por uma melhor qualidade da educação, desde as escolas até às universidades. É por isso que lutavam.

Portanto, em primeiro lugar, não estão sós; e em segundo lugar, este é um problema geral em muitas partes do mundo no que toca ao que se vai passar com o nosso sistema educativo. Assim creio - e sugeri isto ao Peter e digo-o agora publicamente para que conste - que temos de convocar uma conferência nacional, mobilização, convenção, chamem-lhe o que quiserem [aplausos] com o fim de defender a filosofia como disciplina e de defender a qualidade da educação nas nossas universidades.

De maneira que temos de recorrer não só às pessoas de esquerda como também às do centro. Até os filósofos de direita estão extremamente preocupados com o que está a acontecer no sistema educativo. Temos que alastrar, temos que unir-nos a pessoas com as quais talvez não estejamos de acordo em muitas coisas, mas com quem estejamos de acordo numa: que a qualidade da educação se encontra sob uma ameaça muito séria por parte de governos que dizem que não têm dinheiro para a educação e que vão cortar os subsídios, que vão cortar nas instalações, etc.

Neste ponto tenho um conselho a dar-vos: não estou a favor dos cortes nas despesas dos pobres nem em detrimento dos estudantes que já têm de encontrar dinheiro para pagar parte das seus taxas na maioria dos casos. Estou a favor,  contudo, de cortar drasticamente nos salários dos reitores e decanos [grandes aplausos]. Se vamos ter cortes comece-se pelos de cima, baixar os salários dos reitores para metade, cortar nos salários dos decanos, cortar nos salários desses grupos de assessores de gestão que são contratados para dizer a estes tipos como se deve ensinar e quantas pessoas deveria ter no departamento [vivas] muitos destes consultores de gestão devem ser despedidos das universidades, do serviço de saúde, da BBC e de todas as demais instituições públicas em que prestam conselhos de treta [grandes vivas e aplausos]. Isso poderia ser um começo.

No que respeita a como levar esta campanha avante, organizemos una jornada nacional em defesa da filosofia, em defesa duma educação de qualidade e tentar unir tantas pessoas como possamos. Milhares de pessoas a reunir-se num lugar acordado para levar esta campanha avante e «nacionalizá-la» porque que em general sou a favor das nacionalizações. Não gosto da desregulação, não gosto da privatização e esta é a forma também de saudar um movimento de protesto que é pequeno. Não devemos pensar nele como nossa propriedade, porque o que vocês têm estado a fazer na realidade é falar com muita gente que, embora não o saiba ainda, vai sofrer exactamente o mesmo tipo de comportamento por parte das universidades por falta de liquidez.

Façamos isso. E comprometamo-nos também a lutar pelo direito de aprender ou de nos ensinarem uma matéria que queiramos aprender. Isso é importante.

Porque deveriam decidir agora cortar hoje a filosofia e não também a literatura amanhã, podemos perguntar-nos? É exactamente o mesmo caso para a literatura: não é rentável. Ou muitas línguas que não são rentáveis, excepto as línguas que precisam para fazer a guerra com elas. E pode já afirmar-se que é o que têm estado a fazer; vocês já viram como em alguns campus universitários já não há departamentos de estudos árabes, agora chamam-lhes "estudos de segurança" [risos] porque é assim que querem retorcer as coisas. O que vocês estudam é "segurança", deveríamos contar com estudos sobre o terror, estudos de luta contra o terrorismo, quer dizer, fazer das universidades instrumentos totais e completos do Estado e das suas necessidades. E isso tem de ser combatido.

Não desejo reter-vos por demasiado tempo, mas estava à procura, antes de vir, dum poema que pudesse ler-vos de um dos filósofos-poetas maiores do século 20, que creio que pode significar algo para vós. É um poema escrito por Bertolt Brecht, um dos grandes dramaturgos, filósofos e poetas alemães. E quero dizer-vos umas palavras sobre Brecht para o caso de que algum de vós não ter ouvido falar dele. Saiu da Alemanha e conseguiu refugiar-se nos Estados Unidos durante a guerra, mas manteve-se firme e voltou. Voltou à Alemanha do Leste porque era comunista, mas permaneceu um dissidente, incluindo aí, lutando pelo que acreditava que era adequado e correcto. E depois que a Alemanha Oriental caiu e foi unificada, alguns social-democratas alemães, mais cultos que os seus equivalentes ingleses, enervavam-se porque tudo o que era produzido na Alemanha do Leste ia a ser descrito como lixo. E Helmut Schmidt, que tinha sido um dos líderes da social-democracia alemã, foi a uma conferência do partido social-democrata, o SPD, e disse aos milhares de assistentes: "não descartem tudo o que os alemães do Leste fizeram. Algumas das suas coisas eram bastante boas e melhores que as nossas". E referiu-se por exemplo à música e à literatura e em relação a Bertold Brecht disse: "se houvesse um pedestal nesta sala e três lugares faria inscrever os nomes de Goethe, Heine e Brecht nele para encorajar as pessoas a ler estes poetas e a não pensarem neles como coisa sem préstimo."

E agora vou a ler-vos um dos seus poemas, porque me serviu de inspiração no passado:

"Há os irreflectidos
que nunca duvidam.

A sua digestão é esplêndida,
o seu juízo infalível.

Não acreditam nos factos,
acreditam só em si mesmos.
A paciência consigo mesmos
é ilimitada. Os argumentos,
ouvem-nos com os ouvidos
dum espia policial.

Os irreflectidos, que nunca
duvidam, encontram-se com
os reflectidos que nunca actuam.

Duvidam não para chegar
a uma decisão, mas para eludir
uma decisão. Com rostos ansiosos
advertem tripulações
de navios afundando-se que
a água é perigosa.

Debaixo do machado do assassino,
perguntam-se se ele não
é humano também.

Resmungando qualquer coisa
sobre a situação não estar
ainda clara, vão para a cama.

Portanto, se elogiais a dúvida,
não elogieis a dúvida que
é uma forma de desespero.

De que serve a capacidade
de duvidar a um homem
que não consegue decidir-se?

O que se contente com bem
poucas razões poderá actuar
erradamente mas o que precise
de demasiadas permanecerá
passivo em tempos de perigo."

Obrigado. Tariq Ali

Tradução de Paula Sequeiros

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