Nuno Ivo Gonçalves

Começar a escrever um texto sobre o Nuno Ivo Gonçalves é uma tarefa penosa. Começa-se, recomeça-se, e não há meio de conseguir expor num aglomerado de palavras o que o Ivo (nome pelo qual é tratado pelos seus pares) significa para o SNESup. Não só pela visão que eu tenho da sua importância para o sindicato e para o sindicalismo no ensino superior, largamente influenciado pela última década que com ele convivi, mas também pelo facto de ele próprio ser um pouco avesso às luzes da ribalta. Não tenho dúvidas que o SNESup é o que é hoje por influência directa do Ivo, do seu trabalho contínuo em prol do sindicato, sempre de forma desinteressada e sem buscar colher os louros desse protagonismo. Após 20 anos de SNESup, o Ivo termina a sua ligação ao ensino superior e, consequentemente, ao próprio SNESup - se definitiva, só o tempo o dirá. Até ao último momento, trabalhou abngadamente para o sindicato da mesma forma que sempre tinha feito, preparando o futuro em que estaria ausente. Falta-me a "memória de elefante" que o Ivo tem, por isso este texto será sempre incompleto, mas tentarei fazer-vos sentir um pouco da sua influência neste sindicato.

Ivo ou A memória do SNESup

O SNESup tem 20 anos, tanto quantos o Ivo foi sócio deste sindicato. Também por esse motivo, e pela sua já referida memória de elefante, o Ivo era um autêntico almanaque da história do sindicato. Desde a história da sua formação às convulsões internas por que passou, aos êxitos e insucessos, o Ivo relatava os pormenores com um detalhe impressionante, com datas, nomes, locais, etc. O mesmo acontecia em relação à legislação, citava todas as leis, decretos, projectos, anteprojectos e demais documentos.

Este factor era muito importante para o sindicato. Não é por acaso que, sempre que alguém precisava de saber de alguma informação ou esclarecer alguma dúvida, o Ivo era sempre o contacto privilegiado. E nisso, ele sempre foi inigualável. Não só dava as respostas como pensava no caminho a seguir e, caso fosse preciso, passava à acção. Muitos sócios, entre os quais me incluo, são gratos ao Ivo pela forma como auxiliou a resolução dos seus problemas.

O passado é muitas vezes um factor determinante para percebermos o presente. Também é importante para não cairmos duas vezes no mesmo erro. Neste aspecto, o Ivo estava sempre alerta, quando sentia que o SNESup resvalava para erros antigos era o primeiro a actuar com todas as forças, na defesa dos seus valores fundamentais e estatutários. Se hoje o SNESup é a referência no ensino superior, muito se deve ao Ivo não ter deixado o sindicato tornar-se num mero actor secundário.

Ivo ou A (re)organização sindical

Um dos assuntos que sempre preocupou o Ivo foi a organização do sindicato. Um sindicato não pode ser meramente reactivo, tem também de ser pró-activo. E um dos aspectos fundamentais é ter uma boa organização, saber quem faz o quê, como, quando.

A organização começava, muitas vezes, no próprio regulamento de funcionamento da direcção, onde procurou sempre conseguir alguma flexibilidade, de modo a não paralisar o sindicato quando a menor disponibilidade momentânea de alguns se fazia sentir, mas também regras claras que enquadrassem de forma inequívoca as funções dos membros da direcção.

O SNESup é hoje um sindicato de causas porque houve uma reorganização profunda impulsionada pelo Ivo. Caso contrário, seríamos apenas um sindicato como tantos outros, meramente reactivo e até um pouco “seguidista”. Hoje somos o sindicato com mais sócios docentes e investigadores do ensino superior, e é-nos reconhecida a capacidade para estar no terreno a defender as causas do ensino superior.

Nos últimos tempos do sindicato, quando já tinha anunciado aos colegas da direcção que iria deixar de ser docente do ensino superior e que não faria parte da futura lista candidata à direcção, continuou a preocupar-se com a organização, em deixar a casa arrumada de modo a que a futura direcção tivesse o seu trabalho facilitado. E não deixou de assegurar a organização da assembleia-geral para eleição dos órgãos do sindicato.

Ivo ou A defesa da estrutura colegial

O SNESup tem uma estrutura de funcionamento colegial, por força dos próprios estatutos. O presidente é apenas um dos elementos da direcção, apesar de ter um papel importante na representação do sindicato. A defesa desta estrutura colegial foi sempre um dos princípios fundamentais do Ivo.

Por vezes, é difícil ser-se presidente neste modo de funcionamento, especialmente quando as opiniões pessoais chocam com as da direcção. Por coincidência, conheci o Ivo numa fase em que um presidente tentou chamar a si o poder, apoiado num grupo minoritário da direcção. Foi nessa luta para reposição do funcionamento do sindicato que comecei a trabalhar mais com o Ivo e que acabei por, pela primeira vez, ser seu companheiro de direcção.

Curiosamente, no último ano do Ivo no sindicato houve uma nova tentativa nesse sentido. Mais curioso, até paradigmático, foi o facto de a reposição da ordem ter levado, pela primeira vez, o Ivo à presidência do sindicato, cargo que nunca ambicionou e do qual se livrou passados alguns meses, por iniciativa própria. Apesar da forma breve e fortuita como foi presidente da direcção e de ser um cargo ao qual era alérgico, penso que foi com honra que o desempenhou, e eu sinto-me muito honrado de ter o Ivo na galeria dos presidentes do SNESup. De certa forma, foi um reconhecimento de tudo o que ele deu ao sindicato e foi um acerto de contas do SNESup com a sua história.

Ivo ou O repovoamento sindical

Foi já com o Ivo na direcção, como coordenador da Comissão Permanente, que foram inauguradas duas novas sedes regionais: Porto e Coimbra. Com esta medida é hoje mais fácil, por exemplo, organizar reuniões a nível regional, aceder a aconselhamento jurídico, etc Algumas vozes se levantaram (poucas, é certo), mas hoje ninguém questiona a importância destas duas sedes.

Também foi com o Ivo, e no âmbito da mesma política de descentralização, que se voltou a incentivar a figura de delegado regional, criando uma maior proximidade entre a direcção e os docentes e investigadores de todo o país. Esta rede tem-se mostrado determinada e tem trabalhado de forma simbiótica com a direcção na resolução dos problemas que alastram na maioria das instituições de ensino superior. E muitos destes delegados regionais viriam posteriormente a entrar na direcção, o que permitiu uma contínua renovação da mesma.

E, como não podia deixar de ser, foi o Ivo que impulsionou as campanhas para angariação de sócios para o sindicato, ciente que, ao contrário de outras classes, os docentes e investigadores do ensino superior, tendencialmente, só se sindicalizam quando sentem necessidade imediata. A inversão possível dessa tendência deve-se muito à sua acção.

Ivo ou A afirmação do SNESup

O SNESup é um sindicato jovem, pelo menos quando comparado com os restantes do sector. Mas sempre se afirmou pela capacidade de propor ideias inovadoras, muitas vezes contra a corrente geral. Foi, por exemplo, o primeiro sindicato a advogar a necessidade de separação entre a promoção e o recrutamento. Mas estas ideias só fluem se puderem chegar a todos os recantos do ensino superior.

O Ivo compreendeu isso como ninguém e o SNESup começou a difundir informação de forma massiva. Começando pela reorganização da base de dados do SNESup, a renovação do seu website e renovando a assessoria de imprensa, muitas medidas foram tomadas nesse sentido: a criação de mailing lists, a Ensino Superior – Revista do SNESup, a newsletter, o blog/fórum, etc.

Hoje em dia, a maioria dos docentes e investigadores sabe quem é o SNESup, conhece as suas ideias, e obtém informação diversificada sobre assuntos do seu próprio interesse. Sabem o que distingue o SNESup dos outros sindicatos. Não foi por acaso que o SNESup teve um papel preponderante nas últimas negociações dos estatutos, lutando por um estatuto mais justo até ao fim, no âmbito a reapreciação parlamentar. Um resultado final que conseguiu melhorar o original, mas que, mesmo assim, considera insatisfatório. E se esta determinação e insatisfação, esta designação de “sindicato de causas”, é hoje uma marca do SNESup, é em grande parte ao Ivo que se deve.

Quem é o Ivo afinal?

Espero sinceramente que o Ivo só leia este texto após ser impossível alterá-lo, pois ele tudo faria para evitar a sua publicação. Eis os principais motivos:

1. Consideraria que há neste texto um excessivo endeusamento da sua pessoa, algo que sempre rejeitou. Talvez até dissesse que é demasiado lamechas para a revista, mas foi ele que impulsionou o espírito de independência e de livre pensamento em que a revista deve basear-se.
2. Encontraria erros, faltas graves de acontecimentos que para ele são mais importantes e que eu me esqueci de mencionar, falta de datas importantes, etc
3. Que um texto tão grande sobre ele é completamente descabido para esta revista, provavelmente até uma nota marginal seria demasiado.

Isto revela muito do que é o Ivo. Uma palavra para defini-lo? Sindicalista. Dos bons. Dos que rareiam. Dos que são ouvidos com atenção e que conseguem fazer a mensagem passar. Dos que trabalham dia e noite em prol do sindicato, colocando muitas vezes o resto em segundo plano. Dos que incentivam a participação de todos na construção da identidade do sindicato. Dos que estão sempre prontos para ir aonde for necessário. Daqueles para quem a defesa dos postos de trabalho, da melhoria das condições laborais, dos direitos dos trabalhadores não é apenas um conceito demagógico. Dos que ao ler este parágrafo é capaz de dizer “Que exagero, faço o que todos os sindicalistas deveriam fazer!”.

O SNESup não fica órfão, pois o Ivo conseguiu assegurar bases sólidas para o seu futuro e ele próprio acharia ridícula e recusaria essa paternidade. A comparação será mais ao contrário, a do filho que se emancipa e parte à procura de novos rumos, mas que tem sempre a porta aberta para aparecer quando quiser e até para, quiçá, um dia voltar.


Da minha parte e do SNESup, e tenho a certeza que da maioria dos colegas que tiveram o prazer de o conhecer, resta-me
terminar com um

MUITO OBRIGADO, IVO!

Jorge Morais,
membro da direção do SNESup

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