Relatos de um bule de chá ou Jacarandás no Inferno

Capítulo I. Conversa muito Chata

"Um estudante matou 32 colegas antes de se suicidar, e feriu mais 26 outros. Foi na Universidade Técnica da Virgínia, em Blacksburg. É certamente o massacre de mais vasta dimensão até hoje em escolas americanas" -era a rádio (televisão não entrava naquela casa), numa voz plastificada e inexpressiva. Poderia ser um reclame de pastilha elástica. Ambos os interlocutores abanaram a cabeça com ar de que o mundo estava perdido. Sentia-se que nem um nem outro queriam sequer comentar a notícia. Como poderia ocorrer isto numa Universidade? Ambos estimavam, amavam (é o termo) por demais a instituição para sequer admitirem tamanha profanação. Aproximemo-nos. Um bule de fumegante tisana aromática, salvo erro de canela e maçã, separava - ou reunia - aqueles vultos que para nós ainda estão indistintos, na penumbra aconchegada da biblioteca.

Foquemos um pouco mais de perto. Eis a mesinha indo-portuguesa, toda retalhada de madre-pérola; eis o tabuleiro bordeaux de um inefável material que, sendo moderno, em nada destoa das encadernações tabaco e das madeiras de respeitável carvalho. Por sobre esse conjunto, o bule, rei da conversa: é de porcelana, naturalmente, bojudo como convém aos da sua raça, e de bico elegante como o de um cisne. Mas não é altivo, antes acolhedor. Singelo, em tons matizados, discreto e com personalidade. Por isso, ele é o mediador por excelência daquele colóquio.

À vez, um e outro dos vultos, ainda enigmáticos porque não desvendados, vão-lhe colhendo a asa, e, enquanto atentamente vertem um pouco do seu líquido inspirador, a conversa entra em amenidade de cedência, permitindo a aproximação da contraparte:

-Concedo.

-Distingo.

Raramente um "Nego". Depois, pegando diplomaticamente nas chávenas, e levando-as aos lábios, aprestam-se a escutar, a ouvir o outro lado. Poisam então, saciados, a equipagem, e voltam às lides verbais.

Falando assim, poderia pensar-se que estávamos ante uma justa e não numa cavaqueira plácida. Mas, na verdade, não sabemos como definir aquela conversação. É sobretudo conversa, conversa de dois amigos, o que significa a um tempo que é calma, e assenta num fundo intocável de compreensão e empatia, e também que pode ter picos altíssimos de eloquência inflamada - como algo que tempera e dá gosto ao conjunto, talvez sem isso muito plano, plácido.

A franqueza impera. Mas não uma franqueza dessas tão apregoadas sinceridades, que são sinónimo de confessionalismo piegas ou, pior ainda, de escancarada sem-cerimónia e até má educação. Franqueza de homens de palavra, de honra, e também de trato. Trato. Outra palavra dúbia: trato de tratantes, gente do mundo, isso não. Gente de fino trato, então? Sim, sê-lo-ia decerto, se tal não fosse sinónimo de gente de corte ou de salão, isto é, fútil e insincera. Então o quê? Pessoas de bem, bem-educadas, e frontais na sua delicadeza. Homens de um só parecer, à Sá de Miranda.

E como tudo isto é conversa de outro tempo... Sem sentido hoje para tantos. Tanto suspence..., pensará o leitor. Alguns leitores são gente apressada! Apre! Nem deixam o autor tomar um bocadinho de fôlego, sempre a molestarem-no com a acção. E todavia, são os mesmos que aplaudem a seca dos filmes e das peças de teatro estáticos, imóveis, e pior... Contradições de colonização mental, preconceitos do que é ser culto e chique!

E já lá vão mais três linhas para os impacientes. Faça-se a vossa vontade, gente de pouca fé. Dever-se-ia ter mais confiança no narrador, que também quer alguma parte na trama...

Bom. Quem são os personagens desta prosa? Pois dois cavalheiros que gostam de conversar, unidos pelos laços fortíssimos da amizade, gente que bebe chá em bibliotecas. Será preciso dizer mais alguma coisa? Não se definem, pois, os vultos por si mesmos?

Então oiçamos o que têm para nos dizer, que me parece bem mais importante que referir a inevitável barba de um e o cachimbo do outro.

Ah, querem nomes? Pois bem. Nomes próprios, que nisto de diálogos ficam melhor. O que se inclina agora para o bule, na poltrona, enorme, gordo e barbudo, de olhos azuis e sorriso irónico, é Guilherme. O outro, que o fita nostálgico nas suas lentes vítreas e frias, nariz grego, lábio finíssimo e queixo pronunciado, é Lúcio.

Os temas das suas conversas são variados, e todavia são sempre os mesmos: o Mundo, a Vida, a Cidade, os Homens.

Vamos acompanhá-los e comentar-lhes algumas conversas. Hoje, surpreendemo-los na biblioteca de Guilherme, que vive numa retirada vivenda ali para os lados de Sol Posto, onde em tempo de maré cheia as ondas do Atlântico vêm lamber a vidraça e ameaçar os manuscritos húmidos, como que num símbolo. Outro dia, vê-los-emos a bordo do pequeno barco de Lúcio, conversando ao embalar da corrente, rio abaixo ou rio acima. Outra vez ainda, será de apanhá-los num desses restaurantes recatados mas de boa mesa, em que mostram um e outro que o requinte do seu paladar não vai apenas para o fino dos clássicos. Ou então, simplesmente os veremos em frios passeios que em secas manhãs de Inverno afrontam equipados de sobretudos azuis ou cinzentos, de lã puríssima, e baforadas de ideias que aquecem a luz azulada dos céus de aço.

Nem só com Lúcio conversaremos. E uma vez que tudo tem de ter um ponto de mira, escolhemos a Guilherme. Será das conversas de Guilherme que trataremos. Hoje, e sempre, o bule é o árbitro. É um bom começo.

Em surdina, há um discretíssimo aparelho de CD’s a tocar um concerto para violino e orquestra. Muito baixinho. Guilherme pede uma licença tácita para se levantar. Hábitos de velha educação. Há algo que se interpõe entre si e a palavra exacta. Gesticula, como um gigante. O outro impacienta-se também.

— Ah, é a música. Vou desligar. — como que entre-pede, delicadamente, Guilherme. O outro acena que sim, não disfarçando que também já notara o incómodo.

— Pois é. Isto do Mozart é muito bonito, mas já deu muito do que tinha a dar. Leste a crónica sobre a ‘comestibilidade’ mozarteana do Affonso Romano de Sant’Anna? — atalha, enquanto procura o botão do off.

Como o outro não tivesse lido, porque era menos versado na cultura brasileira contemporânea, mudaram ambos decididamente de conversa. Mas nenhum se rala por isso. Lúcio procura compreender, e ripostar a seu modo, para não perder pontos:

— Bem, as comemorações encheramnos de Mozart até os cabelos. Ainda te lembras? E tudo tão comercial... Mas mesmo dizer “comercial” se tornou vulgar. Qualquer dia não se pode falar.

— Não creio que seja só isso. — Guilherme gosta de ver subtilezas nas coisas, e, se calhar por isso, muitas vezes descobre-as mesmo — O que mais me choca é que Mozart (mais ainda que Beethoven ou Tchaikovski, que também andam por aí aos pontapés) acabaria por simbolizar, desgraçadamente, o pirosismo dos falsos amantes da música clássica. É fácil gostar de Mozart, e é quase de bom-tom gostar dele… E por isso..

Aí o outro interrompeu-o, aliás como costuma, sobretudo em casos agudos ou de consciência, normalmente suavizando com uma pergunta ou um matiz:

— Vamos, meu caro, não queres dizer que Mozart seja “piroso” (raio de palavra, que tão bem exprime o significado). Entendo que Mozart vende, e isso causa sempre nostalgia do que é bom e não vende nada.

— É óbvio, é óbvio. E repara. — este “repara” é para ganhar tempo e não ser interrompido. A ele segue-se, como por vingança, uma ligeira pausa, que aumenta a inquietação, melhor, a impaciência do outro. Que retém a palavra e freia a respiração pela intrínseca delicadeza – que lhe custa deveras.

— Repara... Deixemos o Mozart. Como eu gostaria de poder continuar a gostar dele. Vejamos, por exemplo, um filme. Um já antigo: o Amadeus. Muito interessante, muito bem achado (benne trovatto, é que é). Mas, quando o vi, (foi, contra o costume, uma matiné), à saída, os alarves dos jovens que, sentados junto a mim só se riam quando era caso disso, fazendo portanto figura de seres absolutamente normais, enchiam os ares e conspurcavam o ambiente, imagina... com aquilo que, para as suas cabecinhas era a grande síntese do filme: a grande gargalhada néscia.

Aliás, em Paris, depois do Clube dos Poetas Mortos ou Dead Poets society, no original (que lá tem outro nome) as criancinhas não eram melhores: só repetiam, com voz rouca de fantasma, Carpe Diem, carpe diem.

— Isso parece significar que não vale a pena fazer filmes desses, que a cultura está votada à degradação aos olhos e aos ouvidos das massas incultas, impreparadas. Ou, por outras palavras, que a democratização da cultura é impossível. Estás a atirar a ídolos muito vigorosos e influentes no nosso tempo. Cultural e politicamente muito incorrecto, meu rapaz...

— Graças a Deus vivemos em democracia, e não há controle oficial da cultura. Bom. Na verdade, compensando o que sucede com o Amadeus, ou o Clube dos poetas mortos de uma maneira negativa, tive eu a experiência contrária, com O Nome da Rosa, do Umberto Eco. Guilherme, por feitio tonitroante a que cai mal um permanente pessimismo, ou por gosto da antinomia, acaba sempre por encontrar uma saída (por vezes bem inverosímil e inconsistente) depois de ter posto o mundo a penar no último círculo do inferno. É dos que, perdendo frequentemente a fé, não se rendem jamais na desesperança. E qualquer indício lhe serve para o esboço de uma tendência, que importa aprofundar — depois, remete isso para os mais novos, que possam e queiram...

Lúcio, ante a evocação do título, recordou a traição do filme ao livro, com o assentimento do autor, ao que tudo indica: pois se até aí tem um pequeno papel de actor. E ia dissertar sobre os finais felizes. Mas o outro, fingindo não o ouvir, puxou a conversa para o seu lado, enquanto recusava com a cabeça um cubozinho de açúcar. Tinha-se convertido ao adoçante... Mas chá, chá que fosse chá, era ao natural, sem adição de nenhuma doçura.

— Digo-to. Eu sou muito avesso a modas. Conhecia, evidentemente, o Umberto Eco escanhoadinho, assim como tu, e não o barbaças que é hoje famoso. Era o semiólogo, o homem da Obra Aberta. De algum estruturalismo e vanguardismo, se bem me lembro (isso hoje são para mim teorias distantes, mas adiante...). Quando o vi a fazer crónicas, achei graça. A crónica é um exercício precisamente de graça, engenho e oportunidade. Mas no romance... Deus meu. Pensei logo nesses truques editoriais. Todos sabemos que praticamente qualquer editora (mas sem restrições, se for uma grande editora) é capaz de impor qualquer autor. As editoras podem ser, se quiserem, fábricas de criação de génios, por um lado, e de párias, de falhados, por outro. Basta recusar sete vezes um romance a um autor para que o escritor médio esmoreça. Só um casmurro muito teimoso será capaz de continuar a escrever depois de rejeitado tão firmemente pelo mundo editorial.

— Sim. E pior ainda no caso de recusa do público. Quando se não vende...

— É claro — Guilherme abriu-se num sorriso, elevando um tanto o tom de voz, a aplaudir o amigo — É claro! Mas repara que o êxito, quer dizer, as vendas, dependem muito mais do editor — outra vez ele — que do autor. E até que do próprio público, que consome o que lhe impingirem.

— Estou a gostar da teoria, porque os meus livros não se vendem e foram dados à estampa por editores obscuros. Mas achas mesmo que é assim? Isso d’O Nome da Rosa, que ias...

— Precisamente. Para não perder o fio à meada. Eu não comprei esse livro. Foime oferecido. E não por grandes intelectuais, mas por duas colegas que precisamente apreciaram nele o que depois passou para o filme... o enredo policial. Todavia, tiveram o discernimento, o fee-ling, de adivinhar que a parte chata, o latim, etc., poderia ser apreciado por mim.

— Não estou bem a compreender...

— Mas tudo bate certo — disse isto procurando conter um “mas é claríssimo!” (ele nunca diria, mesmo que o pensasse, “Elementar, meu caro Watson”) — Repara: uma obra que seja capaz de cativar os vários estratos de público, que seja suficientemente polissémica e vamos lá, aberta, que consiga falar a todos, ainda por cima cavalgando sobre uma poderosa máquina de guerra de marketing, isto é, uma editora com meios — resolve tudo. Sabes bem que o João Rico, que é o novo Júlio Dantas, foi a salvação da sua editora, que estava, ao que parece, em dificuldades económicas. Olha, numa outra situação, completamente diferente, o êxito do Código Da Vinci. É impressionante como fala quer ao mais intelectual, quer ao leitor normal de romances de acção, mistério, e algum misticismo ou esoterismo. Mas, por outro lado...

— Por outro lado, essa editora foi a salvação, melhor, a glória, do Rico, que não sairia da obscuridade, se não foram as cintas de venda de milhares e milhares de exemplares, os outdoors provocatórios, nessa editora que apostou. Acho que até faziam happenings pelas ruas com cenas do livro... Hoje há clubes de fanáticos que se vestem como ele, com aqueles casacos amarelos e cartola. Um clown.

— Lembro-me muito bem. Contudo, o que me faz impressão é que a mesma editora tinha o Jorge Agudo, um tipo muito fixe, falido como o Rico mas até com melhor pinta, e que escreveu aquele romance inteligentíssimo e tão bonito, como se chama?

— Limbos Quotidianos? Ou seria Limbos Diuturnos?

— Não não, o outro... A propósito: já não há limbo...

O outro sorriu. Não era dado a teologias...

E, súbito, iluminou-se-lhe o sorriso:

— Ah, já sei. Tenho o nome debaixo da língua...

— Pois... eu também. Deixa lá... Acabaremos por nos lembrar. Esse mesmo, estás a ver? Isso. Mas vamos, se me permites, recapitular. O livro do Eco, O Nome da Rosa, é realmente muito bom. Tenho um colega na Universidade que diz que é totalmente inverosímil, que tem anacronismos.

— Ai sim?

— É. Ouvi o Arquitecto Rocha dissertar sobre a improbabilidade da abadia tal como ele a delineia, ou qualquer coisa do género. Sabes, não prestei atenção: o próprio Eco refere naquele livro Porquê o Nome da Rosa que os anacronismos que lá meteu foram saudados como do mais autêntico. Mas, em geral, não me choca. Tem sumo, tem acção. Coisa muito diferente é o que sucede com O Pêndulo de Foucault, que parece um típico livro escrito por colagem. Muito erudito, mas chato, mecânico, computadorizado..., aproveitando páginas que se têm no computador... Mas talvez esteja a ser injusto. Na época...

— Computador a que tu — nem eu sei como — te converteste.

— É verdade. Mas às vezes ainda escrevo currente calamo. De pena em riste. É preciso não perder o contacto directo com essa segunda espada. Numa mão sempre a espada e noutra a pena. Mas são duas espadas, claro... Mas dizia eu?

— Comparavas O Nome da Rosa...

— Ah, já me lembro. Em suma. O que eu queria dizer, rapidamente, é que... Bem. Vamos pôr a questão ao contrário. Sem a máquina editorial, de nada adiantaria o valor da obra de Eco. Mas com a máquina editorial (e, depois, o nome já feito) pouco importa a má qualidade do que se atire à cara do público. Repara que não digo que o Eco não tenha qualidade...

— É como a arte moderna. Pelo menos alguma. Faço essa justiça à contemporaneidade. Leste o livrinho da Anne Cauquelin, L’Art contemporain?

— Emprestaste-mo. Um “que-sais-je” portentoso. E já te contei do Cartheer’s bluff?

— Não. Piedade! Outra vez não! Aquela escultura em Londres que tu julgavas serem campainhas de oiro vindas... da Índia, da Mongólia, ou não sei quê.

— É isso. No meio de uma exposição absurda (deveria dizer “concreta”, ou “concretista”? sei lá...), com garrafas pelo chão, toros em desalinho, diviso campainhas que me soam a mágico. Precipito-me para o pátio... e eram apenas pneus e latas empilhadas.

— Mas faziam parte da exposição!

— Não acredito que fizessem. Era num pátio, devia ser o lixo... Felizmente, fiquei vingado quando um jornal do dia seguinte qualificava a exposição de bluff. E é. Toda a arte desse género é bluff. No máximo, pode ter um pouco de piada, dar-nos um ângulo insuspeitado. Mas é pouco, muito pouco, para ser arte.

— Concluo, portanto, que o teu pessimismo, em matéria estética, é total. Mozart e tudo o que é clássico, nas orelhas do povo, é “piroso”. Os textos bons, só se salvam (ou safam) porque fazem concessões ao vulgo, que só por isso os consome. As artes plásticas... caídas na pura mistificação... Saíste-me cá um reaccionário! – e quase sorriu a pedir desculpa do apodo.

— E as galerias e os editores, os empresários e outros intermediários das indústrias da cultura é que determinam a fama e a qualidade: esqueceste-te de acrescentar. Ao criticar estes, já sou anti-capitalista?

— De todo o modo, a qualidade não é impossível. Não a negas, em absoluto, nem a Mozart, nem ao Clube dos Poetas Mortos, nem a Eco... Não entendi sobre o Código Da Vinci, mas nem pergunto....

— Não. Dir-se-á que a colaboração do público na obra é que está a estragar tudo. O público não merece (por ignorância e barbarismo) as boas obras que tem — caso de Mozart — as quais profana, conspurca. E, em contrapartida, sem qualquer respeito pelo público, pseudoartistas atiram-lhe troncos disjectos como se fossem esculturas... E o público rejubila.

— Isso quer dizer que é preciso reencontrar — ou se calhar apenas encontrar — um público ideal. Só que isso pressupõe uma educação, uma ilustração, uma sensibilidade, que provavelmente nem todos têm sequer possibilidade de atingir. Será que o homem é um animal para a arte?

— A grande arte deveria ser detectada por todos. Mas quiçá isso é uma ilusão das teorias estéticas da arte absoluta, que o mimetismo actual dos pseudo-apreciadores parece insinuar. Então a arte só pode ser reconhecida pelos artistas, e por um círculo de pessoas com sentido estético...

— Que aliás se educa.

— Que aliás se educa, como quase tudo. Di-lo o Alain, que refere até um operário que ia todos os dias ao Louvre. Quase tudo se educa.

— Quase tudo? Sim. Porque a educação é uma força enorme, mas não vence a natureza. Quod natura non dat… diz-se em Salamanca.

— Salmantica non prestat, bem sei. Bem. Tudo isto porque o Mozart incomodava a formulação de um teorema — suspira, olhando muito discretamente para o relógio, Lúcio.

O outro notou.

— Pois cá me vou indo, e para a próxima, além dos nossos teoremas, sempre temos que falar de educação. Que está pelas ruas da amargura... e a culpa, essa, vem de muitos já mortos! A palavra “mortos” evocou a ambos a sinistra notícia na rádio.

Cumprimentaram-se afectuosamente. Tinham ganho o dia com uma bela conversa, mas essa sombra ainda pairava. Lá fora, via-se da ampla janela da biblioteca um mar tranquilo espelhando o sol poente.

Tranquilo?... O bule sorriu. Ele sabe mais que nós: é narrador omnisciente.

1 As opiniões expressas pelos narradores e personagens deste e dos seguintes capítulos expressam ideias de tipos ideais ficcionais, e não correspondem necessariamente (muitas vezes sendo até contrárias, outras aproximando-se parcialmente, etc., etc., em imensas variantes possíveis) às do autor da obra ficcional. Em tempos, esta nota seria absurda, por supérflua. Hoje, pensamos ser prudente sublinhá-la, assim como que “qualquer semelhança com factos ou personagens da vida real é mera coincidência”.

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