1989/2009 - 20 anos de SNESup

Adaptado a partir de vários posts publicados por Nuno Ivo Gonçalves no fórum SNESup
http://forumsnesup.wordpress.com/

 

O primeiro ciclo de acção do SNESup, que nasceu do movimento inter-escolas de 1989 e das grandes greves às provas específicas desse ano contra a perda da indexação remuneratória à magistratura, e praticamente apenas com expressão no Ensino Superior universitário público e em algumas escolas politécnicas e particulares, desenrola-se de 1989 a 1996 e centra-se na reivindicação de abertura de negociações sobre as remunerações. "EXISTIMOS PORQUE SOMOS NECESSÁRIOS" é uma das palavras de ordem desse período que, após novas greves em 1995 contra Manuela Ferreira Leite, alcança do Governo António Guterres / Marçal Grilo em conjunto com a FENPROF e o SINDEP (um dos "Sindicatos Zero") um aumento salarial de 20 % a concretizar em 4 anos (1996-1999), igualmente subscrito pela FNE (outro dos "Sindicatos Zero").

1997 e 1998, após este assinalável sucesso, são anos de marasmo, baixissima sindicalização, esboroar da equipa. Tomem nota para futura referência.

O segundo ciclo de acção do SNESup começa a esboçar-se em 1999 - realização regular de Conselhos Nacionais, realização de Encontros , criação da mailing list Infodebate - e passa pela assunção de novos conteúdos : a luta contra os chamados "bloqueios administrativos da progressão na carreira" (milhares de doutorados parqueados em professores auxiliares) , a percepção de que a expansão do sistema promovida por Marçal Grilo levou à contratação para o Politécnico de milhares de docentes sem as mínimas condições de estabilidade contratual, o levantar da bandeira da luta pelo subsídio de desemprego apesar de, à data em que ela foi levantada, o desemprego ser mínimo.

Sobretudo, o SNESup apercebe-se de que o problema não está tanto na lei mas sim na forma como (não é ) aplicada, não tanto na tutela mas no modo como os órgãos de gestão, atraídos pelo "managerialismo" uns, sob pressão de restrições financeiras , a maioria, tratam os seus docentes. Ou seja, não está tanto na precariedade, mas na precarização deliberada dos vínculos. Reforça a rede de comissões sindicais, interliga apoio jurídico, intervenção nas escolas, formulação de propostas de alteração das leis. É a época do INFORMAR-DEBATER-INTERVIR, é a época do "SNESup, Sindicato de Causas", tão caros ambos a Paulo Peixoto, sem esquecer os contributos de Luís Belchior e de Luís Moutinho. É a época em que se não hesita em tomar o partido do "Underdog" , como diz o nosso amigo André Freire.

Este ciclo, depois dos sucessos de 2008 (subsídio de desemprego) e de um ano e meio de tensão de forças, de comunicação permanente em matéria de vínculos e carreiras, de exercícios de imaginação e firmeza, como a apresentação de contra-propostas articuladas de Estatutos de Carreira e a convocação de concentrações, termina em Junho de 2009, com o encerramento do processo negocial dos estatutos.

O terceiro ciclo está ainda em esboço e talvez não venha a ser um ciclo de acção mas antes um ciclo de inacção: o SNESup apoia causas sem as assumir tão claramente quanto possível (por exemplo, a afirmação de que o SNESup emitia pré-avisos de greve não como forma de acção sua mais para permitir aos docentes interessados fazerem greve, que conduziu o Sindicato a abster-se de dinamizar a sua realização onde os movimentos independentes não estavam organizados), não realiza desde logo um balanço crítico dos Estatutos, a proposta de lhes introduzir alterações é aprovada tardiamente e também tardia e intencionalmente mal divulgada, e, sobretudo, hesita em virar-se para as escolas.

Se a definição de condições de trabalho vai depender essencialmente de Reitorias e Presidências, para maior alívio de Gago na sua torre de marfim das Laranjeiras, é preciso reivindicar o direito à negociação colectiva que Gago quer subtrair, assumir a reivindicação de participação / negociação, utilizar a conquistada resolução alternativa de litígios.

No entanto o establishment está hoje alerta, e condiciona fortemente o processo de decisão do SNESup, como se tem visto nos últimos meses. Nada garante que este não venha na sua terceira década de existência a ser mais uma peça do "sindicalismo responsável", isto é do sindicalismo aparentemente interveniente, mas de facto inócuo, asséptico, e ineficaz.

Muito gostaria eu que o SNESup ao "EXISTIMOS PORQUE SOMOS NECESSÁRIOS", pudesse acrescentar "E SOMOS NECESSÁRIOS PORQUE SOMOS DIFERENTES" .

O SNESup dotou-se, aquando da sua fundação, em 1989, de uma organização estatutária, revista em 1993, que visou  garantir o carácter federativo do Sindicato, evitando o predomínio de sectores e regiões determinados, e o controlo por uma força política, criando ao mesmo tempo um sistema de "checks and balances" que não fica longe da Constituição americana. O sistema é híbrido, coexistindo uma Assembleia Geral e uma Direcção eleita por esta em sistema maioritário de duas voltas e um Conselho Nacional e uma Comissão de Fiscalização e Disciplina eleita proporcionalmente.

Não se tendo nunca manifestado correntes de opinião de base política, parte  destas precauções revelou-se até agora inútil.  E o problema do Sindicato tem sido sobretudo encontrar dirigentes que garantam a sua continuidade.

Entre 1989 e 2001  as Direcções foram constituídas predominantemente por colegas que emergiram  do movimento inter-escolas de 1989, os quais continuavam a ser vistos como "representantes" das suas escolas de origem e retiravam deste passado  ou desta "representação" a sua legitimidade. Em cada eleição, tentava-se, nem sempre com sucesso, cooptar novos elementos para a equipa dirigente.

A organização interna reflectia estas diferenças de legitimidade, estruturando-se em ciclos concêntricos - uma Comissão Permanente formada por Presidente, Vice-Presidentes e Tesoureiro, todos de Lisboa, uma reunião de efectivos, um Plenário de efectivos e suplentes, um Conselho Nacional que incorporava a maioria dos membros da Direcção e mais alguns "outsiders". O Politécnico esteve muito tempo pouco representado.

Este elite dirigente foi-se desagregando, entrou em ruptura interna, foi incapaz de se reproduzir e desapareceu praticamente de cena em 2001.

Em seu lugar ganharam protagonismo,  entre 2001 e 2009,  os odiados "outsiders" surgidos dos Conselhos Nacionais, dos Encontros e do Infodebate a partir de 1999, ou seja, a partir de  espaços que permitiram que se conhecessem e aceitassem trabalhar em conjunto colegas do universitário e do politécnico, do público e do privado, de Lisboa, Porto,  Coimbra e outros centros urbanos. Quase pela primeira vez os membros das Direcções sairam de Lisboa (Bragança só conheceu os dirigentes em 2001) , abriram-se sedes no Porto e Coimbra, a maioria dos Presidentes de Direcção não foram  de Lisboa. As Comissões Permanentes eleitas pela Direcção passaram a reunir os efectivos e suplentes em cada momento mais disponíveis.  A "antiguidade" no Sindicato pouco significa, os dirigentes são muitas vezes recrutados de entre adesões recentes. 

O site, as newsletters, a Revista, as mailing lists ajudaram a ligar o país e a projectar a imagem do SNESup, que foi durante este período, recordo,  assumindo novos conteúdos da acção reivindicativa.

Este modelo, que readquire algumas das características originais da "inter-escolas", não está isento de vulnerabilidades , sendo permeável à infiltração de  quem  prossegue sobretudo interesses próprios, ou que, simplesmente, é demasiado instável para participar de modo duradouro numa organização, situações que, por exemplo, uma FENPROF sabe evitar. E não há uma política de quadros que favoreça a integração nas equipas. Quando estas enfrentam períodos de turbulência interna, muitos se retraem ou se afastam.

E, sobretudo, a rede de comissões sindicais no terreno reduz-se ciclicamente, designadamente no universitário (por desgaste dos delegados que acabam por concluir que são sempre os mesmos a oferecerem-se), e cobre predominantemente  escolas de dimensão média, vindo em consequência o Conselho Nacional , que  perde peso,  representatividade e "vida", a deixar de constituir uma reserva para captação de novos dirigentes.

A partir de 2009 vimos a registar a tentativa de imposição de um controlo pelo "establishment", através de dirigentes que tiveram , têm, ou projectam ter um papel activo  no governo das suas instituições, e que  neste momento já não disfarçam a sua agenda, e um culto do presidencialismo. Os Estatutos são mandados às urtigas, vai-se assistindo ao estilhaçar de todas as estruturas sindicais, sendo a  quase paralisia da acção sindical evidente.

Haja ou não eleições antecipadas, suspeito  que as próximas eleições gerais do Sindicato consagrarão candidaturas de base partidária  mais ou menos disfarçada.  Até por ser a única forma de uma lista do "establishment" conseguir preencher lugares e assegurar o   controlo de uma  organização, que ainda tem muitas raizes nas escolas e que, afinal de contas, é a maior associação sindical do ensino superior, e talvez não se renda sem luta.

Tem-me ocorrido de vez em quando que deveríamos ter inscrito nos Estatutos do SNESup, em lugar de que este se constituía "por tempo indeterminado" (à semelhança do que sucede com a generalidade das associações congéneres) a previsão de que este se constituía por um período digamos, de dez anos, carecendo periodicamente de ser refundado ou reinventado.

Não tendo sido suficientemente lúcidos, ou suficientemente loucos para o fazer, temos sido sujeitos a desafios que nos obrigam a reposicionamentos estratégicos em termos de representação da "classe" e - se sobrevivermos ao actual momento - continuaremos a sê-lo no futuro:

- passar  de uma acção inicialmente centrada no universitário público para uma intervenção que cobre (no mesmo plano ?) o politécnico público e deveria cobrir, em teoria, também os investigadores e o particular e cooperativo;

- abrir o Sindicato aos precários, como os necessários reflexos nos nossos conteúdos de acção e nas nossas prioridades;

- ultrapassar as limitações geracionais, tornando-nos também os representantes dos que chegaram mais recentemente à profissão e actuando até no interesse dos que só hão-de chegar a ela no futuro;

- traduzir estes reposicionamentos em termos de sindicalização, e em termos de constituição de equipas dirigentes, pondo necessariamente em causa equilíbrios historicamente construídos.

De outra forma o SNESup pode converter-se numa massa inerte que terá mais de associação de socorros mútuos jurídicos do que de movimento social, e, no limite, poderá até constituir um perigo para os seus representados.

Conforme já tive ocasião de referir, o SNESup nasceu do movimento interescolas de 1989, com escassa abrangência do Politécnico, contudo é de  salientar que desde a primeira hora o ISEL e a Escola Superior de Dança nele estiveram representados.  Na ESA de Coimbra mãos simpáticas montaram, à margem dos organizadores da Assembleia Constituinte, uma mesa de voto onde votaram 6 docentes.

Anos depois, a entrada das Escolas Superiores de Enfermagem, para cujos corpos docentes a adesão ao SNESup representou uma forma de reforço da sua identidade docente (sem prejuízo de muitos colegas, admiravelmente e à margem da lei, manterem  uma dupla filiação e um duplo pagamento de quotas), valeu como uma lufada de ar fresco.

No entanto, só a partir de 1999, e sobretudo a partir de 2001, com a mudança de Direcção, um novo estilo de acção sindical permitiu que o Sindicato se virasse para o debate dos destinos do Politécnico (Encontro  sobre novos conteúdos da acção reivindicativa em 1999 e sobretudo Encontro sobre o Politécnico de  2001 no ISEP) e para a sindicalização e eleição de  representantes sindicais. Tipicamente em muitas escolas politécnicas, ou há uma sindicalização nas origens, uma interrupção , e uma retomada neste segundo decénio do SNESup, ou só há sindicalização recente . Exemplo do primeiro  caso foi o da  ESA de Coimbra  onde aos iniciais se vem juntar nesta altura uma nova geração de colegas, como vimos em  reunião realizada numa noite de 2002 na própria Escola, sendo justo recordar que o Rui Costa foi já neste período um dos seus primeiros delegados sindicais.

Até há pouco tempo foi  frequente surgirem  críticas - e dessindicalizações - por o SNESup se preocupar muito com o Politécnico. Criticava-se por exemplo a circunstância de no Politécnico se atingirem  remunerações próximas das da Universidade e se ter acesso a um vínculo mais estável  com  menores habilitações. Mas as Direcções que se sucederam desde 2001 sempre alertaram para que muitos colegas do Politécnico prosseguiam um esforço de obtenção do doutoramento sem serem obrigados, sem garantia de progressão na carreira, e sem apoios. Criticou-se ao SNESup preocupar-se muito com a precariedade do Politécnico sem atender à Universidade . Respondemos que a precariedade da Universidade - contratos administrativos de provimento integrados em carreira com passagem automática de quem cumprisse os objectivos - não era uma verdadeira precariedade, que no Politécnico havia quem cumprisse e perdesse o posto de trabalho.

Estas críticas tinham por vezes uma base social conjuntural: quando em 2005 António Pedro Dores rompeu com a Direcção de então e formou uma "tendência" com os restantes três delegados sindicais do ISCTE jogando demagogicamente o argumento "politécnico", pensou ter algum eco por existir muita tensão a nível da captação de candidatos ao ensino superior, sendo o Politécnico visto na sua Escola como concorrente em algumas formações. Hoje em dia quase ninguém fala nisso.

No entanto há outro tipo de tensões que se foram gerando, com origem entre docentes do próprio Politécnico. A nossa defesa de que os mestres e doutores precários integrassem os conselhos  científicos não agradou a alguns, a integração nas equipas dirigentes do SNESup de assistentes e equiparados começou a ser criticada em surdina.  Daí que gente ligada ao establishment tenha começado a ver com interesse  a possibilidade de controlar os órgãos sindicais.

"...através de concursos onde, além de serem obrigados a competir com os seus pares na mesma situação, irão estar em pé de igualdade com quem nunca deu uma única aula, ou trabalhou em algum projecto, numa escola do Politécnico."

Esta parte  da Resolução aprovada no Encontro de 11 de Novembro, pode ser muito reconfortante para um certo "nacionalismo politécnico" contra a  "ameaça de invasão universitária" que já vi ser invocada em textos subscritos pelos meus colegas José Rodrigues e Rui Costa  e criaria alguns amargos de boca a João Cunha Serra se fosse difundida nas Universidades. Prudentemente, o comunicado conjunto que a divulgou foi apenas distribuído no Politécnico...

Todavia, é em parte errónea quanto à formulação  e quanto à ameaça identificada.  Mais específicamente: o "vírgula numa escola do politécnico" está a mais.  Seria sim exacto dizer que tanto os postos  de trabalho do politécnico como os postos de trabalho do universitário  podem ser ocupados por quem apenas tenha curriculum científico e nunca tenha dado uma aula, ou por quem apenas tenha dado aulas em situações profissionalmente degradantes, ex:  a leccionação a título gratuito, como forma de arranjar currículum. De facto, os preâmbulos dos diplomas de revisão dos Estatutos apontam no sentido de favorecer o ingresso na carreira docente de quem tenha um curriculum puramente científico e os Estatutos de Carreira revistos  vedam às instituições a possibilidade de condicionarem a admissão à detenção de uma experiência docente mínima.

Nas universidades há uma maior pluralidade de opiniões quanto a este ponto, mas em certas áreas professores auxiliares ainda em período experimental e assistentes sabem que os seus lugares estão em risco. A exigência de 2/3 para a aprovação em período experimental está no ECDU revisto para alguma coisa. 

Pode o SNESup nestas circunstâncias - que vão estar presentes nos próximos anos - representar igualmente bem docentes e investigadores, ou terá de adoptar um discurso duplo tipo FENPROF, que diz a cada sector dos seus representados o que eles gostam de ouvir? 

Sei que deste o início do movimento inter-escolas de 1989 falamos de "docentes e investigadores" , mesmo que os investigadores que participaram e que participam nos corpos gerentes do SNESup sejam apenas um punhado de colegas e que o Sindicato tenha tido a partir de 2001  o cuidado de acentuar que representa quer  investigadores propriamente ditos, quer docentes que fazem investigação.

Sei que nos abrimos à inscrição directa de bolseiros, na sequência de apelo do saudoso  Joaquim Saínhas (FMH, já falecido) e que estamos a abrir agora o Sindicato à discussão do futuro dos investigadores contratados e, bem assim, que aprovámos medidas organizativas quanto à autonomia da representação interna dos investigadores que, significativamente,  não estão ainda  a ser implementadas

Mas sei também que o SNESup enfrenta aqui um dos seus desafios mais difíceis:

- por um lado, os investigadores parecem avessos à sindicalização e poderão não se sentir muito confortados com a sua representação por um sindicato basicamente docente, sendo certo que há noutros países experiências  de cisão de sindicatos que representavam inicialmente docentes e investigadores;

- por outro lado, os investigadores que entraram para a profissão como bolseiros e vêm agora passando a investigadores contratados são uma parte da geração que, em tempos de expansão do ensino superior e de adequado financiamento das instituições, teria começado a sua carreira na posição de assistente, isto é,  no exercício de uma  docência articulada inicialmente com uma  investigação tutelada.

O mesmo é dizer que se o SNESup renunciar à sua representação estará a renunciar à sua renovação geracional.

É justificado dizer que o ensino superior  privado é como que uma face invisível  ( ou face oculta, se quisermos) do ensino superior, pelo menos em termos laborais, uma vez que a lei não entra em muitos dos estabelecimentos existentes,  cujos proprietários se refugiam na alegada  falta de legislação específica para o ensino superior e na certeza de impunidade para fazerem reinar a lei da selva.

 O SNESup tem investido pouco no ensino superior privado, por três grandes razões: atomização do subsistema, extrema heterogeneidade dos corpos docentes, falta de quadros.

Atomização do subsistema:

Contam-se larguíssimas dezenas de instituições, com estabelecimentos de muito diferente dimensão.

Heterogeneidade dos corpos docentes: 

Os  próprios proprietários e seus familiares (e não estou a falar das cooperativas),  um número ainda importante de  docentes do ensino superior público a tempo integral que acumulam com o privado, um conjunto de profissionais de diversos sectores que acumulam com a docência a tempo parcial em várias instituições públicas ou privadas ou numa única instiuição privada.

Em  vias de desaparecimento estão docentes que haviam saído do sistema público por não se doutorarem dentro dos prazos, e  a emergir encontramos núcleos de recém doutorados em Portugal, ou doutorados no estrangeiro, que chegaram demasiado tarde para conseguirem entrar nos subsistemas públicos.

É entre estes, e talvez entre os doutorados cuja formação foi apoiada pelas próprias instituições  (casos ainda raros) que se poderia encontrar a base de uma plataforma que reivindicasse condições paralelas às do ensino público, separando gestão empresarial e gestão académica, e pudesse eventualmente suportar uma acção sindical. O RJIES de Mariano Gago veio contudo matar as bases jurídicas desta reivindicação.

Falta de quadros.

É curioso ver que os poucos quadros do SNESup no privado, desenvolvendo embora alguma acção sindical nas próprias instituições, não se disponibilizam para coordenar a intervenção no conjunto do subsistema, preferindo interessar-se pelo Sindicato como um todo. Aí por 2002 eram docentes do ensino superior privado os Presidentes do Conselho Nacional, da Direcção e da Comissão de Fiscalização e Disciplina do SNESup e o coordenador da Comissão Permanente da Direcção.

Na base desta atitude pode estar a convicção  de que um sindicato forte no Público terá boas condições para influenciar a situação laboral do Privado. Ou a percepção de que o seu distanciamento em relação a particularismos e rivalidades dos subsistemas públicos lhes garante uma boa  aceitação do seu papel na coordenação sindical.

Mas não deixa de ser uma limitação para a implantação do SNESup na face invisivel do sistema.  

O facto é  que o Sindcato se tem no essencial resignado  a lançar as bases para intervir numa eventual produção de legislação para o subsistema e a conceder apoio jurídico, muitas vezes a colegas cujo posto de trabalho está em vias de extinção. O número de Secções Sindicais com delegados eleitos tem até diminuído.

O Sindicato enquanto tal está mais virado, em termos de política educativa, para promover o  debate do que para patrocinar modelos.  Entre os seus associados existe quem defenda o sistema binário, quem seja partidário do seu fim, e até quem vá evoluindo na sua posição...

Como associação profissional temos  no entanto contrariado os pressupostos do sistema binário. Recusámos a ideia de que o pessoal altamente qualificado de que o Politécnico já dispõe fique, para prevenir o "academic  drift" que anda sempre na boca dos "corporativistas universitários", cortado do sistema científico e da possibilidade de desenvolver investigação. Opusemo-nos com êxito à "investigação orientada"  que constava da proposta de ECPDESP e conseguimos consagrar o direito de cada docente propor o quadro institucional mais adequado à investigação ( o que permitirá a parte dos colegas manter a ligação com grupos de investigação de outras escola). Temos defendido que todas as instituições devem poder dar doutoramentos se reunirem requisitos para o efeito, independentemente de serem universitárias ou politécnicas. Apoiámos no RJIES o reforço do peso dos centros de investigação nos órgãos das instituições de ensino. Enfim, como  diz o colega Joaquim Sande Silva , a questão do financiamento da investigação no Politécnico é essencial e colocámo-la tão cedo como 2001, quando Mariano Gago era apenas Ministro  da Ciência.

O SNESup foi fundado em Assembleia Constituinte de 13 e 14 de Novembro de 1989. De 15 de Novembro em diante deixei de participar, ou participei esporadicamente, com pouca convicção e alguma irritação, o que escrevi sobre o primeiro decénio  está afectado por essa limitação. A partir de 23 de Outubro de 1999 mudei a minha atitude, e tenho participado com convicção e determinação, o que escrevi sobre o segundo decénio está marcado por essa nova atitude, que também pode limitar a reflexividade. Mas achei que devia ao SNESup um contributo para a comemoração dos seus 20 anos, que ele  próprio deixou passar sem assinalar.

O trabalho sindical, e em particular o trabalho do SNESup, é um trabalho de Sísifo: raramente se alcançam os objectivos, quando se alcançam nunca se conseguem consolidar, e não raro temos de reiniciar tudo.

O primeiro decénio foi o da luta pela recuperação de um lugar cimeiro, em termos remuneratórios, no conjunto das carreiras tuteladas pelo Estado. Os 20 % de aumento conseguidos  de 1996 a 1999 estão já  muito erodidos  em termos absolutos, e em termos relativos outras carreiras foram valorizadas desde aí, sem que conseguíssemos um reposicionamento.

O segundo decénio foi o da luta pela estabilidade contratual e pelo subsídio de desemprego, este último um direito elementar que tenazmente nos recusaram e um dos poucos resultados palpáveis, em termos legislativos, da nossa acção. Na falta de disponibilidade do poder polítitico para negociar vínculos , travámos, escola a escola, lutas muito duras pela manutenção dos postos de trabalho. Que têm de ser reeditadas periodicamente: quantas vezes ouvimos falar do IP Beja e do IP Guarda (e o pior sucede onde nem sequer chegamos a saber)?

Agora que, aparentemente, vai ser possível reduzir a precariedade dos actuais equiparados, vemos abrirem-se nos Estatutos as  portas para a criação de outras situações de "falsos equiparados" e de "falsos tempos parciais". Com a agravante de que a infelicidade (precariedade ) destes será uma válvula de segurança para a felicidade (estabilidade) de outros. A velha "democracia ateniense"... 

Investimos milhares de horas em estabelecer ligações com muitas escolas, em promover a eleição de delegados sindicais. Pois bem: muitas destas deixaram de comunicar, muitos delegados estão fatigados ou indisponíveis para reeleição. Bolonha, os estatutos das instituições, nos últimos anos, a avaliação de desempenho , o esforço de auto-formação , no futuro, absorverão todas as energias disponíveis.

No plano da formação das direcções sindicais parece ser fatal que, sempre que pensamos ter constituído um "dream team", ambições pessoais  e desejos  de protagonismo acabem por destruir as equipas.  Com grande espanto, ouvi defender num plenário de direcção que ocorreu em 14 de Novembro (sim, no dia de anos) o modelo que quase levou ao  esvaziamento da organização ao fim do primeiro decénio: os efectivos devem ter o poder , os suplentes devem resignar-se ao seu papel decorativo, a comissão permanente ( quem de facto manda) deve ser toda de Lisboa.

E, como no final do primeiro decénio, tivemos novamente episódios de censura, mas desta vez com menos protestos. Há quem acredite que tudo está bem desde que não se fale...

Dir-se-á que o SNESup tem crescido em termos de associados. Pois tem, apesar de o desemprego e as aposentações (as dessindicalizações formais são raras) levarem muitos. Mas uma massa amorfa não será mais, como tenho dito, do que uma associação de socorros mútuos jurídicos e não um movimento social.

E há fenómenos que contrariam o crescimento :  os inevitáveis "free riders" , que sabem que beneficiarão da acção do Sindicato mesmo que para ele não contribuam, e os colegas que, confrontados com a existência de duas organizações sindicais com presença no terreno, se acham confortavelmente namorados por ambas e acabam por não escolher. Para uma organização  que vive apenas do contributo dos docentes do ensino superior e que, para além da acção sindical, tem de assegurar a sua própria logística e a sua propria gestão, esta abstenção é limitativa e poderá acabar por ser fatal.

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