Crítica da Razão Curricular: a inconsistência da alma acadêmica

Rogerio Proença Leite

 

Originalmente publicado no Blog "Diário à Margem"
http://rproleite.blogspot.com/

 

Prefiro pensar que os equívocos que hoje assolam a orientação de uma carreira acadêmica e a montagem de um currículo derivam mais de certa ingenuidade mal informada do que de uma descarada má fé.

Mas a coisa está feia: estamos numa corrida armamentista para ver quem ter o maior (não necessariamente o melhor) currículo.

Até pouco tempo no Brasil, ter um título de Doutor era o auge do reconhecimento acadêmico. Quem o detinha, andava pela academia com aquele ar de superioridade beatificada, como se não precisasse fazer mais nada. A proliferação em massa da pós-graduação brasileira, somada a diminuição das exigências temporais e intelectuais para titulação de Mestre, fez com que o doutorado fosse algo corriqueiro.

O elemento de distinção desapareceu: como todos somos doutores, ninguém mais é Doutor. Poder-se-ia ainda argumentar que há diferenças nos títulos, de acordo com a Universidade. Mas há tantas teses sofríveis sendo defendidas em renomadas Universidades, que esse argumento já não se sustenta. É claro que ainda existe a diferença entre uma tese de doutorado em uma tese doutoral. A primeira cumpre as exigências de um trabalho normativamente correto, mas é apenas uma tese burocrática; a segunda traz uma contribuição qualitativa à sua área de conhecimento e, somente essa, em geral quando publicada, transforma-se em referência em um campo do conhecimento.

Ainda assim, ter o título de Doutor e uma tese doutoral nunca foi suficiente. Um bom Doutor publica porque produz conhecimento. É natural. Mas é aí que muitos equívocos começam a surgir. Alguns interpretaram isso como o equivalente a colecionar papers em congressos e artigos indexados nos periódicos qualificados.

Nas Ciências Inexatas, a prática ganhou uma dimensão assustadora; nas Ciências Desumanas, uma grandeza inconcebível. Nas primeiras, sob o argumento que as pesquisas experimentais envolvem muitos pesquisadores (em Rede), os papers e artigos são, grosso modo, co-autorais. Até aí, tudo bem, se não fossem as incríveis listas de autores que costumam aparecer em um único artigo.

Nas Ciências Inexatas, exceto honrosas exceções, todo paper de um mestrando ou doutorando, se transmuda em trabalho do orientador e de toda a equipe que supostamente participou da pesquisa. Não há mais trabalho autoral. O resultado é óbvio, porém discutível: o pesquisador-orientador figura uma produção quantitativamente invejável em seu Currículo Lattes. È o milagre da multiplicação dos pares: eu te incluo, tu me incluis, nós nos damos bem! Atinge-se, assim, todas as metas de produtividade sem muito esforço.

Nas Ciências Desumanas, quase sempre à reboque dos peritos das Ciências Inexatas que sobram nos assentos dos conselhos acadêmicos das Agências de Fomento, a coisa ganha uma proporção hilária. Contaminados pela Síndrome do Grande Currículo, começam os pesquisadores a encher seus currículos de coisas absolutamente irrelevantes: Apostila como se fosse livro publicado; Curso de Caridade como se valesse Formação Complementar; Apresentação de Trabalho em Seminário Interno do próprio grupo de Pesquisa no mesmo campo do currículo destinado a participação a Eventos Científicos.

É preciso ainda falar da prática "sofisticada" de requentar papers e artigos. Presentes nas Inexatas e Desumanas, essa prática tem se tornado um grande trunfo para os colecionadores: um mesmo trabalho ligeiramente modificado é apresentado em vários congressos e publicado em versões suavemente alteradas em diferentes veículos. Não dá outra: o cara vira "produtivo" de qualquer jeito.

Para os acomodados de plantão, que depois que receberam seus valiosos títulos de doutores nada mais fizeram, esse panorama é uma bênção: com um sorrisinho irônico, se regozijam por não fazerem parte dessa corrida desenfreada pela produtividade a qualquer custo. Mas seus currículos continuam sendo um vergonhoso atestado do marasmo em que estão mergulhados. É um equivocado falando de outro.

Entre os que reúnem itens curriculares e os colecionadores de campo branco em seus currículos, há de emergir um novo perfil de Acadêmico. Que nem coleciona papers, nem se satisfaz com o que nada faz.

Um bom currículo deve expressar a maturidade intelectual de uma carreira acadêmica. E maturação intelectual demanda tempo, sobretudo nas Ciências Humanas, cuja reflexão é, como bem destacou Frédérique Barnier no Le Monde de 23.11.2009, "lenta, laboriosa, difícil, cheia de acidentes de percurso". Acrescentaria: profunda, auto-reflexiva, desconstrutivista.

A produção intelectual de alto nível não pode ser refém desse ativismo desenfreado de publicar qualquer coisa em qualquer lugar, muitas vezes com táticas de reprodutibilidade duvidosa de co-autoria com colegas ou orientandos. Ela deve seguir uma lógica de qualidade, mensurada não pela quantidade de produtos que é capaz de gerar, mas pela repercussão que é capaz de provocar em um determinado campo do saber. De nada adianta publicar e não ser lido. De nada adianta ser lido e não ser incorporado nas discussões atuais da área de atuação do autor. E isso não se consegue acumulando pontos nas grades de mensuração de produtividade, através de fast-papers. Isso se alcança com reflexão rigorosa, paciência, muito trabalho e honestidade intelectual.

Entre a douta ignorância (daqueles que nada produzem) e a douta astúcia (daqueles que publicam inescrupulosamente), a Academia precisa recuperar outro espírito científico: ancorado em produções maduras, criteriosas e com amplo alcance interpretativo - para além do imediatismo inconsistente de uma alma obcecada e atormentada pela pontuação curricular.

 

Rogério Proença Leite é líder do LABEURC - Grupo de Pesquisa (CNPq) do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (M/D) da Universidade Federal de Sergipe, voltado ao estudo das cidades, do patrimônio cultural e da cultura urbana contemporânea em contextos de consumos culturais. O LABEURC é integrante da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos (CPLP/CNPq)e do Convênio CAPES-FCT entre a UFS, UNICAMP e a Universidade de Coimbra. http://www.labeurc.com.br/

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