A Atividade Profissional dos Docentes dos Institutos Superiores Politécnicos Portugueses: Envolvimento em Atividades de Investigação e Transferência e Valorização Económica do Conhecimento (1)

Ana Patrícia Dias
a.patriciadias@gmail.com

Resumo:

A investigação e a transferência e valorização económica do conhecimento científico e tecnológico têm vindo a assumir-se como missões centrais das instituições de ensino superior, juntando-se, deste modo, à sua inicial e mais tradicional missão de ensino.

Esta evolução, sentida também nas instituições de cariz politécnico, acarreta modificações ao nível das práticas profissionais dos seus professores.

Neste contexto, com o presente trabalho pretendeu-se conhecer e analisar o conjunto das atividades desenvolvidas pelos docentes dos institutos superiores politécnicos portugueses no âmbito da sua prática profissional, em especial no que se refere ao seu envolvimento em atividades de investigação e de transferência e valorização económica do conhecimento.

Para o efeito, recorreu-se à aplicação de um inquérito por questionário, de administração direta, em modalidade online, aos docentes dos quinze politécnicos nacionais públicos, tendo sido obtida uma taxa de resposta de cerca de 12%. O tratamento dos dados envolveu análise estatística descritiva e inferencial.

Os resultados obtidos evidenciam um envolvimento ainda pouco expressivo dos docentes dos institutos politécnicos em atividades de investigação e de transferência e valorização económica do conhecimento, situação que não é muito diferente da dos colegas de instituições congéneres a nível europeu. Entre os resultados menos positivos surgem os relacionados com a produção científica, a participação em projetos internacionais ou financiados pela indústria, o registo de patentes ou o envolvimento em prestações de serviços de I&D. O ensino continua a constituir a atividade a que os docentes dos institutos politécnicos portugueses dedicam a maior percentagem do seu tempo.

Palavras-Chave: institutos politécnicos; docentes do ensino politécnico; investigação e desenvolvimento; transferência e valorização económica do conhecimento.

 

Nas últimas décadas, o sistema de ensino superior português tem vindo a sofrer profundas transformações. Uma das mais importantes ocorreu na década de 80, com a adoção de um modelo binário de ensino superior, que veio estabelecer um subsistema de ensino superior politécnico, para além do já existente subsistema universitário.

A criação de uma rede de instituições politécnicas foi concebida numa lógica de estreita ligação ao tecido social e económico regional. Através do ensino politécnico, foram alargadas as áreas abrangidas até então pelo ensino superior e intensificadas as relações entre o ensino superior, o mundo empresarial e as comunidades locais e regionais, pretendendo-se promover a transferência da investigação e da tecnologia e, consequentemente, a sua aplicação na esfera produtiva (Almeida, 2008). No que respeita especificamente à investigação, como refere Luciano de Almeida (2008:310), “entendeu-se que a missão das novas instituições seria melhor cumprida através da concentração dos politécnicos na investigação aplicada, mais rapidamente reprodutiva e, por isso, suscetível de ter repercussão mais imediata no desenvolvimento económico e social”, estando as universidades mais vocacionadas para o desenvolvimento de investigação fundamental.

Neste contexto, importa sublinhar que, no âmbito desta evolução do ensino superior, a investigação e a transferência e valorização económica do conhecimento científico e tecnológico se têm vindo a assumir como missões centrais das instituições deste setor, juntando-se à sua inicial e mais tradicional missão de ensino. Esta mudança, sentida primeiro nas universidades, tem-se feito notar também nas instituições politécnicas, ainda que com diferentes configurações.

A transformação na missão das instituições de ensino superior implica, consequentemente, uma reconversão profissional dos seus corpos docentes, que, tradicionalmente, não foram ‘treinados’ para estas novas atribuições (Oliveira 2000; Hazelkorn e Moynihan, 2010a).

No caso concreto do subsistema politécnico português, estas funções estão legalmente estabelecidas no Estatuto da Carreira do Pessoal Docente do Ensino Superior Politécnico (ECPDESP), onde é possível ler que, para além da prestação de serviço docente e do acompanhamento dos estudantes, constituem funções dos docentes do ensino politécnico, a realização de atividades de investigação, de criação cultural ou de desenvolvimento experimental, bem como a participação em tarefas de extensão, de divulgação científica e tecnológica e de valorização económica e social do conhecimento. Contudo, o desenvolvimento de atividades de investigação, transferência e valorização económica do conhecimento no setor politécnico europeu, de que Portugal não é exceção, tem tido uma evolução lenta, influenciada por um conjunto de fatores que vão desde a maior juventude destas instituições, ate à desigualdade de recursos humanos e financeiros existentes para o seu desenvolvimento, quando comparadas com as universidades (CCISP, 2006 e 2010; Weert e Soo, 2009; Kyvik e Lepori, 2010).

Neste contexto, o objetivo do presente trabalho foi conhecer e analisar as atividades desenvolvidas pelos docentes dos institutos superiores politécnicos portugueses no âmbito das suas práticas profissionais, com especial enfoque nas atividades de investigação e de transferência e valorização económica do conhecimento científico e tecnológico.

Considerando que, como refere Urbano (2011), o período atual se afigura como importante para a definição do que é o subsistema de ensino politécnico em Portugal, esperamos que os conteúdos apresentados se possam assumir como um contributo relevante para a definição do papel dos institutos politécnicos, e do seu corpo docente, no contexto do ensino superior português.

 

O desenvolvimento de investigação e a transferência e valorização económica do conhecimento daí resultantes constituem, cada vez mais, importantes atribuições das instituições de ensino superior.

A abordagem desta temática remete-nos, desde logo, para a origem da universidade moderna, (modelo de Humboldt), e para a forma como a investigação passou a figurar como uma das missões destas organizações. Com a abertura da universidade à produção da ciência, começaram a colocar-se questões relativamente à utilização da investigação aí desenvolvida, especialmente no que respeitava à necessidade de conciliar a ‘ciência pura’ e as necessidades da economia.

É neste contexto que, após a Grande Guerra, a indústria começou a financiar atividades de investigação nas universidades, trazendo para o campo da investigação aplicada e da inovação um novo ator social. A ciência surgiu, deste modo, como fator produtivo, e a investigação científica e a inovação tecnológica começaram a ser partilhadas entre empresas e universidades. Começou igualmente a ser percebido o valor económico da ciência e a possibilidade da sua comercialização (Oliveira, 2008).

Por este motivo emergiu uma terceira missão para as universidades, juntando-se às missões de ensino e investigação, e que passava pelo contributo destas instituições para o desenvolvimento económico dos países (Etzkowitz e Leydesdorff, 2000). Segundo Oliveira (2000), esta terceira missão terá tido consequências a vários níveis: na estrutura e organização interna das universidades, na ciência, nas formas de financiamento, na conceção do saber científico, no perfil dos investigadores e no que se ensina.

De uma forma geral, nos países onde existem politécnicos, foram formulados dois objetivos centrais para a investigação a desenvolver pelos mesmos: por um lado, ela deveria ter relevância para o desenvolvimento regional e, por outro, deveria promover a melhoria da educação e da prática profissional (Kyvik e Lepori, 2010).

No relatório Research at Universities of Applied Sciences in Europe: Conditions, Achievments and Perspectives, elaborado pelo Center for Higher Education Policy Studies, da Universidade de Twente (Weert e Soo, 2009) para a Rede Europeia de Universidades de Ciências Aplicadas (UASNET), é possível perceber o atual cenário da investigação nestas instituições, em diferentes países europeus. A função de investigação é apontada como relativamente recente e assumindo diferentes contornos, sendo fortemente apoiada em alguns países (quer legal, quer financeiramente), enquanto noutros as políticas nacionais ainda se encontram a explorar formas de definir um papel distintivo para a investigação.

No primeiro grupo destacam-se países como a Alemanha, a Suíça ou a Holanda (Weert e Soo, 2009). No caso suíço, a criação das Universities of Applied Sciences (UAS), teve logo entre os seus objetivos proporcionar apoio tecnológico às pequenas e médias empresas (PME), num contexto regional. As UAS tornaram-se, nos últimos anos, atores significativos no panorama de investigação, com a despesa em I&D a passar de 80 milhões para 194 milhões de francos suíços (em 2005), e com estas instituições a terem bastante sucesso na obtenção de fundos para o desenvolvimento de projetos em colaboração com empresas, bem como no estabelecimento de contratos diretamente com estas entidades (Lepori, 2008). A ligação ao meio envolvente, e em especial às empresas, também tem sido visível no caso holandês, onde, nos últimos dez anos, o governo reforçou o financiamento da investigação no setor politécnico, conduzindo a uma ligação destas instituições a cerca de 4500 empresas, 3000 das quais PME, com grande parte a declarar ter usado os resultados da investigação desenvolvida (Nouws, 2010). No segundo grupo (países em que as políticas nacionais de investigação estão em desenvolvimento), aparecem países como a Estónia ou Portugal, onde, em certa medida, ainda é deixado ao critério das instituições se querem ou não estar envolvidas em investigação e como a pretendem moldar, sendo que grande parte das vezes têm que competir com as universidades na obtenção de financiamento para esta atividade (Weert e Soo, 2009). Aliás, a questão do financiamento é apontada pelas instituições de cariz politécnico como um problema central no desenvolvimento de atividades de I&D, já que, ao contrário dos orçamentos transferidos para as universidades pelas entidades governamentais, não é comum nos orçamentos transferidos para estas entidades haver verbas especificamente destinadas à investigação (Weert e Soo, 2009).

No que respeita a programas de financiamento da I&D, normalmente promovidos pelas fundações/conselhos de investigação/ciência nacionais através de concursos, existem também alguns condicionalismos para as instituições de cariz politécnico. Nos casos em que podem candidatar-se, a competição com as universidades tende a ser desvantajosa para os politécnicos, já que os critérios de seleção propendem a ser mais orientados para a I&D que se faz nas universidades, e a capacidade de investigação destas últimas é tendencialmente superior.

Neste contexto, os responsáveis do setor politécnico defendem concursos mais ajustados à sua realidade, o que já tem vindo a acontecer em alguns países (por exemplo na Áustria, Alemanha, Irlanda ou Suíça), por duas grandes vias: a criação de programas de financiamento específicos para as instituições politécnicas, e/ ou a criação de programas abertos aos dois setores, mas onde os critérios de seleção sejam mais focados na investigação aplicada e orientada para o desenvolvimento regional, que é, no fundo, o tipo de investigação mais significativo nestas instituições.

No que se refere especificamente à valorização económica do conhecimento gerado no setor politécnico, o caminho também ainda é recente, mas há países, como a Alemanha, a Holanda ou a Suíça, onde o conhecimento produzido já começa a ser transferido para as empresas e aplicado nas suas atividades produtivas, especialmente no que respeita a aspetos tecnológicos.

A estratégia europeia recente, focada no objetivo de tornar a Europa a economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, com grande enfoque na I&D e no reforço da competitividade e da inovação, veio colocar os politécnicos na sua agenda política (Kyvik e Lepori, 2010). É neste âmbito que Weert e Soo (2009) apontam cinco pilares para o crescimento das atividades de investigação das instituições deste setor: i) ir ao encontro das necessidades da economia baseada no conhecimento (pela sua proximidade a indústria, as instituições politécnicas poderão assumir um papel central na valorização dos resultados de investigação, transformando o conhecimento científico produzido em novos produtos e serviços); ii) impulsionar a inovação regional (apostando no reforço da cooperação com as empresas locais); iii) colocar o foco nas PME; iv) ser relevante para a educação profissional (com a tradução dos resultados da I&D em novo conhecimento, novos conteúdos programáticos e curricula inovadores); v) ser relevante para a prática profissional (apostando na tradução do conhecimento em aplicações práticas no contexto laboral).

Conforme mencionado anteriormente, para muitas instituições de cariz politécnico, a investigação e a valorização económica do conhecimento constituem atribuições relativamente recentes, sendo que para o seu pessoal docente as competências de investigação são uma nova exigência laboral (Hazelkorn e Moynihan, 2010a). Se nas universidades há muito que é pedido aos docentes que despendam tempo com a investigação, situação que tem reflexo nas categorias profissionais e na progressão da carreira – os resultados de investigação são o primeiro indicador de status e o principal critério de progressão, nos politécnicos a influência do desenvolvimento destas atividades nas práticas profissionais dos seus docentes é ainda recente, traduzindo-se em importantes desafios.

Exceção feita à Noruega, a estrutura das carreiras universitária e não universitária é bastante diferente, refletindo a primordial orientação das instituições politécnicas para o ensino (Kyvik e Lepori, 2010). De acordo com vários autores (Hazelkorn e Moynihan, 2010a; Kyvik e Lepori, 2010; Weert e Soo, 2009), para a menor capacidade de investigação do pessoal docente dos politécnicos concorrem, desde logo, as ainda baixas habilitações académicas e a falta de estabilidade na carreira.

Segundo Hazelkorn e Moynihan (2010a), só recentemente têm vindo a ser estabelecidos requisitos para a prática docente nestas instituições, nomeadamente ao nível das habilitações, sendo que, apesar do perfil deste pessoal se ter vindo a alterar, o número de docentes com doutoramento ainda é relativamente baixo na maioria dos países (com exceção clara da Alemanha, onde o número ascende a 90%). É importante não esquecer, sublinham Hazelkorn e Moynihan (2010a), que as instituições politécnicas têm um corpo docente que está tradicionalmente associado a experiências de trabalho nas áreas em que leciona, e que apresenta algumas carências ao nível de competências de investigação, decorrentes, em grande medida, do seu percurso académico. Outros fatores apontados como obstáculos à capacidade de investigação das instituições politécnicas são a falta de recursos afetos a I&D, o elevado rácio estudantes/docentes e, talvez o mais importante, a elevada carga letiva do pessoal docente, com a consequente dificuldade de alocação de tempo à investigação.

De fato, a carga horária das atividades relacionadas com o ensino tem sido superior nos politécnicos em comparação com as universidades. Como expõem Hazelkorn e Moynihan (2010a:83), “enquanto o pessoal universitário leciona, em média, apenas 40% do tempo, o pessoal das UAS pode chegar a lecionar 90% (Bélgica, Alemanha e Irlanda)”.

Neste contexto, o desenvolvimento de atividades de I&D tem dependido um pouco das escolhas dos docentes (Hazelkorn e Moynihan, 2010a). Weert e Soo (2009) indicam que o envolvimento dos professores dos politécnicos em atividades de investigação e valorização económica do conhecimento exige que estas instituições sejam capazes de atuar ao nível dos vários pontos que acabamos de identificar: maior alocação de recursos a investigação (físicos e humanos), qualificação do corpo docente (nomeadamente através de programas de qualificação), recrutamento de pessoal especializado e estabilidade da carreira docente.

 

A escolha metodológica recaiu sobre a aplicação de um inquérito por questionário, de administração direta, em modalidade online (com recurso ao software Limesurvey), aos docentes dos quinze institutos politécnicos portugueses públicos.

O questionário reuniu vinte e oito questões, distribuídas por cinco dimensões de análise: serviço docente, participação em atividades de I&D, participação em atividades de transferência e valorização económica e social do conhecimento, participação na gestão das instituições e distribuição da atividade profissional. Foram recolhidas 1079 respostas completas, correspondendo a uma taxa de resposta de aproximadamente 12%2 . Os dados foram tratados de forma quantitativa, com recurso ao software IBM SPSS Statistics, envolvendo análise estatística e inferencial. Os resultados apresentados foram  considerados estatisticamente significativos ao nível de significância de 5%.

 

Conforme mencionado anteriormente, a amostra integrou 1079 indivíduos, dos quais 622 (57,6%) do género feminino e 457 (42,4%) do género masculino, sendo a média de idades de 42 anos.

O grau académico mais representado foi o de mestre (47%), sendo, no entanto, de sublinhar a percentagem expressiva de indivíduos com o grau de doutor (39,3%). Entre as áreas de formação/educação do grau académico mais elevado, destacou- se a área das Ciências Sociais (34,8%), seguida das áreas das Ciências da Engenharia e Tecnologias (22,2%) e das Ciências Médicas e da Saúde (14,7%).

A categoria profissional mais observada foi a de professor adjunto (51,8%).

A grande maioria dos elementos da amostra prestava serviço docente em regime de dedicação exclusiva (77,9%).

 

A análise de dados realizada evidencia que, em Portugal, a investigação é ainda uma área de baixo envolvimento dos docentes dos institutos politécnicos, nomeadamente quando comparado com o envolvimento dos colegas do setor universitário, mas que acompanha a tendência verificada em grande parte das instituições congéneres em contexto europeu.

De acordo com os dados recolhidos, os docentes dos politécnicos portugueses destinam, em média, cerca de 21% do seu tempo de trabalho ao desenvolvimento de atividades de I&D. Apesar da percentagem se afigurar como menos de metade do tempo médio que dedicam ao ensino, que é de 50%, o resultado não pode deixar de ser considerado positivo, nomeadamente quando comparado com a realidade dos docentes de outras instituições europeias de cariz politécnico, como os das University Colleges norueguesas – onde o tempo médio dedicado à investigação é de 20% (Kyvik e Larsen, 2010), ou os dos Institutes of Technology irlandeses – onde o tempo médio é substancialmente mais baixo, situando-se nos 10,6% (Hazelkorn e Moynihan, 2010b).

Os resultados alcançados revelam, aliás, valores bastante interessantes em determinados indicadores relacionados com a investigação. Disso são exemplo o envolvimento em projetos de investigação – em que cerca de 60% dos docentes afirmaram participar/ter participado, bem como a participação em unidades de investigação – indicada por cerca de 67% dos inquiridos. Neste último caso, é interessante verificar que a percentagem de docentes do ensino superior politécnico que integram unidades de I&D de universidades é superior à soma dos que integram unidades da própria instituição e de outras instituições de ensino superior politécnico, o que parece traduzir a influência dos processos individuais de qualificação dos professores do setor, que acabam por ficar ligados às universidades em que estes são desenvolvidos.

Existem, contudo, outros indicadores em que os resultados alcançados não se revelam tão animadores, como é o caso da produção científica. Considerando os últimos cinco anos, os dados demonstram que 60% dos inquiridos não tinha publicado sequer um artigo em revistas internacionais com peer review, cerca de 70% não tinha publicado qualquer artigo em revistas nacionais com peer review, e aproximadamente 73% não tinha publicado nenhum artigo de divulgação científica.

Ainda que os valores menos positivos ao nível das publicações no nosso país não sejam exclusivos dos docentes do ensino politécnico, e que os professores das instituições politécnicas europeias também não apresentem resultados particularmente positivos neste âmbito, a verdade e que os resultados obtidos neste contexto são débeis.

Os números da participação em projetos financiados por entidades internacionais, bem como a participação em redes ou equipas internacionais de investigação, também se revelam pouco expressivos.

A temática do financiamento surge, aliás, como uma questão central no que toca ao desenvolvimento de atividades de I&D, e aos resultados a elas associados. A falta de financiamento especificamente orientado para as instituições de cariz politécnico, ou adequado às características da investigação realizada nestas instituições, é identificada por vários intervenientes do setor a nível europeu como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da investigação (Weert e Soo, 2009).

A análise dos dados recolhidos revela, por um lado, a existência de uma percentagem expressiva de participação dos docentes dos politécnicos portugueses em projetos sem financiamento (17,2%) ou com financiamento da própria instituição (14,2%) e, por outro lado, percentagens reduzidas de participação em projetos financiados por programas nacionais (exceção feita à participação em projetos financiados pela FCT) e internacionais, o que parece corroborar a ideia de dificuldade de financiamento da investigação realizada nas instituições politécnicas. Ainda no âmbito desta questão do financiamento, a informação recolhida revela uma percentagem diminuta de projetos financiados diretamente pela indústria (4,3%), situação que já vai assumindo contornos mais favoráveis em instituições de cariz politécnico de outros países europeus.

Considerando a forte orientação regional dos politécnicos, e especificamente a sua expectável ligação ao mundo empresarial, estes resultados parecem justificar uma reflexão cuidada, nomeadamente no que respeita: i) à forma como os institutos politécnicos podem ser melhor sucedidos na obtenção de fundos vindos da indústria (designadamente da regional), e no desenvolvimento de projetos conjuntos de investigação com as empresas, que se traduzam na efetiva transferência do conhecimento produzido (a exemplo, aliás, do que já acontece com instituições congéneres em países como a Suíça, a Alemanha ou a Holanda); ii) a maneira como poderá ser ultrapassada a (ainda) fragilidade do tecido empresarial nacional. Direcionando a análise para o desenvolvimento de atividades de transferência e valorização económica do conhecimento, é possível constatar que os resultados obtidos revelam um quadro particularmente pouco favorável, o que aliás é coincidente com o cenário dos politécnicos a nível europeu. Em média, os docentes inquiridos afirmaram despender apenas 5% do seu tempo em atividades desta natureza, sendo que, à exceção da participação em prestações de serviços à comunidade – referida por aproximadamente 55% dos inquiridos, os valores da participação em atividades de transferência e valorização do conhecimento são muito residuais, nomeadamente no que respeita ao registo de propriedade intelectual, licenciamento de tecnologia e criação de empresas de base tecnológica.

No caso concreto das prestações de serviços à comunidade, sobressaem os serviços de formação (30,7%) e os estudos, pareceres e consultadoria (22,7%), sendo que as prestações de serviços de I&D se situam um pouco abaixo, com 18%. Neste contexto, é contudo interessante verificar que a análise da NUT II das entidades contratantes revela a influência regional das instituições politécnicas.

A exemplo do que acontece com grande parte das instituições politécnicas na Europa, o ensino é, ainda, a atividade a que os docentes dos institutos politécnicos nacionais dedicam a maior percentagem do seu tempo: em média, 50% do tempo de trabalho dos inquiridos é despendido em atividades relacionadas com o serviço docente. A média de horas letivas semanais destes professores é de 11 horas, sendo contudo de destacar que 50% dos indivíduos lecionam pelo menos 12 horas semanais, valor que é o mais observado na totalidade da amostra, e que constitui o limite máximo de horas letivas semanais estabelecido pelo ECPDESP.

Como referido anteriormente, a questão da elevada carga letiva é apontada por diversos autores (Hazelkorn e Moynihan, 2010a; Weert e Soo, 2009) como um dos fortes obstáculos ao desenvolvimento de atividades de I&D e de transferência e valorização económica do conhecimento nas instituições politécnicas a nível europeu, na medida em que dificulta a alocação de tempo a este tipo de atividades. Deste modo, também aqui parece haver similaridade entre a realidade nacional e a realidade de grande parte dos politécnicos europeus, em que a carga letiva é manifestamente superior a dos docentes do setor universitário.

O paralelismo entre as realidades europeia e nacional parece também acontecer no que respeita à baixa estabilidade na carreira, nomeadamente no que se refere a instabilidade contratual que caracteriza a classe docente das instituições politécnicas de vários países europeus, um obstáculo ao desenvolvimento de atividades de I&D e de transferência de conhecimento. Os dados obtidos neste estudo demonstram que cerca de 45% dos inquiridos se encontrava em situação de professor convidado, equiparado ou visitante, situação que reflete a falta de estabilidade contratual em relação às respetivas instituições de pertença. Considerando os resultados obtidos, julgamos que as conclusões alcançadas poderão ser um forte contributo para a reflexão sobre o papel e a posição das instituições politécnicas no atual contexto nacional e europeu.

Uma das apostas centrais no âmbito da atual estratégia europeia – Europa 2020 (Comissão Europeia, 2010), reside num crescimento inteligente, assente no reforço do conhecimento e da inovação enquanto fatores determinantes de crescimento. Neste contexto, a Comissão Europeia sublinha a necessidade de reforçar o desempenho da investigação, promover a inovação e a transferência de conhecimentos, e de assegurar a transformação de ideias inovadoras em novos produtos e serviços. Na área da inovação, é apontada ainda a necessidade de melhorar as condições de I&D no setor privado, bem como de aumentar o investimento em I&D deste setor. Neste âmbito da ‘União da Inovação’, é sublinhado ainda que, a nível nacional, os Estados Membros devem apostar na reforma dos sistemas nacionais e regionais de I&D  e inovação e, entre outros pontos, reforçar a cooperação universidade – indústria. Esta estratégia parece abrir uma janela de oportunidade para as instituições de cariz politécnico a nível europeu, nomeadamente porque, como defendem Weert e Soo (2009), pela sua tradicional proximidade à indústria, elas poderão assumir um papel central na valorização dos resultados de investigação, transformando o conhecimento científico em novos produtos e serviços.

Os resultados obtidos parecem apontar para a necessidade de discutir a forma como a articulação entre os politécnicos e as empresas ao nível da I&D e da transferência de conhecimento tem vindo a ser desenvolvida em Portugal, no sentido de desencadear esforços que permitam potenciar as oportunidades que se colocam, com resultados positivos para ambos os setores. A aposta dos politécnicos neste tipo de atividades, desenvolvidas com e para as empresas, mas também com outras entidades regionais, nacionais e mesmo internacionais, poderá constituir-se como uma importante fonte de desenvolvimento e de financiamento para estas instituições e, consequentemente, contribuir para a afirmação dos politécnicos no atual contexto nacional.

A perspetiva de aposta nas áreas da investigação e da valorização económica do conhecimento tem vindo a ser integrada na legislação e nas orientações nacionais mais recentes, como por exemplo no Contrato de Confiança assinado entre o CCISP e o governo português, em 2010. No entanto, esta intervenção não é, só por si, suficiente. Apesar do país enfrentar uma conjuntura económica adversa, a análise da atividade profissional dos docentes deste setor parece exigir a implementação de medidas estratégicas (como a criação de programas de financiamento adequados à investigação que se faz nos politécnicos, a contratação de pessoal para a investigação, a redução da carga letiva do pessoal docente - que permita uma maior alocação de tempo as atividades de I&D, o investimento em infraestruturas de investigação nos politécnicos, entre outras), que permitam potenciar as atividades de I&D e de transferência e valorização económica do conhecimento no ensino superior politécnico em Portugal, e que permitam aos seus docentes dedicar-se a estas atividades de forma mais efetiva e com melhores resultados.

 

Referências Bibliográficas

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(1) Dissertação no âmbito do Mestrado em Estudos Sociais da Ciência (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, novembro de 2012), sob a orientação da Doutora Maria Teresa de Morais Sarmento Patrício, Professora Associada do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, e coorientação da Doutora Susana Luísa da Custódia Machado Mendes, Professora Adjunta do Instituto Politécnico de Leiria (http://hdl.handle.net/10071/4943).


(2) Considerando um universo de 8906 docentes, de acordo com o REBIDES10.

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