Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

Capítulo XII
Crise da Escola, Crise da Sociedade, Crise da Política

Ao dizer o que dissera, Guilherme esquecera que Ricardo era o mais atento, solícito e delicado dos ouvintes. Obviamente que parecia assim confundir o interlocutor, o que é muito penoso para quem ouve. Mas hoje já é normal: ninguém tem cuidado com o que diz, porque, no fundo, se despreza profundamente o outro, ou se lhe é indiferente: talvez pior ainda.

Não era, contudo, o caso de Guilherme; nada disso. Apenas dissera o que dissera para obter atenção e dar um certo mistério ao discurso...

E entre amigos também não deve haver melindres.

Ricardo, imperturbável, sentou-se com uma vénia numa poltrona de orelhas, puxou de um cigarro, procurou no bolso do colete um isqueiro discreto, com monograma como já não se usa, e fitou fixamente o queixo barbado de Guilherme, que, distraidamente, trepara dois degraus da sua escada de biblioteca, apoiando os fortes braços no respetivo varão. A madeira da escada encaracolada seriamente perigava, e doloridamente rangeu, mas Ricardo manteve-se impávido. E mais ainda Guilherme, habituado aquelas queixas, que começou com fôlego:

— Vou ser muito breve, vais desculpar, porque é o género de conversa que tenho tido demasiadas vezes com gente impreparada, o que não é o teu caso.

Mas, de todo o modo, fui desperdiçando o meu Latim, e agora já só te vou dar um resumo. Ficas a ganhar, porque me ouves menos.

O outro continuou calmo e inexpressivo.

— Pois bem. Temos de fazer uma grande divisão nos nossos professores. É claro que a maioria eram (e vou falar sempre no que te direi de professores de todos os graus, ou antes, da minha imagem mítica deles)..., melhor, não eram génios.

— Nisso, de acordo.

— Pois é. E é verdade que muitos deles estavam ideologicamente empenhados, e disso havia consequências, talvez nem todas admissíveis numa escola pluralista, laica, e democrática como deve ser a de hoje. E não era a da época.

— Certo. Também o disse.

— Só que, curiosamente, o clima cultural, social, intelectual, levava a que, qualquer que fosse a ideologia dos professores, eles se integravam numa situação geral de ordem, bom senso e democracia em sentido lato. Um mínimo, de qualquer forma.

— ...?

— É. Mesmo os mais medíocres se esforçavam por ser competentes. Mesmo os mais prepotentes acabavam por, numa atmosfera geral de cordialidade, virem às boas...

— Disso não estou certo...

— Tu sempre foste o aluno do tipo Chico-esperto, e disso nenhum professor gosta. Nem eu.

— Mas prossegue.

— Vou ao assunto. Não foram esses professores, em geral, que me formaram, ou à nossa geração. Eles constituíram apenas o pano de fundo. Fomos nós que nos formámos a nós próprios, segundo os padrões sociais que, cada um à sua maneira, fomos interiorizando e fazendo nossos. De entre esses padrões, estava o da excelência do saber, do valor da cultura e da educação, um certo desprezo pelas coisas materiais, uma conceção de heroísmo, ou de santidade, enfim... valores hoje absolutamente desacreditados... ou refeitos de forma balofa, grosseira, até ofensiva. E estes Mestres que nestas paredes estão, foram, por vezes, grandes indisciplinadores, grandes subversivos; outros não. Depende. Mas todos concorreram para que eu pessoalmente me formasse. É verdade que sou um autodidata. Um autodidata que escolheu os seus mestres. Por isso, um homem livre.

— E por isso também um desterrado.

— Exatamente.

— Mas porque ‘não é este o País da verdade’, como dizia Pascal?

— Por mais que isso. É que o exílio educativo, como tu acabas de ver, é apenas uma manifestação e uma consequência (que depois se faz causa...) de um outro problema mais grave e mais geral.

— O problema político, claro.

Ricardo tinha destes momentos de certeira clarividência. Às vezes confundíveis com simples exercício de uma chave de ideias gerais.

— O problema político.

— Então se a política está mal, porque se não muda? - era apenas uma provocação, dita na facilidade do discurso.

— Não se pode, Ricardo. Isso era fácil demais!... É que a política também não é o fim de tudo.

— Pois não. Depende da educação. Mas é um círculo vicioso. Como se vai quebrar? - adiantava-se Ricardo.

— Pela política, impondo uma educação a princípio tida por brutal, porque iria contra o facilitismo instalado (e a burocracia demencial, que privilegia não quem estuda e leciona, mas quem tem poder), mas só ela redentora — mas isso é impossível, porque os votos poderiam desaparecer para quem o ousasse... E por isso é tão importante, em democracia, haver quem corra o risco de não ser popular, nem populista, durante o tempo necessário a endireitar as coisas.

— Ou então, rompe-se o círculo vicioso pela própria educação: mas tal é impossível, porque a política não deixaria, ligada como está a uma sociedade que, embora mal servida pela escola que tu consideras incompetente e geradora de incompetências, não consegue romper com o estado de coisas, o qual também serve a incompetência social geral — concluiu o outro, só para mostrar que tinha entrado na lógica do amigo.

— Sim. E não só a incompetência. O nepotismo, o favoritismo, etc.

Repara que a Escola está invadida por analfabetos a todos os níveis. Correr com as hordas de bárbaros aproveitaria a alguém?

— A todos. A ti, por exemplo.

— A todos, mas a ninguém. Porque tipos como eu não contam. Arrastam a sua amargura, mas normalmente calam-se porque têm outras compensações e outros afazeres.

— Isso é, afinal, cobardia!

— Não sei bem. Já houve tempo em que tentei mudar as coisas. Tive discussões épicas, fiz requerimentos desenvoltos, propostas de reforma, sindicalizei-me. Mas somos muito poucos, e os tempos não estão de feição. Continuo a pagar quotas para o Sindicato, de que muito espero.

— Então... Há esperança.

— Claro. Mas agora é a vez dos mais novos. Dos que não se passaram para o lado de lá, para o conformismo e para a ideologia dominante da ganância e da empresarialização universitária...

— Na verdade, já não há jovens como no nosso tempo. — confessou o outro, com o lugar-comum mais ou menos reacionário. Claro que há jovens ótimos, digo eu, Bule encartado.

— Pessoalmente limitei muito a minha intervenção.Poupo-meparao querealmente ainda dá algum resultado. Eu sei, eu sei… Podes chamar-lhe eufemisticamente prudência. Só um exemplo, e dos mais benévolos. A culpa não é essencialmente dos estudantes, como é óbvio, mas o nível baixa a olhos vistos, enquanto se cantam loas à excelência. Ora se eu reprovasse todos os meus alunos, como mereceriam objetivamente, em critérios absolutos... Bem: corrigindo: se eu reprovasse 90% dos meus alunos, como sucederia com a bitola por que eu (nós) fomos avaliados, ficava no .

— Mas isso era ter coragem. E não creio que o desemprego...

— Não. O problema é que eu seria imediatamente substituído por um menino ou menina qualquer, afilhado de um qualquer figurão, ou de sei lá quem, ou pelo amante da chefe da casa das máquinas, ou pelo arrumador de carros do parque da universidade, ou pelo último dos meus próprios alunos... Partidos, capelinhas, seitas e quiçá clubes, e naturalmente famílias, fariam os possíveis por ocupar espaço e nomear “os seus”. E a possibilidade de alguém aprender alguma coisa, em mais aquelas cadeiras, ter-se-ia perdido. E juro que não o digo com a mínima presunção, que sou o mínimo dos servidores do saber. Mas prezo-me de sê-lo.

— Compreendo. Mas, sendo assim, pareceria que se deveria começar pela política. Uma política pedagógica, quer dizer, instrutiva...

Ricardo deteve-se. Não acreditava no que dizia. Considerou-se ridículo. Foi Guilherme quem veio em seu socorro:

— Repara. Nem tudo está mal. Todos os anos, tenho meia dúzia de alunos que sabem (menos mal) ler, escrever, e vão pensando. Com muita rarefação de fontes, com escassíssimos hábitos de trabalho. Ou então, pelo contrário, com muita aplicação mas pouco brilho e pouca ordem no trabalho que fazem. Mas, tudo somado, com mais dois ou três professores medianos, lá conseguirão sair da universidade como gente.

— E os outros?

— Coitados. É um logro. Julgam que compraram a ciência, ou que têm direito à fortuna. Ou ao emprego. Em geral, são muito simpáticos. Mas ingénuos. Não veem os seus limites, nem a armadilha da educação dita para todos... Serão sempre ultrapassados pelos que tiverem melhores cunhas. Lamento-os. Mas como se combate a cunha? E hoje nem com cunha há empregos. Tem de ser uma magna cunha.

— Mas então a solução é, evidentemente, a mudança das mentalidades.

— Sem dúvida. Só que não podes fazer nada com os media, a política e a escola todos a remarem para o lado oposto.

— Resta o exílio — provocou Ricardo.

— Ostracismo. Exílio, por vezes, ainda o é num país amigo. Aqui há ostracismo no interior de um mundo todo igual e todo igualmente perdido.

— Não há, então, nenhum sinal de esperança?

— Vê a televisão. Lê os jornais. Viste já espetáculo mais deprimente? Quem se indigna já? Quem se não habituou? Quem tem alternativas a propor? As notícias são o relato das desgraças.

— Não há solução? Não creio! As crises são sempre temporárias. E, como se diz hoje, “janelas de oportunidade”...

— Infelizmente, os homens parecem aprender só violentamente e à sua custa. Cabe-nos a nós, Ricardo, cada um à sua maneira, preservar a chama do Saber, do Bem, do Belo, da Justiça, da Verdade, desses valores perenes que hoje se estilhaçam, calcam, ridicularizam, cabe-nos a nós guardá-los como o nosso humano maior tesoiro. Os Bárbaros e a Plebe (que são os bárbaros do interior) já forçam as portas dos Templos (a universidade é uma delas apenas). Quando tudo tiverem derrubado, não vão ser os génios pedagogistas (esses que, nada sabendo, ensinam a ensinar), ou os génios burocráticos (esses que detêm o poder do carimbo porque não sabem fazer mais nada) nem os políticos bajuladores das massas (e agora até nem isso...) quem reerguerá alguma coisa.

Lá fora, a tarde declinava. O sol poente convidava a reflexões sobre o ocidente, terra crepuscular.

— Mas virá a catástrofe, uma catástrofe? Afinal, sempre nos livrámos da guerra nuclear...

— Livrámos? Talvez somente da mais académica das suas versões. Mas há tantas outras... E mesmo sem guerra atómica, e até sem guerra (ideal cada dia mais distante), a invasão está aí. Insensivelmente, o nosso Mundo, o doce Mundo da nossa infância e da nossa adolescência, da nossa empolgada e generosa juventude... esse Mundo morreu. E ao longe parecem rufar tambores, nesta pobre Europa que não aprende com a História.

— Não é assim em todas as gerações?

— Não termina uma civilização em cada trinta anos!

— E que civilização tu vês surgir?

— O fim da civilização. Ou, como dizem os ingleses, as we know it.

— O caos então!?...

— Um tipo de caos. Talvez, no princípio, ainda organizado. Talvez, no início, muito burocrático e até totalitário. Mas essencialmente o fim dos grandes valores do século: liberdade, dignidade, individualidade humana, cultura, sensibilidade, arte, espiritualidade. Enfim, barbárie, plebeísmo. Nem falemos de igualdade, solidariedade, humanidade, ou fraternidade: isso está enterrado pelo egoísmo imperante.

— Como chegámos até aqui?

— Foi muito fácil: resvalámos pelas boas intenções, pela utopia, pela imprudência, pela excessiva confiança, e, confesso, por uma já ancestral demissão prática dos homens com visão. Apenas penam, como advertiu Platão, na República, porque não disputaram suficientemente o poder e o deixaram a quem o não merecia. Antes de mais, confiamos que as democracias geravam democratas. Que tolice! Hoje em França já se diz que se é ultra por isso ser très chic.

— Compreendo. As Repúblicas foram suicidas, estão a ser suicidas.

— É isso mesmo. Porque não curaram da Educação. Numa ditadura, a democracia aprende-se de maneira prática. Numa democracia, são precisos meios pedagógico-didáticos diferentes.

Acabrunhado, Ricardo olhou discretamente o relógio. Tinha um jantar de família, com alguns negócios à mistura. Ao menos isso.

Despediu-se polidamente, e mimou o amigo com duas anedotas subtis. Guilherme afundou-se numa poltrona, esperando que o gato negro o viesse confortar da sua infinita miséria. Tenho ciúmes desse ser animado. Apesar de ser muito mais inteligente que ele, recebo muito menos afagos. E um bule bojudo necessita de afagos de vez em quando...

Soaram badaladas, e ele recordou um carrilhão de infância, tão tristemente longínquo.

Fora a primeira vez que Ricardo aparecera sem lhe trazer uma frase que o consolaria por dez anos.

Viu, porém, que o amigo se esquecera de algo. Era um livro. Ainda correu à varanda. Mas Ricardo desaparecera num automóvel decerto velocíssimo que já nem vislumbrara.

Regressou à poltrona, e abriu indiscretamente o livro, rendido ao pecado e à inconveniência como só um desencantado pode estar. E leu para o gato, aconchegado e cético, no seu almofadado colo:

“Ao meu querido Guilherme, com a velha amizade de sempre, do Ricardo.”

Afinal era para si.

Encheu os pulmões de ar. Hoje não jantaria até ter percebido a mensagem. Ah, uma bela leitura de serão!

Enquanto ele vai ler, devo deixar registado, e firmado como o Bule da Casa, que estas conversas não são nada do meu agrado. E que o que lhes vale é que não saem destas quatro paredes. Porque lá fora iriam provocar sabe-se lá o quê. Espero que nunca sejam escutadas por quem não deve.

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