Tudo o que vem à rede é peixe

Paulo Peixoto
paulo.peixoto@snesup.pt

Jean Monnet, o maior estratega da unidade europeia, repetia muitas vezes que as pessoas só são capazes de ver a necessidade em tempos de crise quando nada ou pouco podem fazer. A questão da reorganização da rede do ensino superior, discutida ao longo de anos, que muito prometeu e que pouco trouxe, é um desses fenómenos que, no ensino superior português, revela o caráter confrangedor do ímpeto reformista. Desde logo porque a rede de ensino superior nunca foi uma rede. Nunca foi pensada como tal, não cresceu como tal e jamais, em momento algum, se estruturou como tal. Querer fazer, em tempos de crise, uma rede, partindo de um conjunto disforme de instituições, tem tanto de quimérico quanto de oportunismo exasperado, com desespero à mistura.

No momento atual, a reorganização da rede parece ter funcionado, no contexto do protetorado estabelecido pela troika, como condicionante ideológica e legitimadora da política de cortes e de austeridade orçamental. A lança de uma reorganização forçada e presumivelmente anacrónica obrigou a algumas iniciativas por parte das instituições e criou um clima de resignação às medidas de austeridade. Criado o alarido, “despachada” a troika, tudo continua exatamente na mesma. Este número da Ensino Superior – Revista do SNESup é dedicado à rede de ensino superior português. Conceição Rego reflete sobre a rede de ensino superior em Portugal, mostrando que ela é um fator de coesão territorial, cuja reorganização deve ser colocada muito antes da necessidade de poupanças orçamentais. Sendo que, como discute Gonçalo Leite Velho na coluna “Opinião” essa reorganização também não pode ser pautada pela ideia que temos ensino superior a mais em Portugal. Joaquim Sande Silva e Paulo Peixoto apresentam os resultados de um estudo levado a cabo pelo SNESup para auscultar a opinião dos docentes do ensino superior português em relação à reorganização da rede. Destacamos ainda, para lá do habitual folhetim “Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno”, o artigo de Ana Patrícia Dias sobre a atividade profissional dos docentes do ensino superior politécnico, onde se discute particularmente as contingências das tarefas de investigação destes docentes.

P.S. Deixo expresso neste editorial o sentido pesar pelo falecimento de Mário Leston Bandeira, que conheci nos anos 90, no contexto da Comissão Inter-escolas de docentes e investigadores, processo que levou à minha inscrição no SNESup e que me permitiu conhecer condutas sindicais e profissionais que tiveram uma influência notória na minha trajetória.

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