Reorganização superior

Gonçalo Leite Velho
Instituto Politécnico de Tomar

Num artigo recente, no The Guardian (1), uma jornalista e ativista, que trabalhou durante vários anos no programa “Aimhigher”(cujo objetivo era encorajar jovens talentosos e provenientes de meios desfavorecidos a frequentar o ensino superior) fazia o seu mea culpa, afirmando que tinha alimentado um logro. Este estranho assumir de culpa, num órgão de comunicação social de grande dimensão, assumia algo estranho, tendo em conta que questão envolvia um objetivo altruísta. Para o mais desatento, podia entrever-se no texto da ativista inglesa pontos em comum com uma crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público (2), em que o português exasperava pelo número de sociólogos existentes no país, desenvolvendo o habitual raciocínio “temos licenciados a mais, em áreas supérfluas”, etc. Esta estranha comunhão, faz pensar, se não será possível que tenhamos chegado a um ponto tal de estrangulamento, em que setores políticos diversos e gerações diferentes, tenham concluído em comum, numa posição contra o “discurso da universidade”.

Estes textos surgem a par de outros que alimentam a necessidade de “reorganizar” a rede de ensino superior, dando a impressão de um excesso. A questão está em perceber o que aconteceu à “universidade” para que se tenha chegado até aqui, ou seja, de resgatadora, promotora de mobilidade social e de matéria de crescimento, a vilã, fonte de sonhos vãos, que destrói vidas e talentos.

Numa obra recente (3), o filósofo esloveno Slavoj Zizek chamava a atenção para três questões, ligadas ao capitalismo contemporâneo: a mudança, no longo- prazo, do lucro para a renda (rendas provenientes da privatização do “conhecimento comum” e dos recursos naturais); o papel estruturalmente mais forte do desemprego (e a consequente transformação da visão de “exploração” de longo-prazo, para outra, em que o emprego estável é o último reduto de um “privilégio”, que agora se perde); e a ascensão de uma nova classe, a que Jean-Claude Milner designa como “burguesia assalariada”. Estes três eixos encontram-se ligados, dado que o aumento da produtividade através do crescimento exponencial do conhecimento comum (com efeito multiplicador a custos cada vez mais reduzidos) tem vindo a mudar o papel do desemprego, sendo que, nele ingressa a dita “burguesia assalariada”, que passa, cada vez mais, a excesso.

Os efeitos deste quadro foram particularmente visíveis nas manifestações em massa que eclodiram durante os anos de 2011 e 2012, formadas não apenas pelo tradicional proletariado, mas cada vez mais preenchida pelos jovens afetados por altos níveis de desemprego, a quem foi negada a possibilidade de fazer parte do sonho do “capitalismo criativo”, bem como os demais elementos da referida “burguesia assalariada”, muitos dos quais (em particular os ligados ao Estado) entretanto apresentados como os novos judeus (os que gozam os privilégios retirando assim os recursos do Outro).

A crescente desigualdade, que caracteriza o contemporâneo, polariza entre extremos (super-assalariados de topo vs crescente proletarização dos demais) (4). Há medida que a economia virtual ganha espaço e se passa do material para o simbólico, podemos observar as falhas na esperança emancipatória que Hardt e Negri (5) colocavam no “trabalho imaterial” (6). Este “trabalho imaterial” alimenta hoje um sistema que vai conseguindo privatizar o “conhecimento comum”, através de fórmulas sofisticas e envolventes (das quais as redes sociais são um exemplo (7)), ao mesmo tempo que os demais se vão tornando supérfluos e são integrados com remunerações cada vez mais baixas, dada a desvalorização da “mais-valia salarial”. Surgem assim múltiplos focos de descontentamento, em que a única vazão é a possibilidade de integração nos amplos fluxos migratórios de escala global. Daí o conselho comum aos jovens desempregados da maior parte dos países europeus em crise (da Letónia a Portugal) para que emigrem. Pelo meio, resistem algumas bolsas de captação destes elementos, em particular em dois pólos do contemporâneo: o domínio do conhecimento comum e o domínio das matérias-primas.

Ora, é fundamental compreender estas matérias de nível global, para desenvolver qualquer ideia de reorganização do ensino superior a nível nacional. Elas são também fundamentais para compreender o que está a acontecer com os nossos licenciados, mestres e doutores. Contudo, a tentação de fazer depender o ensino superior da fluidez destas trocas, e dos seus “mercados”, pode conduzir a mais problemas, sobretudo, tendo em conta, não só os próprios desequilíbrios do sistema económico (basta atentar ao progressivo estrangulamento da referida “burguesia assalariada”), como aos próprios desequilíbrios académicos de uma almejada “super-liga-Ivy” global.

Pelo meio, podemos vir a perder os benefícios de 40 anos de investimento na democratização da educação em Portugal, isto porque, uma população mais educada é, obviamente, mais benéfica para o país, sendo que o conceito de educação é mais abrangente do que a etiqueta, ou a educação direta para o exercício de uma profissão. Num tempo caracterizado pela fluidez da evolução do percurso profissional (de que muitos fazem a apologia), é aliás estranho que se preconizem e se avancem com ofertas, que estariam mais de acordo com largos processos de industrialização (como foram os do pós-guerra). Perante sociedades pós-industriais, era fundamental que reorganizássemos a rede de ensino superior com uma estratégia do que é hoje o saber, e do que pode vir a ser a nossa economia, e não apenas pela ambição globalizante de uma, duas, ou três instituições, e em que, como moeda de troca, tenta-se reorientar os politécnicos para uma sociedade de há 40 anos atrás. Tratar-se-ia de uma estratégia de educação como pilar do conhecimento no século XXI. Aí poderíamos, por exemplo, levar mais longe as possibilidades das universidades de contexto (8). Esta sim poderia ser a direção de uma população, verdadeiramente mais qualificada (e não apenas para efeitos estatísticos, ou para sua inclusão num processo de proletarização em curso). Tal implica uma estratégia. A falta desta é sintoma claro do problema presente.

(1) Laurie Penny, “Sorry students, I lied to you. University is about desperation, not aspiration” The Guardian 21/4/2014


(2) Vasco Pulido Valente, “Um erro e uma vergonha” Público 19/4/2014


(3) Zizek, S. (2012) The Year of Dreaming Dangerously. London: Verso


(4) Em relação a esta desigualdade crescente, é importante cotejar com a obra de Piketty, Thomas em particular (2013) Le capital au XXIe siècle. Paris: Seuil.


(5) Hardt, Michael e Negri, Antonio (2004) Império. Lisboa: Livros do Brasil; idem (2005) Multidão. Lisboa: Campo das Letras


(6) Para uma melhor compreensão do conceito de “trabalho imaterial”, recomenda-se a consulta dos textos publicados na coletânea: Lazzarato, M., e Negri, A. (2001). Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. DP&A.


(7) Sobre o modo como as redes sociais demonstram o problema contemporâneo da relação entre trabalho e remuneração, convém referir o trabalho de Tiziana Terranova (2000). “Free labor: Producing culture for the digital economy”. Social text, 18(2), 33-58.


(8) A esse propósito merece uma leitura a publicação da OCDE (que tem vindo a ser actualizada com mais estudos todos os anos): Organisation for Economic Cooperation and Development. (2007). Higher education and regions: Globally competitive, locally engaged. Organisation for Economic Co-operation and Development.

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