Combater a doce barbárie e o modernismo implica manter as exigências de qualificação profissional face aos que se entretêm a enumerar competências com vista à empregabilidade (1)

Maria do Carmo Vieira

 

Jean-Pierre Le Goff, A doce barbárie – A modernização cega das empresas e da escola.

 

Celebrar os 25 anos de atividade do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) é assumir de forma enérgica e frontal a continuidade de um trabalho que ousa contrariar a «doce barbárie» reinante, nos tempos difíceis que vivemos, e que tentacularmente alastra sobre todos os domínios, incluindo, naturalmente, e sendo um fator-chave, a Escola, seja no ensino regular, profissional ou universitário. Significa também que a independência de um sindicato deve ser característica imperiosa na sua atuação, em nome do respeito que os seus associados lhe merecem e da liberdade crítica que forçosamente deve nortear o seu comportamento.

Não nos é estranha a panóplia discursiva que apregoa de forma conscientemente confusa, e até à saturação, o «empreendorismo», a competitividade» a «empregabilidade», a «flexibilidade», a «sociedade cognitiva», a «autonomia», o «convite à participação», a «cidadania», a «mais-valia», os «contratos de objetivos», a «avaliação de competências», numa devastadora mascarada de palavras que atordoa e cuja desmontagem revela o seu intuito manipulador, arrasando a falsa ideia de que tudo é feito em nome da emancipação dos cidadãos. No fundo, o que se procura é, pelo contrário, vergá-los à dependência dos novos valores, profundamente controladores e apresentados como incontornáveis, e levá-los a interiorizar que a instabilidade decorrente da aplicação da mudança não tem fim à vista, numa manifesta desumanização da vida e do trabalho. Tragicamente o que se desenha neste esquema infernal de «modernização», em que a fadiga se torna lema, é a imagem de uma servidão consentida por aqueles que seguem ou se veem forçados a seguir as orientações institucionais dominantes.

Tal como acontece numa empresa, na «nova conceção da escola», e desde a mais tenra idade, a avaliação de competências («autonomia», «responsabilidade», «motivação», «espírito empreendedor», «procura de informação», entre muitas outras) na sua avalancha de «descritores de desempenho», e repare-se na designação empresarial, é função prioritária do «professor novo», que já não se define pela sua autoridade, no sentido da sua competência profissional, afinal aquilo que o distingue de um aluno, nem tão pouco pelo seu papel de transmissor de saber. Espécie de animador, o «professor-novo» limita-se a cumprir ordens, concorde ou não com elas, e a ter em conta as exigências dos empregadores, logo, as necessidades do mercado de trabalho que se caracteriza essencialmente pela flexibilidade, o que implica que quem trabalha deve estar apto a mudar de posto de trabalho sempre que necessário. É a euforia do utilitário e o consequente flagelo da angústia diária perante a selvajaria de regras laborais que não têm em conta direitos. O ensino profissional é disso o exemplo mais flagrante, chegando as empresas a intervir mesmo na delineação dos programas escolares, bem como na duração dos cursos (normalmente rápidos, na sua duração) e dos respetivos estágios. A este propósito será oportuno citar Einstein: «[…] oponho-me à ideia de que a escola deve ensinar diretamente aqueles conhecimentos específicos que viremos a empregar mais tarde na nossa vida ativa. As exigências da vida são demasiadamente variadas para que seja viável esse ensino específico e direto. Parece-me, à parte isso, condenável tratar o indivíduo como ferramenta morta. A escola deve ter como objetivo que os seus alunos saiam dela com uma personalidade harmoniosamente formada, e não como meros especialistas. Isto […] é verdade até para as escolas técnicas, que formam alunos para profissões claramente definidas.» (2)

A relação da universidade com o mercado de trabalho, formando mão-de-obra especializada, em que dominam igualmente as competências, numa diversidade de disciplinas, raramente anuais, é hoje uma realidade. Esta situação tem vindo gradualmente a anular a universidade como espaço de formação e de reflexão cultural, fomentando ainda uma desenfreada concorrência na resposta às solicitações do mercado de trabalho. Por alguma razão, os Ministros da Educação, sob influência de economistas, liberais e neoliberais, e tecnocratas, têm avaliado os cursos de Humanidades como uma não mais-valia e daí a consequente recusa na atribuição de bolsas a projetos relativos a essas áreas, como aconteceu muito recentemente.

Não foi em vão que a reforma implementada em 2003, no Ensino Secundário e depois no Básico, tentou retirar a Literatura e, sobretudo, os autores clássicos, da disciplina de Português, tendo desprezado também as disciplinas de História, de Filosofia e de Geografia, matérias consideradas desnecessárias e pouco válidas face aos desafios do mercado de trabalho. Eles não sabem, por falta de convivência com as referidas matérias, que é através delas que o ser humano é levado a meditar sobre o passado, próximo e longínquo, para uma melhor compreensão do presente, bem como a refletir sobre a sua própria condição humana, implicando a ética na política e no desenvolvimento da ciência e da técnica , aspetos que, na verdade, colidem com os seus objetivos pois desejam trabalhadores passivos e submissos, fechados para tudo o que não seja a responsabilidade do trabalho. «Ferramentas mortas», como lhe chamou Einstein. A desumanização é de tal forma que num mestrado de Economia da Universidade Católica, os candidatos tinham de aceitar interiormente, porque assim se explicitava, que a partir do momento em que iniciavam os seus estudos a família deixaria de existir. Resistir criticamente e privilegiar uma reflexão conjunta sobre este status quo, que força de uma mudança, desenfreada e destruidora, invadiu a nossa vida pessoal e profissional, é função imprescindível de um Sindicato, e, neste caso, do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup). Um propósito que só poderá fortalecê-lo.

Lisboa, 22 de Outubro de 2014

(1) Tradução da autora.


Jean-Pierre Le Goff, La barbárie douce – La modernization aveugle des entreprises et de l’école. Paris, La Découverte, 1999.


(2) Alberto, Einstein, Como vejo a ciência, a religião e o mundo. Lisboa, Relógio d’Água, 2005

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