SNESup – 1989

Pedro Lourtie
Coordenador da Comissão Instaladora
e primeiro Presidente da Direção

 

Maria Luís Rocha Pinto
Membro da Comissão Instaladora
e primeira Vice-Presidente da Direção

 

É-nos pedido um testemunho do início do SNESup. Passaram 25 anos e a memória pode pregar-nos alguma partida. Foi, no entanto, um período intenso que deixou fortes impressões e muitas memórias permanecem vivas.

Corria o ano de 1989. A carreira docente universitária estava então equiparada, de um ponto de vista salarial, à da magistratura. O Governo propunha-se desequipará-la. Os protestos foram surgindo, sem que, da parte do Governo, houvesse sinais de pretender responder às reivindicações. Para além das carreiras do ensino superior, o Governo tinha posto em cima da mesa de negociação com os sindicatos a carreira do ensino não superior. E os sindicatos existentes, abarcando todos os níveis de ensino, davam prioridade a esta última. Era o peso do número de associados.

O movimento de protesto foi-se organizando. Em Lisboa formaram-se comissões em faculdades e escolas do politécnico. Os contactos foram-se multiplicando e o número de “comissões de escola” foi aumentando, dando origem ao movimento que ficou conhecido por “inter-escolas”.

Fizeram-se reuniões de coordenação, fizeram-se plenários, e o movimento foi-se alargando a escolas fora de Lisboa. As questões que eram objeto de reivindicação, rapidamente ultrapassaram a mera questão salarial que fizera despoletar o movimento.

Chamava-se a atenção dos media. A coordenação do movimento esforçava-se para explicar os objetivos do movimento e veicular uma mensagem que traduzisse a justeza das reivindicações.

Perante a intransigência do Governo, foi ponderado avançar para a greve. De um lado, o argumento de que, sem uma ação de força, o Governo não ouviria. Do outro, o argumento de que uma greve que tivesse impacto poria a opinião pública contra o movimento e torná-la-ia menos sensível às reivindicações, designadamente a de equiparação à magistratura.

Uma greve com impacto, dado se estar no final do ano letivo, teria de afetar a realização dos exames. Decidiu-se avançar, sabendo que se corria o risco de alienar a opinião pública. A greve foi realizada, com um pré-aviso de greve sindical, necessário para que quem a fizesse estivesse legalmente coberto.

A greve foi um sucesso de mobilização e levou ainda mais escolas a aderir ao movimento. Os sindicatos existentes continuavam mais preocupados com a negociação da carreira dos docentes do não superior e a ideia de criar um sindicato que representasse exclusivamente os docentes do superior foi tomando forma. Foi decidido avançar para a criação de um sindicato autónomo, sem filiação em qualquer das centrais sindicais. Começou então uma campanha para a sua criação, com deslocação de muitos de nós a escolas em todo o país, aproveitando os contactos que tinham sido estabelecidos no movimento inter-escolas e na greve. Estes contactos foram dando frutos, com a adesão de muitos dos colegas à ideia e as assinaturas, mais do que necessárias para a criação do sindicato, foram conseguidas com facilidade.

Em novembro é feito o registo do SNESup e é constituída uma Comissão Instaladora de 25 membros, com uma mistura de sensibilidades, incluindo docentes dos dois subsistemas, universitário e politécnico, e que se pretendeu abarcar todo o espetro político. Nem sempre foi fácil de gerir estas sensibilidades quando se tratava de tomar decisões quanto às formas de agir. Eleita uma Assembleia Constituinte, com mesas de voto num número muito expressivo de escolas, e aprovados os Estatutos, foram constituídos os primeiros órgãos estatutários, democraticamente eleitos. E a primeira direção veio a iniciar funções seis meses após o registo.

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