A Sagrada Aliança. Campo religioso e campo político nos Açores, 1974-1984

 

Autores: Álvaro Borralho

Editora: Mundos Sociais, 2013

 

 

A questão levantada pela investigação subjacente a este livro é enunciada pelo autor do seguinte modo: que relações se estabeleceram entre a religião e a política na sociedade açoriana depois da ruptura operada em Abril de 1974? Colocado assim o problema, a reflexão procura aferir o modo como se relacionaram e se estruturam um conjunto de intercâmbios entre a política e a religião e como esse relacionamento estreito permitiu continuidades e rupturas na vida política e religiosa açoriana.

O livro resume a tese de doutoramento em Sociologia do autor, defendida na Universidade dos Açores em 2010, e está dividido em 7 capítulos. Partindo das abordagens clássicas sobre a relação entre a religião e a política, o autor centra-se na reflexão e na proposta teórica de Pierre Bourdieu – teoria do campo (em torno dos conceitos de campo, habitus e capital) – e demonstra o conjunto de intercâmbios entre os dois campos – religioso e político –, identificando as principais ideias, as lutas e os conflitos e os protagonistas no processo de democratização da sociedade portuguesa e açoriana.

A abordagem segue uma “leitura interpretativa ao nível do simbólico, mas também na análise do posicionamento dos agentes políticos e religiosos na dinâmica social gerada com a rutura de abril de 1974. (…) Todo este processo é analisado à luz da questão fundamental, isto é, saber como é que, depois do 25 de Abril, o poder político e a Igreja nos Açores articulam os seus interesses específicos sem abdicarem da sua autonomia. Como é que definem os seus espaços e interesses próprios tendo em atenção o contributo que poderá ser dado pelo outro campo. Como é que o campo político poderá abdicar de alguma liderança cultural e social em favor da Igreja, nomeada- mente ao nível do simbólico, para ter contrapartidas no exercício do poder político. Em contrapartida, são apresentadas as razões e os processos que evidenciam como a Igreja Católica legitima o poder político, tendo como contrapartida a garantia do seu próprio poder social e cultural” (José Viegas, Prefácio: xv).

A dinâmica das rupturas operadas com a mudança de regime não permite esquecer o conjunto das continuidades realizadas entre os poderes sociais. Quer o campo religioso, quer o campo político, enfrentaram lutas internas e conflitos que estruturam, no fundo, o seu próprio modo de vivência colectiva, como estabeleceram laços sociais fortes que se consubstanciam numa aliança estratégica na defesa e na definição de um modelo, ou tipo, de sociedade. Quer isto dizer, uma aliança que, no dizer do autor, se afirmou do seguinte modo: “o poder simbólico é a aliança entre os campos em ordem a continuá-la; aliança que permanece e se reproduz adquirindo por isso um caráter sagrado: não só porque é estabelecida entre o sagrado do mundo religioso e o sagrado do mundo profano (poder político), como porque não se desfaz. O caráter eminentemente sagrado da aliança é essa capacidade de resistência a todas as reformas sociais, de ser capaz de sobreviver as todas as conjunturas, de se ter enraizado nas estruturas mais fundas e densas do viver social e aí resistir e continuar a estabelecer laços, apenas necessários para os que acreditam neles, mas cujo deslaçar, possível politicamente, se crê não ser efectivamente realizável. Portanto, uma sagrada aliança” (Borralho, 2013: 229).

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