Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

 

Capítulo XV
Produção e Criação Literárias 

No dia seguinte, Guilherme começou por um belo passeio à beira-mar, a tentar reunir ideias para uma carta ao seu amigo. Teve a tentação de começar pela Filosofia, e até pela Filosofia pura. Pôs até a hipótese de escrever um opúsculo. Afinal, amor com amor se paga...

Mas era essencialmente um artista, e reconhecia, no mais íntimo de si mesmo, que lhe faltava algum convívio mais profundo com os filósofos. Essa era, aliás, uma das suas mágoas secretas. Gostaria de filosofar, mas, realmente, só considerava (talvez modestamente, talvez não) ser capaz de especular... E limitadamente, mais no âmbito da sua área.

Caminhava com passo firme enquanto tentava alinhavar ideias, mas tudo lhe parecia vão, pouco profundo. Tinha ideias sobre Política, claro, mas coisas muito concretas e práticas, umas. Outras, dir-se-ia que vagamente estéticas. Estética Política era um título que o seduzia: mas talvez o mais acabado esteticismo fosse ficar-se apenas pelo título.

Regressado à concha de sua casa, ainda envolto por ideias de fugacidade, olhou o lar e as cinzas que sempre continha. Não pôde evitar de pensar nos seus papéis, tantas vezes combustível naquela lareira grande. Sim. A Filosofia era fogo, mas era também fumo. Fumo que nebulosamente desenha os recortes da Verdade e do Ser. Fumo que, quantas vezes também, adensa o mistério e impede, como véu, que contemplemos o real, ou o transcendente. Fogo e Fumo. Outro belo título. Artista, já se via a desenhar a capa.

Sentiu-se enfadado com as teorias filosóficas. Tantos subjetivismos! Tantas visões do mundo pelas lunetas de S. Ex.as, com ares de grão senhor (como diria Kant)... E não somente outrora. Bem mais simpáticos lhe pareceram então os escritores, os literatos. Afinal, contam histórias. Estórias, como agora se diz outra vez. Estava, sem o saber, a refazer o percurso de Rorty.

  1. Teoria Geral de Ricardo.

Começou por teorizar, a tentar ganhar fôlego como quem, batendo fortemente as asas, quer ganhar altura, partindo de generalidades:

“No nosso tempo muito se escreve (como, aliás, filma, pinta, musica...)” — deteve-se, para não se alongar em enumerações vãs — E prosseguiu,  resoluto: “Mas muito pouco disso tudo realmente importa”. — Era a afirmação de que precisava. Tinha encontrado o argumento. Confessaria, intimamente, que apenas começara agora a escrever para se desforrar do seu fracasso como filósofo. Lá está ele, rasgando o papel com letra cerrada, escrevendo como quem solta relâmpagos num terçar de ferros: “Grande parte da produção nada tem a ver com a criação — assinala-se com alguma frequência faltar-lhe a chispa. Muito do novo pretende de caso pensado o efeito de admiração da novidade (Verfremdungseffekt - tinha aprendido a palavra, tão impressionante, num Curso Livre de Teatro), e com isso perde-o e perde-se, em fumo aparatoso que já mal recorda o fogo” — atentemos nas imagens de sempre. Galopa agora nas suas metáforas:

“Muito do pretensamente estudado não é amadurecido, ou, pior ainda, não passa de condensação, respigo, adaptação, ou até cópia do sabido, em primeira ou enésima mão, qual fogo apagado, reflexo pálido de foco longínquo, mera luz sem calor, tição sem chama.

Assim, os autores dividem-se, em demasiada quantidade, entre os que afetam pouco siso, para serem de vanguarda, e os que ostentam muita velharia e maçada, para poderem ser levados a sério. Fogo-fátuo, pirotecnia de feira, no primeiro caso; triste fogo de estéreis vestais, chama murcha, no segundo.

É difícil dizer alguma coisa ainda por entre as densas cortinas de fumo. A sensação do observador é não poder mais observar. Poluição, mal ubíquo.” Cansado, impõe-se subir ao Olimpo da imparcialidade crítica:

“Mas importa escolher, perscrutar o horizonte, esperar que no fundo do túnel (ou atrás da bruma) brilhe algum luzeiro. E o crítico ou o juiz que, segundo Alexandre Kojève, sempre espreita em nós oportunidade normativo-judicadora para se manifestar (todos seríamos potenciais julgadores por natureza), agiganta-se e finalmente diz, ou seja, declara como quem declama verdades que queimam:

Há grandes obras singulares pela mensagem e o estilo, que são dignas de louvor e admiração. O nosso tempo parece quase não as possuir, pois no-las não permite divisar, perdidas na floresta da exuberante mediocridade. Acreditamos, porém, que existem, e que farão as delícias já de meados do séc. XXI.

Há pequenos trabalhos de muito valor, que precisavam de amparo e incentivo para fecundarem nos seus autores aquelas grandes obras que valeriam a pena, mas frequentemente estiolam à míngua de interlocutores, crítica e público, que as saibam apreciar e criticar bem: isto é, de frente, com lealdade e sem fatuidade. E com bom gosto.”

Cofiou a barba, parou, e introduziu a sua máquina de cortar salame ou cominhos (como diria o Bacon dos Ensaios), distinguindo:

“Nestas pequenas obras, devemos apartar sobretudo dois tipos: as que revelam um talento ou até um génio escondido ou em promessa, embora por si contenham erros, imperfeições, barbarismos, falta de técnica não suprida ainda pela arte, etc.; e as que resultam apenas de honesto estudo e diligente e lhana inteligência, e disso se dão conta, sem quererem apresentar-se como o último grito do intelecto ou da sensibilidade.

Umas e outras, grandes e exíguas, são a pequena lamparina acesa na casa sombria do nosso deserto.

O resto, que é multidão, não importa. Frequentemente, tal apagamento decorre de um erro de tiro na escolha do tom, do objeto, ou da adequação deste àquele.

Depende mesmo muito, é certo, dos géneros, ou subgéneros. Depende muito sobretudo da observância da mesura e até da verosimilhança, tanto nas obras propriamente literárias, como nos trabalhos de ciência.

Uma enciclopédia em vários volumes feita em torno duma espécie extinta, ou um dicionário reconstituidor de uma língua hipotética efabulada numa alusão fugaz de um pequeno conto de autor ignoto; um tratado ou um discurso laudatório sobre uma pequena tradução banal ou até duvidosa, ou a propósito de uma recensão cinzenta de um livro perdido; uma biografia, um romance ou uma tese urdidos à volta de um caráter medíocre, em que essa mediocridade nem sequer possa servir de paradigma; um sermão sobre o rodapé de um comentador cinzento dum passo apócrifo; uma recensão encomiástica do livrinho de poemetos de pé quebrado do vizinho, ou um artigo verrinoso sobre o livro que o inimigo político ou o concorrente académico publicou; o ocupar-se alguém com figuras secundaríssimas, autores pequeníssimos, trabalhinhos de sexta apanha — tudo isso, de que hipoteticamente nos lembramos, tudo isso e muito mais do género, está deslocado, é desperdício. E como é indiciador da eterna, única, imutável pequena natureza humana! E contudo é possível, a um génio, ou a um talento muito original, fazer de muito disso algo de muito interessante. A qualidade sopra onde quer... E as regras são, para a arte, desprezíveis.

Confrange muitos o que se continua a escrever para agradar — de modo algum olvidamos os florilégios servis ou galantes dessas dedicatórias em verso ou prosa que ornaram os livros d’antanho. Apenas somos mais sóbrios (ou quiçá apenas mais prosaicos ou fingidos) na louvaminha. Embora hoje em dia comecem de novo a proliferar páginas densas e cheias de agradecimentos e elogios em teses... Alguns encómios e agradecimentos bem deslocados, de resto...

Choca alguns o que se continua a produzir para aumentar linhas em curricula. E apenas por essa obrigação feita devoção, e até fanatismo colecionista, que é Ersatz de avareza e espelho fiel de um espírito tacanho.

Agradar, ostentar, agredir, amontoar — que sei eu! — são funções literárias insofismáveis. São ainda as Listas, de Umberto Eco. Não devemos estranhá-las sob pena de ingenuidade, essa sim de lamentar. Agora, pensar que a função das obras poderia e talvez devesse ser diversa, isso parece que não é proibido.” Estirou-se na cadeira, julgamos ter mesmo assobiado — e este assobio anda associado à proibição, não sabemos porquê; talvez por isso dizem que eu, bule, assobio: mas é só pelo meu bico fino — e voltou, para rematar com uma sentença e a cura de todos os males:

“A boa medicina nestas coisas seria então uma espécie de cura termal e dieta bibliográfica. Deveríamos apartar da nossa vista e da nossa preocupação tudo o que tivesse sido criado com intenção servil ou instrumental. Apenas leríamos os trabalhos feitos por impulso generoso e gosto próprio dos seus Autores — só escritores de cabeça levantada. Que desnublados céus nos seria então dado contemplar! E em que paraíso nos não seria mesmo permitido espraiarmo-nos! Na posse desse pequeno e contido corpus, deleitar-nos-íamos certamente em belíssimas e sábias cousas até o final dos nossos dias, sem causa para aborrecimento. Porque é sempre e naturalmente vasto o número de obras puras, luminosas. Como nos confortaria o sabermo-nos sempre (e aos outros, como nós eleitos) em companhia recomendável — que livros e cousas d’arte e estudo são companheiros reais, e os seus conselhos, mesmo que mudos, dos que calam mais profundamente!” Entusiasmado, de novo ensaia um dó de peito:

“Viera vento e fogo e pereceram os monos sem vida, em pira redentora, enquanto a essa inquisição sagrada resistisse incólume e de sorriso nos lábios o catálogo ideal do que vale a pena. Lógica singular e antitética, a do destino de uma obra: se tiver chama, se brilhar, se iluminar e queimar como o fogo, caber-lhe-á a rarefação de ar das bibliotecas-museus; não possuindo tal, fica-lhe a sorte de comburente na pira dos desperdícios. Em todo o caso, o livro chama o fogo.”

De novo cai em si, mais realista:

“Mas não. Nenhum benigno Farenheit poderia deixar de ser atentado feroz e escandaloso à inteligência. Estamos condenados a ter de nos acotovelar com palha de papel. É o preço alto da liberdade, e até da qualidade, porque nunca haveria judiciosos bombeiros queimadores de livros. A pergunta é velha, e de sempre: Quis custodet custodes? Restaria a cada um a liberdade de poder fazer justiça por suas mãos, no pleno uso da plena in re potestas adquirida na compra do pretenso objeto de arte ou pensamento. Só que é uma justiça que sai cara ao justiceiro, e redunda em enriquecer o só simbolicamente justiciado. Ironizamos. Todo o livro é sagrado, mesmo o mau livro. Até o livro tido por erróneo, herético, imoral, difamatório, subversivo, etc. É curioso como hoje ainda admitimos sem remorso que alguns destes livros possam arder, enquanto nos repugna epidermicamente a todos a ideia de outros serem sequer etiquetados. Admitimos ainda mal as verdades e as razões dos outros. E subordinamos a sorte do livro aos eventuais defeitos do seu autor ou editor. O tempo dirá se nos chamarão bárbaros.” Reforça a ideia, possuído de verdadeiro sentimento religioso, envolto numa aura de veneração:

“Todo o livro deveria ser intocável. E é aliás por essa intangibilidade dessa consubstanciação do Saber ou do Belo que mesmo a mais perfeita fotocópia do pior livro é uma profanação, e uma duplicação diabólica (dia, ballein, que lança a confusão), um duplo sem alma, fantasma condenado a vaguear e por fim a perecer sem glória. Fotografar um livro é querer sugar-lhe a alma multiplicando-lhe o corpo (a própria imprensa fora já uma profanação do pessoal e religioso manuscrito — porém, felix culpa!). Queimar uma obra é desejar que essa alma pereça. Ambos são crimes, tentativas de homicídio, no mínimo. Desde sempre, os poderes das trevas quiseram queimar livros, queimar os livros — na vã tentativa de apagar o fogo sagrado”.

Só que um demónio problematizante o impele a perguntar-se:

“Mas — é objeção a não olvidar —, se o livro de si já não tem alma? Ah, se a não tem, pois deveria ser livre o seu tratamento. Puro ente inanimado, coisa jurídica e de pouca valia, ou de valia negativa, quem lhe poderá valer? E se nada nele é próprio de quem o escreveu, nem verdadeira autoria existe. Como se pode roubar o fogo a quem o não tem? Nemo dat quod non habet. E, curiosamente, de novo parece assomar a tentação piromaníaca. Raciocínio semelhante ao da pena de morte. Há aqueles que a reservariam para os monstros, para os sem alma, para os que revelaram nos seus atos desumanidade. Pois é. Mas sempre haveria forma de, por subtilezas ou não, fazer caber nessa categoria muitos inocentes. E, para além disso, alguém será realmente desumano, ainda que tenha agido com desumanidade? Sejamos magnânimos, sejamos justos. Nem pena de morte para os homens, nem fogo para os livros. Freud ironizou quando lhe queimaram a obra. Ironizou, mas fugiu a tempo de o não queimarem a ele”.

Um velho hábito autocrítico leva-o a desnudar-se, então:

“Perguntar-se-á então — não sem subtileza, mas também sem púdica manha — em que tipo de trabalhos incluímos as presentes linhas. Claramente que nas destinadas ao fogo. Poderá permitir-se tal declaração não só ao autor (mens legislatoris), como ao próprio texto (menslegis), que aqui mesmo de sua livre vontade o declara e assina.

Porém, estas laudas reservam o seu consentimento: ele tem uma condição. Queimem-nas, mas apenas depois de lidas. Elas limitam-se a tocar a rebate os sinos da consciência e do gosto, e o seu eco deve calar-se no momento do culto que importa prestar à verdadeira Arte. A sua pira será um sacrifício propiciatório”.

Tinha-se saído menos mal. A balofa falsa eloquência ocultara o ponto fraco, apesar de tudo mal disfarçado para si mesmo. Por isso se impôs um epílogo moralista. Deixou passar um espaço, respirou fundo, fez um ar sabedor e desencantado, para o caso de estar a ser filmado sem o saber, ou quiçá a posar para História, e escreveu, sem solenidade, mas com peso:

“Curiosa época esta, em que um novo metadiscurso tem de urdir-se, sem valor intrínseco, mas urgente enquanto apela para o valores e desvalores heterógenos. A menos que o metadiscurso se eleve do paratexto ancilar a foros novos de maioridade estética. Mas isso não reivindicamos aqui para nós. E por isso julgamos livre e incinerável o uso deste texto, conquanto o haja lido e entendido o venerável Leitor.

Queimar um texto, um livro, seria ao menos um ato. Porém, o que hoje mais faz arder os livros, não é sequer um Índex que escolha e aponte as vítimas: é o gelo glacial e indiscriminado da indiferença das massas e até de pretensas elites que, com a sua recusa da leitura e o seu desprezo pela edição, remetem a autoria a uma clandestinidade subtil. Mas que dói e arde, e igualmente reduz a nada a Arte e o Saber”.

Depois de escrito isto, percorreu freneticamente o seu ficheiro, e apôs no início do seu texto esta citação de Paul Valéry: Les livres ont les mêmes ennemis que l’homme: le feu, l’humide, les bêtes, le temps; et leur propre contenu.

Mas exasperou-se, porque não encontrou a fonte, e não queria perder a fama de meticuloso.

Após algumas horas de busca inglória, veio-lhe a tentação de atirar o texto à lareira.

A verdade é que nunca o publicou. Também não encontrou nada de suficientemente brilhante para responder a Ricardo. A ideia da carta, como muitas vezes ocorre, foi apenas o ponto fixo de Arquimedes que alavancou a inspiração E, verdade verdadinha, acabaria por se esquecer da Teoria Geral do amigo. Disso se deu conta, prevendo o futuro. Daqui a dez anos, quando o viesse a rever, haveria de pensar nisso. Mas desconfiava que, nessa altura, o outro já se entusiasmaria com outro valor político diferente. Por exemplo, a Igualdade. Se não lho lembrasse Ricardo, haveria Guilherme de lho apontar:

“E porque não basear a grande Teoria Geral na Igualdade, e não na Liberdade? Pela certa daria matéria pelo menos para ocupar um jantar de comemoração de curso”.

Em verdade vos digo eu, bule educadíssimo, que liberdade sem igualdade é oca, e igualdade sem liberdade é sufocante... Porque a verdadeira igualdade não é aritmética, mas geométrica e proporcional, afinal equitativa. Mas isso há muitos que ainda ignoram. O cordeiro, para sobreviver, cola à lã a pele do lobo.

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