There is a condition worse than blindness and that is seeing something that isn’t there*

Paulo Peixoto
Centro de Estudos Sociais
da Universidade de Coimbra

 

O conselho diretivo da FCT parece ter sido atingido por uma súbita cegueira asinina. A ideologia da avaliação e o receituário hegemónico que lhe está a dar forma estão na base da consolidação de uma política científica empobrecida e de vistas curtas, sem visão periférica. O fenómeno é cultural e é político, sendo transversal à atuação da FCT. Por questões de espaço, limito-me, neste texto, a opinar sobre uma dimensão em concreto dessa cegueira asinina.

A FCT fez recentemente saber que “No sentido de fomentar a internacionalização dos resultados da avaliação e de facilitar a avaliação dos resultados obtidos por peritos estrangeiros, (...) a partir de janeiro de 2015 todos os relatórios finais de execução científica dos projetos de IC&DT deverão ser elaborados em Língua Inglesa”.

A internacionalização e a avaliação são, sem dúvida, dois desideratos incontornáveis dos sistemas científicos competitivos. No ensino superior e na investigação científica, as instituições e os professores/investigadores portugueses têm dado passos firmes no sentido de estarem sujeitos a práticas de avaliação (interna e externa) e de se projetarem, a eles mesmos e aos seus trabalhos, internacionalmente. Para mim, a cultura da avaliação representa um dos maiores avanços do sistema científico e do sistema de ensino superior nacionais dos últimos anos. Reconheço igualmente a importância e a incontornabilidade de, nos dias que correm, se publicar em inglês.

Volto ao segundo parágrafo e à mensagem da FCT. A sua análise daria um vasto artigo de reflexão. Limito-me a uma opinião breve. O inglês, na leitura focalizada da FCT e, por isso, cega, parece** apresentar-se como a pedra angular da internacionalização e da avaliação. O que se me afigura errado é que a FCT imponha que os relatórios finais de execução científica dos projetos de pesquisa tenham de ser obrigatoriamente em inglês. Ainda que alguns relatórios finais já sejam em inglês, doravante, com esta decisão, presumo que os relatórios, que devem ter um caráter público, passem a ser mais curtos e simplificados, perdendo valor enquanto documentos de auxílio à pesquisa e à formação. E isso por uma razão simples. Se a língua de execução do projeto não tiver sido o inglês, a equipa do projeto terá, por regra, mais dificuldade em escrever em inglês o que pensou e executou noutra língua. Ou terá de pagar uma tradução. Em qualquer dos casos, adivinho que os relatórios venham a perder qualidade, sem que isso potencie a publicação em inglês mais do que outras alternativas o fariam***. Mas a miragem é uma das piores formas de cegueira. A FCT pode e deve ter incentivos à publicação em revistas estrangeiras. Impor o inglês faz parte da cegueira. Acresce que, a meu ver, uma agência nacional de apoio à pesquisa tem a obrigação de defender a língua nacional e de fomentar pesquisa sobre [e com relevância para] a realidade nacional. E isso não contradiz nem a possibilidade e a necessidade de publicar no [e em] estrangeiro, nem a importância de pesquisar sobre outras realidades que não a nacional. Na minha opinião, se alguma imposição se impõe é que, independentemente de todo o resto (e o resto é muito importante numa política científica atualizada), todos os relatórios de projetos financiados pela FCT deveriam estar em português e deveriam ser públicos em repositório de acesso livre. A dimensão cultural e política da cegueira asinina não permite dar conta que a ciência é também uma forma de expressão cultural e que língua é a base de uma cultura. No caso da nossa língua estamos a falar de mais de 200 milhões de pessoas e o potencial de internacionalização científica nesse universo não sai reforçado com a imposição da FCT. O que se perde com a cegueira é o espaço à nossa volta. O lugar onde estamos e onde somos. E sem o qual não existimos. E no fim, podemos não estar e não ficar em lugar nenhum.

* O título deste texto é uma reprodução fiel do pensamento de Thomas Hardy, poeta inglês do séc. XIX. Ao qual junto, nos quatro últimos períodos, o pensamento de Barbara Kingsolver, poetisa contemporânea dos Estados Unidos.


** Digo “parece” porque creio que, excetuando o que está a negrito, a mensagem da FCT quer dizer algo muito diferente daquilo que diz. Mas também creio que não são apenas gralhas. São equívocos de quem navega sob o efeito da cegueira asinina. Presumo que onde se diz “(...) fomentar a internacionalização dos resultados da avaliação”, a FCT queira dizer “fomentar a internacionalização dos resultados da investigação” (não é por acaso que a FCT vem confundindo investigação com avaliação). E que onde diz “facilitar a avaliação dos resultados obtidos por peritos estrangeiros” (algo que eu considero essencial no atual contexto; ou seja, é necessário avaliar as avaliações e os avaliadores) se queira dizer “facilitar a avaliação por peritos estrangeiros dos resultados da investigação”.


*** Dada a orientação atual da comunidade científica portuguesa para publicar em inglês, será sempre fácil argumentar, no curto prazo, que a decisão da FCT foi crucial no reforço de uma tendência incontornável e que se tem vindo a reforçar.

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