Geração Emigração?

Gonçalo Leite Velho
Instituto Politécnico de Tomar

O projeto Generation-e tenta recolher as histórias dos jovens emigrantes do sul da Europa. Através deste trabalho foi possível perceber que as estatísticas oficiais falham em detetar a total dimensão da emigração jovem. Grande parte dos que partem para outras paragens não o comunica oficialmente, tornando-se assim difícil conhecer com exatidão a dimensão deste fenómeno. Entretanto foi também notícia a emigração dos médicos, demonstrando que este é um problema com tendência a acentuar-se.

O psicanalista francês Jacques Lacan disse uma vez “Viva a Polónia, porque o que seriam os polacos sem ela”. No caso português esta identificação com o estado-nação vai perdendo sentido. De momento o país oferece algumas condições de formação avançada, que permite à população entrar no jogo da emigração global. Sabemos que isto nos vai custar caro, mas entretanto investimos a esperança no Outro (o sol e o mar) acreditando que possa atrair o talento que nos escapa entre os dedos.

Entre os problemas de emprego e de investimento, Portugal assume a sua falência enquanto país. Não é algo de novo dentro das políticas de empobrecimento. O mesmo aconteceu, por exemplo, na Letónia, com consequências geopolíticas complicadas para quem tem como vizinho a Rússia.

Sente-se a falta de estratégia numa política de resignação, que olha para os desequilíbrios globais entre a impotência e a ilusão. A ilusão de importar o modelo alemão de formação profissional esbarra na realidade da captação de investimento, ao mesmo tempo que nos vai reservando o papel secundário de mão-de-obra barata, para uma hipotética indústria que possa deslocar-se para aqui. Mais uma vez o investimento da esperança no Outro fala mais alto.

Numa recente conferência no Porto, o filósofo esloveno Slavoj Zizek afirmava que devemos olhar seriamente para os avisos de desastre futuro, para que possamos agir de todas as formas para evitá-la. É o aviso sério de quem sentiu de perto os efeitos da minimização da possibilidade de uma guerra nos Balcãs. Em 1914 também ninguém pensava que poderia ser possível, ou que pudesse ter essa dimensão. Se assim já o tivéssemos feito, poderíamos ter compreendido melhor o perigo absoluto da precarização, degradação das condições e estrangulamento de perspetivas. Teríamos entendido isto antes de que nos tivesse sido cobrado o preço pelo superego alemão. Temos mesmo de perceber que o Outro não existe, obrigar-nos à travessia da fantasia (nomeadamente, a do bom aluno, cumpridor) e conseguir inverter o sentido da culpabilização. No país ao lado isso começa a acontecer e repete-se cada vez mais em espanhol o lema do presidente Obama. É uma questão de dignidade. Convinha resgatarmos a nossa. Seremos capazes?

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